terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Presidente de Cuba detalha medidas de emergência diante dos crescentes ataques dos EUA

O presidente Miguel Díaz-Canel concedeu uma extensa coletiva de imprensa na qual explicou as medidas de emergência que o governo está adotando diante da crescente hostilidade dos Estados Unidos.

Ao iniciar, o presidente informou que, diante da crise que o país atravessa, as mais altas autoridades — incluindo o Conselho de Defesa Nacional — estão atualizando “o plano a ser executado a partir das diretrizes do governo para enfrentar uma escassez aguda de combustíveis”.

Além disso, diante das reiteradas acusações de Washington, assim como da imprensa hegemônica, sobre um suposto “colapso iminente” do país, o mandatário cubano lembrou que, ao longo de mais de seis décadas, o país enfrentou “com muita resistência” as máximas pressões da principal potência mundial. Segundo Díaz-Canel, “a teoria do colapso”, como a denominou, estaria relacionada à “teoria do Estado falido e a todo um conjunto de construções que o governo dos EUA utilizou para caracterizar a situação cubana”.

Ao recordar as recentes declarações de Trump, que em uma entrevista televisiva afirmou que Washington já estava exercendo toda a pressão possível e ameaçou dizendo que “não se pode exercer muito mais pressão, a não ser entrar e destruir o lugar”, o presidente cubano indicou que, em Cuba, não existe um “Estado falido”, como aponta o governo estadunidense. Díaz-Canel reiterou que Cuba é “um Estado que teve de enfrentar com muita resistência as máximas pressões, não de qualquer um, mas as máximas pressões para o sufocamento econômico pela principal potência mundial”.

“Nascemos e vivemos bloqueados, e nascemos sob os signos desse sufocamento econômico. Sempre tivemos carências, sempre enfrentamos dificuldades complexas, sempre tivemos de operar em meio a vicissitudes, imposições e pressões que não são impostas a ninguém no mundo, e muito menos de maneira tão prolongada.”

<><> Diálogo com os Estados Unidos

Com relação a possíveis diálogos e acordos entre Havana e Washington, Díaz-Canel lembrou que, desde o triunfo da Revolução, a “posição histórica de Cuba” sempre defendeu a disposição para o diálogo, desde que seja respeitada a soberania da nação caribenha.

Ele ressaltou que se trata de “uma posição definida e defendida pelo comandante em chefe Fidel Castro, que foi continuada pelo general de Exército Raúl Castro e que, a meu ver, é inalterável e invariante nos momentos atuais”.

“Cuba está disposta a dialogar com os Estados Unidos, a dialogar sobre qualquer um dos temas que se queira debater”, enfatizou, ao afirmar que a única condição é que o diálogo ocorra “a partir de uma posição de igualdade e pleno respeito à soberania, independência e autodeterminação de Cuba”.

Também destacou que é possível “construir uma relação civilizada” entre os dois países, o que poderia ser benéfico para seus povos.

<><> Resistência criativa

Foi a primeira aparição do governo cubano diante da imprensa após Washington decidir endurecer ainda mais sua política de guerra econômica contra a ilha, por meio de uma ordem executiva — assinada na quinta-feira passada (29) — que declara uma “emergência nacional”, sob o argumento de que Cuba representa uma suposta “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos.

Com o objetivo explícito de aprofundar o estrangulamento energético da ilha caribenha, a ordem executiva ameaça impor tarifas aos países que “vendam ou forneçam petróleo a Cuba”.

Calcula-se que Cuba produza aproximadamente um terço do petróleo necessário para seu abastecimento energético, enquanto os dois terços restantes dependem de importações. Dessa forma, a agressão de Washington busca afetar múltiplos aspectos da vida na ilha, desde a mobilidade das pessoas até a produção e o transporte de bens e serviços, incluindo alimentação, educação e saúde, intensificando assim o “castigo coletivo” que implica o ilegal bloqueio.

Durante a coletiva, Díaz-Canel voltou a enfatizar a necessidade de construir uma “resistência criativa”, conceito que tem defendido reiteradamente nos últimos tempos.

“A resistência criativa tem a ver com a defesa de ideias e convicções nas quais acreditamos, assim como com uma convicção de vitória”, assegurou, acrescentando: “Não sou idealista. Sei que vamos viver tempos difíceis. Já vivemos tempos difíceis, e estes em particular serão. Mas vamos superá-los entre todos, com resistência criativa, com o esforço e o talento da maioria dos cubanos e cubanas”.

Além disso, destacou que cada solução buscada deve contar com “a participação popular”, à qual chamou para fortalecer e aprofundar diante do que considerou “insuficiências”.

<><> A Revolução Cubana e a Venezuela

Sobre a relação com a Venezuela, Díaz-Canel afirmou que, apesar das tentativas de apresentá-la de outro modo, não se trata de uma relação de dependência. O mandatário enfatizou que essa visão simplista reduz o vínculo a uma mera troca de bens e serviços e ignora a realidade complexa e sólida construída com a Revolução Bolivariana desde a liderança de Chávez.

Explicou que, ao longo de mais de 25 anos, os acordos entre os dois países tiveram como objetivo estabelecer laços de cooperação e solidariedade, com um “foco no social e na justiça social”, e destacou que tais acordos inspiraram a criação da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos  (Alba-TCP), permitindo estender esses “princípios de integração a vários países da América Latina e do Caribe”.

“Os acordos buscavam a integração da América Latina e do Caribe, aquela integração sonhada por Martí e Bolívar, e defendida por Fidel e Chávez”, afirmou.

O presidente cubano apontou que, desde dezembro passado, Cuba não recebe petróleo da Venezuela devido ao bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos contra o país. Indicou que essa situação se agravou após o bombardeio de Washington contra Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada Cilia Flores.

Sobre o futuro dos vínculos com a Venezuela, Díaz-Canel afirmou que dependerão da “capacidade” de ambos os países de construir “esse futuro a partir da situação presente de uma Venezuela que foi agredida, à qual sequestraram ilegalmente o presidente e sua esposa, e os mantêm presos nos Estados Unidos”.

Ao ressaltar que a colaboração de Cuba se fundamenta na solidariedade e na resposta aos pedidos de outros povos e governos, afirmou que, “enquanto o governo venezuelano favorecer e defender a colaboração, Cuba estará disposta a colaborar”.

<><> A resistência do Sul Global

Em relação à crescente agressividade dos Estados Unidos, o presidente Díaz-Canel afirmou que “o mundo não pode se deixar dominar, o mundo não pode se deixar humilhar, o mundo não pode permitir que a força destrua o multilateralismo”.

Para ele, o mundo vive uma “guerra não convencional”, através da qual os Estados Unidos tentam impor “os paradigmas e padrões” do que chamou de sua “filosofia imperial”. Frente a isso, defendeu a necessidade de “alcançar uma mobilização anti-hegemônica” e “uma articulação antifascista”.

Referindo-se à difícil situação que Cuba atravessa, reconheceu que “pode haver preocupação na população”. No entanto, ressaltou os mecanismos de participação popular na tomada de decisões para enfrentar a crise.

Por sua vez, destacou que, embora “Cuba seja um país de paz”, a doutrina de defesa nacional é “a concepção da guerra de todo o povo”, definida como “um conceito de defesa da soberania e da independência” que não contempla “a agressão a outro país”.

Além disso, explicou que os sábados foram declarados como “dias nacionais da defesa”, através dos quais estão sendo preparados os “sistemas defensivos territoriais” para enfrentar possíveis agressões. Também indicou que o “plano para a passagem ao estado de guerra, se necessário”, foi atualizado.

<><> Transição energética e cuidado com os mais vulneráveis

O presidente explicou que, desde aproximadamente dois anos atrás, o país tem priorizado avançar em uma transição energética para fontes renováveis que possam ser produzidas localmente. Sinalizou que, em apenas um ano, a produção de energia solar passou de 3% para 10%. Ressaltou os avanços alcançados no último ano e destacou o trabalho dos cientistas cubanos “apesar das enormes dificuldades”.

Informou que o Estado cubano está instalando 5 mil sistemas fotovoltaicos em residências que não possuíam eletricidade, localizadas em áreas rurais e de difícil acesso. Além disso, indicou que, com caráter de urgência, outros 5 mil sistemas fotovoltaicos estão sendo instalados em “centros vitais para prestar serviços à população”, como lares maternos e de idosos, policlínicas e residências de crianças com doenças que dependem de equipamentos elétricos, entre outros.

Como parte das prioridades da Revolução, informou também que serão destinados mais 10 mil sistemas fotovoltaicos para que profissionais da saúde, educação e demais trabalhadores essenciais possam adquiri-los com “facilidades de pagamento” para instalá-los em suas residências.

<><> ‘Uma inquietação com compromisso’

Em um dos momentos mais emocionantes de seu discurso, Díaz-Canel se referiu à juventude cubana que, dia após dia, enfrenta as agressões imperialistas, afirmando: “É de tirar o chapéu”.

“Cada vez que me encontrei com jovens, que participei de debates com eles, sempre aprendi e me nutri de experiências e perspectivas”, destacou o presidente. Acrescentou que, ao ouvi-los, é possível ver as coisas “de outra maneira: mais atualizada, mais contemporânea, mais ousada. E essa ousadia, essa inquietação com compromisso, faz muito bem à nação e a tudo o que queremos realizar”.

Afirmou que é lógico confiar nos jovens, já que sempre desempenharam um “papel fundamental” na história de Cuba, e destacou que as novas gerações compartilham esse mesmo “legado” histórico.

“Confiamos nesses jovens. E que exemplo melhor sintetiza os valores e o projeto dessa juventude nos momentos atuais? Os 32. Essa é a nossa juventude. São presente e futuro da nação, presente e futuro da pátria, e é preciso cuidá-los muito”.

¨      Em meio à intensificação do bloqueio, Cuba amplia uso de fontes próprias de energia, afirma presidente

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, declarou que a ilha socialista possui estratégias para ampliar o uso de suas próprias fontes de energia e reduzir a dependência de importações, em meio ao endurecimento do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos.

Segundo o mandatário, o Conselho de Ministros do governo cubano aprovou diretrizes para um plano de contingência destinado a combater as tentativas estadunidenses de estrangular a economia de Havana. De acordo com sua declaração, “restrições temporárias ao consumo e maior conservação de energia serão necessárias”, mas não serão permanentes, e sim “ajustes às condições reais do país”.

Ele enfatizou que a resposta do Estado cubano se baseia em uma estratégia abrangente para a transformação da matriz energética, que inclui: a recuperação da capacidade de geração de eletricidade, o uso de suas próprias fontes, o aumento das capacidades de armazenamento afetadas após o acidente na base de superpetroleiros de Matanzas, o aumento da produção nacional de petróleo bruto, a geração de eletricidade a partir do gás natural associado ao petróleo e o desenvolvimento de sua própria frota de navios.

Em paralelo, Cuba iniciou a construção de parques fotovoltaicos, dos quais 49 foram concluídos em 2025, o que ajudou a reduzir o déficit de eletricidade durante o dia. Essa estrutura é responsável por 38% da produção de energia do país atualmente e auxiliou o défict em meio à escassez de combustível.

Díaz-canel também anunciou que sisteas fotovoltaicos estão sendo instalados em resiências, centros de atendimento prioritário (maternidades, lares de idosos, centros para a terceira idade, policlínicas, abrigos para crianças vulneráveis ​​e agências bancárias) e em demais locais de educação e saúde no país.

Durante a coletiva de imprensa, o presidente cubano também revelou que novos investimentos estão sendo desenvolvidos em capacidade de geração de energia eólica e que testes para refinar o petróleo bruto cubano e obter derivados, bem como a aquisição de motores capazes de usar esse combustível foram bem-sucedidos.

O líder cubano enfatizou que nenhuma dessas ações, por si só, resolverá o problema imediatamente , mas ressaltou que a situação “não é mais grave graças aos avanços na mudança da matriz energética”.

<><> Intensificação do bloqueio pelos EUA

A declarações de Díaz-Canel surgem em um contexto de crescente ofensiva diplomática de Cuba em fóruns internacionais, nos quais o país tem denunciado sistematicamente os impactos econômicos, sociais e humanitários do bloqueio imposto pelos EUA, em vigor há mais de seis décadas e descrito por Havana como uma “política de punição coletiva” contra seu povo.

Cuba também denunciou as medidas coercitivas unilaterais dos Estados Unidos como violações do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, caracterizando-as como formas de “guerra econômica” destinadas a provocar agitação social e desestabilizar a ordem constitucional do país. Essas denúncias foram acompanhadas por acusações de pressão e ameaças contra terceiros países para enfraquecer o consenso internacional contra o bloqueio.

Díaz-Canel lembrou que seu país “não recebe uma gota de combustível desde 3 de dezembro”, situação que tem um impacto diretamente a saúde pública, economia, transportes, geração de energia elétrica e sobrevivência diária do país. Apesar disso, garantiu que seu governo está trabalhando para minimizar os efeitos dessa agressão, afetando a população o mínimo possível e permitindo também a reativação da economia.

O presidente cubano questionou as implicações humanas da política estadunidense: “o que significa impedir que o combustível chegue a um país?”, perguntou, antes de salientar que se trata de uma medida que afeta diretamente a vida de milhões de pessoas. No entanto, deixou claro que a rendição não é uma opção e que Cuba “não abrirá mão de seu direito soberano de receber combustível”.

“A intensificação da pressão da Casa Branca está gerando um impacto psicológico deliberado, com o objetivo de semear o medo como parte de uma estratégia de estrangulamento econômico”, declarou. Para o presidente, a intensificação do cerco dos EUA às compras de combustível “confirma a validade da estratégia adotada por Cuba para garantir a soberania energética”.

“Cuba não renunciará ao seu direito de receber combustível. É um direito soberano”, enfatizou Díaz-Canel, acrescentando que “a rendição não é uma opção” e deixando claro que os EUA “não têm o direito de impor sua política de guerra econômica a Cuba ou outros países”.

<><> Como funciona o setor energético de Cuba?

Opera Mundi conversou com Aline Miglioli, e conomista e pesquisadora sobre o mercado imobiliário de Cuba, para entender o contexto em que a ilha socialista está inserida. Segundo la, “Cuba tem uma dependência energética do petróleo em uma situação em que não é fácil conseguir petróleo. Hoje, o país não só enfrenta o alto custo do petróleo, a dificuldade de encontrar parceiros comerciais, mas também a dificuldade de logística”.

Isso ocorre porque o bloqueio imposto pelos Estados Unidos à ilha tem “dimensões desconhecidas”, sendo uma delas justamente as questões logísticas. “Os navios que atracam em Cuba precisam ficar em quarentena por meses e não podem atracar nos Estados Unidos depois. Mas Cuba fica a 200 quilômetros da Flórida, nos EUA. Em que plano logístico faz sentido um navio que faz comércio estrangeiro passar por Cuba e não passar pelos Estados Unidos?”, explicou ela, apontando que o petróleo, além de caro e pesado de transportar, ainda enfrenta essa imposição logística do bloqueio para chegar até a ilha.

Diante da dificuldade com o petróleo, outras formas de produção de energia como em unsinas hidrelétricas, instalações para energia solar ou nuclear podem ser consideradas para Cuba. Contudo, o país não tem rios ou capacidade tecnológica e financeira suficiente para importar os insumos necessários para promover formas alternativas de energia.

Em relação à energia produzida por usinas nucleares, Miglioli explica que a União Soviética doou à Cuba em 1976 uma estação de energia nuclear, mas com a queda da URSS o projeto não foi finalizado. “Cuba não conseguiu de maneira autônoma reanimar esses investimentos e a estrutura foi se deteriorando de forma que hoje é muito mais custoso terminar essa obra”, afirmou.

Assim, mesmo com a dificuldade dos barris de petróleo chegarem a Cuba, o país ainda depende quase que exclusivamente deste tipo de energia, segundo a especialista.

Por fim, Miglioli explicou que o bloqueio que os EUA impõem a Cuba “é muito mais do que um bloqueio comercial”. “A gente às vezes acha que o bloqueio significa que os cubanos não podem comprar nada dos Estados Unidos, como ter Iphone. Mas não é bem isso. O bloqueio é muito extenso e determina que cubanos não podem comercializar com empresas norte-americanas. Mas não só isso, diz que os Estados Unidos não podem comercializar com nenhuma empresa estrangeira que também comercialize com Cuba”, ressaltou.

Assim, a pesquisadora avalia que todas as alternativas para solucionar a crise de energia na ilha socialista recaem em buscar outros parceiros internacionais. Um desses seria a China por “despontar com tecnologias de energia renovável e limpa”, no lugar do clássico petróleo utilizado pelo país.

 

Fonte: Brasil de Fato/Opera Mundi

 

Nenhum comentário: