Cuba,
Venezuela e o retorno da Doutrina Monroe no século XXI
O
recente editorial do The Washington Post afirma que a pressão de Washington
sobre Cuba “está funcionando” e que os Estados Unidos deveriam aproveitar sua
“extraordinária alavancagem” para impor mudanças dramáticas na ilha. A
formulação soa quase técnica — como se se tratasse apenas de estratégia
diplomática — mas carrega uma premissa profundamente perturbadora: a ideia de
que uma potência estrangeira possui legitimidade para sufocar economicamente
outra nação até produzir uma mudança política.
Antes
de qualquer julgamento ideológico sobre o regime cubano, impõe-se uma pergunta
mais fundamental:
quem
concedeu aos Estados Unidos o direito de decidir o destino histórico de outro
povo?
Essa
questão não diz respeito apenas a Cuba. Diz respeito ao próprio significado da
ordem internacional.
<><>
O precedente que redesenha limites
Se
ainda restavam dúvidas sobre a disposição de Washington de agir unilateralmente
no hemisfério, janeiro de 2026 ofereceu um episódio emblemático: uma operação
organizada pelos Estados Unidos resultou na captura do presidente venezuelano
Nicolás Maduro e sua companheira, após meses de planejamento logístico e
infiltração.
Mais do
que um evento extraordinário, trata-se de um marco inquietante nas relações
internacionais contemporâneas. A remoção coercitiva de um chefe de Estado —
independentemente do juízo que se faça sobre seu governo — redefine os limites
do aceitável.
Pode-se
criticar Maduro. Pode-se condenar sua condução econômica. Pode-se discordar de
seu sistema político.
Mas a
questão central não é Maduro.
É o
precedente.
Quando
uma potência se arroga o direito de capturar governantes estrangeiros e
influenciar diretamente a reorganização política de outro país, a
autodeterminação deixa de ser princípio e passa a ser mera retórica
diplomática.
E
precedentes, na história internacional, nunca permanecem isolados.
<><>
Cuba: uma crise real — mas não neutra
Cuba
vive hoje uma das fases econômicas mais difíceis desde o fim da União
Soviética. A economia acumula cerca de 10% de retração desde 2019, enquanto
receitas em moeda forte caíram aproximadamente 30%. Apagões prolongados,
escassez de combustível e dificuldades no transporte urbano tornaram-se parte
do cotidiano.
Há
causas internas — e negá-las seria intelectualmente desonesto. Baixa
produtividade, rigidez institucional e dependência de importações limitam a
capacidade de reação da economia.
Mas a
crise tampouco pode ser compreendida fora do ambiente de forte pressão externa.
A
interrupção do petróleo venezuelano — consequência direta da operação americana
— agravou dramaticamente a fragilidade energética da ilha. Washington passou
ainda a ameaçar medidas contra países que continuassem fornecendo combustível.
O
resultado é tangível: racionamento, paralisação de serviços e deterioração das
condições de vida.
Ainda
assim, os Estados Unidos anunciaram ajuda humanitária de alguns milhões de
dólares — gesto que revela uma contradição difícil de ignorar. Ajuda
emergencial raramente compensa políticas que contribuem para produzir a própria
emergência.
Segundo
autoridades cubanas, as sanções já custaram bilhões de dólares em apenas um
ano, enquanto o país produz menos da metade do combustível de que necessita
levando a um severo estrangulamento econômico
<><>
A longa sombra da Doutrina Monroe
Para
compreender o significado mais profundo desses movimentos, é preciso recuar
quase dois séculos.
Em
1823, a Doutrina Monroe estabeleceu o princípio de que a América Latina
constituía uma área de interesse estratégico dos Estados Unidos. Formalmente,
tratava-se de impedir novas intervenções europeias. Na prática, inaugurava-se
uma lógica de tutela hemisférica.
Ao
longo do século XX, essa racionalidade justificou intervenções diretas e
indiretas — da América Central ao Cone Sul — quase sempre sob o argumento da
estabilidade, da segurança ou da defesa da liberdade.
O que
se observa hoje não é uma repetição mecânica do passado, mas algo talvez mais
sofisticado: a substituição da ocupação militar clássica por instrumentos
econômicos, financeiros e energéticos de coerção.
Menos
visível.
Mais
eficiente.
Igualmente
poderoso.
A
captura de um presidente latino-americano e o uso do abastecimento energético
como ferramenta de pressão sinalizam que essa lógica não pertence ao passado.
Ela
está sendo atualizada.
<><>
Império em declínio tende a agir com mais dureza
A
história oferece uma regularidade desconfortável: potências em processo de
erosão relativa raramente se tornam mais cautelosas. Frequentemente tornam-se
mais assertivas.
Isso
não significa que os Estados Unidos deixaram de ser a principal potência global
— longe disso. Significa, porém, que sua capacidade de organizar consensos
diminuiu.
Quando
a liderança perde força, a coerção tende a ocupar seu lugar.
Nesse
sentido, a política para Cuba e Venezuela pode ser lida como parte de um
movimento maior: menos hegemonia baseada em legitimidade, mais poder exercido
pela pressão.
Não é o
comportamento de um império confiante.
É o
comportamento de um império que percebe a dispersão gradual do poder mundial —
um império em decadência.
<><>
O risco para a América Latina
Normalizar
esse tipo de intervenção cria um precedente particularmente perigoso para
países médios e periféricos.
Se
dificuldades econômicas ou déficits democráticos passarem a funcionar como
justificativa implícita para ações externas, poucas nações estarão
verdadeiramente protegidas.
Hoje é
Cuba.
Ontem
foi a Venezuela.
Amanhã
pode ser qualquer país cuja orientação política contrarie interesses
estratégicos.
O
problema, portanto, não é apenas moral.
É
sistêmico.
Trata-se
do tipo de ordem internacional que está sendo construída.
<><>
A pergunta que o editorial evita
Criticar
regimes é legítimo. Defender reformas é legítimo. Aspirar a sociedades mais
abertas também é.
Mas
nenhuma dessas posições responde à questão essencial:
desde
quando o sofrimento econômico de uma população se tornou instrumento aceitável
de política externa?
Democracia
imposta pela escassez não é democracia — é coerção.
Se a
autodeterminação dos povos ainda possui algum significado no século XXI, cabe
aos cubanos — e somente a eles — decidir o país em que desejam viver.
Não a
Washington.
Nem a
qualquer conselho editorial.
Porque
quando o direito de escolher o próprio destino deixa de pertencer aos povos, o
que entra em crise não é apenas um regime.
É a
própria ideia de soberania.
• Países da América do Sul reavaliam
relação com a China diante do protecionismo dos EUA
Um
editorial do jornal chinês Global Times afirma que uma mudança “silenciosa, mas
profunda” está em curso na geopolítica da América do Sul, à medida que países
da região passam a reavaliar de forma pragmática suas relações com a China em
resposta ao avanço do protecionismo e do hegemonismo dos Estados Unidos. A
análise parte de informações divulgadas pela agência Reuters sobre uma possível
inflexão do Brasil em relação a negociações entre o Mercosul e Pequim.
Segundo
o editorial, pela primeira vez autoridades brasileiras de alto escalão estariam
dispostas a apoiar um acordo comercial “parcial” entre o Mercosul e a China.
Para o Global Times, esse movimento representa uma mudança relevante na postura
da maior economia da América Latina, tradicionalmente cautelosa em relação à
abertura comercial com os chineses no âmbito do bloco regional.
Play
Video
<><>
Protecionismo dos EUA e o novo cálculo estratégico
O texto
sustenta que, enquanto Washington intensifica tarifas e reforça políticas
protecionistas, países do hemisfério ocidental são forçados a recalcular suas
estratégias de sobrevivência econômica. Na leitura do editorial, o resultado
tem sido uma reavaliação pragmática dos laços com Pequim, impulsionada pela
percepção de que os parceiros tradicionais oferecem cada vez menos acesso a
mercados e cada vez mais barreiras.
O
Global Times afirma que os efeitos da pressão dos Estados Unidos já são
visíveis em países como México e Panamá, mas argumenta que a mudança mais
significativa ocorre no conjunto da América do Sul. De acordo com o jornal,
quanto maior o aperto econômico imposto pelo Norte, maior tende a ser a
disposição dos países latino-americanos de diversificar parcerias e aprofundar
relações com a China.
<><>
O papel do Mercosul e a inflexão brasileira
O
editorial descreve o Mercosul como uma união aduaneira formada por Argentina,
Brasil, Paraguai e Uruguai, além de Bolívia e Venezuela, esta última apontada
como atualmente suspensa. Nesse contexto, o Brasil é retratado como tendo
atuado, por décadas, como um “guarda de portão” protecionista do bloco diante
da China, temendo que importações asiáticas fragilizassem sua indústria de
transformação.
Essa
postura, segundo o Global Times, começa a mudar diante do que a Reuters teria
descrito como um “novo cenário global”, expressão que o editorial traduz como a
combinação entre o crescimento do protecionismo dos Estados Unidos e a
atratividade concreta das oportunidades econômicas oferecidas pela China. Para
o jornal, o Brasil teria feito as contas e concluído que o unilateralismo
norte-americano oferece custos crescentes e poucas alternativas.
"Pela
primeira vez, autoridades brasileiras de alto escalão estão considerando
impulsionar um acordo comercial ‘parcial’ entre o Mercosul e a China",
destaca o editorial.
<><>
Obstáculos políticos e a saída do acordo parcial
O
Global Times lembra que, historicamente, um acordo amplo entre Mercosul e China
foi visto como quase inviável. Entre os entraves, o texto cita as regras da
Tarifa Externa Comum do bloco, que limitam negociações individuais, além de
obstáculos políticos internos.
O
editorial menciona o Paraguai, que mantém relações diplomáticas com a região de
Taiwan, o que criaria um impasse jurídico para um acordo de livre comércio
abrangente com Pequim. Também aponta a instabilidade política da Argentina,
descrita como um pêndulo entre o peronismo protecionista e a atual orientação
pró-EUA do presidente Javier Milei, como fator adicional de dificuldade para
uma estratégia comum.
Nesse
cenário, o acordo “parcial” é apresentado como uma solução pragmática.
Diferentemente de um tratado de livre comércio com redução generalizada de
tarifas, esse formato contornaria resistências da indústria brasileira e
evitariam impasses diplomáticos. O foco estaria em barreiras não tarifárias,
como harmonização de regras sanitárias, facilitação aduaneira e definição de
cotas de importação.
<><>
China, investimento industrial e nova etapa da relação bilateral
O
editorial sustenta que a reaproximação com a China vai além do comércio de
commodities. Segundo o Global Times, a relação entre Brasil e China já teria
evoluído para uma etapa de integração produtiva, com destaque para
investimentos industriais chineses no país.
O texto
cita a presença de montadoras chinesas de veículos elétricos assumindo antigas
fábricas da Ford na Bahia como símbolo dessa transição. Para o jornal, um
acordo parcial no âmbito do Mercosul poderia oferecer a base institucional
necessária para consolidar esses investimentos e aprofundar a integração das
cadeias produtivas.
"Ao
deslocar o foco das tarifas para a cooperação regulatória, o Brasil não está
apenas facilitando exportações de soja e minério de ferro, mas abrindo caminho
para uma integração mais profunda do capital chinês", afirma o editorial.
<><>
Global Sul, autonomia e recado a Washington
Na
conclusão, o Global Times enquadra esse movimento como expressão da crescente
autonomia do Global Sul. Para o jornal, o avanço das conversas entre Mercosul e
China indicaria a abertura de um novo caminho, no qual o pragmatismo econômico
se sobrepõe a alinhamentos ideológicos rígidos.
O
editorial também envia um recado direto a formuladores de política em
Washington: tentar conter a dinâmica econômica global por meio de pressão e
barreiras tende a acelerar a busca por novos parceiros. Na visão do jornal, as
mudanças em curso na América do Sul não representam uma reação passiva ao
enfraquecimento da hegemonia, mas uma resposta ativa de países determinados a
definir seu próprio destino econômico.
Fonte:
Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário