O
sacerdote dos excluídos: a história de Júlio Lancellotti
A cena
era tocante e inspiradora. Em plena pandemia de covid-19, um senhor de 72 anos
derrubava a marretadas as pedras colocadas pela Prefeitura de São Paulo sob um
viaduto da Zona Leste da cidade.
Apresentadas
como “ornamentação”, as pedras estavam ali para cumprir um objetivo bem menos
nobre: tornar o espaço público impróprio para a permanência da população em
situação de rua. Uma manifestação típica da arquitetura hostil, buscando varrer
os indesejáveis do campo de visão da metrópole.
O homem
que empunhava a marreta era o padre Júlio Lancellotti. À frente da Paróquia São
Miguel Arcanjo, ele é o coordenador da Pastoral do Povo de Rua e conduz um dos
mais importantes projetos sociais direcionados aos grupos em situação de
vulnerabilidade, denunciando e enfrentando a aporofobia, a violência do Estado
e o modelo excludente de organização política e socioeconômica.
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Juventude e formação
Júlio
Renato Lancellotti nasceu em 27 de dezembro de 1948, em São Paulo. Era um dos
três filhos do comerciante Milton Fagundes Lancellotti e da cozinheira Wilma
Ferrari. Passou sua infância no bairro do Tatuapé e foi alfabetizado em casa
por sua mãe, mulher culta e habituada à leitura.
Júlio
cursou o ensino primário no Educandário Espírito Santo, colégio religioso
mantido pelas Missionárias Servas do Espírito Santo. Conciliava o estudo com o
trabalho, ajudando o pai com os afazeres da mercearia.
Aos 12
anos, Júlio ingressou em um seminário em Araraquara, mas a experiência foi
curta. Ele abandonou o ensino religioso, após se decepcionar com os castigos
físicos e com a rotina de humilhações impostas aos internos. Concluiu o ensino
básico em um ginásio agostiniano e posteriormente ingressou no curso de
auxiliar de enfermagem da Santa Casa de Misericórdia em Bragança Paulista.
Em
paralelo ao curso de enfermagem, Júlio se graduou em pedagogia pelas Faculdades
Oswaldo Cruz. Em seguida, especializou-se em orientação educacional na
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde atuaria mais tarde
como professor.
Após
trabalhar no Hospital São José do Brás, Júlio Lancellotti passou a atuar no
Serviço Social de Menores da prefeitura de São Paulo e ministrou aulas para
crianças acolhidas no Centro de Apoio ao Imigrante. Em 1980, tornou-se amigo de
Dom Luciano Mendes de Almeida, futuro arcebispo de Mariana, que o incentivou a
seguir a carreira eclesiástica.
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Carreira religiosa e trabalho social na FEBEM
Júlio
iniciou os estudos de teologia em 1981, sendo ordenado padre quatro anos mais
tarde. Ao lado de Dom Luciano, ele foi um dos fundadores da Pastoral do Menor e
da Pastoral da Criança — órgãos que se destacariam pelas ações em defesa dos
direitos das crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Também foi
um dos formuladores do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Em
1986, Júlio foi nomeado pároco da Igreja de São Miguel Arcanjo, localizada no
bairro da Mooca. Em seguida, assumiu a função de Vigário Episcopal para o Povo
da Rua, passando a coordenar algumas das mais importantes obras sociais da
Igreja Católica em São Paulo.
Padre
Júlio liderou a campanha contra os maus tratos e abusos físicos infligidos aos
menores internos da FEBEM, articulando um manifesto contra a chamada “política
do cacete pedagógico” e pressionando pela demissão da presidente da
instituição, Maria Inês Bierrenbach.
O
sacerdote também esteve à frente das denúncias sobre as torturas praticadas na
FEBEM de Franco da Rocha. A pressão exercida por padre Júlio, aliada à violenta
rebelião que destruiu o Complexo Imigrantes em 1999, contribuiu para a
reformulação da política voltada aos menores infratores e para a substituição
da FEBEM pela Fundação CASA.
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População em situação de rua
Além do
trabalho com menores infratores, padre Júlio conduziu uma série de programas
sociais e iniciativas voltadas a apoiar famílias carentes, detentos em
liberdade condicional e pessoas em situação de rua. No início dos anos 90, ele
fundou as “Casas Vida,” para abrigar crianças vivendo com HIV, e construiu o
Centro Comunitário São Martinho de Lima, voltado ao acolhimento de menores
abandonados.
Há
décadas, padre Júlio realiza visitas diárias a praças, viadutos e outros locais
que servem de abrigo às pessoas sem teto. Ele coordena a distribuição diária de
marmitas e kits de higiene e atua como mediador entre a população de rua e o
poder público, cobrando vagas em albergues, direcionando pessoas para o
atendimento médico e para inscrição em programas sociais.
Ainda
nos anos 90, padre Júlio liderou uma importante campanha de combate à
prostituição infantil. Ele denunciou o envolvimento de policiais militares em
esquemas de exploração sexual de meninas e cooptação de menores para o tráfico
de crack e forneceu informações que serviram de base à CPI da Prostituição
Infantil, instalada na Câmara Municipal de São Paulo.
Padre
Júlio também confrontou as operações policiais que visavam expulsar os
moradores de rua do centro de São Paulo. Ele denunciou o confisco sistemático
de cobertores, colchonetes e papelões por agentes da prefeitura e organizou
atos e manifestações abordando os ataques violentos contra pessoas sem teto no
centro.
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Entre prêmios e ataques
As
obras sociais do padre Júlio Lancellotti lhe renderam ampla admiração e
reconhecimento internacional. O padre recebeu o Prêmio Franz de Castro
Holzwarth da OAB e o Prêmio OPAS da Organização Panamericana de Saúde em 2003.
Ganhou o Prêmio Nacional de Direitos Humanos em 2004 e o Prêmio Zilda Arns em
2021. Em 2023, foi condecorado pelo presidente Lula com a Ordem do Mérito do
Ministério da Justiça e da Segurança Pública.
Não
obstante, padre Júlio também enfrenta forte oposição dos setores reacionários
da sociedade, incomodados tanto com o trabalho social do pároco com a população
marginalizada como com seu apoio a lideranças políticas de esquerda.
Vítima
de uma tentativa de extorsão em 2007, Júlio Lancellotti se tornou um dos
principais alvos da perseguição da direita. Foi impiedosamente caluniado por
lideranças neopentecostais e políticos conservadores, que chegaram a acusá-lo
de pedofilia. Recebeu até mesmo ameaças de morte de pessoas incomodadas com o
trabalho desenvolvido junto aos moradores de rua, dependentes químicos e
transexuais no bairro da Mooca.
Padre
Júlio foi atacado repetidas vezes e chamado de “cafetão da miséria” por membros
do MBL. Também foi ofendido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e rotulado como
incentivador da “acomodação” dos moradores de rua pela ex-primeira-dama de São
Paulo, Bia Doria. A deputada Janaina Paschoal, por sua vez, o acusou de “ajudar
o crime”.
O
vigário, entretanto, não se deixou intimidar e prosseguiu com suas obras
sociais. Durante a pandemia de covid-19, transformou sua igreja em um
alojamento para pessoas em situação de rua e manteve a rotina de entrega de
marmitas na região da Cracolândia.
Em 2 de
fevereiro de 2021, padre Júlio quebrou a marretadas as pedras que a prefeitura
de São Paulo havia instalado sob um viaduto da Zona Leste para impedir a
presença de moradores de rua. A ação inspirou a criação do Projeto de Lei
488/2021, de autoria de Fabiano Contarato, proibindo o emprego de arquitetura
urbana hostil em espaços de uso público. O PL foi aprovado em 2022, após a
derrubada do veto integral de Jair Bolsonaro, dando origem à “Lei Padre Júlio
Lancellotti”.
Mais
recentemente, em dezembro de 2025, o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer,
determinou que padre Júlio parasse de usar as redes sociais e de transmitir
suas missas pela internet. A medida, apresentada como necessária para
“proteger” padre Júlio, foi recebida como tentativa de censura.
Apesar
dos percalços, padre Júlio segue firme em sua missão, ciente de que os
obstáculos são inevitáveis. “Humanizar a vida significa entender que existe
conflito. E você não humaniza a vida numa sociedade como a nossa sem conflito”,
explicou o padre. “A pressão é grande, mas enfrento isso com fé e coragem, pois
sei que estou do lado certo. Estou do lado que Jesus gostaria que eu
estivesse”.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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