terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Cuba, Venezuela e o retorno da Doutrina Monroe no século XXI

O recente editorial do The Washington Post afirma que a pressão de Washington sobre Cuba “está funcionando” e que os Estados Unidos deveriam aproveitar sua “extraordinária alavancagem” para impor mudanças dramáticas na ilha. A formulação soa quase técnica — como se se tratasse apenas de estratégia diplomática — mas carrega uma premissa profundamente perturbadora: a ideia de que uma potência estrangeira possui legitimidade para sufocar economicamente outra nação até produzir uma mudança política.

Antes de qualquer julgamento ideológico sobre o regime cubano, impõe-se uma pergunta mais fundamental:

quem concedeu aos Estados Unidos o direito de decidir o destino histórico de outro povo?

Essa questão não diz respeito apenas a Cuba. Diz respeito ao próprio significado da ordem internacional.

<><> O precedente que redesenha limites

Se ainda restavam dúvidas sobre a disposição de Washington de agir unilateralmente no hemisfério, janeiro de 2026 ofereceu um episódio emblemático: uma operação organizada pelos Estados Unidos resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua companheira, após meses de planejamento logístico e infiltração.

Mais do que um evento extraordinário, trata-se de um marco inquietante nas relações internacionais contemporâneas. A remoção coercitiva de um chefe de Estado — independentemente do juízo que se faça sobre seu governo — redefine os limites do aceitável.

Pode-se criticar Maduro. Pode-se condenar sua condução econômica. Pode-se discordar de seu sistema político.

Mas a questão central não é Maduro.

É o precedente.

Quando uma potência se arroga o direito de capturar governantes estrangeiros e influenciar diretamente a reorganização política de outro país, a autodeterminação deixa de ser princípio e passa a ser mera retórica diplomática.

E precedentes, na história internacional, nunca permanecem isolados.

<><> Cuba: uma crise real — mas não neutra

Cuba vive hoje uma das fases econômicas mais difíceis desde o fim da União Soviética. A economia acumula cerca de 10% de retração desde 2019, enquanto receitas em moeda forte caíram aproximadamente 30%. Apagões prolongados, escassez de combustível e dificuldades no transporte urbano tornaram-se parte do cotidiano.

Há causas internas — e negá-las seria intelectualmente desonesto. Baixa produtividade, rigidez institucional e dependência de importações limitam a capacidade de reação da economia.

Mas a crise tampouco pode ser compreendida fora do ambiente de forte pressão externa.

A interrupção do petróleo venezuelano — consequência direta da operação americana — agravou dramaticamente a fragilidade energética da ilha. Washington passou ainda a ameaçar medidas contra países que continuassem fornecendo combustível.

O resultado é tangível: racionamento, paralisação de serviços e deterioração das condições de vida.

Ainda assim, os Estados Unidos anunciaram ajuda humanitária de alguns milhões de dólares — gesto que revela uma contradição difícil de ignorar. Ajuda emergencial raramente compensa políticas que contribuem para produzir a própria emergência.

Segundo autoridades cubanas, as sanções já custaram bilhões de dólares em apenas um ano, enquanto o país produz menos da metade do combustível de que necessita levando a um severo estrangulamento econômico

<><> A longa sombra da Doutrina Monroe

Para compreender o significado mais profundo desses movimentos, é preciso recuar quase dois séculos.

Em 1823, a Doutrina Monroe estabeleceu o princípio de que a América Latina constituía uma área de interesse estratégico dos Estados Unidos. Formalmente, tratava-se de impedir novas intervenções europeias. Na prática, inaugurava-se uma lógica de tutela hemisférica.

Ao longo do século XX, essa racionalidade justificou intervenções diretas e indiretas — da América Central ao Cone Sul — quase sempre sob o argumento da estabilidade, da segurança ou da defesa da liberdade.

O que se observa hoje não é uma repetição mecânica do passado, mas algo talvez mais sofisticado: a substituição da ocupação militar clássica por instrumentos econômicos, financeiros e energéticos de coerção.

Menos visível.

Mais eficiente.

Igualmente poderoso.

A captura de um presidente latino-americano e o uso do abastecimento energético como ferramenta de pressão sinalizam que essa lógica não pertence ao passado.

Ela está sendo atualizada.

<><> Império em declínio tende a agir com mais dureza

A história oferece uma regularidade desconfortável: potências em processo de erosão relativa raramente se tornam mais cautelosas. Frequentemente tornam-se mais assertivas.

Isso não significa que os Estados Unidos deixaram de ser a principal potência global — longe disso. Significa, porém, que sua capacidade de organizar consensos diminuiu.

Quando a liderança perde força, a coerção tende a ocupar seu lugar.

Nesse sentido, a política para Cuba e Venezuela pode ser lida como parte de um movimento maior: menos hegemonia baseada em legitimidade, mais poder exercido pela pressão.

Não é o comportamento de um império confiante.

É o comportamento de um império que percebe a dispersão gradual do poder mundial — um império em decadência.

<><> O risco para a América Latina

Normalizar esse tipo de intervenção cria um precedente particularmente perigoso para países médios e periféricos.

Se dificuldades econômicas ou déficits democráticos passarem a funcionar como justificativa implícita para ações externas, poucas nações estarão verdadeiramente protegidas.

Hoje é Cuba.

Ontem foi a Venezuela.

Amanhã pode ser qualquer país cuja orientação política contrarie interesses estratégicos.

O problema, portanto, não é apenas moral.

É sistêmico.

Trata-se do tipo de ordem internacional que está sendo construída.

<><> A pergunta que o editorial evita

Criticar regimes é legítimo. Defender reformas é legítimo. Aspirar a sociedades mais abertas também é.

Mas nenhuma dessas posições responde à questão essencial:

desde quando o sofrimento econômico de uma população se tornou instrumento aceitável de política externa?

Democracia imposta pela escassez não é democracia — é coerção.

Se a autodeterminação dos povos ainda possui algum significado no século XXI, cabe aos cubanos — e somente a eles — decidir o país em que desejam viver.

Não a Washington.

Nem a qualquer conselho editorial.

Porque quando o direito de escolher o próprio destino deixa de pertencer aos povos, o que entra em crise não é apenas um regime.

É a própria ideia de soberania.

•        Países da América do Sul reavaliam relação com a China diante do protecionismo dos EUA

Um editorial do jornal chinês Global Times afirma que uma mudança “silenciosa, mas profunda” está em curso na geopolítica da América do Sul, à medida que países da região passam a reavaliar de forma pragmática suas relações com a China em resposta ao avanço do protecionismo e do hegemonismo dos Estados Unidos. A análise parte de informações divulgadas pela agência Reuters sobre uma possível inflexão do Brasil em relação a negociações entre o Mercosul e Pequim.

Segundo o editorial, pela primeira vez autoridades brasileiras de alto escalão estariam dispostas a apoiar um acordo comercial “parcial” entre o Mercosul e a China. Para o Global Times, esse movimento representa uma mudança relevante na postura da maior economia da América Latina, tradicionalmente cautelosa em relação à abertura comercial com os chineses no âmbito do bloco regional.

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<><> Protecionismo dos EUA e o novo cálculo estratégico

O texto sustenta que, enquanto Washington intensifica tarifas e reforça políticas protecionistas, países do hemisfério ocidental são forçados a recalcular suas estratégias de sobrevivência econômica. Na leitura do editorial, o resultado tem sido uma reavaliação pragmática dos laços com Pequim, impulsionada pela percepção de que os parceiros tradicionais oferecem cada vez menos acesso a mercados e cada vez mais barreiras.

O Global Times afirma que os efeitos da pressão dos Estados Unidos já são visíveis em países como México e Panamá, mas argumenta que a mudança mais significativa ocorre no conjunto da América do Sul. De acordo com o jornal, quanto maior o aperto econômico imposto pelo Norte, maior tende a ser a disposição dos países latino-americanos de diversificar parcerias e aprofundar relações com a China.

<><> O papel do Mercosul e a inflexão brasileira

O editorial descreve o Mercosul como uma união aduaneira formada por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, além de Bolívia e Venezuela, esta última apontada como atualmente suspensa. Nesse contexto, o Brasil é retratado como tendo atuado, por décadas, como um “guarda de portão” protecionista do bloco diante da China, temendo que importações asiáticas fragilizassem sua indústria de transformação.

Essa postura, segundo o Global Times, começa a mudar diante do que a Reuters teria descrito como um “novo cenário global”, expressão que o editorial traduz como a combinação entre o crescimento do protecionismo dos Estados Unidos e a atratividade concreta das oportunidades econômicas oferecidas pela China. Para o jornal, o Brasil teria feito as contas e concluído que o unilateralismo norte-americano oferece custos crescentes e poucas alternativas.

"Pela primeira vez, autoridades brasileiras de alto escalão estão considerando impulsionar um acordo comercial ‘parcial’ entre o Mercosul e a China", destaca o editorial.

<><> Obstáculos políticos e a saída do acordo parcial

O Global Times lembra que, historicamente, um acordo amplo entre Mercosul e China foi visto como quase inviável. Entre os entraves, o texto cita as regras da Tarifa Externa Comum do bloco, que limitam negociações individuais, além de obstáculos políticos internos.

O editorial menciona o Paraguai, que mantém relações diplomáticas com a região de Taiwan, o que criaria um impasse jurídico para um acordo de livre comércio abrangente com Pequim. Também aponta a instabilidade política da Argentina, descrita como um pêndulo entre o peronismo protecionista e a atual orientação pró-EUA do presidente Javier Milei, como fator adicional de dificuldade para uma estratégia comum.

Nesse cenário, o acordo “parcial” é apresentado como uma solução pragmática. Diferentemente de um tratado de livre comércio com redução generalizada de tarifas, esse formato contornaria resistências da indústria brasileira e evitariam impasses diplomáticos. O foco estaria em barreiras não tarifárias, como harmonização de regras sanitárias, facilitação aduaneira e definição de cotas de importação.

<><> China, investimento industrial e nova etapa da relação bilateral

O editorial sustenta que a reaproximação com a China vai além do comércio de commodities. Segundo o Global Times, a relação entre Brasil e China já teria evoluído para uma etapa de integração produtiva, com destaque para investimentos industriais chineses no país.

O texto cita a presença de montadoras chinesas de veículos elétricos assumindo antigas fábricas da Ford na Bahia como símbolo dessa transição. Para o jornal, um acordo parcial no âmbito do Mercosul poderia oferecer a base institucional necessária para consolidar esses investimentos e aprofundar a integração das cadeias produtivas.

"Ao deslocar o foco das tarifas para a cooperação regulatória, o Brasil não está apenas facilitando exportações de soja e minério de ferro, mas abrindo caminho para uma integração mais profunda do capital chinês", afirma o editorial.

<><> Global Sul, autonomia e recado a Washington

Na conclusão, o Global Times enquadra esse movimento como expressão da crescente autonomia do Global Sul. Para o jornal, o avanço das conversas entre Mercosul e China indicaria a abertura de um novo caminho, no qual o pragmatismo econômico se sobrepõe a alinhamentos ideológicos rígidos.

O editorial também envia um recado direto a formuladores de política em Washington: tentar conter a dinâmica econômica global por meio de pressão e barreiras tende a acelerar a busca por novos parceiros. Na visão do jornal, as mudanças em curso na América do Sul não representam uma reação passiva ao enfraquecimento da hegemonia, mas uma resposta ativa de países determinados a definir seu próprio destino econômico.

 

Fonte: Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247

 

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