Zona
de livre comércio na África pode romper neocolonialismo europeu e elevar PIB em
quase 9 vezes
Criada
por um acordo assinado em 2018, a Zona Continental de Livre Comércio Africana
(AfCFTA, na sigla em inglês) é a maior do mundo em número de países
integrantes, com mais que o dobro dos membros da zona europeia. Em fase de
implementação, a iniciativa pode elevar o PIB do continente de US$ 3,4 trilhões
para US$ 29 trilhões até 2050.
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ZCLCA – Zona de Livre Comércio Continental Africana
A Zona
de Livre Comércio Continental Africana (ZCLCA) entrou em vigor em 30 de maio de
2019, depois que 24 países membros depositaram instrumentos de ratificação. A
Zona de Livre Comércio Continental Africana é um acordo comercial ambicioso que
visa formar a maior área de livre comércio do mundo, criando um mercado único
de bens e serviços para os 1,3 bilhões de habitantes da África, aprofundando a
integração econômica do continente. O produto interno bruto na área de comércio
pode ser de cerca de US$ 3,4 trilhões, mas a realização de todo o seu potencial
depende de grandes reformas políticas e medidas de facilitação do comércio entre
os países africanos signatários. É um acordo comercial de elevada ambição, com
um âmbito abrangente que inclui áreas críticas da economia africana, como o
comércio digital e a proteção do investimento, entre outras áreas. Ao eliminar
as barreiras ao comércio em África, o objetivo do ZCLCA é aumentar
significativamente o comércio intra-africano, particularmente o comércio de
produção de valor acrescentado e o comércio em todos os setores da economia
africana.
O acordo foi inaugurado na 12.ª Sessão Extraordinária da Assembleia de Chefes
de Estado e de Governo da União Africana em Niamey, Níger, em julho de 2019. As
negociações do ZCLCA começaram em 1.º de janeiro de 2021. Além disso, o
secretariado do Acordo está localizado em Acra, Gana. A ZCLCA é um dos projetos
emblemáticos da Agenda 2063: A África que Queremos.
A
importância do ZCLCA não pode ser subestimada. É a maior nova área de livre
comércio do mundo desde o estabelecimento da Organização Mundial do Comércio
(OMC) em 1994. Promete aumentar o comércio intra-africano por níveis mais
profundos de liberalização do comércio e maior harmonização e coordenação
regulatória. Além disso, espera-se melhorar a competitividade da indústria e
das empresas africanas através de um maior acesso ao mercado, da exploração de
economias de escala e de uma alocação de recursos mais eficaz. Também pretende
reduzir as tarifas entre os membros e abrange áreas de política como
facilitação do comércio e serviços, bem como medidas regulatórias, como padrões
sanitários e barreiras técnicas ao comércio.
Em maio
de 2022, 43 dos 54 signatários (80%) depositaram seus instrumentos de
ratificação da ZCLCA, sendo Marrocos e a República Democrática do Congo os
últimos países a depositar os seus instrumentos de ratificação. A confirmação
da aprovação do Parlamento/Gabinete para a Somália ainda está pendente.
O
Acordo cria um mercado continental único de bens (Artigo 3.º do Acordo), que
será alcançado através da eliminação progressiva de tarifas e barreiras não
tarifárias ao comércio de mercadorias (Artigo 4.º). Alguns dos princípios de
negociação previam que as negociações fossem conduzidas pelos Estados Membros
da UA; as Áreas de Livre Comércio (FTAs) das Comunidades Econômicas
Regionais (CERs) como blocos de construção da ZCLCA; geometria variável;
flexibilidade e tratamento especial e diferenciado; transparência e divulgação
de informações; e preservação do acervo. Com efeito, isso significava que as
negociações levariam a uma liberalização substancial do comércio
intra-africano, com base nas conquistas que foram feitas dentro das CERs, sem
substituí-las.
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Entrada em vigor
Era
janeiro de 2021 quando a maior zona de livre comércio do
mundo entrava em vigor com a promessa de promover um novo capítulo de
desenvolvimento no continente africano, quase três anos após a assinatura do
acordo. A AfCFTA pretende reunir os 55 países-membros da União Africana (UA),
abrangendo uma população de cerca de 1,3 bilhão de pessoas e oito
comunidades econômicas regionais. A iniciativa nasceu com metas ambiciosas:
ampliar o comércio intra-africano e a industrialização, eliminar tarifas
alfandegárias e outras barreiras, como normas e legislações locais, e
retirar mais de 30 milhões de pessoas da extrema pobreza.
Para
funcionar a todo vapor, a zona comercial ainda depende da ratificação do acordo
nos parlamentos de parte dos países-membros.
"Alguns
países já comercializam produtos específicos dentro desse regime preferencial.
Então, ela já vem criando mecanismos para iniciar esse primeiro passo, digamos,
de uma integração econômica a partir da redução das tarifas. Mas, claro, é
um processo de médio prazo e a eliminação gradual desses índices deve ser
concluída só em 2034", explica ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, a
doutora em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS) Rafaela Serpa.
Diante
da grande diversidade entre os
países africanos,
com economias e vocações distintas, a especialista explica que a AfCFTA prevê
mudanças tarifárias desenhadas de acordo com a realidade de cada território.
"Há regiões em que o prazo de adaptação será maior, justamente para que
seja respeitada a capacidade de cada um desses Estados de fazerem parte da
zona. Também foram criados ajustes que servem para compensar perda de receita e
também apoiar a reestruturação em países com economia menor. Mais do que a
liberalização tarifária, a zona de livre comércio se coloca como um grande
projeto de integração econômica", acrescenta.
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Resistência contra o neocolonialismo europeu
Para o
pesquisador do Centro Brasileiro de Estudos Africanos da UFRGS Lucca Medeiros
da Silva, a zona de livre comércio também pode representar um novo
capítulo na história de dominação colonial da África. Isso porque, pouco
antes das independências sobre as "metrópoles" europeias, a
administração colonial foi "fatiada" em pequenos Estados justamente
para que fosse mantido um domínio econômico sobre a região, explicou Silva.
"O
líder de Gana, Kwame Nkrumah, sempre chamava isso de neocolonialismo, em que os
Estados não têm mais o ônus da manutenção colonial, mas têm o bônus da
exploração econômica. Com isso, esses Estados passam a ter administrações
fragmentadas, independências conquistadas a duras penas e um posicionamento
internacional frágil, como países pequenos e com sérias dificuldades
logísticas. A infraestrutura fica desarticulada após o estabelecimento de
fronteiras, o que dificulta a inserção econômica e mantém o chamado domínio
neocolonial, no qual as antigas metrópoles europeias preservam ampla
vantagem", pontua.
Para
superar de vez o período colonial e o regime do apartheid na África do Sul, é
criada em 1963 a Organização da
Unidade Africana (OUA), na época com 32 países. No início do século, com a
superação desses dois fenômenos, a entidade se transformava na atual UA que,
segundo o pesquisador, é importante por unir os países africanos sob o lema da
necessidade de desenvolvimento próprio.
"E
a criação da zona de livre comércio está inserida nessa noção de que os países
separados possuem peso econômico e político menor nas negociações e
comércio internacional. Esse projeto vai ajudar a posicionar a África de
maneira mais vantajosa no cenário global", resume.
Aliado
a isso, Silva avalia que as diferenças entre os países africanos, inclusive
culturais, são muito menores do que o objetivo comum do
continente: melhorar as condições de vida da população, fortalecer a
legitimidade dos governos e construir um posicionamento internacional mais
robusto. "A desigualdade ainda é o principal motor da política
global", afirma o especialista.
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África unida, potencialidades em alta
O
pesquisador da UFRGS cita como maior desafio do continente o processo de
industrialização, que ainda é incipiente na maioria dos países. De acordo com
Silva, para que a zona de livre comércio tenha sucesso ao longo da
implementação, será necessário concessões maiores de países com maior
capacidade econômica, a exemplo de Egito e África do Sul, e também grandes
esforços de atores menos privilegiados, como países em conflito. "Então,
nesse sentido, é um desafio e vai depender da negociação. Me parece que há uma
vontade, no sentido de superar essas diferenças, com esse fim último de
impulsionar a economia africana".
Como
exemplo das potencialidades da
África,
o especialista diz que cálculos realizados pela União Africana apontam que ao
eliminar as tarifas de importação entre os países africanos, o comércio no
continente pode crescer quase 53%. Outro efeito na economia é aumentar o PIB em
quase nove vezes, saltando dos atuais US$ 3,4 trilhões (R$ 18,1 trilhões)
para US$ 29 trilhões (R$ 154 trilhões) até 2050.
"Muammar
Kadhafi [líder da Líbia morto em 2011] foi um dos principais impulsionadores da
transformação da Organização da Unidade Africana em União Africana e defendia,
inclusive, uma união monetária. A ideia era permitir que os Estados africanos
deixassem de usar moedas atreladas a potências externas, como ocorre em parte
da África Ocidental, onde o Franco CFA permanece vinculado ao Banco Central
francês. Trata-se de uma soberania monetária que ainda falta ao continente e
que Kadhafi defendia abertamente. Não por acaso, teve o fim que teve ao
confrontar esse modelo. Acredito que, no longo prazo, o projeto africano avance
para níveis mais profundos de cooperação econômica, incluindo a dimensão
monetária", argumenta.
Por
fim, Lucca Medeiros da Silva acredita que a concretização dos planos africanos
com a AfCFTA pode proteger o continente em meio à corrida pelas terras
raras e
minerais estratégicos da "cobiça" de grandes potências.
"A
investida de atores externos mais poderosos tende a ser violenta, não
necessariamente no sentido militar, mas de forma extremamente incisiva. Eles
avançam para impor as melhores condições para si, o que acaba sendo
prejudicial aos países africanos. Por isso, acredito que esse posicionamento
comum e essa articulação conjunta são fundamentais, pois, à medida que a
cooperação se aprofunda, os benefícios se tornam claros [...]. Serão mais de 50
países negociando com uma potência", exemplifica.
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Primeira-Dama de Angola alerta para cumprimento efectivo
dos objectivos da Zona de Comércio Livre Continental Africana
O
verdadeiro sucesso e a longevidade da Zona de Comércio Livre Continental
Africana (ZCLCA) dependerão da capacidade de garantir uma integração económica
inclusiva, justa e amplamente participativa, com especial atenção às mulheres,
aos jovens e ao vasto sector informal africano.
A
posição foi defendida pela Primeira-Dama da República, Ana Dias Lourenço, na
Quarta-feira, 4 de Fevereiro, durante a sua intervenção nos Diálogos sobre a
Prosperidade de África (APD) 2026, que decorrem sob o lema “Empoderar as PME,
Mulheres e Jovens no Mercado Único Africano”, no Centro Internacional de
Conferências de Accra, no Ghana.
Momentos
antes da sua intervenção, Ana Dias Lourenço foi homenageada com um poema
intitulado “Mãe das Nações”, em reconhecimento ao seu percurso público e ao seu
contributo para a promoção do desenvolvimento inclusivo em África.
O
poema, declamado de forma eloquente por uma menina poetiza ganense, Nakeeyat
Dramani Sam, emocionou os presentes, especialmente a Primeira- Dama de Angola,
pela descrição efusiva do seu papel na defesa do empoderamento das mulheres, da
educação das raparigas e da coesão social, bem como na liderança da Organização
das Primeiras-Damas Africanas para o Desenvolvimento (OAFLAD).
Durante
a sua intervenção, Ana Dias Lourenço alertou que, para o cumprimento efectivo
dos objectivos da Zona de Comércio Livre Continental Africana, é fundamental
integrar o sector informal, que, apesar de frequentemente invisível nas
estatísticas oficiais, garante a subsistência de milhões de famílias africanas.
Ana
Dias Lourenço entende que a Zona de Comércio Livre Continental Africana não
deve ser encarada apenas como um acordo “técnico ou um conjunto de protocolos
“burocráticos”, mas como um instrumento estratégico capaz de transformar o
potencial económico, cultural e humano do continente em prosperidade partilhada
e sustentável.
No
mesmo contexto, destacou o papel central do Protocolo sobre Mulheres e Jovens
no Comércio, considerando-o inalienável no quadro da Zona de Comércio Livre
Continental Africana.
“A
inclusão económica não acontece de forma automática ou por mero decreto. Ela
exige a implementação de políticas activas, a adopção de medidas correctivas e
uma abordagem consciente e persistente, para ultrapassar as desigualdades
históricas e estruturais que continuam, infelizmente, a limitar a participação
plena de mulheres e jovens na economia formal e no comércio intra-africano”,
disse.
A
Primeira-Dama destacou igualmente as barreiras linguísticas, que ainda
condicionam o comércio intra-africano e recomendou a promoção da formação
linguística, como instrumento essencial para reforçar o diálogo, a confiança e
a negociação entre os povos africanos.
“A
nossa vasta diversidade linguística é uma riqueza cultural incomensurável, mas
não deve ser considerada como um obstáculo à nossa união económica”,
acrescentou. Ao referir-se a Angola, Ana Dias Lourenço reafirmou que o
investimento no capital humano continuará a ser uma prioridade estratégica do
Executivo, sobretudo no contexto da actual transformação económica.
Segundo
a Primeira-Dama de Angola, o eixo central do desenvolvimento angolano assenta
em sectores como a agricultura, indústria, energias renováveis, economia
digital e a inovação tecnológica, considerados fundamentais para a criação de
emprego e para a redução das vulnerabilidades externas do país.
Neste
contexto, Ana Dias Lourenço falou sobre a importância do acesso da mulher
camponesa africana a tecnologias verdes e a conhecimentos que assegurem a
protecção da terra e a segurança alimentar.
Na
ocasião, também partilhou iniciativas desenvolvidas pela Fundação Ngana Zenza
para o Desenvolvimento Comunitário, criado em 2018, como a plataforma
“Transforme Vidas, Seja Mulher”, orientada para o empoderamento de jovens
mulheres, e a implementação do Campus Juvenil do Cunene, vocacionado para a
formação em liderança, capacitação profissional e participação cívica.
Apesar
dos progressos registados, a Primeira-Dama de Angola reconheceu que muitas
mulheres continuam a operar em sectores de menor rentabilidade e enfrentam
barreiras culturais profundas, pelo que defendeu, por isso, a transversalização
da perspectiva de género desde a concepção das políticas públicas até à sua
implementação, como condição essencial para garantir igualdade de
oportunidades.
“Investir
nas mulheres e nos jovens não é um gesto simbólico; é uma decisão estratégica
para garantir economias mais fortes, sociedades mais justas e um futuro
africano de prosperidade verdadeiramente partilhada”, sublinhou Ana Dias
Lourenço.
Fonte:
Sputnik Brasil/Observatório de Regionalismo/ Forbes África Lusófona

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