segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O que uma empresa bananeira dos anos 50 na Guatemala diz sobre as políticas de Trump para Venezuela, Groenlândia e Irã

Em 1954, a empresa United Fruit Company (UFC) convenceu o presidente americano Dwight D. Eisenhower (1890-1969) a derrubar o presidente democraticamente eleito da Guatemala, Jacobo Árbenz (1913-1971).

As ondas de choque reverberaram pela América Latina por décadas. Agora, especialistas buscam naquele golpe de Estado as raízes da "Doutrina Donroe", invocada pelo presidente americano Donald Trump para justificar a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

O golpe na Guatemala contou com o apoio da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, na sigla em inglês) e foi precipitado por uma poderosa multinacional americana, que ganhou a maior parte do seu dinheiro vendendo bananas.

"A companhia era tão poderosa na Guatemala e nos países vizinhos que recebeu o apelido de 'polvo', pois seus tentáculos estavam por toda parte", conta Grace Livingstone, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Com sede em Boston, no Estado americano de Massachusetts, a UFC não tinha laços oficiais com o governo Eisenhower.

Mas, quando Árbenz propôs a desapropriação e redistribuição de terras ainda não cultivadas em grandes fazendas, para combater a pobreza crônica da população, a empresa fez intenso lobby em Washington, usando os temores da Guerra Fria (1947-1991) para retratar a Guatemala como um país vulnerável à influência da União Soviética (1922-1991).

"Árbenz iria pagar uma compensação bastante generosa — o dobro do preço pago pela United Fruit", explica Livingstone. "Mas a companhia... não estava satisfeita com o valor."

Quando chegou ao poder, em 1950, Árbenz declarou que sua intenção era transformar a Guatemala, de uma sociedade feudal, para uma economia capitalista moderna. Mas, mesmo assim, Eisenhower concordou com a intervenção.

A justificativa de Eisenhower era baseada na Doutrina Monroe.

No início do século 19, o presidente americano James Monroe (1758-1831) declarou que o hemisfério ocidental deveria se libertar da influência das potências europeias.

Sua declaração foi um alerta defensivo, para que os outros países ficassem de fora do que os Estados Unidos consideravam seus assuntos regionais.

Mas, em 1904, o presidente Theodore Roosevelt (1858-1919) revisitou e atualizou aquela política, fazendo dela "uma justificativa explícita das intervenções militares dos Estados Unidos na região", segundo Livingstone.

E a Doutrina Donroe de Trump também segue explicitamente esta linha, para justificar suas ameaças à Venezuela, Groenlândia e Irã.

"Antes da captura de Maduro, ele anunciou a implementação do corolário de Trump, restabelecendo todas as justificativas doutrinárias para a intervenção americana no hemisfério que conhecíamos até então", explica Jon Lee Anderson, da revista The New Yorker.

Esta "lógica de esferas" é "o centro da visão de Trump sobre a ordem mundial... e, em parte, é uma consequência da sua aversão de longa data ao globalismo, multilateralismo, formação de alianças e guerras eternas em países distantes", segundo o pesquisador Stewart Patrick, diretor do Programa de Instituições e Ordem Global da Fundação Carnegie para a Paz Internacional.

Trump declarou no ano passado que o objetivo da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos é "proteger o comércio, o território e os recursos que são fundamentais para a nossa segurança nacional".

Desde então, ele enfatizou que a "dominância americana" é fundamental e que aplicará o máximo de pressão ideológica, psicológica e militar para proteger os interesses dos Estados Unidos.

Na Venezuela e no Irã, esses interesses giram em torno do petróleo, segundo Anderson, e a ameaça de que a China tenha acesso a ele antes dos Estados Unidos.

A Groenlândia também detém recursos preciosos. E Trump quer garantir esses recursos antes que os adversários de Washington tomem conta deles.

Na Guatemala dos anos 1950, a questão era ideológica, aliada à rivalidade com a Rússia durante a Guerra Fria e às bananas. Mas, como as justificativas, as táticas permaneceram as mesmas.

"Da mesma forma que observamos recentemente na Venezuela, houve uma concentração militar em torno da Guatemala", explica Livingstone.

"Eisenhower anunciou o envio de dois submarinos para o sul, eles enviaram aviões bombardeiros para a vizinha Nicarágua e começaram a interceptar navios guatemaltecos nos mares em torno do país. Ou seja, há muitas semelhanças com a Venezuela."

A CIA lançou folhetos sobre a Guatemala, alertando sobre uma enorme invasão. A agência usou desenhos para chegar à população, em grande parte analfabeta.

Ela montou também uma rádio clandestina, que afirmava transmitir de dentro do país. Mas especialistas afirmam que seus sinais, na maioria das vezes, vinham de fora das fronteiras guatemaltecas. A emissora transmitia em espanhol e se chamava La Voz de la Liberación.

