terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O sacerdote dos excluídos: a história de Júlio Lancellotti

A cena era tocante e inspiradora. Em plena pandemia de covid-19, um senhor de 72 anos derrubava a marretadas as pedras colocadas pela Prefeitura de São Paulo sob um viaduto da Zona Leste da cidade.

Apresentadas como “ornamentação”, as pedras estavam ali para cumprir um objetivo bem menos nobre: tornar o espaço público impróprio para a permanência da população em situação de rua. Uma manifestação típica da arquitetura hostil, buscando varrer os indesejáveis do campo de visão da metrópole.

O homem que empunhava a marreta era o padre Júlio Lancellotti. À frente da Paróquia São Miguel Arcanjo, ele é o coordenador da Pastoral do Povo de Rua e conduz um dos mais importantes projetos sociais direcionados aos grupos em situação de vulnerabilidade, denunciando e enfrentando a aporofobia, a violência do Estado e o modelo excludente de organização política e socioeconômica.

<><> Juventude e formação

Júlio Renato Lancellotti nasceu em 27 de dezembro de 1948, em São Paulo. Era um dos três filhos do comerciante Milton Fagundes Lancellotti e da cozinheira Wilma Ferrari. Passou sua infância no bairro do Tatuapé e foi alfabetizado em casa por sua mãe, mulher culta e habituada à leitura.

Júlio cursou o ensino primário no Educandário Espírito Santo, colégio religioso mantido pelas Missionárias Servas do Espírito Santo. Conciliava o estudo com o trabalho, ajudando o pai com os afazeres da mercearia.

Aos 12 anos, Júlio ingressou em um seminário em Araraquara, mas a experiência foi curta. Ele abandonou o ensino religioso, após se decepcionar com os castigos físicos e com a rotina de humilhações impostas aos internos. Concluiu o ensino básico em um ginásio agostiniano e posteriormente ingressou no curso de auxiliar de enfermagem da Santa Casa de Misericórdia em Bragança Paulista.

Em paralelo ao curso de enfermagem, Júlio se graduou em pedagogia pelas Faculdades Oswaldo Cruz. Em seguida, especializou-se em orientação educacional na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde atuaria mais tarde como professor.

Após trabalhar no Hospital São José do Brás, Júlio Lancellotti passou a atuar no Serviço Social de Menores da prefeitura de São Paulo e ministrou aulas para crianças acolhidas no Centro de Apoio ao Imigrante. Em 1980, tornou-se amigo de Dom Luciano Mendes de Almeida, futuro arcebispo de Mariana, que o incentivou a seguir a carreira eclesiástica.

<><> Carreira religiosa e trabalho social na FEBEM

Júlio iniciou os estudos de teologia em 1981, sendo ordenado padre quatro anos mais tarde. Ao lado de Dom Luciano, ele foi um dos fundadores da Pastoral do Menor e da Pastoral da Criança — órgãos que se destacariam pelas ações em defesa dos direitos das crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Também foi um dos formuladores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Em 1986, Júlio foi nomeado pároco da Igreja de São Miguel Arcanjo, localizada no bairro da Mooca. Em seguida, assumiu a função de Vigário Episcopal para o Povo da Rua, passando a coordenar algumas das mais importantes obras sociais da Igreja Católica em São Paulo.

Padre Júlio liderou a campanha contra os maus tratos e abusos físicos infligidos aos menores internos da FEBEM, articulando um manifesto contra a chamada “política do cacete pedagógico” e pressionando pela demissão da presidente da instituição, Maria Inês Bierrenbach.

O sacerdote também esteve à frente das denúncias sobre as torturas praticadas na FEBEM de Franco da Rocha. A pressão exercida por padre Júlio, aliada à violenta rebelião que destruiu o Complexo Imigrantes em 1999, contribuiu para a reformulação da política voltada aos menores infratores e para a substituição da FEBEM pela Fundação CASA.

<><> População em situação de rua

Além do trabalho com menores infratores, padre Júlio conduziu uma série de programas sociais e iniciativas voltadas a apoiar famílias carentes, detentos em liberdade condicional e pessoas em situação de rua. No início dos anos 90, ele fundou as “Casas Vida,” para abrigar crianças vivendo com HIV, e construiu o Centro Comunitário São Martinho de Lima, voltado ao acolhimento de menores abandonados.

Há décadas, padre Júlio realiza visitas diárias a praças, viadutos e outros locais que servem de abrigo às pessoas sem teto. Ele coordena a distribuição diária de marmitas e kits de higiene e atua como mediador entre a população de rua e o poder público, cobrando vagas em albergues, direcionando pessoas para o atendimento médico e para inscrição em programas sociais.

Ainda nos anos 90, padre Júlio liderou uma importante campanha de combate à prostituição infantil. Ele denunciou o envolvimento de policiais militares em esquemas de exploração sexual de meninas e cooptação de menores para o tráfico de crack e forneceu informações que serviram de base à CPI da Prostituição Infantil, instalada na Câmara Municipal de São Paulo.

Padre Júlio também confrontou as operações policiais que visavam expulsar os moradores de rua do centro de São Paulo. Ele denunciou o confisco sistemático de cobertores, colchonetes e papelões por agentes da prefeitura e organizou atos e manifestações abordando os ataques violentos contra pessoas sem teto no centro.

<><> Entre prêmios e ataques

As obras sociais do padre Júlio Lancellotti lhe renderam ampla admiração e reconhecimento internacional. O padre recebeu o Prêmio Franz de Castro Holzwarth da OAB e o Prêmio OPAS da Organização Panamericana de Saúde em 2003. Ganhou o Prêmio Nacional de Direitos Humanos em 2004 e o Prêmio Zilda Arns em 2021. Em 2023, foi condecorado pelo presidente Lula com a Ordem do Mérito do Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

Não obstante, padre Júlio também enfrenta forte oposição dos setores reacionários da sociedade, incomodados tanto com o trabalho social do pároco com a população marginalizada como com seu apoio a lideranças políticas de esquerda.

Vítima de uma tentativa de extorsão em 2007, Júlio Lancellotti se tornou um dos principais alvos da perseguição da direita. Foi impiedosamente caluniado por lideranças neopentecostais e políticos conservadores, que chegaram a acusá-lo de pedofilia. Recebeu até mesmo ameaças de morte de pessoas incomodadas com o trabalho desenvolvido junto aos moradores de rua, dependentes químicos e transexuais no bairro da Mooca.

Padre Júlio foi atacado repetidas vezes e chamado de “cafetão da miséria” por membros do MBL. Também foi ofendido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e rotulado como incentivador da “acomodação” dos moradores de rua pela ex-primeira-dama de São Paulo, Bia Doria. A deputada Janaina Paschoal, por sua vez, o acusou de “ajudar o crime”.

O vigário, entretanto, não se deixou intimidar e prosseguiu com suas obras sociais. Durante a pandemia de covid-19, transformou sua igreja em um alojamento para pessoas em situação de rua e manteve a rotina de entrega de marmitas na região da Cracolândia.

Em 2 de fevereiro de 2021, padre Júlio quebrou a marretadas as pedras que a prefeitura de São Paulo havia instalado sob um viaduto da Zona Leste para impedir a presença de moradores de rua. A ação inspirou a criação do Projeto de Lei 488/2021, de autoria de Fabiano Contarato, proibindo o emprego de arquitetura urbana hostil em espaços de uso público. O PL foi aprovado em 2022, após a derrubada do veto integral de Jair Bolsonaro, dando origem à “Lei Padre Júlio Lancellotti”.

Mais recentemente, em dezembro de 2025, o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, determinou que padre Júlio parasse de usar as redes sociais e de transmitir suas missas pela internet. A medida, apresentada como necessária para “proteger” padre Júlio, foi recebida como tentativa de censura.

Apesar dos percalços, padre Júlio segue firme em sua missão, ciente de que os obstáculos são inevitáveis. “Humanizar a vida significa entender que existe conflito. E você não humaniza a vida numa sociedade como a nossa sem conflito”, explicou o padre. “A pressão é grande, mas enfrento isso com fé e coragem, pois sei que estou do lado certo. Estou do lado que Jesus gostaria que eu estivesse”.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

Nenhum comentário: