segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Chavismo: um obstáculo aos planos de Trump para o petróleo venezuelano

Não por acaso, a Venezuela tornou-se um caso emblemático da nova fase do confronto global, por sua posição estratégica sobre o mar do Caribe, sua história política recente — desde a chegada ao poder do presidente Hugo Chávez, em 2002 —, sua comprovada capacidade de resistência diante de pressões externas, mas, sobretudo, seu cobiçado potencial energético.

A violenta agressão armada e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa marcam uma nova etapa: o que ocorreu a partir de 3 de janeiro não deve ser lido como um episódio isolado nem como uma simples escalada tática do hegêmona, mas como uma mensagem dirigida ao conjunto do Sul Global, especialmente nos últimos meses, em razão da profunda mudança na forma como o presidente estadunidense Donald Trump exerce o poder no sistema internacional.

O sequestro de Nicolás Maduro não derrubou o governo. Nas ruas, os venezuelanos sabem disso. Convivem em uma paz vigiada, condicionada, frágil. Caminham com cautela e ainda falam baixo. Em muitos, o medo persiste. Por isso, um mês após o ataque dos Estados Unidos, a Venezuela continua sendo esse lugar onde tudo aconteceu e, ao mesmo tempo, nada aconteceu. Mudaram os personagens, não o roteiro. O chavismo, após 27 anos no poder, segue governando o país, aponta o portal TalCual.

Agora, porém, o faz sob uma tutela externa que ninguém dissimula. Os Estados Unidos marcam o ritmo e Donald Trump projeta sua sombra sobre o novo tabuleiro político. Fala-se em transição, em uma etapa intermediária que pode durar meses ou anos. Mas, na vida cotidiana, ainda não há tradução concreta disso, acrescenta o portal. Até agora, ninguém levou a sério o desejo de Trump de transformar a Venezuela no 53º estado de seu país.

O mundo atual não enfrenta um conflito isolado, mas a convergência de três crises terminais: uma crise civilizatória, marcada pelo esgotamento dos recursos e pela urgência da transição energética; a implosão da ordem mundial do pós-guerra, na qual as instituições internacionais perderam sua capacidade regulatória; e a crise da hegemonia unipolar estadunidense.

Parece que a tentativa de derrotar um adversário no terreno militar ou de impor sanções econômicas para asfixiá-lo materialmente não produziu o resultado esperado. Especialistas indicam que o que está em curso é um processo mais complexo e silencioso: a reconfiguração das percepções, dos marcos mentais e dos sentidos comuns que organizam a vida política, social e cultural das sociedades, afirma o venezuelano Oscar Schemel, diretor da Hinterlaces.

Nesse cenário, a administração de Donald Trump optou pelo caminho da dominação diante da perda de influência do dólar e de seu atraso na corrida tecnológica. A Venezuela, detentora das maiores reservas de hidrocarbonetos e de minerais críticos essenciais para a inteligência artificial (IA), torna-se, assim, o epicentro da estratégia de segurança nacional de Washington, que busca assegurar recursos energéticos para vencer a competição industrial frente à China.

Segundo investigação da BBC, baseada em reconstruções e análises do ataque militar de 3 de janeiro, a ofensiva deixou dezenas de mortos, além do bombardeio de infraestruturas estratégicas e do sequestro do presidente. Um artigo da Global Trade detalha como o ataque impactou o transporte de contêineres no porto de La Guaira: a incursão provocou danos à infraestrutura e gargalos logísticos.

Um mês após o ataque, a chefe do governo venezuelano, Delcy Rodríguez, reuniu-se com a enviada especial de Trump para a Venezuela, Laura Dogu. O que veio a público é que ambas trataram de uma agenda comum nas áreas energética, política e econômica. Dogu ratificou as três fases anunciadas pelo secretário de Estado estadunidense Marco Rubio: estabilização, recuperação econômica e transição.

O esquema de fases faz parte do desenho estratégico de Washington para gerir a política interna e a economia durante sua ocupação. Trump solicitou que grandes petroleiras invistam bilhões de dólares na indústria venezuelana, mas essas empresas exigem condições claras: segurança jurídica, regras estáveis e garantias após anos de expropriações, sanções e mudanças abruptas. O petróleo pode gerar receitas, mas não substitui as instituições.

Um relatório recente da Oxford Economics é contundente: mesmo em cenários otimistas, o PIB venezuelano levaria pelo menos uma década para se situar ainda 50% abaixo do pico alcançado em 2013. A recuperação não depende apenas do fluxo petroleiro, mas de melhorias substanciais nas instituições, na educação e na infraestrutura.

A ascensão de Delcy Rodríguez à presidência interina foi recebida com níveis de aceitação inéditos (71% em âmbito nacional). A análise qualitativa revela que a população valoriza a continuidade institucional como antídoto contra o caos e contra a eventual presença de soldados estadunidenses nas ruas venezuelanas.

O deputado direitista (opositor) Henrique Capriles Radonski afirmou que a anistia geral aos presos políticos, assim como o fechamento da prisão de El Helicoide, representa um passo “necessário e muito importante”. Sustentou que a Venezuela precisa curar feridas e abrir um caminho no qual prevaleçam a justiça, o respeito aos direitos humanos e a convivência democrática, reiterando que nada deve fechar a oportunidade de avançar rumo ao restabelecimento institucional.

Maduro foi deposto, algo que Capriles tentou alcançar por vias políticas desde que ambos se enfrentaram nas eleições de 2013. À época, Capriles era o líder de uma oposição que hoje, segundo se afirma, é comandada por María Corina Machado, a preferida dos presidentes estadunidenses — mas com 91% de opinião desfavorável entre os venezuelanos, de acordo com uma pesquisa realizada em novembro passado. O fato é que o chavismo segue no comando, com Delcy Rodríguez como presidenta interina.

O que chama a atenção da imprensa estrangeira é que Capriles foi acusado por opositores alinhados a Machado de colaborar com o governo. Ele afirmou esperar que os interesses de Trump não entrem em choque com o que considera serem os interesses da maioria dos venezuelanos e que esse processo resulte em um chamado a eleições democráticas. Questionado se negociar significa ser colaboracionista — se se trata de um problema de fundo ou de protagonismo —, Capriles respondeu que “parece que é um problema de protagonismo, e aí, sim, temos uma diferença”.

“Não estamos competindo internamente na oposição. Eu acredito na negociação, porque não sou belicista. Acredito que os venezuelanos precisam recuperar e estabilizar economicamente a Venezuela. Essa é a nossa teoria de mudança: reconstruir o tecido social dos venezuelanos. Para que isso perdure, para que seja estável em um país como a Venezuela, é necessário haver legitimidade, e essa legitimidade não se impõe a partir de Washington, ela é concedida pelo próprio povo venezuelano”, afirmou.

Capriles acrescentou que o pior erro que a oposição pode cometer é pensar que se trata de um processo interno de definição de lideranças. Quem dará legitimidade ao novo governo não será o presidente dos Estados Unidos, mas o povo venezuelano.

¨      Venezuela intensificou o debate sobre maior integração entre diplomacia e defesa, dizem analistas

Um possível aumento no orçamento para defesa utilizando 2% do PIB enfrenta resistência do Executivo, mas as mudanças no cenário geopolítico causadas pelos Estados Unidos no início de 2026 mostram que a estabilidade regional não é algo garantido.

Em um artigo para a revista Carta Capital, o assessor especial da Presidência Celso Amorim defendeu o aumento dos gastos em defesa para 2% do Produto Interno Bruto (PIB). No texto, Amorim afirma que o Brasil deve repensar a defesa brasileira em meio às agressões dos EUA em solo sul-americano.

Neste novo cenário geopolítico, o embaixador acredita que o país deveria desenvolver sistemas avançados em defesa antiaérea, cibernética, drones, além de projetos como o submarino nuclear. Amorim, no entanto, é contra o desenvolvimento de armamentos nucleares como forma de dissuasão por conta de deixar o país vulnerável a "agressões preventivas" de outras países, sugerindo que o país busque outros usos pacíficos da energia nuclear.

Caso haja um aumento no orçamento da defesa, no cenário atual no mundo, significa que a diplomacia brasileira terá que coordenar mais com políticas militares? O Brasil é conhecido por sua moderação em questões internacionais, com mais foco na diplomacia e no multilateralismo, dando menos ênfase à questão militar. O contexto internacional, no entanto, pode aproximar mais essas duas políticas de Estado?

Desde a consolidação do Itamaraty como uma das chancelarias mais profissionalizadas da região, a política externa brasileira se notabilizou por privilegiar a solução pacífica de controvérsias e o princípio da não intervenção. Para Fabricio Ávila, presidente do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), a relação entre a diplomacia e defesa, em princípio, "pode não ser próxima", já que a tendência em momentos de maior tensão no sistema internacional é o relativo isolamento dos países.

Ainda assim, ele ressalta que a América do Sul possui tradição de posicionamentos coordenados em cenários críticos, citando como exemplo a Declaração do Rio de Janeiro de 1942, quando chanceleres das Américas se alinharam em apoio aos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial. "As necessidades dos Estados podem direcionar a diplomacia para esse tipo de ação, principalmente para a proteção da América do Sul", afirma.

Ávila explica que o motivo para haver resistência do Planalto a um piso de 2% do PIB para a defesa é porque os investimentos são, geralmente, direcionados de outros setores do orçamento. "O Estado tem compromissos com setores como saúde, educação e segurança pública, por isso é importante que esse investimento seja feito sem prejudicar outras áreas."

Dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI, da sigla em inglês) mostram que o Brasil gasta em torno de 1% do PIB, o que equivale a US$ 103 per capita (cerca de R$ 537 per capita) ao ano. A Colômbia, um Estado menor que o Brasil, gasta 3% do seu PIB, o que equivale a US$ 203 per capita (cerca de R$ 1058 per capita).

"Estados menores apresentam uma capacidade de investimento maior que o Brasil, que poderia de forma adequada planejar suas despesas militares de forma eficiente e que atenda aos projetos estratégicos do país."

Porém, para Ana Karolina Morais da Silva, doutoranda em relações internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP) e pesquisadora do Núcleo de Estudos Estratégicos, Geopolítica e Integração Regional (NEEGI), a tendência é que a diplomacia e defesa se alinhem cada vez mais, citando o aumento global de gastos militares para os níveis mais altos desde o fim da Guerra Fria.

A pesquisadora se baseia em documentos de segurança e defesa nacional que potências militares têm publicado nos últimos 15 anos, deixando clara uma percepção que o ambiente estratégico vem sofrendo alterações pelo acirramento na competição geopolítica. "Essa percepção intrinsecamente coloca as capacidades militares como a base de poder material sobre a qual as estratégias diplomáticas/de política externa são elaboradas e executadas", completa.

"No contexto brasileiro, a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela intensificou ainda mais o debate político sobre a necessidade de maior integração entre diplomacia e defesa."

Dessa maneira, Morais pontua que um alinhamento entre esses dois campos permitiria moldar um ambiente geopolítico favorável aos interesses do Brasil, dado os meios materiais e de dissuasão que legitimariam e protegeriam as escolhas diplomáticas brasileiras.

Morais também observa que o fato da baixa probabilidade de conflitos entre países sul-americanos é um dos motivos para resistência em aumentar o orçamento da defesa, o que reduz o senso de urgência para o mínimo de 2%. Para mudar essa percepção, além do medo de "engessar" mais o orçamento federal, a pesquisadora vê três movimentos complementares:

>>> 1. A construção de uma narrativa estratégica mais clara, uma que apresente como os 2% se traduziriam em defesa antiaérea, cibernética, vigilância e interoperabilidade e proteção de infraestruturas críticas.

>>> 2. Utilizar episódios recentes como na Venezuela como sinais que a estabilidade regional não está garantida, reforçando a centralidade da defesa para a soberania e a autonomia estratégica.

>>> 3. Discutir modelos híbridos de financiamento, como a vinculação a um percentual da Receita Corrente Líquida em vez do PIB, fórmula que preserva previsibilidade sem reproduzir os efeitos de rigidez associados a pisos constitucionais tradicionais.

Sobre prioridades desse aumento, a pesquisadora acredita que devem ser a prontidão e manutenção, assim como direcionar esse montante para inovações cibernéticas, drones e modernização das frotas aéreas e navais. "O padrão recente de aumento dos gastos militares no mundo indica justamente crescimento mais acelerado em capacidades tecnológicas e interoperáveis, como sistemas antiaéreos modernos, redes de vigilância, sensores e estruturas de comando e controle."

"A tendência é que novos investimentos sejam voltados à ampliação das nossas capacidades tecnológicas, no geral."

¨      Sobe a tensão entre Colômbia e Equador: Bogotá imporá novas tarifas e processará Quito

O governo colombiano informou nesta sexta-feira (6) que apresentará ação contra o Equador perante a Comunidade Andina de Nações, além de elevar as tarifas alfandegárias contra o vizinho sul-americano.

O motivo da ação judicial, segundo a chancelaria local, é a negativa de Quito em suspender as tarifas de 30% sobre os produtos colombianos.

"Diante dessa situação, o governo da Colômbia se vê obrigado a expedir o decreto de tarifas de resposta por razões de segurança nacional, cuja assinatura havia sido adiada à espera de acordos mais imediatos. Da mesma forma, hoje será apresentada a ação perante a Comunidade Andina de Nações pelo descumprimento, por parte do Equador, do que foi pactuado no Acordo de Cartagena, assinado em 26 de maio de 1969", informou o órgão em comunicado.

Em 21 de janeiro, o governo do presidente equatoriano, Daniel Noboa, impôs uma tarifa de 30% sobre os produtos colombianos, alegando uma suposta falta de cooperação de Bogotá no combate ao narcotráfico e à criminalidade transnacional.

A Colômbia respondeu com medidas recíprocas e também suspendeu as vendas de eletricidade ao Equador, que depende parcialmente desse fornecimento.

A adoção mútua de tarifas de 30%, que passaram a valer no último domingo (1º). O impacto para o Equador é significativo, uma vez que 60% dos US$ 1,993 bilhão (cerca de R$ 10 bilhões) importados da Colômbia correspondem a matérias-primas, máquinas e insumos industriais. Com o encarecimento desses bens estratégicos, os custos da produção local tendem a aumentar, afetando a competitividade das indústrias equatorianas.

Por outro lado, as exportações do Equador — que somam cerca de US$ 950 milhões por ano (R$ 4,96 bilhões) — enfrentam um risco crítico no mercado colombiano. Produtos-chave como atum, pescado e madeira devem perder competitividade frente a outros fornecedores em razão da nova tarifa de 30%.

Segundo a Câmara de Comércio Binacional (Camecol), esse cenário não apenas reduzirá a rentabilidade e o emprego formal, como também poderá incentivar o contrabando e o comércio informal nas regiões de fronteira, em função da diferença de preços criada pelos novos impostos.

 

Fonte: Estratégia.la/Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil

 

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