"Na estação de rádio da CIA, eles afirmavam que milhares de pessoas estavam entrando para as forças mercenárias", segundo Livingstone. "Mas, quando eles cruzaram a fronteira, não houve levantes espontâneos."

"Em apoio a essa suposta invasão, a CIA começou a bombardear locais estratégicos em toda a Guatemala e na própria capital. A agência chegou a lançar um bombardeio massivo sobre quartéis militares e reproduzir o som das bombas na estação de rádio. A intenção era desmoralizar as pessoas e o exército."

O resultado foi que os líderes militares guatemaltecos, acreditando que não poderiam deter a invasão, pressionaram Árbenz a renunciar. E acabaram convencendo o presidente.

De volta ao século 21, a Groenlândia (e, por extensão, a Dinamarca) foi objeto de ameaças diretas de Trump nas redes sociais. As postagens incluíram seus planos de anexar o território e impor medidas econômicas punitivas para quem apresentasse resistência.

Paralelamente, no Irã, a pressão psicológica se intensificou, com ameaças de severas ações militares para forçar a obediência, instilar o medo e proteger os interesses americanos.

"Uma armada massiva está se dirigindo ao Irã", postou Trump nas redes sociais.

"Como na Venezuela, ela está pronta, disposta e capaz de cumprir rapidamente sua missão, com velocidade e violência, se for necessário."

Poucas semanas após a queda de Árbenz, ele foi forçado a se exilar do país.

"No aeroporto, o novo regime o forçou a ser revistado de cima a baixo, até as cuecas, frente ao escárnio da multidão", conta Livingstone. "Em seguida, ele foi colocado na aeronave."

Mais de 70 anos depois, Maduro foi forçado a viajar para Nova York, depois de ser capturado pelas forças americanas.

"Primeiramente, vimos as imagens do bombardeio de Caracas", relembra Anderson.

"Em seguida, vimos Maduro algemado, acompanhado por militares e humilhado. Isso faz parte do padrão."

Analistas como Mike Crawley, da TV pública canadense CBC News, destacam que a postura de Trump em relação à Groenlândia também se baseia na política visual.

Anúncios nas redes sociais, visitas de Estado canceladas e imagens provocadoras reafirmam a dominância e reprimem a capacidade de ação de Estados menores.

<><> Ameaça de longo prazo

O argumento habitual de alguns apoiadores das intervenções americanas é que apenas ditadores e governantes que demonstrem desprezo pela democracia ou pela segurança dos Estados Unidos teriam algo a temer. Mas diversos observadores discordam.

"A Guatemala mostra que os Estados Unidos estavam dispostos a derrubar um governo democraticamente eleito", segundo Livingstone. "E, desde que foi proclamada a Doutrina Monroe, os Estados Unidos intervieram na América Latina mais de 80 vezes."

"Trump está reassumindo a doutrina na sua forma mais aguda", afirma ele.

Mas os eventos que se seguiram à intervenção dos Estados Unidos na Guatemala podem ser um motivo de preocupação para o presidente americano.

Após a queda do presidente Árbenz, seguiram-se décadas de violência e instabilidade no país.

Governos autoritários (e, mais tarde, cartéis de drogas) exploraram o vazio de poder para estabelecer profunda presença e levar narcóticos e refugiados desesperados através das fronteiras dos Estados Unidos.

Observadores afirmam que este fato gerou uma ameaça de longo prazo aos interesses americanos, que foi maior que a reforma agrária ou os temores de influência comunista, utilizados para justificar a intervenção na Guatemala em 1954.

¨      Êxodo equatoriano: 2ª onda migratória bate no muro de Washington

Mais de 90 mil equatorianos deixaram o país em 2024, número que reflete um problema sistêmico, consolidando o que especialistas chamam de uma segunda onda migratória.

O endurecimento dos controles de fronteira nos Estados Unidos e a vigência de decretos restritivos não estão na agenda bilateral, enquanto o fluxo rumo ao norte se intensifica a níveis históricos.

A migração equatoriana não é um fenômeno recente, mas sua intensidade atual acendeu o alerta de analistas e organismos internacionais. O que começou como um fluxo constante no final do século XX se transformou, após a pandemia, em uma segunda onda de mobilização massiva em busca de novas oportunidades econômicas para os migrantes.

<><> Um século de ausências e uma nova onda

Para Jacques Ramírez, doutor em Antropologia Social pela Universidade Iberoamericana (IBERO) e docente-pesquisador na Universidade de Cuenca, o que o país vive não é um fenômeno isolado, mas o aprofundamento de uma tendência histórica que atinge novo pico, iniciada a partir de 2020.

Segundo Ramírez, a nova fase se caracteriza por números que superam os registros de décadas anteriores, evidenciando um esvaziamento populacional sem precedentes.

