Dragagem
do Tapajós e leilão de hidrovias do agro agravam crise com povos indígenas e
comunidades tradicionais
Quase
40% da produção de grãos do Brasil é escoada por um conjunto de hidrovias da
Amazônia, o chamado Arco Norte. Um dos rios mais importantes desse conjunto é o
Tapajós. Ele nasce no Mato Grosso e atravessa o Pará. Além do curso,
características como largura e profundidade dão ao rio vocação para o
transporte, com exceção de um ponto crítico.
Na
altura de Santarém, no oeste do Pará, o Tapajós estreita e acumula muitos
sedimentos. Isso só é resolvido com dragagens – e a tentativa de fazer mais uma
dessas intervenções deflagrou uma crise que se estende há duas semanas e coloca
em foco os conflitos entre descarbonização do setor de transportes,
competitividade do agronegócio brasileiro e direitos de comunidades
vulneráveis.
Cerca
de mil manifestantes, representando 14 etnias indígenas da região, ocupam um
terminal de embarque de grãos da americana Cargill, uma das maiores
negociadoras de commodities agrícolas do mundo. Na tarde desta quarta-feira
(4), parte dos manifestantes bloqueou também o acesso ao aeroporto de Santarém.
Eles
protestam contra uma dragagem do Tapajós prevista em edital lançado em dezembro
passado pelo Ministério dos Portos e Aeroportos, afirmando que a chamada
pública não envolveu avaliação de impacto ambiental nem consulta prévia às
populações afetadas.
As
manifestações também pedem a revogação de um decreto que inclui trechos
hidroviários nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, no âmbito do Programa
Nacional de Desestatização, que prevê entregar a gestão desses trechos para a
iniciativa privada por meio de concessões.
“Queremos
o Tapajós livre dos editais de dragagem e do avanço do agronegócio na região,
que ameaça nossa subsistência e quer o rio como um mero corredor de soja”,
afirma Auricélia Arapium, uma liderança indígena que participa da ocupação.
Especialistas
apontam ainda possibilidades de contaminação da água e impactos na pesca de
subsistência.
O
governo federal diz que o objetivo da obra é manter a navegabilidade em um
trecho de cerca de 250 km do rio, entre as cidades de Miritituba e Santarém.
“Não vai haver aumento de volume de carga. Iremos reforçar a segurança da
navegação que já ocorre”, diz Eliezé Bulhões, diretor de gestão hidroviária da
Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação.
A
dragagem também garantiria o tráfego em épocas de seca extrema, como as que
aconteceram em 2023 e 2024. “Não foi só o transporte de carga afetado. Os
ribeirinhos também ficaram impedidos de navegar”, diz Bulhões.
<><>
Questionamentos jurídicos
O
procurador da República do Ministério Público Federal (MPF), Vinícius
Schlickmann Barcelos, que acompanha o caso em Santarém, afirma que há falta de
clareza quanto às etapas do edital e informações conflitantes por parte do
governo.
Na
última sexta-feira (30), ele se reuniu de forma online com lideranças dos
manifestantes e representantes do
Executivo federal.
“A
negociação acabou sem conclusões e sem o Dnit [Departamento Nacional de
Infraestrutura de Transportes] sinalizar qualquer pausa no processo, com todas
as autoridades convictas que irão dar continuidade nas licitações”, afirma o
procurador. As lideranças indígenas agora exigem uma reunião presencial.
Em 2024
e 2025 foram realizadas dragagens no Tapajós, com dispensa de licitação e
licenças emergenciais concedidas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e
Sustentabilidade do Pará (Semas).
“À
época, consideramos essa autorização uma ilegalidade grave, mas não obtivemos
liminares para interromper o processo”, diz Barcelos.
Como o
prazo da dragagem emergencial venceu, é hora de fazer o restante do trabalho
dentro do rito comum – mas agora já sob a nova lei do licenciamento ambiental,
sancionada no fim do ano passado.
“Por
conta das mudanças na lei, as dragagens de manutenção não exigem licença
obrigatória”, diz o procurador. A obra, segundo ele, é considerada de baixo
impacto.
Para
preencher essa lacuna, um outro edital de licitação, no valor de R$ 25 milhões,
servirá para contratar serviços de gestão ambiental na área da dragagem.
Procurada
pela reportagem, a Semas confirma que “não há demanda, protocolada ou em
análise de autorização para dragagem no Rio Tapajós”.
<><>
Fora da estrada
O
protesto de Santarém diz respeito a apenas um trecho dos cerca de 850 km de
extensão do Tapajós e algo ínfimo quando se consideram os 60.000 km de vias
fluviais potencialmente navegáveis do país todo.
Mas ele
toca num ponto central para o agronegócio e também para um futuro de baixo
carbono: como encontrar alternativas aos caminhões e às estradas?
A
Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação foi criada há pouco menos de dois
anos, numa sinalização da importância das vias fluviais – cuja utilização fica
abaixo de um terço da capacidade.
Bulhões
aponta que cada embarcação com 50 mil toneladas representa menos mil caminhões
emitindo CO2 nas estradas do Brasil.
“É um
modo de transporte adequado para o momento atual de mudanças climáticas,
correspondente aos compromissos estabelecidos pelo Brasil.”
<><>
Pressão da soja
A falta
de licenciamento, de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e de condicionantes são
preocupantes, na opinião de Renata Utsunomiya, analista de políticas públicas
de transporte na Amazônia no Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça
Socioambiental (GTInfra).
Segundo
ela, colocar as hidrovias da Amazônia como grandes eixos de exportação de soja
e milho para a China pode alterar as dinâmicas sociais, em especial nos
territórios indígenas e áreas de conservação.
“Sem
contar que, se há aumento na capacidade de transporte, o desmatamento em prol
da soja pode aumentar, o que pode anular o discurso de que as hidrovias
contribuem para diminuir as emissões do Brasil.”
De
acordo com o procurador do MPF, estudos do Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) sugerem impactos
significativos que estariam sendo subdimensionados.
O
Ministério Público Federal aguarda decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª
Região (TRF1), em Brasília (DF), sobre recurso judicial em que pede a
interrupção de licenciamentos de obras na hidrovia do rio Tapajós sem a
realização de estudos ambientais completos e consulta prévia livre e informada.
A
professora Diani Less, do Instituto de Ciências e Tecnologia da Água da
Universidade Federal do Oeste do Pará, aponta que a falta de diálogo fragiliza
as comunidades que vivem no entorno do rio.
Ela
destaca que há possibilidade de perda e degradação de habitats aquáticos, que
impactam a pesca artesanal, base da sobrevivência de muitos povos e comunidades
tradicionais do baixo Tapajós.
“Há
ainda possíveis efeitos à saúde, em uma região já muito impactada pelo mercúrio
do garimpo, com dados alarmantes de contaminação. O mercúrio fica no leito do
rio, justamente onde a dragagem ocorre.”
Além
disso, Less acredita que obras como esta podem estimular, ainda que
indiretamente, um modelo econômico pouco diversificado.
<><>
Cargill
Procurada,
a Cargill diz que não há qualquer ocupação dentro de suas operações, mas sim a
presença de um grupo de pessoas em frente à portaria de caminhões, o que impede
a entrada e saída de veículos do terminal.
“A
companhia respeita o direito à manifestação, assim como se mantém firme no
cumprimento às leis brasileiras. Vale esclarecer, porém, que a pauta
apresentada é um tema sobre o qual a empresa não tem ingerência”, diz a nota da
companhia.
Para o
procurador do MPF, porém, a empresa é interessada na dragagem. Ele foi recebido
pelos diretores da companhia no primeiro dia da ocupação.
“Disseram
que apoiam os investimentos previstos, mas que não podem ajudar em nada na
negociação, o que expõe o interesse deles de que a dragagem aconteça. Sabemos
que eles podem ter influência em decisões dessa natureza”, diz.
<><>
Problemas antigos
Há
décadas o rio Tapajós é pressionado por questões socioeconômicas ao longo de
toda a sua extensão.
Entre
eles, estão a mudança da cobertura vegetal para ampliação do cultivo da soja, o
desenvolvimento de cidades às margens do rio, o garimpo ilegal e as secas, que
se tornaram mais frequentes.
Mais do
que alterações socioeconômicas, são alterações que acentuam a sedimentação do
rio, diz a professora Aline Meiguins, do Instituto de Geociências da
Universidade Federal do Pará.
“Não
estamos falando de um sistema saudável e perfeito que, de repente, passará por
uma intervenção que quebrará o equilíbrio das coisas.”
Ela
lembra que em 2024 e 2025, por conta do menor volume de chuvas, o fluxo de água
foi menor, o que diminuiu a capacidade de diluição de sedimentos e resíduos.
Portanto,
Meiguins avalia que a dragagem é necessária para a navegabilidade. Há, porém,
uma insatisfação generalizada com a maneira que as políticas públicas são
conduzidas na região – o que tornou a licitação para dragagem um estopim para
os protestos.
“As
lutas do Tapajós são muito antigas. O agro e a mineração sustentam municípios e
grupos políticos, mas não vemos isso se convertendo em desenvolvimento.”
O
projeto e a dragagem do rio avançam sem licenciamento ambiental válido e sem a
realização de consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas,
ribeirinhos e comunidades tradicionais afetadas.
• GT Infra denuncia edital de R$ 74
milhões para dragagem no Tapajós sem licenciamento ambiental e consulta a
comunidades
O Grupo
de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra) divulgou nesta
quinta-feira (5/2) uma nota técnica que critica o edital de dragagem no Rio
Tapajós publicado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes
(DNIT). Com valor estimado em R$ 74 milhões, o projeto avança sem licenciamento
ambiental, sem estudos de impacto e sem consulta às comunidades tradicionais —
violando direitos garantidos pela Convenção 169 da OIT. O edital é um dos
motivos da ocupação da sede da Cargill em Santarém (PA), que completa duas
semanas.
O
documento destaca que o edital, voltado à abertura de um canal de navegação
entre Santarém e Itaituba para escoamento de commodities, foi lançado antes
mesmo da conclusão do licenciamento ambiental — etapa fundamental para
identificar impactos e definir medidas de mitigação. Também faltam o Estudo de
Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) e o Estudo de Impacto
Ambiental (EIA-RIMA).
“Uma
crítica central é o plano de dragagem já estar em licitação antes do
licenciamento ambiental. É no licenciamento que se identificam impactos e se
definem condicionantes. Sem isso, e com a licitação já definindo custos, esses
impactos deixam de ser internalizados”, afirma Renata Utsunomiya, analista de
políticas públicas de transporte do GT Infra.
A nota
técnica alerta para danos irreversíveis em áreas sensíveis do ecossistema,
incluindo territórios sagrados do povo Munduruku; o Tabuleiro de Monte Cristo,
principal berçário da tartaruga-da-amazônia (espécie ameaçada); e modos de vida
de comunidades ribeirinhas e indígenas. A dragagem pode afetar a reprodução
física e cultural dessas populações, além de pressionar ecossistemas já
fragilizados na Amazônia.
O GT
Infra aponta ainda uma incoerência grave: enquanto o Plano Nacional de
Logística 2050 (PNL 2050) ainda está em fase de construção — para definir
corredores e prioridades no transporte nacional —, o DNIT avança com a dragagem
de forma apressada. “Esse edital atropela as etapas da política pública.
Enquanto o PNL 2050 está sendo formulado, a dragagem avança sem esse debate
concluído”, reforça Utsunomiya.
Além
disso, a nota técnica chama atenção para o Decreto nº 12.600/2025, que incluiu
três mil quilômetros dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional
de Desestatização, abrindo caminho para a concessão desses empreendimentos
públicos à iniciativa privada. Para o GT Infra, avançar nesse processo sem
estudos ambientais concluídos, transparência e consulta livre, prévia e
informada aos povos e comunidades potencialmente afetados aprofunda conflitos
socioambientais e viola direitos.
RECOMENDAÇÕES
DO GT INFRA:
–
Suspensão imediata do edital;
–
Conclusão do licenciamento ambiental com todos os estudos necessários;
–
Realização da consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas;
–
Alinhamento com o PNL 2050 e com o Plano Hidroviário Nacional;
–
Transparência total sobre impactos e alternativas.
• Condenações por criação e venda ilegais
de gado em Terra Indígena no Pará já totalizam R$ 18,4 milhões
Em
decisões favoráveis a pedidos do Ministério Público Federal (MPF), a Justiça
Federal já obrigou não indígenas envolvidos em esquema ilegal de grilagem
(roubo) de terras, criação e venda de gado na Terra Indígena (TI) Apyterewa, no
Pará, a pagarem um total de R$ 18,4 milhões em indenizações e multas pelos
danos e crimes cometidos.
Na
sentença mais recente, o réu foi condenado, nessa quinta-feira (5), a pagar R$
900 mil pelos ganhos financeiros que conseguiu com a exploração ilegal da TI,
além de R$ 45 mil por danos coletivos aos indígenas Parakanã.
Do
total de 112 ações que o MPF ajuizou no final de 2023 e no final de 2024 até
essa quinta-feira, a Justiça Federal já se manifestou em 17 casos. Além de
condenações ao ressarcimento dos danos socioambientais provocados, houve duas
decisões em que os réus ficaram obrigados a prestar serviços à comunidade.
<><>
Entenda o caso
As
ações são decorrentes de investigação do MPF que resultou no relatório “Boi
Pirata: a pecuária ilegal na Terra Indígena Apyterewa”, elaborado a partir da
análise de bases de dados relativas à cadeia de produção e comercialização de
gado criado ou engordado ilegalmente na área, que fica no município de São
Félix do Xingu (PA).
Foi
constatado que 86 fazendas localizadas ilegalmente no território movimentaram,
entre 2012 e 2022, um total de 48,8 mil bovinos para 414 imóveis rurais, sendo
que 47,2 mil foram destinados a fazendas que estão fora da terra indígena.
Desses, 678 seguiram diretamente para o abate. O lucro com a atividade ilegal
foi estimado pelo MPF em R$ 130,9 milhões.
<><>
Pedidos do MPF
Nas
ações ajuizadas em 2023, contra os vendedores do gado criado ilegalmente na TI,
o MPF pediu um total de R$ 115 milhões em indenizações para a recuperação da
área e a proteção dos indígenas. Em 2024, nas ações contra os maiores
compradores desse gado, o MPF pediu que os acusados sejam condenados ao
pagamento de R$ 66 milhões em indenizações ambientais e em danos morais
coletivos aos indígenas Parakanã.
Além
das ações, o MPF reforçou pedido a frigoríficos para que não comprem gado de
fazendas que não atendam aos critérios previstos em acordo com a instituição, o
chamado Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne Legal, ou TAC da
Pecuária.
O MPF
também expediu recomendações ao Banco Central do Brasil, à Receita Federal e à
Secretaria de Fazenda (Sefa) do Pará, determinando a suspensão do acesso a
linhas de crédito e de incentivos e benefícios fiscais federais e estaduais aos
responsáveis pela venda ilegal dos bovinos da Terra Indígena Apyterewa.
À
Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará), o MPF recomendou o
cancelamento de todos os registros de imóveis rurais sobrepostos ao território
tradicional e a não realização de novos registros.
Inquéritos
policiais – Em novembro de 2024, a Justiça Federal autorizou que o MPF e a
Polícia Federal (PF) realizassem operações para apreender dados e bens de
quatro suspeitos de fraudes que permitiram a lavagem do dinheiro da
comercialização de bois criados ilegalmente na TI.
Os
mandados de busca e apreensão foram cumpridos nos municípios paraenses de São
Félix do Xingu, Parauapebas, Tucumã e Água Azul do Norte. A pedido do MPF, a
Justiça Federal também determinou a quebra do sigilo bancário, fiscal e
telefônico e o bloqueio de bens dessas quatro pessoas alvo das operações e de
outros quatro suspeitos. No total, foram bloqueados R$ 17 milhões em bens dos
oito envolvidos.
As
investigações relacionadas a essa operação estão em andamento.
Fonte:
Por Eduardo Laviano, em Capital Reset/ISA/PGR

Nenhum comentário:
Postar um comentário