Henrique
Rodrigues: Surra histórica em Ventura mostra que Abril ainda respira em
Portugal
A
vitória devastadora de António José Seguro, do Partido Socialista, na eleição
presidencial de Portugal, realizada neste domingo (8), sobre o candidato
ultrarreacionário André Ventura, do Chega, o principal partido de extrema
direita do pequeno país europeu e que ganhou espaço de forma galopante nos
últimos anos, mostra que a atmosfera que proporcionou o 25 de Abril de 1974
ainda segue respirável mesmo após 52 anos da mais poética revolução do
Ocidente, apesar dos pesares. Antes de tudo, é preciso frisar que a engenharia
que desembocou neste resultado foi complexa e até esdrúxula em alguns momentos,
mas quase ninguém, mesmo para além da direita social-democrata, optou por
colocar o regime democrático em risco apenas para vencer o adversário.
Portugal
atravessa a maior onda fascista desde a retomada democrática, há mais de meio
século, na esteira do crescimento desta onda autoritária por todo o mundo. O
problema é que, por aqui, as ações que marcam a influência deste campo
ideológico são sentidas de uma forma superdimensionada pelos cidadãos,
sobretudo estrangeiros, pressionados pelo crescente discurso mofado de um
patriotismo mais falso que as boas intenções de Ventura, alguém que
recentemente afirmou que o país precisava de “pelo menos uns três Salazares”,
em alusão ao ditador António de Oliveira Salazar, um monstrengo sanguinário e
isolacionista que separou Portugal do restante do planeta por mais de 40 anos,
um regime que perdurou até mesmo após sua morte, em 1970.
Seguro
obteve 66,8% dos votos dos portugueses, contra 33,2% de Ventura. O resultado
foi como um rolo-compressor passando sobre o asfalto e o piche ainda quentes,
amassando até a última pedrinha. Entretanto, a principal leitura deste
resultado é feita em relação à adesão da população como um todo contra um
projeto autoritário, já que há algum tempo ela não é majoritariamente de
esquerda, e sobretudo no que diz respeito ao comportamento das demais
lideranças de direita do país, incluindo aí o nada carismático
primeiro-ministro Luís Montenegro, do PSD, a centro-direita tradicional.
Ninguém
optou pelo discurso pilantra da “escolha muito difícil”, diferentemente do que
se viu no Brasil em 2018 quando Jair Bolsonaro enfrentou e venceu Fernando
Haddad. Não houve uma só liderança ou veículo de imprensa, mesmo que
reconhecidamente conservador, que apelasse a um nivelamento entre o homem com
história política séria, ex-secretário-geral do Partido Socialista e um
integrante importante do governo do primeiro-ministro António Guterres
(1995-2002), o português que desde 2017 é o secretário-geral da ONU, que é
António José Seguro, e o bufão aproveitador de cariz ditatorial que atende por
André Ventura. Em uníssono, toda a cidadania e as instituições gritaram que
eles não são e nunca foram iguais, que jamais seriam equivalentes, e que a
democracia vale muito mais, mesmo quando meu campo ideológico sai vencido de um
embate nas urnas.
Agora,
com a chefia do Estado nas mãos de António José Seguro, que substituirá o
moderadíssimo e equilibrado Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém, o que
se acredita é que o país entrará num curto ciclo de estabilidade institucional,
uma vez que eleições legislativas estão previstas apenas para daqui a três anos
e meio e até lá o governo seguirá nas mãos do insosso Montenegro, que de
moderado tem apenas a cara e a fala mansa, se analisarmos as legislações
xenofóbicas apoiadas por ele, votadas e colocadas em vigor, empurradas goela
abaixo pela ruidosa e numerosa bancada do Chega na Assembleia da República, com
quem flerta à distância.
Por
fim, apenas os próximos meses e anos dirão se toda essa resistência aplacará,
de forma definitva, o mal que floresce com tanta velocidade na estreita franja
ocidental da Península Ibérica. O que fica por ora é mais uma vez a sensação de
alívio de que o bem mais uma vez triunfou, algo que perdurará só até o próximo
desafio que nos imporá a matilha raivosa que quer nos devorar.
• Oliveiros Marques: O que a derrota
estrondosa da extrema-direita em Portugal pode nos ensinar
A
eleição presidencial em Portugal produziu um resultado inequívoco: a
extrema-direita sofreu uma derrota acachapante. Com 66,7% dos votos válidos, o
candidato de esquerda, apoiado por forças de centro no segundo turno, venceu
com ampla margem o candidato extremista André Ventura, do partido Chega. Não se
trata apenas de uma vitória eleitoral. É um recado político claro.
A
consagração de António José Seguro representa mais do que a alternância no
comando do país. Ela sinaliza que, diante da polarização e do avanço de
discursos extremistas na Europa, o eleitorado português optou por reafirmar
valores democráticos e estabilidade institucional. Ao declarar que o
compromisso do povo português com “a liberdade e a democracia” o deixava
comovido e orgulhoso, Seguro deu o tom simbólico do momento.