O advogado em Direito Constitucional e docente na Universidade Indoamérica, Marcos Ortiz, detalha a Sputnik a magnitude desse deslocamento em massa:

"Mais de 90 mil equatorianos apenas em 2024 deixaram o Equador, e em 2023 o número foi parecido. Sofremos uma onda migratória muito forte. A situação não é que eles se regularizam; processos ligados à condição irregular são o que, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, tem sido a dinâmica geral. Com a nova política da Casa Branca, houve um antes e um depois nas restrições", pontua Ortiz.

Durante o primeiro ano da segunda administração de Donald Trump, os EUA registraram a maior saída líquida de migrantes das últimas cinco décadas, segundo um relatório da Brookings Institution. O estudo aprofunda que a pressão demográfica para baixo decorrente da migração líquida negativa tem implicações importantes para a macroeconomia.

Em 2023, havia 47,8 milhões de imigrantes residindo nos Estados Unidos, segundo dados da mais recente Pesquisa da Comunidade Americana (ACS), do Departamento do Censo, retomados pelo Migration Policy Institute. Assim, esse setor representava 14,3% da população total.

<><> 'Caça a migrantes' como estratégia de medo

A atual política nos EUA aprofundou o enfoque "securitário", integrando a vigilância fronteiriça a uma política de controle interno mais rigorosa.

Ramírez alerta que a agressividade de agências como o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) ultrapassou o âmbito administrativo.

Segundo o especialista, o uso de operações em espaços sensíveis busca implementar uma estratégia de persuasão por dissuasão, em que o endurecimento das capturas serve como mecanismo para desincentivar novos fluxos migratórios por medo das consequências.

"Vemos como começam a aparecer agentes para fazer o que chamamos de 'caça a migrantes', com um nível de agressividade que chega a casas, igrejas e escolas, sem respeitar idade, sexo ou gênero. Essa estratégia busca que quem pensa em chegar não o faça por medo, aumentando as deportações em massa como efeito dissuasório", explica o antropólogo.

O especialista ressalta que essa retórica se materializou desde o primeiro dia com 18 medidas drásticas, incluindo o questionamento da 14ª Emenda sobre a nacionalidade por nascimento. Esse ambiente de perseguição é complementado por um fortalecimento operacional do ICE, que tornou o trânsito irregular uma aposta arriscada para o migrante.

O debate levantado pelos especialistas não questiona a soberania de Washington para aplicar suas leis migratórias, mas sim a quebra dos protocolos de devido processo e a desproporcionalidade nos métodos de captura.

<><> O vazio na agenda bilateral

Apesar da gravidade do assunto, os especialistas concordam que o fenômeno da migração irregular não ocupa um lugar central na comunicação oficial entre Quito e Washington. A administração do presidente do Equador Daniel Noboa tem concentrado sua atuação externa em temas de segurança e comércio, deixando a proteção consular em um estado de assistência residual.

Além disso, Ortiz lembra que o Estado equatoriano possui obrigações legais previstas na Lei Orgânica de Mobilidade Humana, que não está conseguindo cumprir plenamente diante da pressão da Casa Branca. A análise do especialista aponta um ponto crítico: a erosão da autoridade moral do Estado equatoriano no cenário internacional.

Ao contrastar a exigência de respeito pelas sedes diplomáticas em Minneapolis com a invasão à embaixada do México em Quito, o jurista revela uma contradição que fragiliza a defesa dos migrantes. Essa "incoerência diplomática" não é apenas um dilema ético, mas um obstáculo jurídico.

Para exigir o cumprimento da Convenção de Viena no exterior, um país precisa se apresentar como guardião dessa norma, defende:

"Equador entra na dinâmica de pedir respeito para seu consulado em Minneapolis, mas ocorreu o que aconteceu na embaixada do México há algum tempo. Todos esses elementos fazem com que os migrantes, os mais frágeis da relação, sejam os mais afetados", alerta o jurista.

Como aponta Ortiz, o migrante é o elo mais fraco: a representação legal gratuita que o país deveria garantir se torna "residual" e simbólica, deixando milhares sem defesa real em processos de expulsão. O especialista destaca que esse vazio de proteção é reflexo da priorização de recursos pelos governos.

A análise dos especialistas sugere que a ausência de proteção consular não se explica apenas por falta de vontade política, mas por uma priorização estratégica de recursos por parte do governo. Enquanto a agenda bilateral se concentra na segurança militar e no comércio, o drama humano é deslocado para a periferia das decisões estatais.

Nesse contexto, o cidadão equatoriano enfrenta uma encruzilhada complexa: migra em busca das oportunidades que seu ambiente local não oferece, assumindo um risco que se transformou ao longo do tempo.

 

Fonte: Programa "The Long Way", da BBC Rádio 4, e Jornalismo Global da BBC/Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário: