Jamil
Chade: Brasil rejeita proposta dos EUA em terras raras e quer evitar ser
fornecedor de matéria prima
O
governo de Luiz Inácio Lula da Silva não irá aceitar a proposta dos EUA no
setor de terras raras para a criação de uma reserva de mercado aos americanos.
A avaliação é de que o projeto submetido nesta semana limita a autonomia do
país na administração e destino dos minérios e perpetua uma assimetria no setor
considerado como estratégico.
Nesta
semana, o governo Trump apresentou a cerca de 50 países a ideia do lançamento
de uma aliança para conter o peso da China no setor de terras raras e criar um
mercado preferencial entre fornecedores e o mercado americano.
O ICL
Notícias revelou com exclusividade o rascunho da proposta apresentada por
Washington e que foi enviada ao Brasil.
Em
resumo, a Casa Branca queria um compromisso dos governos para que as reservas
no Brasil e em outros locais sejam preservadas para o consumo dos EUA.
Um
segundo aspecto é a garantia de que esses países, inclusive o Brasil, não
privilegiem o comércio com a China.
A
Argentina aceitou, assim como outros 13 países. Mas, para o governo brasileiro,
tal proposta “não faz sentido”. O que Brasília quer saber é o que os EUA têm a
oferecer e insiste que “não está desesperado”.
O
governo considera que é o Brasil que tem os minerais cobiçados pelos EUA e que
quer evitar uma relação assimétrica na qual o país se limitaria a ser um
vendedor de matéria prima.
Para o
Palácio do Planalto, a aposta é que o setor de minérios será tão estratégico
que os investidores vão buscar um equilíbrio para também atender às demandas do
país onde estão as reservas.
Entre
os pontos centrais do pacto está a criação de um sistema de controle de preços,
a garantia de que barreiras não serão estabelecidas e que um acesso seja
estabelecido às reservas do país que aceite o entendimento com a Casa Branca.
Segundo
o pacto: “Os participantes comprometem-se a intensificar os esforços de
cooperação para acelerar o abastecimento seguro de minerais críticos
necessários para apoiar a fabricação de tecnologias de defesa e avançadas e
suas respectivas bases industriais. Isso inclui o aproveitamento de
instrumentos políticos existentes, como a infraestrutura de demanda e estocagem
industrial dos Estados Unidos e as reservas estratégicas do [País X].”
Há
ainda o compromisso de que haja um licenciamento acelerado das zonas de
exploração: “Os participantes estão tomando medidas para acelerar, simplificar
ou desregulamentar os prazos e processos de licenciamento, incluindo a obtenção
de licenças para mineração, separação e processamento de minerais críticos e
terras raras dentro de seus respectivos sistemas regulatórios nacionais, em
conformidade com a legislação aplicável.”
Um dos
trechos ainda revela o compromisso dos governos “parceiros” em mapear suas
reservas e fornecer os dados aos EUA.
“Participantes
pretendem cooperar para auxiliar no mapeamento de recursos minerais no [País
X], nos Estados Unidos e em outros locais mutuamente determinados para apoiar
cadeias de suprimentos diversificadas de minerais críticos”, afirma o acordo.
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Opção bilateral
O
governo brasileiro admite que, durante o encontro entre Lula e Trump em março
na Casa Branca, o tema será colocado sobre a mesa pelos EUA. O Brasil já
indicou que está disposto a dialogar. Mas desde que não seja nessas bases. O
governo ainda não quer que esse tema seja usado como barganha para a retirada
de tarifas contra produtos brasileiros que o Itamaraty consideram que são
injustificadas.
Além
disso, o Brasil quer garantias de que haja um fluxo de investimentos no país
para evitar que a economia nacional seja apenas fornecedora de matéria-prima
para a produção de alta tecnologia dos EUA.
Sem a
possibilidade de aceitar o pacote apresentado nesta semana, o Itamaraty quer
apostar num acordo bilateral.
Nesse
aspecto, a ideia é a de criar uma situação na qual os americanos poderiam
investir, processar e comprar os frutos do processamento. E não apenas levar os
minérios e, depois, revender ao Brasil tecnologia.
O
Brasil ainda quer manter seu direito de colocar barreiras para impedir a
exportação de minérios.
No
acordo comercial entre o Mercosul e a UE, por exemplo, o bloco sul-americano se
reservou o direito de impor taxas para evitar o fluxo para fora do país, caso
considere necessário e estratégico para a política industrial.
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Acordo com Índia
Enquanto
negocia com os EUA, o governo brasileiro costura um acordo no setor de terras
raras com a Índia. O pacto pode ser assinado durante a visita do presidente
Lula ao país asiático, na próxima semana.
• Argentina propõe acordo que facilita
acesso dos EUA a minerais raros
O
governo da Argentina divulgou nesta quinta-feira (05/02), o texto inicial de um
acordo comercial que pretende selar com os Estados Unidos, o qual garantiria às
empresas norte-americanas acesso preferencial aos recursos minerais do país,
incluindo as reservas de cobre, lítio e terras raras.
O
acordo ainda não foi assinado, tampouco foi aprovado pelos respectivos
congressos, mas é defendido pelo presidente argentino Javier Milei com o
argumento de que esta seria uma das condições pelas quais os produtos da nação
sul-americana teriam “tarifa zero” no mercado norte-americano.
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‘Facilitar acesso’
O
jornal online argentino El Destape publicou nesta sexta-feira (06/02) trechos
do projeto de acordo apresentado pela Casa Rosada no dia anterior.
A
matéria destaca passagens do documento relativas à questão da mineração. Uma
delas diz que “a Argentina permitirá e facilitará o investimento dos Estados
Unidos em seu território para explorar, extrair, refinar, processar,
transportar, distribuir e exportar minerais críticos e recursos energéticos”.
Outro
trecho afirma explicitamente que “a Argentina priorizará os Estados Unidos como
parceiro comercial e de investimento em cobre, lítio e outros minerais
críticos” e que “agilizará projetos de origem norte-americana que buscam
qualificação”.
Também
se estabelece que “o governo federal (da Argentina) incentivará o investimento
público em infraestrutura de mineração, para facilitar o acesso de empresas
norte-americanas no setor”.
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Produtos agropecuários dos EUA
Segundo
o El Destape, outro ponto controverso do acordo promovido pelo Governo Milei é
a abertura da Argentina à importação de produtos agrícolas norte-americanos.
O texto
apresentado nesta quinta fala na importação, pela Argentina, de 80 mil
toneladas de carne bovina norte-americana durante o ano de 2026. A controvérsia
se dá pelo fato de que se trata de um item em que o país sul-americano é um dos
seis maiores produtores mundiais.
Além da
carne bovina, a Argentina se comprometeria, a partir do acordo, em importar 80
mil litros de vinhos norte-americanos por ano, 1,8 mil toneladas anuais de
chocolates, 1,7 mil toneladas de batatas, 1,3 mil toneladas de açúcar, 1 mil
toneladas de queijo, 870 toneladas de amêndoas, 370 toneladas de goma de
mascar, 285 toneladas de frutose e 80 toneladas de pistache. Boa parte desses
itens são produzidos em grandes quantidades pelo próprio país.
O texto
também traria benefícios para os produtos norte-americanos relativos aos
mercados automotivo, farmacêutico, instrumentos industriais e outros produtos
manufaturados.
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Contrapartida
Em
troca da abertura aos produtos norte-americanos, Washington se comprometeria a
zerar as tarifas para 1,6 mil produtos argentinos em seu mercado, enquanto
todos os demais receberiam somente a tarifa de 10% imposta pelo governo de
Donald Trump no dia 2 de abril de 2025.
A
maioria dos itens incluídos na lista dos que receberiam “tarifa zero” seriam
relativos ao setor agropecuários, como soja, leite, ovos, frutas e outros
produtos vegetais.
Em um
comunicado, o governo de Milei destacou que a carne bovina argentina será a
“mais beneficiada”, e assegurou que o acordo resultaria em um salto de 80 mil a
100 mil toneladas anuais do produto para o mercado norte-americano, resultando
em uma renda extra de aproximadamente US$ 800 milhões.
• Plano de Lula contra combustíveis
fósseis deve citar receita do petróleo como risco
O plano
para o fim dos combustíveis fósseis encomendado pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) deve citar oportunidades para o Brasil neste processo e
também riscos, como o desperdício de energia limpa por falta de capacidade de
armazenamento e o peso econômico da indústria petroleira, por exemplo, na
geração de empregos e de receita.
Casa
Civil, os ministérios da Fazenda, do Meio Ambiente e de Minas e Energia
trabalham na conclusão deste primeiro documento, que deve ser apresentado nos
próximos dias.
O prazo
determinado por Lula vence nesta sexta-feira (6). Nesta quinta (5), o MMA
(Ministério do Meio Ambiente) disse que as tratativas estão em fase final, mas
que o conteúdo da proposta só será conhecido após deliberação pelo CNPE
(Conselho Nacional de Política Energética).
Segundo
pessoas que acompanham as conversas, mas que pediram para não serem
identificadas, por enquanto ele trará apenas diretrizes gerais e um diagnóstico
do cenário brasileiro, sem apontar metas, métricas e nem detalhar o papel
específico de cada setor.
Entre
as oportunidades, por exemplo, está o enorme potencial brasileiro na produção
de energia eólica e solar ou nos biocombustíveis para carros, caminhões, aviões
e navios.
A visão
de quem atua diretamente com a pauta é que esse processo pode trazer benefícios
ao Brasil não só ambientais. Se conduzido da maneira errada, porém, pode
agravar desigualdades e trazer prejuízos econômicos e sociais.
O MMA
afirmou que o documento também terá mecanismos financeiros, mas não os
detalhou. Chamado de “mapa do caminho”, o plano deve traçar a rota para uma
“transição energética justa e planejada, com vistas à redução gradativa da
dependência de combustíveis fósseis no país”.
Em
outras palavras, fazer o Brasil reduzir o uso de petróleo, gás e carvão, fontes
de energia altamente poluentes, e substituí-las por matrizes de menor impacto
ao meio ambiente, como eólica, solar ou hidrelétrica, sem prejuízos.
O plano
é um desdobramento da COP30, a conferência sobre mudança climática das Nações
Unidas que aconteceu no final de 2025, em Belém (PA) e representou um marco no
debate sobre o fim dos combustíveis fósseis, que costuma ser um tabu entre os
quase 200 países que participam da conferência.
Em
contraste com a liberação da nova fronteira de petróleo na bacia Foz do
Amazonas, dias antes, Lula passou defender durante o evento o mapa do caminho
em seus discursos durante a COP, o que deu ao tema um impulso inédito.
Apesar
de não ter entrado nos documentos formais da conferência, a presidência da
cúpula (exercida pelo Brasil) decidiu elaborar por conta própria um plano
mundial para o fim dos fósseis, de adesão voluntária. Em dezembro, após o fim
da conferência, Lula determinou a elaboração de diretrizes em âmbito nacional.
Por
decreto, o petista demandou a criação de um fundo para que a renda do petróleo
seja usada para financiar a transição energética e deu prazo de 60 dias para
que as diretrizes do mapa do caminho fossem elaboradas, documento este que
agora está prestes a ser entregue.
Deve
ser determinada a criação de um grupo de trabalho interministerial que terá a
missão de construir o plano, este sim, muito mais detalhado. O martelo ainda
não foi batido neste ponto, mas esse procedimento é tradicional no âmbito do
conselho energético.
O prazo
para que o trabalho seja concluído está em debate, mas deve ficar entre 6 e 12
meses.
Uma das
diretrizes deve tratar dos biocombustíveis, como etanol e o biodiesel.
Produzidos a partir, por exemplo, da cana-de-açúcar, eles têm impacto ambiental
muito menor que a gasolina e o diesel tradicional oriundos do petróleo, ou
mesmo que o gás natural.
O
Brasil é um dos principais produtores mundiais de biocombustíveis, graças à
força do setor agropecuário, e é pioneiro no uso tanto no uso de etanol quanto
de biodiesel, e também do SAF, a versão para aviação.
As
energias eólica e solar também devem ser abordadas como oportunidades, já que o
Brasil tem neste setor matrizes em expansão, com baixo custo e potencial de
crescimento. Por outro lado, problemas no sistema nacional de energia devem ser
citados como um obstáculo para a ampliação deste setor.
Como
mostrou a Folha de S.Paulo, atualmente um quinto de toda energia dessas
matrizes produzida no Brasil acaba desperdiçado, o que equivale à produção da
usina de Belo Monte, no Pará.
Diferentemente
das hidrelétricas e das usinas de carvão (acionadas por ação humana), a geração
eólica e solar varia de acordo com a quantidade de vento e sol,
respectivamente.
Na
prática, essa energia acaba gerada em momentos em que não há demanda de consumo
equivalente. Para evitar que o rede elétrica nacional tenha uma sobrecarga,
essa produção é jogada fora em um procedimento chamado “curtailment”.
Uma das
soluções para isso, e que deve constar nas diretrizes do mapa do caminho, são
baterias, que podem armazenar o excedente para uso conforme a necessidade.
Isso, porém, requer investimento, já que atualmente o Brasil carece dessa
infraestrutura.
O BNDES
(Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) aprovou recentemente um
financiamento de R$ 280 milhões para a área.
Outro
risco que deve ser apontado nas diretrizes é fiscal. Hoje os impostos
arrecadados com a exploração de petróleo no pré-sal, por exemplo, alimentam
investimentos em educação e saúde, e grande parte desta receita também é
revertida para os estados e municípios produtores.
Estudo
do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) mostrou, porém, que a
distribuição deste dinheiro não é transparente, tem desigualdades e menos de 1%
acaba voltado para soluções ambientais ou de transição energética.
De toda
forma, a redução na produção de petróleo pode desequilibrar as contas públicas
nesses locais, ameaçar políticas públicas ou até causar desemprego nessas
regiões, o que, num efeito cascata, pode trazer prejuízo econômico em nível
nacional.
A ideia
das diretrizes é tratar esse risco não como um impedimento, mas um ponto de
atenção no mapa do caminho.
O
documento também deve abordar a necessidade de investimento em rotas
tecnológicas relacionadas à transição energética e mencionar programas e
projetos já existentes no Brasil.
Fonte:
ICL Notícias/Opera Mundi/FolhaPress

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