Do
outro lado, André Ventura, líder do Chega, reconheceu a derrota. Ainda que
tenha tentado enquadrar o resultado como parte de uma trajetória de crescimento
político, os números falam por si: a maioria expressiva rejeitou o projeto de
radicalização.
O dado
mais relevante talvez não esteja apenas na diferença percentual, mas na
composição da vitória. O apoio de partidos de centro ao candidato de esquerda
no segundo turno foi decisivo. Esse movimento indica que, quando confrontadas
com a possibilidade concreta de avanço da extrema-direita, forças democráticas
tendem a se reorganizar em defesa de consensos mínimos. Portugal mostrou que a
união em torno da institucionalidade pode ser mais forte do que a sedução do
extremismo.
É cedo
para falar em tendência global consolidada, mas o resultado pode indicar uma
mudança de ventos na política ocidental. Depois de anos marcados por ondas
nacionalistas e retórica de confronto, começa a ganhar força uma reação
pragmática do eleitorado. A experiência concreta de governos marcados por
instabilidade, tensão permanente e conflitos institucionais parece ter
produzido cansaço. Democracias que amadurecem, como a portuguesa, demonstram
que há limites para a radicalização.
Esses
ventos podem soprar além do Atlântico. Nos Estados Unidos, as eleições de meio
de mandato tendem a funcionar como termômetro político. Se a sinalização
portuguesa for parte de um movimento mais amplo, o campo alinhado ao trumpismo
pode enfrentar dificuldades crescentes. A fadiga com discursos de ruptura e a
busca por estabilidade institucional podem enfraquecer candidaturas associadas
ao extremismo na próxima disputa presidencial.
No
Brasil, onde a polarização ainda é presente, o resultado português também
oferece lições. A sociedade brasileira viveu recentemente tensões
institucionais profundas. A memória desses episódios ainda é recente. Se a
tendência global for de rejeição aos extremos, outubro poderá refletir esse
mesmo desejo por previsibilidade e estabilidade. A segurança em relação ao
futuro se imporá como pauta.
Para o
campo lulista, a mensagem, contudo, é clara: não basta confiar na maré
favorável; é preciso ajustar as velas. Isso significa ampliar diálogo com
setores moderados, consolidar alianças e colocar luz sobre os resultados
concretos na vida das pessoas que o governo vem entregando.
A
derrota da extrema-direita em Portugal não encerra o ciclo de radicalismos no
mundo, mas pode representar o início de um novo momento político. Quando o
eleitor escolhe estabilidade em vez de aventura, envia um sinal poderoso. Resta
saber quais lideranças saberão interpretar o vento - e ajustar suas velas para
singrar os mares eleitorais na direção certa.
• “Portugal nos mostra que é possível
derrotar a extrema-direita”, diz Lindbergh
A
vitória do socialista José António Seguro no segundo turno das eleições
presidenciais em Portugal, neste domingo (8), repercutiu fortemente entre
lideranças progressistas brasileiras. O deputado federal Lindbergh Farias
(PT-RJ) destacou o resultado como um sinal de que a extrema-direita pode ser
derrotada nas urnas e associou o episódio ao cenário político brasileiro.
Em
publicação nas redes sociais, Lindbergh afirmou que a vitória portuguesa deve
servir de inspiração para a mobilização democrática no Brasil. “Portugal nos
mostra que é possível derrotar a extrema direita. Que os ventos da vitória
portuguesa soprem com força também aqui no Brasil. Vamos com tudo derrotar o
bolsonarismo em outubro, para que o Brasil siga no caminho da democracia, da
soberania e da justiça social”, escreveu o parlamentar. A informação foi
divulgada a partir de contexto noticioso sobre o resultado eleitoral em
Portugal.
O
deputado também parabenizou o candidato vencedor e a população portuguesa pela
ampla margem obtida no pleito. “Parabéns, Seguro e portugueses, pela vitória
maiúscula nas urnas!”, completou Lindbergh.
José
António Seguro, do Partido Socialista, venceu de forma expressiva o segundo
turno contra André Ventura, candidato do partido de extrema-direita Chega. Com
cerca de 95% das urnas apuradas, Seguro somava aproximadamente 66% dos votos
válidos, enquanto Ventura registrava 34% e já havia reconhecido a derrota.
Aos 63
anos, Seguro tem formação em Relações Internacionais e mestrado em Ciência
Política. Sua trajetória inclui atuação como deputado em Portugal e também no
Parlamento Europeu durante os anos 1990. Entre 2001 e 2002, foi
ministro-adjunto do então primeiro-ministro António Guterres, hoje
secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
Com a
vitória, Seguro deve assumir a presidência portuguesa em março, sucedendo
Marcelo Rebelo de Sousa, eleito pelo Partido Social Democrata (PSD) e
atualmente sem filiação partidária.
Em
Portugal, o presidente exerce a função de chefe de Estado, enquanto o comando
do governo permanece sob responsabilidade do primeiro-ministro. Desde 2024, o
cargo é ocupado por Luís Montenegro, do PSD, legenda de centro-direita.
Fonte:
Fórum/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário