Por
que quase nada funciona contra o câncer de pâncreas?
Poucos
diagnósticos na oncologia carregam um prognóstico tão duro quanto o câncer de
pâncreas. Mesmo em uma era marcada por terapias-alvo, imunoterapia e medicina
personalizada, esse tipo de tumor segue respondendo mal à maioria dos
tratamentos disponíveis —e a sobrevida avança a passos lentos.
Um
estudo publicado recentemente na revista Cell Reports ajuda a explicar por quê.
Ao analisar tumores pancreáticos diretamente no tecido original, com técnicas
avançadas de mapeamento espacial, os pesquisadores mostraram que o câncer de
pâncreas está longe de ser uma doença uniforme.
Pelo
contrário: dentro de um mesmo tumor convivem diferentes tipos de células
cancerígenas, organizadas em microambientes próprios, com regras biológicas
distintas —um cenário que dificulta, e muito, qualquer tentativa de tratamento
único e eficaz.
“O que
esse trabalho fez foi analisar o tumor como ele realmente é, no seu contexto
completo, e não como fragmentos isolados”, explica Stephen Stefani, oncologista
do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation.
“Os
autores conseguiram quantificar algo que já sabíamos que existia: uma
heterogeneidade extrema, tanto das células tumorais quanto do ambiente ao redor
delas.”
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Um tumor que muda de lugar para lugar
O
estudo analisou amostras de tumores pancreáticos ainda não tratados e mostrou
que todos os pacientes apresentam um espectro de subtipos tumorais, que vai
desde células chamadas de “clássicas” até outras mais agressivas, conhecidas
como “basais”. Essas células não aparecem separadas em tumores diferentes —elas
coexistem dentro do mesmo paciente, muitas vezes lado a lado.
“Não é
só o fato de serem diferentes”, explica Stefani. “Essas subpopulações criam
mecanismos de resistência também muito heterogêneos. Ou seja, quando você trata
uma parte do tumor, outra pode simplesmente não responder.”
Esse
mosaico celular ajuda a entender por que terapias que funcionam bem em outros
cânceres sólidos falham no pâncreas. Um único medicamento dificilmente consegue
atingir, ao mesmo tempo, todas as engrenagens que mantêm o tumor funcionando.
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Um câncer protegido por uma blindagem física
Além da
diversidade celular, o câncer de pâncreas é conhecido por sua arquitetura
hostil ao tratamento. Grande parte do tumor não é formada por células
cancerígenas, mas por uma densa rede de colágeno, fibroblastos e matriz
extracelular —um fenômeno chamado de desmoplasia.
“O
excesso de colágeno e de matriz extracelular forma uma espécie de malha
compacta ao redor e entre as células tumorais”, explica Stefani.
“Quimioterápicos e anticorpos, que precisam chegar fisicamente ao local doente,
difundem mal nesse ambiente. Eles chegam em menor concentração e de forma
irregular.”
Esse
emaranhado ainda aumenta a pressão interna do tumor, o que reduz a circulação
sanguínea local. Na prática, o remédio pode estar presente no sangue do
paciente, mas encontra dificuldade para alcançar o interior do tumor.
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Adaptado à falta de oxigênio
O
estudo também mostrou que algumas células do câncer de pâncreas vivem em
condições crônicas de baixa oxigenação, um estado chamado de hipóxia. Em vez de
morrerem, essas células se adaptam —e essa adaptação as torna ainda mais
resistentes.
“Menos
perfusão significa menos oxigênio e menos entrega de droga”, resume o
oncologista. “O sangue tem dificuldade de acessar o tumor, e isso compromete
tanto a quimioterapia quanto outras estratégias.”
Esse é
um dos motivos pelos quais a imunoterapia, que revolucionou o tratamento de
vários cânceres, quase não funciona no pâncreas. Sem oxigênio e sem acesso
adequado, as células de defesa do organismo têm dificuldade de penetrar no
tumor e exercer sua função.
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Ainda tratamos no escuro?
Apesar
de todo esse conhecimento, a prática clínica ainda tem limitações importantes.
Hoje, o oncologista raramente consegue definir com precisão qual subtipo
tumoral predomina em cada paciente com câncer de pâncreas.
“Especificamente
nesse câncer, ainda existem poucas alternativas realmente customizadas”, afirma
Stefani. “Na maioria dos casos, a escolha do tratamento se baseia muito mais no
perfil de efeitos colaterais que o paciente consegue tolerar do que em características
biológicas detalhadas do tumor.”
Isso
significa que, muitas vezes, o tratamento é uma aposta informada —mas ainda
distante da medicina personalizada que já se tornou realidade em outros tipos
de câncer.
Segundo
o especialista, estudos como esse não trazem uma solução imediata, mas ajudam a
montar o quebra-cabeça. A principal mensagem é que atacar apenas a célula
tumoral pode não ser suficiente.
“Essas
descobertas são mais um passo para entender o macroambiente tumoral”, diz
Stefani. “Provavelmente, as estratégias mais promissoras vão combinar
abordagens: atacar o tumor em si e, ao mesmo tempo, modificar o microambiente
que o protege.”
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Por que os estudos em ratos conseguem resultados melhores?
Pesquisas
recentes que conseguiram eliminar tumores pancreáticos em ratos ajudam a
entender caminhos possíveis —e também os limites da ciência atual. Em comum,
esses estudos não tentam atacar apenas a célula cancerígena, mas desmontar as
defesas que tornam o câncer de pâncreas tão resistente.
Nos
modelos experimentais, as estratégias costumam reduzir ou remodelar o estroma
tumoral, a camada espessa de colágeno e fibroblastos que funciona como uma
blindagem física.
Ao
“afrouxar” essa malha, drogas e células do sistema imunológico conseguem
finalmente alcançar o interior do tumor.
Outro
ponto-chave é a hipóxia. Ao melhorar a perfusão local ou interferir nos
mecanismos que mantêm o tumor em ambientes pobres em oxigênio, esses estudos
aumentam a entrega efetiva do tratamento. “Hoje, o remédio pode até estar no
sangue, mas o sangue tem dificuldade de acessar o tumor”, explica Stephen
Stefani.
O
desafio é que resultados obtidos em animais nem sempre se reproduzem em
humanos.
“São
achados animadores, que merecem seguir no caminho investigativo, mas precisam
passar por ensaios clínicos rigorosos”, ressalta o oncologista. Só assim será
possível saber se essas abordagens conseguem, de fato, mudar a história de uma
das doenças mais letais da oncologia.
• Amputação de pênis: 2,9 mil foram
'mutilados' pelo câncer em cinco anos no Brasil
Mais de
2,9 mil homens tiveram o pênis amputado no Brasil entre 2021 e 2025 em
decorrência do câncer de pênis. No mesmo período, a doença também levou à morte
mais de 2,3 mil pessoas, segundo dados do Ministério da Saúde.
Considerado
um tipo de tumor raro, o câncer de pênis pode ser evitado com algumas atitudes
simples: higiene adequada na região íntima, vacinação contra o HPV e cirurgia
de postectomia (remoção do prepúcio).
“O
câncer de pênis é um tumor totalmente evitável, muito ligado às condições de
higiene. É preciso ensinar desde cedo os meninos a como lavar e seguir uma boa
higiene na vida adulta”, explica o médico Ariê Carneiro, oncologista do
Einstein.
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Como evitar esse câncer mutilante?
De
acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) um dos principais pontos é
a higiene correta. Quando o homem tem o prepúcio, isso acaba acumulando urina,
que é ácida e pode causar fibrose (um acúmulo de tecido) e inflamações.
Os
especialistas listam quatro ações que podem ajudar na prevenção:
• 🧼 Limpeza adequada do
pênis com água e sabão puxando o prepúcio para higiene da glande. A limpeza
deve ser realizada todos os dias e após as relações sexuais.
• 💉 Tomar a vacina do
HPV (no SUS, ela está disponível para alguns públicos. Na rede privada,
qualquer pessoa pode tomar).
• 🏥 Realização da
postectomia (retirada do prepúcio) quando essa pele que encobre a cabeça do
pênis não permite a higienização correta.
• ⚕️ Uso de preservativo
para evitar contaminação por ISTs, como o HPV.
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Quais são os sinais de alerta?
A
incidência do câncer de pênis aumenta com a idade, com pico entre 50 e 70 anos.
Ainda assim, especialistas alertam que homens de qualquer faixa etária devem
ficar atentos aos sinais.
Entre
os principais sintomas estão:
• feridas que não cicatrizam;
• verrugas ou caroços persistentes;
• secreção com odor forte sob o prepúcio;
• áreas endurecidas ou avermelhadas;
• sangramentos na glande;
• coceira persistente.
Ao
perceber qualquer alteração, o homem deve procurar atendimento médico.
Os
médicos explicam que o diagnóstico precoce trata a maior parte dos pacientes e
sem a necessidade de uma amputação total. Isso porque quando a doença está em
estágio inicial, é possível retirar apenas o tumor e preservar o pênis.
“É
preciso que o homem adote o hábito de ‘autoexame’. De olhar o pênis, tirar a
pele para ver se tem alguma alteração e estar atento a qualquer sinal”, pontua
o especialista.
Fonte:
g1

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