John
Karley de Sousa Aquino: Sobre o discurso da esquerda pós-moderna
A base
social do bolsonarismo, além do seu conservadorismo se caracteriza pela
profunda desconfiança em relação ao conhecimento e pelo desprezo à universidade
pública. Eles tendem a relativizar tudo o que a ciência afirma e são céticos em
relação ao conhecimento produzido nas Instituições de Ensino Superior.
O
problema é que esse relativismo e desconfiança que caracterizam a “nova
direita” (que de nova não tem nada) podem ter sido alimentados em certa medida
por um discurso descuidado de uma parcela da esquerda que tendeu durante as
últimas décadas a relativizar o conhecimento e duvidar da razão. Estou falando
do discurso da esquerda pós-moderna.
Com o
fim das experiências socialistas na década de 1980 e a derrocada da União
Soviética em 1991, a esquerda sofreu uma derrota histórica de impacto mundial.
A crise do socialismo real levou ao descrédito e crise do marxismo, que acabou
deixando de ser a principal referência teórica da esquerda. Nos anos 1990 a
esquerda ficou órfã na teoria e na prática e buscou uma reorientação teórica,
pois não era possível aceitar a tese do “fim da história”, afinal esta não
podia ser a única narrativa possível.
Em meio
à crise do marxismo e para preencher o vazio teórico existente, a esquerda
brasileira foi cada vez mais assumindo um discurso filosófico importado da
França que dizia que não existia uma “verdade absoluta”, que toda grande teoria
emancipatória levava necessariamente a projetos políticos “totalitários” e que
era preciso valorizar as outras faculdades humanas que haviam sido eclipsadas
devido o “autoritarismo da razão iluminista”.
A razão
era acusada de ser burguesa, conservadora, além de ser avessa ao corpo e a
sensibilidade, em suma, seria castradora. A razão, a verdade e a emancipação,
aspectos essenciais da herança iluminista da teoria marxista, eram vistas com
desconfiança e no lugar das expectativas iluministas da esquerda marxista se
propunha uma valorização da sensibilidade, da estética e da resistência.
O
discurso que vinha para ocupar o espaço perdido pelo marxismo era o discurso
pós-moderno. O que defino como pós-moderno se baseia nas definições de
Jean-François Lyotard, para o qual pós-moderno é acima de tudo a “incredulidade
em relação às metanarrtivas”, sendo metanarrativa uma teoria com pretensão de
explicação totalizante e de validade universal. Para ele o que existem são
múltiplas narrativas, todas com a mesma validade, implicando, portanto, não
necessariamente na negação da verdade (niilismo), mas na defesa da pluralidade
de verdades, isto é, na relativização da verdade.
Conforme
David Harvey o que mais caracteriza o discurso pós-moderno é a negação de
qualquer “noção de que possa haver uma metalinguagem, uma metanarrativa ou uma
metateoria mediante as quais todas as coisas possam ser conectadas ou
representadas” e consequentemente a negação de qualquer noção de verdade
universal. Em síntese, a teoria pós-moderna é acima de tudo relativista do
ponto de vista epistemológico. Não existiria uma única verdade, mas a verdade
do negro, a verdade da mulher, a verdade do latino, todas silenciadas pela
pretensão universalizante da verdade europeia, incluindo aí a “metanarrativa
marxista”.
Uma
parte da esquerda brasileira deixou de lado a tradição marxista e acabou
abraçando a teoria pós-moderna. Esse setor da esquerda relativizou o
conhecimento, desconfiou da razão e promoveu um perigoso ceticismo em relação à
ciência. Os mais diversos pesquisadores das mais diversas áreas onde tal
discurso proliferou, passaram a advogar o relativismo epistemológico e por isso
se tornou comum ouvir nos corredores das universidades, nas conferências e ler
nos artigos científicos a relativização do conhecimento científico, dizendo que
tudo é válido e que não existe discurso verdadeiro ou falso, mas discursos
diferentes.
