A
ameaça invisível à democracia brasileira em 2026
O
debate político brasileiro às vésperas de 2026 segue comprometido por um erro
estrutural de diagnóstico que afeta tanto a análise quanto a ação estratégica.
A maior parte das leituras ainda associa o risco à democracia a cenários de
ruptura explícita, mobilizações extremas ou tentativas abertas de subversão
institucional, como se a instabilidade democrática contemporânea ainda se
manifestasse prioritariamente por golpes clássicos ou quebras formais da ordem
constitucional. Essa gramática anacrônica funciona como um filtro cognitivo que
captura a atenção para eventos espetaculares e impede a percepção dos processos
silenciosos, cumulativos e juridicamente compatíveis que hoje produzem
degradação democrática real.
O
efeito prático desse erro é a subestimação de um tipo de ameaça mais eficaz:
aquela que não interrompe o funcionamento das instituições, mas reduz
progressivamente sua capacidade de produzir direção coletiva. Democracias do
século XXI tendem menos ao colapso abrupto e mais ao esgotamento funcional.
Continuam operando, realizam eleições, mantêm estabilidade formal, mas perdem a
aptidão para organizar expectativas sociais, mediar conflitos materiais e
sustentar um horizonte inteligível de futuro. Quando isso ocorre, a democracia
deixa de ser vivida como instrumento de transformação e passa a ser percebida
como mecanismo lento de administração da frustração.
No caso
brasileiro, a análise do governo Lula frequentemente se ancora em indicadores
corretos, porém insuficientes, como normalização institucional, reconhecimento
internacional e desempenho macroeconômico agregado. Esses elementos coexistem,
contudo, com um fenômeno politicamente decisivo: a dissociação entre
estabilidade institucional e percepção cotidiana de avanço. Pesquisas de
opinião e indicadores de confiança mostram que a sensação de travamento,
insegurança econômica difusa e ansiedade quanto ao futuro imediato pode
persistir mesmo em contextos de recuperação macroeconômica, criando um hiato
perigoso entre funcionamento do sistema e experiência social concreta.
Esse
hiato não gera necessariamente rebelião aberta ou radicalização imediata. Ele
produz algo mais funcional aos projetos antidemocráticos contemporâneos:
resignação disciplinada, baixa expectativa histórica e disposição crescente
para aceitar soluções que prometem eficiência, rapidez ou decisão centralizada
em detrimento da mediação política. A política passa a ser percebida como
entrave; o conflito social, como disfunção; e a democracia, como custo
operacional. Não se trata de rejeição consciente do regime democrático, mas de
um rebaixamento silencioso de sua utilidade percebida.
Ignorar
essa forma de erosão é persistir em uma leitura confortável, porém inadequada,
da ameaça real. O perigo central do ciclo que se abre não reside na quebra
explícita das regras, mas na normalização progressiva da ideia de que a
democracia funciona, porém não entrega; existe, porém não organiza o futuro;
governa, porém não transforma. Quando essa percepção se consolida, a transição
antidemocrática já está em curso, mesmo que nenhuma ruptura formal tenha
ocorrido.
A forma
contemporânea de esvaziamento democrático não atua prioritariamente sobre a
macroeconomia nem sobre os grandes indicadores institucionais, mas sobre a
experiência cotidiana das maiorias. É nesse terreno, aparentemente banal, que
se decide a capacidade real de um governo sustentar legitimidade política. A
democracia começa a perder densidade quando a estabilidade formal não se
converte em sensação perceptível de movimento na vida concreta, produzindo a
impressão difusa de que o sistema funciona, mas não avança.
Esse
deslocamento é politicamente decisivo porque a percepção social de progresso
não depende apenas de crescimento agregado ou de melhora estatística, mas da
relação entre expectativas e experiência material. Mesmo em contextos de
recuperação econômica, indicadores como endividamento das famílias, custo de
vida, pressão sobre serviços essenciais e insegurança quanto ao futuro imediato
podem neutralizar a sensação de avanço. Quando ganhos macroeconômicos são
absorvidos por despesas cotidianas ou não se traduzem em melhoria visível no
ritmo da vida, instala-se um hiato entre o que o governo entrega e o que a
sociedade sente.
Esse
hiato não gera automaticamente conflito aberto. Ao contrário, tende a produzir
uma forma de frustração silenciosa, marcada por cansaço político e redução da
expectativa histórica. A política passa a ser percebida menos como espaço de
disputa coletiva e mais como circuito fechado incapaz de responder às urgências
do presente. A democracia, nesse enquadramento, não é rejeitada por ser
injusta, mas questionada por parecer ineficiente diante de um mundo que promete
velocidade, fluidez e soluções imediatas.
A
captura desse estado afetivo não exige narrativas ideológicas elaboradas. Ela
opera por simplificações eficazes que associam a lentidão da vida cotidiana à
própria existência da mediação política. O Estado passa a ser descrito como
obstáculo, o conflito social como ruído e a negociação democrática como atraso.
Esse discurso ganha força porque dialoga diretamente com a experiência concreta
de travamento vivida por amplos setores sociais, independentemente de sua
posição ideológica prévia.
Nesse
contexto, a guerra de expectativas torna-se a principal arena de disputa.
Governos deixam de ser avaliados apenas pelo conteúdo de suas políticas e
passam a ser julgados pelo intervalo entre promessa e experiência cotidiana.
Quanto maior esse intervalo, maior a abertura cognitiva para soluções que
prometem romper o bloqueio, ainda que não apresentem projeto consistente ou
compromisso democrático. A eficácia política dessa dinâmica reside em sua
ambiguidade: ela não precisa oferecer um caminho claro, apenas sugerir que a
política institucional é incapaz de acompanhar o ritmo da vida.
Quando
a democracia perde a capacidade de disputar o cotidiano como espaço legítimo de
interpretação da realidade social, ela passa a operar em desvantagem
estrutural. Não por falhar juridicamente, mas por não conseguir converter
estabilidade em expectativa concreta de futuro. É nesse ponto que o desgaste
deixa de ser abstrato e se transforma em experiência vivida, contínua e
cumulativa, abrindo espaço para formas de poder que se apresentam como
alternativas técnicas à mediação democrática, mesmo quando seus custos
políticos permanecem ocultos.
Para
que o desgaste cotidiano e a frustração silenciosa se convertam em perda
efetiva de capacidade democrática, não basta a existência de insatisfação
difusa. É necessária uma arquitetura de poder capaz de organizar, amplificar e
direcionar esses afetos de modo contínuo. Essa arquitetura não se apresenta
como um ator único ou uma conspiração centralizada, mas como a convergência
funcional entre estruturas distintas que operam segundo lógicas próprias e se
reforçam mutuamente quando o objetivo é reduzir a eficácia da política
democrática.
Um dos
pilares dessa arquitetura é a infraestrutura informacional privada, concentrada
em plataformas digitais que deixaram de ser meros canais de comunicação para se
tornarem sistemas ativos de modulação da atenção pública. Seu poder não reside
apenas na circulação de conteúdos extremos ou falsos, mas na capacidade
estrutural de premiar narrativas simplificadoras, emocionalmente carregadas e
hostis à mediação política, ao mesmo tempo em que rebaixam discursos
explicativos, processuais ou orientados por conflito social. Essa dinâmica não
depende de alinhamento ideológico explícito; ela emerge do próprio modelo de
negócios, no qual engajamento se converte em valor econômico e influência
política indireta. Tentativas de regulação, por sua vez, costumam acionar
reações coordenadas no plano jurídico, legislativo e simbólico, enquadradas
como ameaças à liberdade ou à inovação.
Outro
pilar opera no plano ideológico, mas não por meio de propaganda direta. Redes
de think tanks, fundações e programas de formação de quadros atuam na
padronização do vocabulário legítimo do debate público, substituindo categorias
políticas por termos aparentemente técnicos. Conceitos como eficiência,
modernização e governança passam a ocupar o lugar de conflito, redistribuição e
soberania, deslocando a política do campo da disputa social para o da
administração. Esse movimento não elimina o conflito, mas o deslegitima,
classificando demandas populares como irracionais ou inviáveis e naturalizando
a ideia de que decisões centrais devem ser tomadas fora do alcance da
deliberação democrática.
A
porosidade do Estado constitui um terceiro elemento decisivo. Aparatos de
segurança, inteligência e burocracias especializadas operam, muitas vezes, em
zonas opacas, sujeitas a disputas internas e usos informais do poder. Quando
não plenamente integradas a mecanismos de controle democrático, essas zonas se
tornam vetores de vazamentos seletivos, crises artificiais e desgaste político
contínuo. Não é necessário um uso massivo desses instrumentos; intervenções
episódicas, bem cronometradas, são suficientes para manter governos na
defensiva e alimentar a percepção pública de instabilidade permanente, mesmo na
ausência de ilegalidade explícita.
Por
fim, a securitização do debate público funciona como catalisador. Questões
complexas, especialmente ligadas à violência e à ordem social, são enquadradas
como ameaças existenciais que exigem respostas imediatas, reduzindo o espaço
para mediação, negociação e análise estrutural. O medo opera como atalho
político, simplificando diagnósticos e legitimando soluções de exceção. Em
contextos federativos, esse enquadramento ainda fragmenta responsabilidades e
enfraquece a coordenação nacional, reforçando a percepção de incapacidade do
poder central.
O
efeito decisivo não está em cada uma dessas estruturas isoladamente, mas em seu
acoplamento. A infraestrutura informacional amplifica o discurso tecnocrático;
a padronização ideológica fornece linguagem legitimadora; a porosidade estatal
produz crises recorrentes; a securitização oferece o enquadramento emocional. O
resultado não é a quebra da democracia, mas seu esvaziamento funcional
progressivo. As instituições permanecem, as regras seguem válidas, mas a
política perde capacidade de organizar expectativas, mediar conflitos e
produzir direção coletiva. É nessa convergência silenciosa que se consolida a
forma mais eficaz de desestabilização democrática no presente histórico.
Quando
essas dinâmicas se acoplam, o que emerge não é uma crise pontual, mas um
cenário histórico específico, no qual a democracia continua funcionando
formalmente enquanto perde, de maneira progressiva, sua capacidade de governar
o tempo. O ciclo que se projeta para 2026 deve ser lido sob essa chave. Não se
trata de uma disputa eleitoral convencional, nem de um confronto aberto entre
projetos institucionais incompatíveis, mas de um processo de desgaste
cumulativo que rebaixa a política à condição de gestão defensiva e transforma o
governo em administrador permanente de emergências.
Nesse
ambiente, a governabilidade passa a ser medida menos pela capacidade de
produzir direção estratégica e mais pela habilidade de sobreviver a sucessivas
crises de curta duração. Escândalos, controvérsias e choques simbólicos se
sucedem em ritmo acelerado, fragmentando a agenda pública e impedindo a
consolidação de marcos claros de transformação. O tempo político se torna
curto, reativo e descontínuo. A cada novo episódio, o horizonte é reiniciado, e
a política perde a capacidade de construir narrativas de médio prazo que
conectem presente e futuro.
Esse
deslocamento tem efeitos profundos sobre a percepção social. Governos passam a
ser avaliados não pelo conteúdo estrutural de suas decisões, mas pela sensação
difusa de eficácia. A pergunta que organiza o julgamento político deixa de ser
“para onde estamos indo” e passa a ser “por que tudo parece tão lento”. A
política institucional, nesse enquadramento, é comparada a modelos abstratos de
eficiência, frequentemente associados ao universo empresarial ou tecnológico,
nos quais conflito, negociação e mediação aparecem como custos indesejáveis. O
resultado é a naturalização da ideia de que governar bem significa decidir
rápido, ainda que isso implique reduzir espaços de deliberação democrática.
À
medida que essa lógica se consolida, sinais recorrentes se tornam visíveis. A
linguagem pública passa a privilegiar termos associados à urgência e à
excepcionalidade. Propostas que concentram poder decisório ganham legitimidade
sob o argumento da necessidade imediata. Conflitos federativos são
amplificados, responsabilidades se diluem e a coordenação nacional é
enfraquecida. A política social e econômica perde centralidade para agendas de
impacto rápido, frequentemente orientadas pelo medo, pela punição ou pela
promessa de choque de eficiência.
O
aspecto mais perigoso desse cenário é sua aparência de normalidade. Não há
suspensão formal de direitos, nem ruptura explícita da ordem constitucional.
Pelo contrário, o processo se apresenta como adaptação pragmática a um mundo
supostamente mais acelerado e complexo. A democracia não é atacada
frontalmente, mas progressivamente reclassificada como insuficiente para lidar
com as urgências do presente. Quando essa percepção se estabiliza, o terreno já
está preparado para soluções que se apresentam como técnicas, neutras ou
inevitáveis, mas que operam à margem da mediação política.
Nesse
ponto, o risco deixa de ser apenas eleitoral e se torna histórico. Mesmo uma
vitória formal pode ocorrer em um ambiente profundamente degradado, no qual o
exercício do poder democrático é permanentemente constrangido por expectativas
rebaixadas, tolerância crescente à exceção e desconfiança estrutural na
política como instrumento de transformação. O perigo de 2026, portanto, não
reside apenas no resultado das urnas, mas na consolidação de um arranjo em que
a democracia permanece de pé, porém já não organiza o futuro coletivo.
Diante
desse cenário, a defesa democrática não pode se limitar à reafirmação abstrata
de princípios nem à negação do risco. Ela exige engenharia política capaz de
reorganizar o tempo, disputar o cotidiano e fechar as brechas estruturais que
permitem a erosão silenciosa do poder democrático. A primeira exigência é
recuperar a capacidade de organizar o futuro como experiência social concreta.
Democracias não sobrevivem apenas porque funcionam institucionalmente, mas
porque oferecem marcos inteligíveis de avanço. Isso implica abandonar a lógica
reativa e produzir sinais claros de movimento, conectando decisões políticas a
efeitos perceptíveis no ritmo da vida comum. Não se trata de prometer tudo, mas
de tornar visível o que muda, em que prazo e por qual razão, reconstituindo a
confiança entre expectativa e experiência.
Essa
reorganização do horizonte precisa caminhar junto com a politização do
cotidiano. O cotidiano não é um espaço neutro de consumo de políticas públicas,
mas o terreno onde conflitos materiais se expressam de forma imediata. Quando a
política abdica de explicar por que certas transformações não ocorrem, quem
bloqueia mudanças estruturais e quais interesses se beneficiam da lentidão, a
frustração é capturada por narrativas que prometem eficiência sem mediação. A
democracia perde quando aceita que o cotidiano seja interpretado exclusivamente
pela gramática da gestão. Recuperar a pedagogia material do conflito é condição
para que a política volte a ser percebida como instrumento legítimo de
transformação, mesmo quando isso implica tensionar consensos aparentes.
No
centro dessa disputa está a dimensão informacional do poder contemporâneo.
Governar sem governança sobre os circuitos que organizam a atenção coletiva é
governar em terreno inclinado. A defesa democrática exige tratar a integridade
informacional como política de Estado, indo além da moderação de conteúdo e
enfrentando questões estruturais como transparência de critérios,
responsabilização por impactos sistêmicos e construção de capacidades públicas
de auditoria e resposta. Não se trata de restringir o debate, mas de impedir
que infraestruturas privadas exerçam poder público sem freios democráticos.
Democracias que renunciam a essa tarefa aceitam operar sob desvantagem
permanente.
Outro
eixo decisivo é reduzir a porosidade do Estado. Aparatos de inteligência,
segurança e burocracias especializadas precisam funcionar sob controle civil
efetivo, com regras claras e responsabilização real. Estados opacos não são
mais eficientes; são mais vulneráveis à instrumentalização política. A
administração contínua de crises produzidas por vazamentos seletivos, disputas
internas não reguladas ou operações informais corrói a governabilidade e
rebaixa a política à defensiva. Fortalecer o Estado democrático implica
iluminar essas zonas e integrá-las plenamente ao circuito legítimo de decisão.
Por
fim, é indispensável reconduzir a segurança ao campo democrático. A
securitização permanente do debate público funciona como atalho para a
concentração de poder e a normalização da exceção. Enfrentar a violência exige
coordenação federativa, inteligência qualificada e políticas estruturais, não a
transformação do medo em método de governo. Democracias que governam pelo
pânico abrem mão, ainda que gradualmente, da mediação como ferramenta central.
Essas
frentes só produzem efeito quando articuladas por uma direção política que
reconhece o conflito como elemento constitutivo da democracia. O objetivo não é
eliminar tensões, mas organizá-las de forma inteligível e produtiva. A maior
vulnerabilidade democrática não está na existência de conflitos, mas na
incapacidade de administrá-los politicamente. O alerta que se impõe ao Brasil
no caminho de 2026 é direto: a democracia não será derrotada por um gesto
abrupto, mas pode ser esvaziada pela soma de concessões à urgência, à
eficiência sem política e à antipolítica travestida de solução técnica.
Defender a democracia hoje exige menos retórica e mais estratégia, menos
negação do risco e mais capacidade de agir sobre ele antes que a normalização
do esvaziamento seja aceita como destino.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

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