segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

John Karley de Sousa Aquino: Sobre o discurso da esquerda pós-moderna

A base social do bolsonarismo, além do seu conservadorismo se caracteriza pela profunda desconfiança em relação ao conhecimento e pelo desprezo à universidade pública. Eles tendem a relativizar tudo o que a ciência afirma e são céticos em relação ao conhecimento produzido nas Instituições de Ensino Superior.

O problema é que esse relativismo e desconfiança que caracterizam a “nova direita” (que de nova não tem nada) podem ter sido alimentados em certa medida por um discurso descuidado de uma parcela da esquerda que tendeu durante as últimas décadas a relativizar o conhecimento e duvidar da razão. Estou falando do discurso da esquerda pós-moderna.

Com o fim das experiências socialistas na década de 1980 e a derrocada da União Soviética em 1991, a esquerda sofreu uma derrota histórica de impacto mundial. A crise do socialismo real levou ao descrédito e crise do marxismo, que acabou deixando de ser a principal referência teórica da esquerda. Nos anos 1990 a esquerda ficou órfã na teoria e na prática e buscou uma reorientação teórica, pois não era possível aceitar a tese do “fim da história”, afinal esta não podia ser a única narrativa possível.

Em meio à crise do marxismo e para preencher o vazio teórico existente, a esquerda brasileira foi cada vez mais assumindo um discurso filosófico importado da França que dizia que não existia uma “verdade absoluta”, que toda grande teoria emancipatória levava necessariamente a projetos políticos “totalitários” e que era preciso valorizar as outras faculdades humanas que haviam sido eclipsadas devido o “autoritarismo da razão iluminista”.

A razão era acusada de ser burguesa, conservadora, além de ser avessa ao corpo e a sensibilidade, em suma, seria castradora. A razão, a verdade e a emancipação, aspectos essenciais da herança iluminista da teoria marxista, eram vistas com desconfiança e no lugar das expectativas iluministas da esquerda marxista se propunha uma valorização da sensibilidade, da estética e da resistência.

O discurso que vinha para ocupar o espaço perdido pelo marxismo era o discurso pós-moderno. O que defino como pós-moderno se baseia nas definições de Jean-François Lyotard, para o qual pós-moderno é acima de tudo a “incredulidade em relação às metanarrtivas”, sendo metanarrativa uma teoria com pretensão de explicação totalizante e de validade universal. Para ele o que existem são múltiplas narrativas, todas com a mesma validade, implicando, portanto, não necessariamente na negação da verdade (niilismo), mas na defesa da pluralidade de verdades, isto é, na relativização da verdade.

Conforme David Harvey o que mais caracteriza o discurso pós-moderno é a negação de qualquer “noção de que possa haver uma metalinguagem, uma metanarrativa ou uma metateoria mediante as quais todas as coisas possam ser conectadas ou representadas” e consequentemente a negação de qualquer noção de verdade universal. Em síntese, a teoria pós-moderna é acima de tudo relativista do ponto de vista epistemológico. Não existiria uma única verdade, mas a verdade do negro, a verdade da mulher, a verdade do latino, todas silenciadas pela pretensão universalizante da verdade europeia, incluindo aí a “metanarrativa marxista”.

Uma parte da esquerda brasileira deixou de lado a tradição marxista e acabou abraçando a teoria pós-moderna. Esse setor da esquerda relativizou o conhecimento, desconfiou da razão e promoveu um perigoso ceticismo em relação à ciência. Os mais diversos pesquisadores das mais diversas áreas onde tal discurso proliferou, passaram a advogar o relativismo epistemológico e por isso se tornou comum ouvir nos corredores das universidades, nas conferências e ler nos artigos científicos a relativização do conhecimento científico, dizendo que tudo é válido e que não existe discurso verdadeiro ou falso, mas discursos diferentes.

Foram décadas de relativização do conhecimento científico, valorização da opinião em detrimento da ciência e de ceticismo em relação à razão. Tal discurso acabou penetrando também nas organizações políticas da esquerda que iam pouco a pouco deixando de lado o marxismo para aderir à última moda parisiense. O marxismo foi considerado ultrapassado e montamos um “museu de grandes novidades” em que era aceito tacitamente como verdade absoluta que “não existe verdade absoluta”.

Foi essa esquerda pós-moderna que foi pega de surpresa quando a extrema direita teve coragem de sair do armário e dizer inverdades como a que o “nazismo é de esquerda” ou que “não existiu ditadura militar”, que vacinas matam, etc. Como o discurso pós-moderno que relativiza a verdade pode negar as opiniões dessa direita obscurantista? Afinal pode ser que o nazismo seja de esquerda para eles, é uma verdade “diferente” ou como disse Kellyanne Conway seriam “fatos alternativos”.

A esquerda sem perceber preparou em partes o terreno para a “nova direita” brasileira que não deixa de ser uma “direita pós-moderna” que relativiza a verdade e desconfia da ciência. É essa direita, esses 30% da população brasileira que apoia Bolsonaro, que assumiu o relativismo epistemológico (mesmo sem saber o que diabos é isto) e encontrou uma esquerda desarmada sem saber o que dizer diante de uma opinião falsa, mas que de acordo com seus pressupostos teóricos não podia ser declarada como tal, mas aceita como uma “verdade” inconveniente entre outras, caso contrário seria incoerente.

Diante de um setor reacionário e obscurantista que ataca a ciência e a filosofia em favor de teorias da conspiração e que não acredita na verdade nem em evidências científicas, mas apenas na “sua verdade” (leia-se opinião equivocada), a esquerda pós-moderna se viu obrigada a relativizar seu relativismo, anunciando seu canto do cisne.

O lema do jornal do camarada Antônio Gramsci era que a “verdade é revolucionária”, um lema que nada tem a ver com o relativismo pós-moderno que ainda permeia, mesmo que moribundo, uma parcela da esquerda. As consecutivas derrotas que a esquerda brasileira vem sofrendo desde 2013 nos obriga a repensar nossa teoria e nossa prática, principalmente quando o inimigo começa a mobilizar um discurso parecido com o que usávamos hegemonicamente até 2018, quando, a meu ver, o discurso e prática da esquerda pós-moderna chegou ao limite.

Transformar para redistribuir o amanhã. Por Marcio Pochmann

Compreender o capitalismo contemporâneo exige o repensar da ideia de que ele se organiza exclusivamente a partir de Estados nacionais e de políticas internas. A economia atual opera por meio de cadeias globais de valor, plataformas digitais e finanças altamente móveis, capazes de atravessar fronteiras com rapidez e de reorganizar o poder econômico e informacional.

Sem reconhecer essa mudança estrutural, estratégias políticas, formas de regulação e projetos de justiça social tendem a mirar um alvo muito importante e comum no passado. Nessa defasagem, pode prevalecer a erosão lenta que enfraquece expectativas coletivas, compromete a credibilidade da promessa de progresso e do futuro como horizonte compartilhado.

O tempo social, então, parece não avançar nem se encerrar; em vez disso, arrasta-se. Não se trata de uma sequência de grandes rupturas claramente percebidas, como guerras e revoluções até agora, mas de um interregno prolongado no qual o capitalismo não consegue se renovar o suficiente para produzir um novo pacto social e tampouco colapsa com intensidade suficiente para abrir, por si, um horizonte alternativo.

O sistema sobrevive por remendos, adiamentos e políticas de exceção, com ajustes pontuais, reformas fragmentadas, programas emergenciais, renegociações recorrentes. O resultado é uma sensação estranha de estagnação histórica justamente quando a tecnologia acelera tudo, como se a passagem para a Era Digital não se traduzisse em emancipação coletiva, mas em um presente hiperconectado e, ao mesmo tempo, socialmente bloqueado.

No caso brasileiro, essa transição iniciada com a adoção do receituário neoliberal, em 1990, assume um traço particularmente duro. O Estado nacional tem perdido margem de atuação, passando a operar crescentemente subordinado a duas forças complementares.

De um lado, a financeirização ampliou o poder disciplinador das finanças sobre a política econômica orientada para a produção. Por meio da dinâmica da dívida, do custo do capital, de metas fiscais e da vigilância permanente de expectativas de mercado, o amanhã deixa de ser um horizonte de emancipação para se tornar um futuro comprometido por metas de curto prazo, parcelas a pagar e gestões das urgências permanentes.

De outro, a digitalização plataformizada desloca atividades econômicas e informacionais para infraestruturas privadas transnacionais, capazes de coordenar mercados, trabalho e consumo sob conectividade constante e gestão algorítmica de dados convertidos em mercadorias. Esse duplo movimento reconfigura a base da acumulação e enfraquece instrumentos clássicos de política econômica.

Diante da redução da capacidade do Estado de tributar rendas altas e grandes empresas, amplia a assimetria entre a escala global do poder econômico e a escala nacional das instituições democráticas, tornando-se, assim, mais difícil sustentar políticas orientadas à produção sustentável. Corporações transnacionais articulam cadeias globais de valor e plataformas digitais fortemente conectadas às finanças altamente móveis e a mecanismos de opacidade.

Da mesma forma, os paraísos fiscais e as estruturas societárias complexas permitem deslocar lucros e patrimônios para jurisdições permissivas, corroendo bases arrecadatórias e limitando a tributação progressiva. A consequência tem sido a combinação instável entre a maior exigência social por proteção e redistribuição e a menor capacidade estatal de financiar políticas universais e sustentadas, o que incentiva a gestão por remendos e acelera a percepção de um presente que se prolonga sem horizonte.

Em contraste, o modelo fordista-keynesiano que marcou o mundo após a Segunda Guerra Mundial baseava-se em uma articulação relativamente clara entre produção industrial em bases nacionais, regulação financeira com forte presença estatal e políticas públicas orientadas pela expansão do emprego e do bem-estar social. Era nesse contexto que o Estado atuava como organizador central da acumulação, mediando conflitos distributivos e produzindo estabilidade para o capitalismo em formação nas sociedades urbanas e industriais.

A partir da crise de rentabilidade dos anos 1970, porém, o capital passou a buscar novas estratégias a partir do deslocamento espacial, flexibilização produtiva e liberalização financeira. O receituário neoliberal aprofundou esse movimento ao promover a libertação progressiva do capital das amarras territoriais impostas pelos Estados nacionais, incentivando abertura financeira, desregulação e reconfiguração produtiva.

A produção foi fragmentada e distribuída internacionalmente por etapas, formando cadeias globais de valor nas quais poucos conglomerados concentram comando estratégico da tecnologia, propriedade intelectual, marca, logística, finanças ao passo que aos Estados restou a competição por investimentos acompanhados por incentivos, regimes especiais e, frequentemente, desregulados e sem compromissos com emprego decente e sustentação ambiental.

Assim, o centro dinâmico do capitalismo deixou de ser apenas a grande fábrica integrada territorialmente, passando a ser o conglomerado transnacional que controla pontos decisivos da cadeia e escolhe onde localizar cada etapa, ampliando a distância entre decisões econômicas e controles políticos.

Esse deslocamento se intensificou com a ascensão das plataformas digitais. Elas não são apenas empresas atuando em mercados já existentes, pois controlam infraestruturas essenciais de comunicação, comércio, publicidade, dados, reputação e, em muitos casos, pagamentos e logística. Diferentemente das corporações industriais clássicas, operam com menor materialidade territorial e maior poder de coordenação econômica e social.

Ao intermediar relações, impor padrões técnicos e definir regras privadas de acesso à visibilidade, à demanda e à monetização, as plataformas reorganizam setores inteiros e deslocam ainda mais o centro do poder para atores privados transnacionais. A separação entre o espaço econômico global e a regulação política nacional torna-se, então, mais profunda.

O capitalismo opera em escala planetária e em tempo real, enquanto as instituições democráticas permanecem majoritariamente nacionais e mais lentas, com jurisdição limitada e capacidade fiscal em erosão. Nesse ponto, a financeirização atua como traço decisivo, favorecendo a dominância de lógicas financeiras sobre a economia produtiva e sobre as decisões públicas.

Impõe, também, um regime de mobilidade extrema do capital e de reação instantânea, pressionando Estados a adotar políticas favoráveis aos interesses mercantis e reduzindo o espaço de planejamento de longo prazo. O Estado não desaparece, mas tende a deslocar sua função de planejamento soberano e promotor da produção e do bem-estar para garantidor da estabilidade do capital, administrando crises, preservando contratos e assegurando condições gerais de acumulação.

A dissociação estrutural entre economia global e política nacional constitui um dos principais dilemas do tempo presente. O deslocamento do poder econômico para corporações, plataformas e finanças móveis impõe limites severos à democracia, à soberania e à redistribuição.

Ao mesmo tempo, os arranjos multilaterais forjados no pós-guerra do século passado perdem efetividade diante da competição regulatória, da opacidade fiscal internacional e do domínio privado de infraestruturas digitais. Essa condição repercute diretamente no modo como o futuro é vivido.

Diferentemente da modernidade clássica orientada por narrativas de progresso e ascensão social, o presente passa a ser experimentado como um tempo fechado, sem projeção emancipatória. Mesmo diante do fracasso evidente do sistema vigente em produzir bem-estar generalizado, a capacidade de imaginar alternativas com densidade institucional parece bloqueada.

Sem futuro, o tempo deixa de ser vetor de transformação e se torna repetição administrada do presente. A crise deixa de ser percebida como evento extraordinário que mobiliza, tornando-se desgaste contínuo. A violência sistêmica é internalizada como cansaço, ansiedade e esgotamento, não como conflito aberto. O resultado é profundamente despolitizante, com muita coisa piora sem que algo exploda de modo claro, pois à sociedade caberia se acostumar a administrar perdas.

Esse futuro não desaparece de uma vez, ele goteja. É parcelado, adiado e capturado por dívidas, metas, métricas e urgências permanentes. A lógica do endividamento transforma o futuro em obrigação, uma vez que o amanhã deixa de ser promessa e vira cobrança.

Assim se instala um regime temporal bloqueado, paradoxal, em que convivem aceleração tecnológica e um presente prolongado incapaz de se tornar passado, mas também desprovido de horizonte. Nessa condição, jovens podem estar altamente escolarizados, conectados e informados, porém sem estabilização material e simbólica, acumulando qualificações, dívidas e experiências sem conversão garantida em vida estável.

O risco do provisório permanente cresce e o colapso não se apresenta como ruptura, mas como esvaziamento gradual do capitalista lento, persistente e socialmente corrosivo. Por isso, transformar para redistribuir não é uma escolha retórica, mas uma exigência histórica.

Se o capitalismo contemporâneo se sustenta por remendos e adiamentos, a transformação não pode ser apenas moral nem apenas técnica. Precisa ser estrutural e institucional, capaz de recuperar capacidade pública de decisão, reconstruir instrumentos de regulação à altura de cadeias globais, finanças móveis e plataformas digitais, e reabrir um horizonte coletivo.

Redistribuir o futuro significa devolver a amplas maiorias a possibilidade real de planejar a vida, projetar expectativas e participar do destino social, enfrentando simultaneamente a captura do excedente por finanças e plataformas, a erosão fiscal via opacidade global e a precarização do trabalho. Sem esse movimento, o interregno tende a se perpetuar num capitalismo que não se renova nem cai, mas que desgasta lentamente a sociedade e suspende o futuro como horizonte comum superior.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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