Foram
décadas de relativização do conhecimento científico, valorização da opinião em
detrimento da ciência e de ceticismo em relação à razão. Tal discurso acabou
penetrando também nas organizações políticas da esquerda que iam pouco a pouco
deixando de lado o marxismo para aderir à última moda parisiense. O marxismo
foi considerado ultrapassado e montamos um “museu de grandes novidades” em que
era aceito tacitamente como verdade absoluta que “não existe verdade absoluta”.
Foi
essa esquerda pós-moderna que foi pega de surpresa quando a extrema direita
teve coragem de sair do armário e dizer inverdades como a que o “nazismo é de
esquerda” ou que “não existiu ditadura militar”, que vacinas matam, etc. Como o
discurso pós-moderno que relativiza a verdade pode negar as opiniões dessa
direita obscurantista? Afinal pode ser que o nazismo seja de esquerda para
eles, é uma verdade “diferente” ou como disse Kellyanne Conway seriam “fatos
alternativos”.
A
esquerda sem perceber preparou em partes o terreno para a “nova direita”
brasileira que não deixa de ser uma “direita pós-moderna” que relativiza a
verdade e desconfia da ciência. É essa direita, esses 30% da população
brasileira que apoia Bolsonaro, que assumiu o relativismo epistemológico (mesmo
sem saber o que diabos é isto) e encontrou uma esquerda desarmada sem saber o
que dizer diante de uma opinião falsa, mas que de acordo com seus pressupostos
teóricos não podia ser declarada como tal, mas aceita como uma “verdade”
inconveniente entre outras, caso contrário seria incoerente.
Diante
de um setor reacionário e obscurantista que ataca a ciência e a filosofia em
favor de teorias da conspiração e que não acredita na verdade nem em evidências
científicas, mas apenas na “sua verdade” (leia-se opinião equivocada), a
esquerda pós-moderna se viu obrigada a relativizar seu relativismo, anunciando
seu canto do cisne.
O lema
do jornal do camarada Antônio Gramsci era que a “verdade é revolucionária”, um
lema que nada tem a ver com o relativismo pós-moderno que ainda permeia, mesmo
que moribundo, uma parcela da esquerda. As consecutivas derrotas que a esquerda
brasileira vem sofrendo desde 2013 nos obriga a repensar nossa teoria e nossa
prática, principalmente quando o inimigo começa a mobilizar um discurso
parecido com o que usávamos hegemonicamente até 2018, quando, a meu ver, o
discurso e prática da esquerda pós-moderna chegou ao limite.
Transformar
para redistribuir o amanhã. Por Marcio Pochmann
Compreender
o capitalismo contemporâneo exige o repensar da ideia de que ele se organiza
exclusivamente a partir de Estados nacionais e de políticas internas. A
economia atual opera por meio de cadeias globais de valor, plataformas digitais
e finanças altamente móveis, capazes de atravessar fronteiras com rapidez e de
reorganizar o poder econômico e informacional.
Sem
reconhecer essa mudança estrutural, estratégias políticas, formas de regulação
e projetos de justiça social tendem a mirar um alvo muito importante e comum no
passado. Nessa defasagem, pode prevalecer a erosão lenta que enfraquece
expectativas coletivas, compromete a credibilidade da promessa de progresso e
do futuro como horizonte compartilhado.
O tempo
social, então, parece não avançar nem se encerrar; em vez disso, arrasta-se.
Não se trata de uma sequência de grandes rupturas claramente percebidas, como
guerras e revoluções até agora, mas de um interregno prolongado no qual o
capitalismo não consegue se renovar o suficiente para produzir um novo pacto
social e tampouco colapsa com intensidade suficiente para abrir, por si, um
horizonte alternativo.
O
sistema sobrevive por remendos, adiamentos e políticas de exceção, com ajustes
pontuais, reformas fragmentadas, programas emergenciais, renegociações
recorrentes. O resultado é uma sensação estranha de estagnação histórica
justamente quando a tecnologia acelera tudo, como se a passagem para a Era
Digital não se traduzisse em emancipação coletiva, mas em um presente
hiperconectado e, ao mesmo tempo, socialmente bloqueado.
No caso
brasileiro, essa transição iniciada com a adoção do receituário neoliberal, em
1990, assume um traço particularmente duro. O Estado nacional tem perdido
margem de atuação, passando a operar crescentemente subordinado a duas forças
complementares.
De um
lado, a financeirização ampliou o poder disciplinador das finanças sobre a
política econômica orientada para a produção. Por meio da dinâmica da dívida,
do custo do capital, de metas fiscais e da vigilância permanente de
expectativas de mercado, o amanhã deixa de ser um horizonte de emancipação para
se tornar um futuro comprometido por metas de curto prazo, parcelas a pagar e
gestões das urgências permanentes.
De
outro, a digitalização plataformizada desloca atividades econômicas e
informacionais para infraestruturas privadas transnacionais, capazes de
coordenar mercados, trabalho e consumo sob conectividade constante e gestão
algorítmica de dados convertidos em mercadorias. Esse duplo movimento
reconfigura a base da acumulação e enfraquece instrumentos clássicos de
política econômica.
Diante
da redução da capacidade do Estado de tributar rendas altas e grandes empresas,
amplia a assimetria entre a escala global do poder econômico e a escala
nacional das instituições democráticas, tornando-se, assim, mais difícil
sustentar políticas orientadas à produção sustentável. Corporações
transnacionais articulam cadeias globais de valor e plataformas digitais
fortemente conectadas às finanças altamente móveis e a mecanismos de opacidade.
Da
mesma forma, os paraísos fiscais e as estruturas societárias complexas permitem
deslocar lucros e patrimônios para jurisdições permissivas, corroendo bases
arrecadatórias e limitando a tributação progressiva. A consequência tem sido a
combinação instável entre a maior exigência social por proteção e
redistribuição e a menor capacidade estatal de financiar políticas universais e
sustentadas, o que incentiva a gestão por remendos e acelera a percepção de um
presente que se prolonga sem horizonte.
Em
contraste, o modelo fordista-keynesiano que marcou o mundo após a Segunda
Guerra Mundial baseava-se em uma articulação relativamente clara entre produção
industrial em bases nacionais, regulação financeira com forte presença estatal
e políticas públicas orientadas pela expansão do emprego e do bem-estar social.
Era nesse contexto que o Estado atuava como organizador central da acumulação,
mediando conflitos distributivos e produzindo estabilidade para o capitalismo
em formação nas sociedades urbanas e industriais.
A
partir da crise de rentabilidade dos anos 1970, porém, o capital passou a
buscar novas estratégias a partir do deslocamento espacial, flexibilização
produtiva e liberalização financeira. O receituário neoliberal aprofundou esse
movimento ao promover a libertação progressiva do capital das amarras
territoriais impostas pelos Estados nacionais, incentivando abertura
financeira, desregulação e reconfiguração produtiva.
A
produção foi fragmentada e distribuída internacionalmente por etapas, formando
cadeias globais de valor nas quais poucos conglomerados concentram comando
estratégico da tecnologia, propriedade intelectual, marca, logística, finanças
ao passo que aos Estados restou a competição por investimentos acompanhados por
incentivos, regimes especiais e, frequentemente, desregulados e sem
compromissos com emprego decente e sustentação ambiental.
Assim,
o centro dinâmico do capitalismo deixou de ser apenas a grande fábrica
integrada territorialmente, passando a ser o conglomerado transnacional que
controla pontos decisivos da cadeia e escolhe onde localizar cada etapa,
ampliando a distância entre decisões econômicas e controles políticos.
Esse
deslocamento se intensificou com a ascensão das plataformas digitais. Elas não
são apenas empresas atuando em mercados já existentes, pois controlam
infraestruturas essenciais de comunicação, comércio, publicidade, dados,
reputação e, em muitos casos, pagamentos e logística. Diferentemente das
corporações industriais clássicas, operam com menor materialidade territorial e
maior poder de coordenação econômica e social.
Ao
intermediar relações, impor padrões técnicos e definir regras privadas de
acesso à visibilidade, à demanda e à monetização, as plataformas reorganizam
setores inteiros e deslocam ainda mais o centro do poder para atores privados
transnacionais. A separação entre o espaço econômico global e a regulação
política nacional torna-se, então, mais profunda.
O
capitalismo opera em escala planetária e em tempo real, enquanto as
instituições democráticas permanecem majoritariamente nacionais e mais lentas,
com jurisdição limitada e capacidade fiscal em erosão. Nesse ponto, a
financeirização atua como traço decisivo, favorecendo a dominância de lógicas
financeiras sobre a economia produtiva e sobre as decisões públicas.
Impõe,
também, um regime de mobilidade extrema do capital e de reação instantânea,
pressionando Estados a adotar políticas favoráveis aos interesses mercantis e
reduzindo o espaço de planejamento de longo prazo. O Estado não desaparece, mas
tende a deslocar sua função de planejamento soberano e promotor da produção e
do bem-estar para garantidor da estabilidade do capital, administrando crises,
preservando contratos e assegurando condições gerais de acumulação.
A
dissociação estrutural entre economia global e política nacional constitui um
dos principais dilemas do tempo presente. O deslocamento do poder econômico
para corporações, plataformas e finanças móveis impõe limites severos à
democracia, à soberania e à redistribuição.
Ao
mesmo tempo, os arranjos multilaterais forjados no pós-guerra do século passado
perdem efetividade diante da competição regulatória, da opacidade fiscal
internacional e do domínio privado de infraestruturas digitais. Essa condição
repercute diretamente no modo como o futuro é vivido.
Diferentemente
da modernidade clássica orientada por narrativas de progresso e ascensão
social, o presente passa a ser experimentado como um tempo fechado, sem
projeção emancipatória. Mesmo diante do fracasso evidente do sistema vigente em
produzir bem-estar generalizado, a capacidade de imaginar alternativas com
densidade institucional parece bloqueada.
Sem
futuro, o tempo deixa de ser vetor de transformação e se torna repetição
administrada do presente. A crise deixa de ser percebida como evento
extraordinário que mobiliza, tornando-se desgaste contínuo. A violência
sistêmica é internalizada como cansaço, ansiedade e esgotamento, não como
conflito aberto. O resultado é profundamente despolitizante, com muita coisa
piora sem que algo exploda de modo claro, pois à sociedade caberia se acostumar
a administrar perdas.
Esse
futuro não desaparece de uma vez, ele goteja. É parcelado, adiado e capturado
por dívidas, metas, métricas e urgências permanentes. A lógica do endividamento
transforma o futuro em obrigação, uma vez que o amanhã deixa de ser promessa e
vira cobrança.
Assim
se instala um regime temporal bloqueado, paradoxal, em que convivem aceleração
tecnológica e um presente prolongado incapaz de se tornar passado, mas também
desprovido de horizonte. Nessa condição, jovens podem estar altamente
escolarizados, conectados e informados, porém sem estabilização material e
simbólica, acumulando qualificações, dívidas e experiências sem conversão
garantida em vida estável.
O risco
do provisório permanente cresce e o colapso não se apresenta como ruptura, mas
como esvaziamento gradual do capitalista lento, persistente e socialmente
corrosivo. Por isso, transformar para redistribuir não é uma escolha retórica,
mas uma exigência histórica.
Se o
capitalismo contemporâneo se sustenta por remendos e adiamentos, a
transformação não pode ser apenas moral nem apenas técnica. Precisa ser
estrutural e institucional, capaz de recuperar capacidade pública de decisão,
reconstruir instrumentos de regulação à altura de cadeias globais, finanças
móveis e plataformas digitais, e reabrir um horizonte coletivo.
Redistribuir
o futuro significa devolver a amplas maiorias a possibilidade real de planejar
a vida, projetar expectativas e participar do destino social, enfrentando
simultaneamente a captura do excedente por finanças e plataformas, a erosão
fiscal via opacidade global e a precarização do trabalho. Sem esse movimento, o
interregno tende a se perpetuar num capitalismo que não se renova nem cai, mas
que desgasta lentamente a sociedade e suspende o futuro como horizonte comum
superior.
Fonte:
A Terra é Redonda

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