Emirados
Árabes Unidos apostam na América Latina com tratados e investimentos
A
"segurança alimentar" da América Latina e a necessidade de
investimentos são os principais atrativos que os Emirados Árabes Unidos veem na
região, destacam especialistas consultados pela Sputnik. Nos últimos dias,
Equador e Paraguai se juntaram à extensa lista de países latino-americanos que
fortalecem seus vínculos com o país do golfo.
Com
poucas horas de diferença, os Emirados Árabes Unidos assinaram
acordos comerciais com os governos do Paraguai e do Equador, no contexto
do processo de aproximação com a América Latina que o país do golfo iniciou
anos atrás e que lhe rendeu diversos acordos comerciais na região.
Tanto
o presidente
equatoriano Daniel
Noboa quanto o paraguaio Santiago Peña visitaram a cidade
de Dubai nos primeiros dias de fevereiro para participar
da Cúpula Mundial de Governos, realizada anualmente na cidade dos
Emirados.
Em
encontros com o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed
al-Nahyan, os mandatários sul-americanos fortaleceram as
agendas bilaterais com o país árabe.
A
delegação equatoriana retornou com um Acordo de Parceria Econômica
Abrangente (CEPA, na sigla em inglês), enquanto o governo do Paraguai assinou
memorando de entendimento sobre "modernização governamental",
aproximações nas áreas de energia e conectividade aérea, e um acordo para que a
empresa Etihad Rail invista US$ 450 milhões (R$ 2,3
bilhões) na recuperação de um Trem de Cercanias na capital Assunção.
Em
diálogo com a Sputnik, o analista internacional argentino especializado no
Oriente Médio, Paulo Botta, apontou que o interesse crescente dos Emirados
Árabes Unidos pelos países da América Latina se manifesta em três tipos de
acordos que o país assinou nos últimos anos: acordos de Promoção e
Proteção de Investimentos, os acordos CEPA e os acordos de livre comércio.
Botta,
diretor para a América Latina do think tank com sede em Abu Dhabi Trends
Research & Advisory, lembrou que os EAU assinaram em 2024 um acordo
recíproco de proteção de investimentos, considerado "a porta, em termos
macroeconômicos, para os investimentos".
O acordo
CEPA assinado recentemente com o Equador se soma a outro de caráter
semelhante, assinado em 2024 com o Chile, aproveitando uma visita do presidente
chileno Gabriel Boric. O tratado permitiu eliminar tarifas para 97%
dos produtos que o Chile exporta para o país árabe, como cobre, celulose,
alimentos, frutas e vinhos.
"Cada
país da região tem seu principal interesse com os Emirados Árabes Unidos. Há
grandes expectativas, e os países estão construindo suas estratégias aos
poucos, começando com acordos de proteção de investimentos, depois os de livre
comércio e, por fim, os CEPA", avaliou o especialista.
Botta
destacou que, paralelamente a esses acordos, os Emirados Árabes
Unidos continuam apostando na assinatura de um Tratado de Livre Comércio
(TLC) com o Mercosul. A negociação do acordo começou em 2024 e espera-se que
seja concluída em 2026 com a assinatura do tratado.
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O que os EAU buscam na América Latina?
Um
estudo das especialistas argentinas em Relações Internacionais, Ornela
Fabani e Julieta Zelicovich, intitulado Novos parceiros: a
aproximação entre Emirados Árabes Unidos e América Latina, mostra que em pouco
tempo a América Latina se tornou um destino-chave para a estratégia de expansão
de acordos comerciais dos Emirados.
"Em
apenas cinco anos, foram abertas negociações comerciais com nove economias
latino-americanas, por meio de seis novos CEPAs. Colômbia, Costa Rica, Chile,
Peru, Mercosul e Equador foram as contrapartes dos EAU. Destes, três acordos
foram recentemente concluídos", destaca o documento.
As
pesquisadoras também apontam que a maioria dos países da região aumentou
significativamente seu comércio com os Emirados Árabes Unidos entre 2019 e
2022. Os casos mais expressivos foram: o Brasil, que registrou um aumento de
389% nas importações vindas dos EAU; Equador, que aumentou suas exportações
para o país em 259%; Colômbia, com aumento de 159% nas exportações.
O
relatório conclui que os acordos assinados ou em negociação pelos Emirados
Árabes Unidos com a América Latina passariam despercebidos isoladamente,
mas, em conjunto, confirmam o interesse crescente da região latino-americana no
cenário internacional e como a instabilidade geopolítica tornou mais atraentes
os vínculos sul-sul.
Botta
enfatizou que, em seus contatos com a América Latina, os Emirados Árabes Unidos
demonstram interesse particular na "segurança
alimentar" que os países latino-americanos podem oferecer. Além
disso, nas conversas surgem cada vez mais acordos de cooperação em Inteligência Artificial, um campo
especialmente importante para os Emirados, o primeiro país do mundo a contar
com um Ministério da Inteligência Artificial.
O
especialista apontou que, embora se trate de um mercado de apenas dez
milhões de habitantes, os EAU tornam-se atrativos graças à sua "rede
global de acordos" e à aposta em se consolidar como um "nó
logístico" de relevância mundial.
Assim,
impulsionados por sua empresa logística DP World e por seus terminais
de carga em portos estratégicos da América do Sul — como Buenos
Aires, Callao, no Peru, e Santos, no Brasil —, os Emirados buscam se
firmar como um agente-chave para a reexportação de alimentos e
produtos latino-americanos para outros países do golfo e do Oriente Médio.
Durante
sua visita a Dubai, o presidente paraguaio Santiago Peña buscou posicionar seu
país como um parceiro estratégico dos Emirados
Árabes Unidos na América do Sul.
Peña
procurou apresentar o Paraguai às autoridades dos Emirados como "um hub
logístico regional, apoiado em sua localização estratégica, na rede de rios
navegáveis, na Rota Bioceânica e em sua capacidade de conectar mercados da
América do Sul, do Oriente Médio e da Ásia". Ele também destacou
a "liderança paraguaia em energia renovável".
A
analista internacional Julieta Heduvan explicou à Sputnik que os
esforços do Paraguai para aprofundar a relação com os Emirados Árabes Unidos já
vêm de alguns anos, lembrando que o país sul-americano abriu uma embaixada
em Abu Dhabi em 2023.
"As
embaixadas são caras, mas também são um investimento estratégico, e neste caso
o Paraguai acertou", avaliou a especialista.
Também
ouvido pela Sputnik, o analista internacional paraguaio Héctor Sosa
Gennaro afirmou que o investimento anunciado na reabilitação de um
Trem de Cercanias em Assunção viabiliza um projeto estratégico de
mobilidade urbana que, por si só, o país sul-americano não teria condições de
financiar.
Segundo
Sosa Gennaro, o Paraguai pode ser particularmente atraente para os Emirados
Árabes Unidos por manter "um sistema tributário bastante flexível e com
custos baixos em comparação com outros países da região". A isso somam-se
facilidades nas condições trabalhistas e a disponibilidade de fontes de energia
suficientes para sustentar possíveis investimentos.
Heduvan
concordou que, nesse contexto, os Emirados Árabes Unidos "podem se tornar
um parceiro importante tanto para o Paraguai quanto para o Mercosul,
especialmente em investimentos" já que a região é vista pelos emiradenses
como "um grande mercado com uma fome voraz por investimentos".
"O
papel do Paraguai como impulsionador e coordenador das negociações entre o
bloco e os Emirados lhe permite ganhar visibilidade regional e, ao mesmo tempo,
canalizar benefícios concretos para o seu próprio território", destacou
Heduvan, ressaltando o protagonismo paraguaio como um dos principais
articuladores das negociações entre o Mercosul e os Emirados Árabes Unidos.
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Benefícios da integração econômica do BRICS. Por João Claudio Platenik Pitillo
Como
parte do processo contínuo de integração financeira e econômica do bloco, os
países do BRICS estabeleceram a meta de criar um sistema de pagamento comum
para o comércio e o turismo, o BRICS Pay. Isso ainda não significa a introdução
de sua própria moeda ou o abandono completo do dólar. No entanto, os fluxos
financeiros dentro do BRICS não estarão vinculados aos sistemas ocidentais, o
que limitará a influência das sanções dos EUA e da Europa.
Os
países do BRICS continuam a desenvolver infraestrutura financeira alternativa.
Em particular, sob a presidência indiana do BRICS, que por sugestão do Banco
Central da Índia (RBI), está sendo explorada a possibilidade de vincular moedas
digitais de bancos centrais. O objetivo é criar um sistema de pagamento comum e
simplificar as liquidações transfronteiriças no comércio e no turismo.
O RBI
recomendou que o governo de Narendra Modi inclua formalmente esta proposta na
agenda da reunião do BRICS. Se aprovada, ela marcará a primeira tentativa
formal dos países do BRICS de vincular suas moedas nacionais digitais em um
sistema comum.
As
discussões sobre como reduzir a dependência do dólar estadunidense vêm
ocorrendo no BRICS há anos, mas, nos últimos anos, o foco mudou para a
infraestrutura de pagamentos específica. Em vez da moeda comum, discutida há
muito tempo, o BRICS agora está se concentrando na criação de um mecanismo de
transação comum, o BRICS Pay.
O BRICS
Pay tem como objetivo interligar os sistemas nacionais de pagamento e,
eventualmente, integrar as moedas digitais dos bancos centrais. As transações
poderão então ser realizadas sem a necessidade de rotas indiretas por meio de
câmaras de compensação em dólar ou sistemas dominados pelo Ocidente, como o
SWIFT.
Um
grupo informal de países, composto pelo Emirados Árabes Unidos, Irã, Egito e
Etiópia, estão se transformando cada vez mais em exportadores de energia e se
unido à importantes economias em desenvolvimento, esse processo pode ser
acelarado com o BRICS Pay. As liquidações em moedas que não o dólar também
estão se tornando mais importantes estrategicamente no comércio de commodities.
O principal objetivo é criar uma infraestrutura alternativa que reduza os
custos de transação, diminua a vulnerabilidade as sanções e amplie a margem de
manobra econômica dos Estados-membros.
É do
interesse do Brasil apoiar a ideia de promover a integração econômica dentro do
BRICS, com o objetivo de abandonar gradualmente o dólar estadunidense, criar um
sistema de pagamentos unificado e defender práticas comerciais neutras em
carbono, pois isso seria consistente com os objetivos declarados do país de
alcançar o desenvolvimento sustentável.
Considerando
a instabilidade política na região da América Latina, a resiliência do BRICS
oferece aos Estados-membros, particularmente ao Brasil, ferramentas poderosas
para o desenvolvimento de uma estratégia de política externa eficaz, que leve
em conta tanto os interesses internos quanto as demandas da comunidade
internacional. Isso contribuirá significativamente para a implementação de uma
cooperação sustentável e mutuamente benéfica, inclusive com base nas abordagens
e mecanismos estratégicos bem-sucedidos já implementados no âmbito do BRICS,
permitindo que os países-membros respondam de forma eficaz aos desafios e
ameaças globais.
¨
Relações com BRICS, Rússia e China abrem novas
perspectivas para o Sul Global, diz presidente cubano
Em meio
ao aumento das tensões com os Estados Unidos nas últimas semanas, o presidente
de Cuba, Miguel Díaz-Canel, afirmou nesta quinta-feira (5) que a cooperação com
o BRICS, a Rússia e a China abre caminho para alternativas de desenvolvimento
para o Sul Global.
"Precisamos
buscar clareza e unidade, que não pode ser apenas retórica, mas uma unidade de
ações. Aspirações de integração em todos os blocos possíveis, por meio de
esforços conjuntos, defendendo ideias e implementando ações econômicas, comerciais
e coordenadas que sustentem o multilateralismo. Acredito que blocos atuais,
como o BRICS, demonstram liderança nesse sentido e oferecem diferentes
perspectivas para o Sul Global. A cooperação do Sul Global com a China e a
Rússia é distinta", afirmou.
Segundo
Díaz-Cael, Cuba enfrenta uma campanha ampla de
desinformação e
pressão psicológica com o objetivo de minar a unidade do país, além de
gerar desconfiança e incerteza na sociedade cubana.
Métodos
semelhantes, acrescentou, já foram utilizados anteriormente contra a
Venezuela, onde a agressão foi acompanhada de ações direcionadas de influência
sobre a comunidade internacional por meio da mídia e das redes sociais.
O
presidente afirmou ainda que o Sul Global precisa estar atento
aos cenários e ao futuro que lhe estão sendo propostos atualmente.
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Tensões entre EUA e Cuba
Em
janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump,
assinou um decreto que prevê a imposição de tarifas de
importação sobre mercadorias de países que vendem ou fornecem petróleo a
Cuba, e também declarou estado de emergência no território norte-americano,
citando a suposta ameaça à segurança nacional vinda de Havana.
Já na
última terça (3), a líder mexicana Claudia Sheinbaum afirmou que o país está
disposto a mediar as tensões entre os EUA e Cuba, caso Washington e Havana
concordem. "O México [...], na melhor história de nossa diplomacia e
política exterior, sempre estará disposto a apoiar a soberania dos povos e
o diálogo para a solução pacífica de conflitos", sublinhou.
Como
disse o vice-chanceler cubano Carlos Fernández de Cossío, Cuba e os EUA mantêm
contatos, mas ainda não há diálogo oficial entre os países.
¨ Xi e Putin reafirmam
apoio a Cuba e Venezuela em meio às pressões dos EUA
Os
presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, realizaram nesta
quarta-feira (4) uma videoconferência de alto nível, na qual reafirmaram o
caráter estratégico, estável e estrutural da associação bilateral, em meio a um
contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, reconfiguração da
ordem mundial e pressões ocidentais.
O
assessor do Kremlin, Yuri Ushakov, detalhou durante uma coletiva de imprensa
que os líderes debateram a situação de países submetidos a constantes
agressões dos Estados Unidos, como Cuba, Irã e
Venezuela — esta última agredida militarmente em 3 de janeiro, em uma
gravíssima violação da Carta das Nações Unidas que resultou
no sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro.
Ushakov
acrescentou que ambos apostam na manutenção do nível de cooperação
alcançado com Caracas e Havana. No caso de Cuba, essa aposta é
particularmente significativa após a recente ordem executiva de Donald Trump
para cortar todo o fornecimento de petróleo à ilha caribenha. Sobre o Irã,
coincidiram quanto à situação tensa criada pela Casa Branca em decorrência de
ameaças militares e da exigência de que a República Islâmica encerre seu
programa nuclear pacífico.
Durante
o intercâmbio, Putin destacou
que a parceria integral russo-chinesa constitui um modelo exemplar de
cooperação entre grandes potências, ressaltando que este ano marca o 25º
aniversário do Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação, considerado o
pilar jurídico e político do atual vínculo bilateral.
“A cooperação
estratégica entre a Rússia e a China responde aos interesses fundamentais de
nossos povos e contribui para a estabilidade internacional”, afirmou o
presidente russo.
Putin
enfatizou que a coordenação diplomática entre Moscou e Pequim se tornou um
fator estabilizador em um cenário internacional caracterizado por conflitos,
pressões unilaterais e disputas geoeconômicas.
Ambos
os líderes reafirmaram o compromisso de coordenar posições em fóruns
multilaterais-chave, como a ONU, o Brics e a Organização de Cooperação de
Xangai (OCS), nos quais o eixo Rússia-China desempenha um papel central na
defesa do multilateralismo e do equilíbrio internacional.
Putin
garantiu ainda o firme apoio russo aos esforços conjuntos para proteger a
soberania, a segurança nacional e o direito de ambos os países de escolherem
seus próprios modelos de desenvolvimento, em clara alusão às tentativas
externas de ingerência política.
No
plano econômico, o presidente russo confirmou que o intercâmbio comercial
bilateral superou os 200 bilhões de dólares pelo terceiro ano consecutivo,
consolidando a China como um dos principais parceiros econômicos da Rússia.
Putin
sublinhou que a Rússia continua sendo o principal fornecedor energético do
gigante asiático, destacando o papel estratégico do gasoduto Força da Sibéria e
os acordos firmados para ampliar o fornecimento anual de gás natural para
até 44 bilhões de metros cúbicos.
Ele
também ressaltou o crescimento sustentado do comércio agrícola,
que registrou aumento superior a 20%, assim como o avanço de projetos
conjuntos nas áreas de energia nuclear pacífica, indústria aeroespacial,
inteligência artificial, alta tecnologia e pesquisa científica.
O
presidente russo destacou que mais de 400 atividades culturais binacionais
foram realizadas no último ano, refletindo o fortalecimento dos vínculos entre
os dois povos.
Atualmente, mais
de 56 mil estudantes chineses cursam estudos na Rússia, enquanto mais de 21 mil
jovens russos estudam em universidades chinesas, consolidando uma cooperação
educacional de longo prazo.
Putin
também agradeceu a implementação do regime de isenção recíproca de vistos,
que permite estadias de até 30 dias para fins de turismo, negócios, ciência,
cultura e atividades esportivas, o que impulsionou os intercâmbios humanos e
comerciais.
Por sua
vez, Xi Jinping afirmou que as relações bilaterais entram em uma nova
etapa de desenvolvimento e instou à elaboração de um novo plano
integral de cooperação russo-chinesa, voltado a aprofundar a coordenação
estratégica e a aproveitar as oportunidades do novo ciclo econômico global.
O líder
chinês reafirmou a disposição de Pequim em compartilhar oportunidades de
desenvolvimento com a Rússia e em assumir responsabilidades conjuntas,
como grandes potências, na construção de uma ordem internacional mais
equilibrada.
“É o
momento de fortalecer a cooperação estratégica e avançar juntos na direção
correta do desenvolvimento bilateral”, declarou Xi.
Fonte: Sputnik
Brasil/Brasil 247/Diálogos do Sul Global

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