Maria
Luiza Falcão: A guerra silenciosa pelos minerais e a oportunidade estratégica
do Brasil
O
grande debate que hoje mobiliza Washington não é apenas comercial. Está em
disputa o controle da base material da economia do século XXI. Em um mundo cada
vez mais eletrificado, digitalizado e tensionado por rivalidades estratégicas,
minerais críticos deixaram de ser um tema técnico para se tornar um vetor
central de poder.
Durante
o século XX, o petróleo estruturou alianças e guerras. Agora, terras raras,
lítio, níquel, cobalto e grafite começam a desempenhar papel semelhante. Sem
esses insumos não há baterias, semicondutores, inteligência artificial,
armamentos sofisticados nem transição energética. Não há, portanto, soberania
tecnológica.
A
geopolítica, literalmente, desceu ao subsolo.
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Quem realmente controla as reservas?
Convém
começar por um dado que ajuda a desmontar muitas percepções apressadas: a China
é, de fato, a maior detentora de reservas de terras raras do planeta, com cerca
de 44 milhões de toneladas — algo próximo de metade do total mundial.
Mas o
segundo lugar não pertence aos Estados Unidos. Pertence ao Brasil.
O país
reúne aproximadamente 21 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de um
quarto das reservas globais.
Já os
Estados Unidos aparecem muito atrás, com algo em torno de 1,9 milhão de
toneladas, atrás inclusive da Índia e da Austrália.
Esse
ranking deveria provocar mais debate do que provoca. Porque altera
completamente a narrativa tradicional segundo a qual o poder mineral estaria
concentrado apenas nas grandes potências.
Na
realidade, ele está muito mais distribuído — e isso muda o tabuleiro.
A
polêmica inevitável surge aqui: se o Brasil é uma potência geológica, por que
ainda não é uma potência mineral-industrial?
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O despertar tardio dos Estados Unidos
A
movimentação americana revela uma inquietação estratégica profunda. Após
décadas confiando na globalização e na fragmentação produtiva, Washington
percebeu que terceirizou etapas industriais decisivas — justamente aquelas que
hoje definem autonomia econômica.
A China
não apenas expandiu sua mineração. Fez algo muito mais relevante: construiu um
ecossistema industrial integrado, dominando refino, processamento químico e
transformação tecnológica — precisamente onde se concentra o valor.
Extrair
é importante. Transformar é decisivo.
Ao
tentar organizar alianças para reduzir sua dependência, os Estados Unidos
sinalizam uma mudança histórica: a globalização baseada exclusivamente na
eficiência perde espaço para uma globalização orientada pela segurança.
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Nem Guerra Fria, nem alinhamento automático
Apesar
da pressão americana, o mundo não demonstra disposição para escolher lados. O
comportamento predominante é pragmático: cooperar com Washington sem romper com
Pequim. Isso não é ambiguidade. É racionalidade estratégica.
Não
caminhamos para uma nova Guerra Fria, mas para uma multipolaridade flexível, na
qual países ampliam margens de manobra.
E esse
ambiente favorece atores dotados de recursos estratégicos como o Brasil.
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Uma vantagem chinesa — mas não absoluta
Reconhecer
a liderança chinesa não significa aceitar sua inevitabilidade. Ela resulta de
planejamento de longo prazo, política industrial e forte coordenação estatal.
Mas
reservas, por si só, não definem hegemonia. Se definissem, o mapa do poder
seria outro.
O
verdadeiro diferencial chinês está na capacidade de transformar minério em
tecnologia — algo que ainda escapa a muitos países ricos em recursos naturais.
E aqui
reside uma advertência importante para o Brasil.
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O Brasil entra no tabuleiro — e não como figurante
Poucos
países estão tão bem posicionados quanto o Brasil nesta nova geoeconomia. Ser o
segundo maior detentor de reservas muda nossa densidade estratégica.
Isso
significa algo muito concreto: o Brasil pode sentar-se à mesa com os pesos
pesados. Não como convidado protocolar, mas como ator necessário.
Contudo,
há um paradoxo que precisa ser enfrentado com lucidez. Embora tenhamos os
recursos, ainda dependemos de tecnologia estrangeira — em muitos casos, chinesa
— para etapas críticas do processamento mineral.
Temos a
matéria. Ainda não dominamos plenamente o poder de transformá-la.
Este é
o verdadeiro desafio do desenvolvimento brasileiro no século XXI.
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Não seremos apenas uma nova fronteira de commodities
Uma
coisa precisa ser afirmada sem hesitação: não interessa ao Brasil repetir, no
campo das terras raras, o padrão histórico de exportar recursos brutos e
importar produtos sofisticados.
Minerais
críticos não podem ser tratados como tratamos commodities tradicionais.
O
horizonte estratégico deve ser outro: refinar no Brasil, industrializar no
Brasil, agregar valor no Brasil.
Caso
contrário, correremos o risco de possuir o subsolo — enquanto outros capturam o
futuro.
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O clube fechado de Washington não nos serve
Também
não parece prudente aderir automaticamente a qualquer arranjo concebido como
instrumento de contenção geopolítica.
O clube
mineral que os Estados Unidos de Donald Trump ensaiam estruturar pode ser
funcional para sua segurança econômica — mas não necessariamente para a nossa
estratégia de desenvolvimento.
Alinhamentos
rígidos costumam reduzir autonomia.
O que
nos interessa é uma política externa madura o suficiente para dialogar com
todos e depender de ninguém.
Parcerias
são bem-vindas. Subordinação, não.
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Quando gigantes competem, surgem oportunidades
A
rivalidade entre China e Estados Unidos tende a ampliar o poder de barganha de
países que possuem recursos estratégicos.
Momentos
de transição na hierarquia global frequentemente produzem esse efeito: as
grandes potências passam a disputar acesso, e quem detém os ativos ganha margem
de negociação.
Talvez
estejamos exatamente nesse tipo de momento histórico.
A
questão não é escolher lados. É escolher interesses.
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O teste será diplomático
Nesse
contexto, o posicionamento do Itamaraty será observado com lupa. A tradição
diplomática brasileira sempre valorizou autonomia, pragmatismo e capacidade de
diálogo com múltiplos polos.
Esse
pode ser um dos maiores testes dessa tradição.
Transformar
recursos naturais em instrumento de desenvolvimento exige coordenação entre
política externa, política industrial e estratégia tecnológica.
Não é
tarefa simples — mas raramente foi tão necessária.
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Uma oportunidade que não aparece duas vezes
Quando
uma potência teme depender materialmente de outra, algo profundo está mudando
na estrutura do poder global.
A
corrida pelos minerais críticos mostra que a globalização está se
metamorfoseando: menos ingênua, mais estratégica, mais politizada.
E é
justamente nesses momentos de inflexão que surgem oportunidades para países
como o Brasil.
O
subsolo brasileiro guarda mais do que riqueza mineral. Guarda uma possibilidade
histórica de reposicionamento internacional.
Desta
vez, não precisamos pedir lugar à mesa. Temos peso para ocupá-la.
A
pergunta — inevitavelmente incômoda — é outra: teremos clareza estratégica para
agir como protagonistas ou aceitaremos, mais uma vez, um papel secundário em um
jogo cujo valor finalmente começamos a compreender?
• Governo Lula rejeita manobra de Zema
sobre exploração de terras raras em MG, diz Boulos
O
governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não aceitará iniciativas
isoladas do governo de Minas Gerais para autorizar a exploração de terras raras
no estado. A posição foi reafirmada nesta semana pelo ministro da
Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, após reuniões
em Brasília (DF) com uma comitiva de movimentos populares, que denunciou
irregularidades no licenciamento concedido pela gestão de Romeu Zema (Novo).
A
agenda foi articulada pela deputada estadual Bella Gonçalves (Psol) e incluiu
encontros com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e com o próprio
Boulos. Nas reuniões, representantes de comunidades e movimentos populares
apresentaram denúncias sobre a concessão de uma chamada “licença prévia sem
efeitos” para exploração de terras raras no Planalto Vulcânico do Sul de Minas,
instrumento jurídico que não existe na legislação federal.
A área
em questão abrange municípios como Caldas e Poços de Caldas e concentra a maior
reserva conhecida de terras raras do Brasil. O território tem despertado
interesse de empresas estrangeiras, especialmente australianas, que já possuem
contratos de venda desses minerais para os Estados Unidos.
Segundo
Guilherme Boulos, qualquer tentativa do governo mineiro de avançar sem a
coordenação federal está fadada a não produzir efeitos.
“O
presidente Lula determinou que toda discussão sobre terras raras seja conduzida
no âmbito da Presidência da República. Foi criado um grupo estratégico para
tratar desse assunto, e qualquer tentativa de atropelar esse processo nacional
será inócua”, afirmou o ministro.
Boulos
também se comprometeu a levar o caso diretamente ao presidente e a discutir
medidas para proteger a soberania nacional sobre um recurso considerado
estratégico para a transição energética e para a indústria de alta tecnologia.
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Preocupação ambiental e possível intervenção do Ibama
Durante
a reunião com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, foram destacados os
riscos ambientais associados à extração e ao armazenamento das terras raras,
que podem conter elementos radioativos. Esses materiais representam ameaças ao
solo, aos recursos hídricos e à saúde das populações locais, segundo Silva.
Diante
do potencial impacto ambiental e do alcance interestadual do empreendimento,
Marina Silva sinalizou que o Ministério do Meio Ambiente avalia a possibilidade
de o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) assumir o licenciamento, por meio da evocação de competência federal.
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O que são as terras raras?
As
terras raras correspondem a um grupo de 17 elementos químicos fundamentais para
a produção de tecnologias de ponta, como turbinas eólicas, baterias, veículos
elétricos, celulares e equipamentos militares. Embora o nome sugira escassez,
esses elementos são considerados “raros” pela complexidade de sua extração e
separação em estado puro.
O
Planalto Vulcânico de Poços de Caldas, com cerca de 750 km², é uma formação
geológica originada de um vulcão extinto há aproximadamente 80 milhões de anos,
no período Cretáceo. A singularidade de seu solo explica a alta concentração
desses minerais estratégicos.
Para os
integrantes da comitiva recebida pelo governo federal, a concessão da licença
pelo governo Zema, além de juridicamente questionável, favorece interesses
estrangeiros e esvazia o debate público sobre o destino de um recurso central
para o futuro econômico e energético do país.
“Estamos
falando de um movimento de caráter imperialista, que tenta se apropriar das
nossas riquezas sem respeitar o povo brasileiro, o meio ambiente e o debate
público”, denunciou Bella Gonçalves.
Fonte:
Brasil 247/ICL Notícias

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