segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Emirados Árabes Unidos apostam na América Latina com tratados e investimentos

A "segurança alimentar" da América Latina e a necessidade de investimentos são os principais atrativos que os Emirados Árabes Unidos veem na região, destacam especialistas consultados pela Sputnik. Nos últimos dias, Equador e Paraguai se juntaram à extensa lista de países latino-americanos que fortalecem seus vínculos com o país do golfo.

Com poucas horas de diferença, os Emirados Árabes Unidos assinaram acordos comerciais com os governos do Paraguai e do Equador, no contexto do processo de aproximação com a América Latina que o país do golfo iniciou anos atrás e que lhe rendeu diversos acordos comerciais na região.

Tanto o presidente equatoriano Daniel Noboa quanto o paraguaio Santiago Peña visitaram a cidade de Dubai nos primeiros dias de fevereiro para participar da Cúpula Mundial de Governos, realizada anualmente na cidade dos Emirados.

Em encontros com o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed al-Nahyan, os mandatários sul-americanos fortaleceram as agendas bilaterais com o país árabe.

A delegação equatoriana retornou com um Acordo de Parceria Econômica Abrangente (CEPA, na sigla em inglês), enquanto o governo do Paraguai assinou memorando de entendimento sobre "modernização governamental", aproximações nas áreas de energia e conectividade aérea, e um acordo para que a empresa Etihad Rail invista US$ 450 milhões (R$ 2,3 bilhões) na recuperação de um Trem de Cercanias na capital Assunção.

Em diálogo com a Sputnik, o analista internacional argentino especializado no Oriente Médio, Paulo Botta, apontou que o interesse crescente dos Emirados Árabes Unidos pelos países da América Latina se manifesta em três tipos de acordos que o país assinou nos últimos anos: acordos de Promoção e Proteção de Investimentos, os acordos CEPA e os acordos de livre comércio.

Botta, diretor para a América Latina do think tank com sede em Abu Dhabi Trends Research & Advisory, lembrou que os EAU assinaram em 2024 um acordo recíproco de proteção de investimentos, considerado "a porta, em termos macroeconômicos, para os investimentos".

O acordo CEPA assinado recentemente com o Equador se soma a outro de caráter semelhante, assinado em 2024 com o Chile, aproveitando uma visita do presidente chileno Gabriel Boric. O tratado permitiu eliminar tarifas para 97% dos produtos que o Chile exporta para o país árabe, como cobre, celulose, alimentos, frutas e vinhos.

"Cada país da região tem seu principal interesse com os Emirados Árabes Unidos. Há grandes expectativas, e os países estão construindo suas estratégias aos poucos, começando com acordos de proteção de investimentos, depois os de livre comércio e, por fim, os CEPA", avaliou o especialista.

Botta destacou que, paralelamente a esses acordos, os Emirados Árabes Unidos continuam apostando na assinatura de um Tratado de Livre Comércio (TLC) com o Mercosul. A negociação do acordo começou em 2024 e espera-se que seja concluída em 2026 com a assinatura do tratado.

<><> O que os EAU buscam na América Latina?

Um estudo das especialistas argentinas em Relações Internacionais, Ornela Fabani e Julieta Zelicovich, intitulado Novos parceiros: a aproximação entre Emirados Árabes Unidos e América Latina, mostra que em pouco tempo a América Latina se tornou um destino-chave para a estratégia de expansão de acordos comerciais dos Emirados.

"Em apenas cinco anos, foram abertas negociações comerciais com nove economias latino-americanas, por meio de seis novos CEPAs. Colômbia, Costa Rica, Chile, Peru, Mercosul e Equador foram as contrapartes dos EAU. Destes, três acordos foram recentemente concluídos", destaca o documento.

As pesquisadoras também apontam que a maioria dos países da região aumentou significativamente seu comércio com os Emirados Árabes Unidos entre 2019 e 2022. Os casos mais expressivos foram: o Brasil, que registrou um aumento de 389% nas importações vindas dos EAU; Equador, que aumentou suas exportações para o país em 259%; Colômbia, com aumento de 159% nas exportações.

O relatório conclui que os acordos assinados ou em negociação pelos Emirados Árabes Unidos com a América Latina passariam despercebidos isoladamente, mas, em conjunto, confirmam o interesse crescente da região latino-americana no cenário internacional e como a instabilidade geopolítica tornou mais atraentes os vínculos sul-sul.

Botta enfatizou que, em seus contatos com a América Latina, os Emirados Árabes Unidos demonstram interesse particular na "segurança alimentar" que os países latino-americanos podem oferecer. Além disso, nas conversas surgem cada vez mais acordos de cooperação em Inteligência Artificial, um campo especialmente importante para os Emirados, o primeiro país do mundo a contar com um Ministério da Inteligência Artificial.

O especialista apontou que, embora se trate de um mercado de apenas dez milhões de habitantes, os EAU tornam-se atrativos graças à sua "rede global de acordos" e à aposta em se consolidar como um "nó logístico" de relevância mundial.

Assim, impulsionados por sua empresa logística DP World e por seus terminais de carga em portos estratégicos da América do Sul — como Buenos Aires, Callao, no Peru, e Santos, no Brasil —, os Emirados buscam se firmar como um agente-chave para a reexportação de alimentos e produtos latino-americanos para outros países do golfo e do Oriente Médio.

Durante sua visita a Dubai, o presidente paraguaio Santiago Peña buscou posicionar seu país como um parceiro estratégico dos Emirados Árabes Unidos na América do Sul.

Peña procurou apresentar o Paraguai às autoridades dos Emirados como "um hub logístico regional, apoiado em sua localização estratégica, na rede de rios navegáveis, na Rota Bioceânica e em sua capacidade de conectar mercados da América do Sul, do Oriente Médio e da Ásia". Ele também destacou a "liderança paraguaia em energia renovável".

A analista internacional Julieta Heduvan explicou à Sputnik que os esforços do Paraguai para aprofundar a relação com os Emirados Árabes Unidos já vêm de alguns anos, lembrando que o país sul-americano abriu uma embaixada em Abu Dhabi em 2023.

"As embaixadas são caras, mas também são um investimento estratégico, e neste caso o Paraguai acertou", avaliou a especialista.

Também ouvido pela Sputnik, o analista internacional paraguaio Héctor Sosa Gennaro afirmou que o investimento anunciado na reabilitação de um Trem de Cercanias em Assunção viabiliza um projeto estratégico de mobilidade urbana que, por si só, o país sul-americano não teria condições de financiar.

Segundo Sosa Gennaro, o Paraguai pode ser particularmente atraente para os Emirados Árabes Unidos por manter "um sistema tributário bastante flexível e com custos baixos em comparação com outros países da região". A isso somam-se facilidades nas condições trabalhistas e a disponibilidade de fontes de energia suficientes para sustentar possíveis investimentos.

Heduvan concordou que, nesse contexto, os Emirados Árabes Unidos "podem se tornar um parceiro importante tanto para o Paraguai quanto para o Mercosul, especialmente em investimentos" já que a região é vista pelos emiradenses como "um grande mercado com uma fome voraz por investimentos".

"O papel do Paraguai como impulsionador e coordenador das negociações entre o bloco e os Emirados lhe permite ganhar visibilidade regional e, ao mesmo tempo, canalizar benefícios concretos para o seu próprio território", destacou Heduvan, ressaltando o protagonismo paraguaio como um dos principais articuladores das negociações entre o Mercosul e os Emirados Árabes Unidos.

¨      Benefícios da integração econômica do BRICS.  Por João Claudio Platenik Pitillo

Como parte do processo contínuo de integração financeira e econômica do bloco, os países do BRICS estabeleceram a meta de criar um sistema de pagamento comum para o comércio e o turismo, o BRICS Pay. Isso ainda não significa a introdução de sua própria moeda ou o abandono completo do dólar. No entanto, os fluxos financeiros dentro do BRICS não estarão vinculados aos sistemas ocidentais, o que limitará a influência das sanções dos EUA e da Europa.

Os países do BRICS continuam a desenvolver infraestrutura financeira alternativa. Em particular, sob a presidência indiana do BRICS, que por sugestão do Banco Central da Índia (RBI), está sendo explorada a possibilidade de vincular moedas digitais de bancos centrais. O objetivo é criar um sistema de pagamento comum e simplificar as liquidações transfronteiriças no comércio e no turismo.

O RBI recomendou que o governo de Narendra Modi inclua formalmente esta proposta na agenda da reunião do BRICS. Se aprovada, ela marcará a primeira tentativa formal dos países do BRICS de vincular suas moedas nacionais digitais em um sistema comum.

As discussões sobre como reduzir a dependência do dólar estadunidense vêm ocorrendo no BRICS há anos, mas, nos últimos anos, o foco mudou para a infraestrutura de pagamentos específica. Em vez da moeda comum, discutida há muito tempo, o BRICS agora está se concentrando na criação de um mecanismo de transação comum, o BRICS Pay.

O BRICS Pay tem como objetivo interligar os sistemas nacionais de pagamento e, eventualmente, integrar as moedas digitais dos bancos centrais. As transações poderão então ser realizadas sem a necessidade de rotas indiretas por meio de câmaras de compensação em dólar ou sistemas dominados pelo Ocidente, como o SWIFT.

Um grupo informal de países, composto pelo Emirados Árabes Unidos, Irã, Egito e Etiópia, estão se transformando cada vez mais em exportadores de energia e se unido à importantes economias em desenvolvimento, esse processo pode ser acelarado com o BRICS Pay. As liquidações em moedas que não o dólar também estão se tornando mais importantes estrategicamente no comércio de commodities. O principal objetivo é criar uma infraestrutura alternativa que reduza os custos de transação, diminua a vulnerabilidade as sanções e amplie a margem de manobra econômica dos Estados-membros. 

É do interesse do Brasil apoiar a ideia de promover a integração econômica dentro do BRICS, com o objetivo de abandonar gradualmente o dólar estadunidense, criar um sistema de pagamentos unificado e defender práticas comerciais neutras em carbono, pois isso seria consistente com os objetivos declarados do país de alcançar o desenvolvimento sustentável.

Considerando a instabilidade política na região da América Latina, a resiliência do BRICS oferece aos Estados-membros, particularmente ao Brasil, ferramentas poderosas para o desenvolvimento de uma estratégia de política externa eficaz, que leve em conta tanto os interesses internos quanto as demandas da comunidade internacional. Isso contribuirá significativamente para a implementação de uma cooperação sustentável e mutuamente benéfica, inclusive com base nas abordagens e mecanismos estratégicos bem-sucedidos já implementados no âmbito do BRICS, permitindo que os países-membros respondam de forma eficaz aos desafios e ameaças globais.

¨      Relações com BRICS, Rússia e China abrem novas perspectivas para o Sul Global, diz presidente cubano

Em meio ao aumento das tensões com os Estados Unidos nas últimas semanas, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, afirmou nesta quinta-feira (5) que a cooperação com o BRICS, a Rússia e a China abre caminho para alternativas de desenvolvimento para o Sul Global.

"Precisamos buscar clareza e unidade, que não pode ser apenas retórica, mas uma unidade de ações. Aspirações de integração em todos os blocos possíveis, por meio de esforços conjuntos, defendendo ideias e implementando ações econômicas, comerciais e coordenadas que sustentem o multilateralismo. Acredito que blocos atuais, como o BRICS, demonstram liderança nesse sentido e oferecem diferentes perspectivas para o Sul Global. A cooperação do Sul Global com a China e a Rússia é distinta", afirmou.

Segundo Díaz-Cael, Cuba enfrenta uma campanha ampla de desinformação e pressão psicológica com o objetivo de minar a unidade do país, além de gerar desconfiança e incerteza na sociedade cubana.

Métodos semelhantes, acrescentou, já foram utilizados anteriormente contra a Venezuela, onde a agressão foi acompanhada de ações direcionadas de influência sobre a comunidade internacional por meio da mídia e das redes sociais.

O presidente afirmou ainda que o Sul Global precisa estar atento aos cenários e ao futuro que lhe estão sendo propostos atualmente.

<><> Tensões entre EUA e Cuba

Em janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto que prevê a imposição de tarifas de importação sobre mercadorias de países que vendem ou fornecem petróleo a Cuba, e também declarou estado de emergência no território norte-americano, citando a suposta ameaça à segurança nacional vinda de Havana.

Já na última terça (3), a líder mexicana Claudia Sheinbaum afirmou que o país está disposto a mediar as tensões entre os EUA e Cuba, caso Washington e Havana concordem. "O México [...], na melhor história de nossa diplomacia e política exterior, sempre estará disposto a apoiar a soberania dos povos e o diálogo para a solução pacífica de conflitos", sublinhou.

Como disse o vice-chanceler cubano Carlos Fernández de Cossío, Cuba e os EUA mantêm contatos, mas ainda não há diálogo oficial entre os países.

¨      Xi e Putin reafirmam apoio a Cuba e Venezuela em meio às pressões dos EUA

Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, realizaram nesta quarta-feira (4) uma videoconferência de alto nível, na qual reafirmaram o caráter estratégico, estável e estrutural da associação bilateral, em meio a um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, reconfiguração da ordem mundial e pressões ocidentais.

O assessor do Kremlin, Yuri Ushakov, detalhou durante uma coletiva de imprensa que os líderes debateram a situação de países submetidos a constantes agressões dos Estados Unidos, como Cuba, Irã e Venezuela — esta última agredida militarmente em 3 de janeiro, em uma gravíssima violação da Carta das Nações Unidas que resultou no sequestro de seu presidente, Nicolás Maduro.

Ushakov acrescentou que ambos apostam na manutenção do nível de cooperação alcançado com Caracas e Havana. No caso de Cuba, essa aposta é particularmente significativa após a recente ordem executiva de Donald Trump para cortar todo o fornecimento de petróleo à ilha caribenha. Sobre o Irã, coincidiram quanto à situação tensa criada pela Casa Branca em decorrência de ameaças militares e da exigência de que a República Islâmica encerre seu programa nuclear pacífico.

Durante o intercâmbio, Putin destacou que a parceria integral russo-chinesa constitui um modelo exemplar de cooperação entre grandes potências, ressaltando que este ano marca o 25º aniversário do Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação, considerado o pilar jurídico e político do atual vínculo bilateral.

“A cooperação estratégica entre a Rússia e a China responde aos interesses fundamentais de nossos povos e contribui para a estabilidade internacional”, afirmou o presidente russo.

Putin enfatizou que a coordenação diplomática entre Moscou e Pequim se tornou um fator estabilizador em um cenário internacional caracterizado por conflitos, pressões unilaterais e disputas geoeconômicas.

Ambos os líderes reafirmaram o compromisso de coordenar posições em fóruns multilaterais-chave, como a ONU, o Brics e a Organização de Cooperação de Xangai (OCS), nos quais o eixo Rússia-China desempenha um papel central na defesa do multilateralismo e do equilíbrio internacional.

Putin garantiu ainda o firme apoio russo aos esforços conjuntos para proteger a soberania, a segurança nacional e o direito de ambos os países de escolherem seus próprios modelos de desenvolvimento, em clara alusão às tentativas externas de ingerência política.

No plano econômico, o presidente russo confirmou que o intercâmbio comercial bilateral superou os 200 bilhões de dólares pelo terceiro ano consecutivo, consolidando a China como um dos principais parceiros econômicos da Rússia.

Putin sublinhou que a Rússia continua sendo o principal fornecedor energético do gigante asiático, destacando o papel estratégico do gasoduto Força da Sibéria e os acordos firmados para ampliar o fornecimento anual de gás natural para até 44 bilhões de metros cúbicos.

Ele também ressaltou o crescimento sustentado do comércio agrícola, que registrou aumento superior a 20%, assim como o avanço de projetos conjuntos nas áreas de energia nuclear pacífica, indústria aeroespacial, inteligência artificial, alta tecnologia e pesquisa científica.

O presidente russo destacou que mais de 400 atividades culturais binacionais foram realizadas no último ano, refletindo o fortalecimento dos vínculos entre os dois povos.

Atualmente, mais de 56 mil estudantes chineses cursam estudos na Rússia, enquanto mais de 21 mil jovens russos estudam em universidades chinesas, consolidando uma cooperação educacional de longo prazo.

Putin também agradeceu a implementação do regime de isenção recíproca de vistos, que permite estadias de até 30 dias para fins de turismo, negócios, ciência, cultura e atividades esportivas, o que impulsionou os intercâmbios humanos e comerciais.

Por sua vez, Xi Jinping afirmou que as relações bilaterais entram em uma nova etapa de desenvolvimento e instou à elaboração de um novo plano integral de cooperação russo-chinesa, voltado a aprofundar a coordenação estratégica e a aproveitar as oportunidades do novo ciclo econômico global.

O líder chinês reafirmou a disposição de Pequim em compartilhar oportunidades de desenvolvimento com a Rússia e em assumir responsabilidades conjuntas, como grandes potências, na construção de uma ordem internacional mais equilibrada.

“É o momento de fortalecer a cooperação estratégica e avançar juntos na direção correta do desenvolvimento bilateral”, declarou Xi.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Brasil 247/Diálogos do Sul Global

 

Nenhum comentário: