'A
história da Igreja Católica, em grande parte, é a história da perversão do
cristianismo', diz escritor espanhol
"Sou
ateu. Sou anticlerical. Sou laico militante, racionalista contumaz, ímpio
rigoroso." Assim se definiu o escritor espanhol Javier Cercas a caminho da
Mongólia, enquanto acompanhava o papa Francisco (1936-2025). Sua esperança era
que o vigário de Cristo na Terra pudesse responder a uma pergunta simples mas,
ao mesmo tempo, impossível: se sua mãe iria ver o seu pai depois da morte.
O
Vaticano havia proposto a Cercas um presente-surpresa que nenhum escritor
poderia rejeitar: abrir completamente suas portas para perguntar e escrever com
total liberdade o que quisesse, acompanhando Francisco em uma viagem para um
local longínquo do planeta. Como responder que não?
Cercas
entrou por aquelas portas com a curiosidade de alguém que perdeu a fé na
adolescência. Mas, sobretudo, com o amor de um filho que buscava um último
consolo para sua mãe idosa e enferma. O resultado foi o livro O Louco de Deus
no Fim do Mundo (Ed. Record, 2026), que mistura sua biografia com a crônica da
viagem. Cercas o define como um romance policial, "como são, no fundo,
todos os romances importantes para mim, a começar por Dom Quixote, já que, em
todos eles, existe um enigma e alguém tentando decifrá-lo".
O
enigma do livro não é uma questão qualquer, nem o de um romance policial comum.
Trata-se da ressurreição da carne e da vida eterna, pedra fundamental do
cristianismo. "Vivemos em um mundo sem Deus", conta o autor de
Soldados de Salamina e Anatomia de um Instante (ambos da Ed. Biblioteca Azul,
2012). Isso cria um vazio no qual só conseguimos encontrar substitutos parciais
ao relato com que a religião dava sentido ao mundo.
A BBC
News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) conversou com Javier Cercas durante o
Hay Festival Cartagena, realizado na Colômbia entre 29 de janeiro e 1° de
fevereiro de 2026. LEIA A ENTREVISTA:
• Seu livro sobre o papa, o disco de
Rosalía... A religião está na moda?
Javier
Cercas: Não sei, duvido muito.
É claro
que existem algumas coisas interessantes, como este livro, como o disco de
Rosalía, mas não sei se está na moda. Cada país é diferente, e cada
circunstância é distinta. A Europa não é mais o centro do cristianismo. O
catolicismo é muito forte na América Latina, mas está se reduzindo. O centro do
catolicismo, agora, está na África, mas será que isso significa que a religião
está na moda?
Eu quis
basicamente me perguntar o que fazemos hoje com a religião, quando, na Europa e
na maior parte do Ocidente, embora haja pessoas crentes, vivemos em um mundo
sem Deus. Isso que foi tão importante durante séculos, que ofereceu um sentido
para o mundo — agora, o que fazemos com isso? E o que está acontecendo no
Vaticano? O que diz a Igreja? É isso que tentei mostrar neste livro.
• Vivemos em um mundo no qual não existe
mais um relato que pretenda dar sentido a tudo, como fazia a religião. Você
acha que substituímos a religião pelo quê?
Cercas:
Nada substituiu a religião. Esta é a resposta. Existem substitutos parciais.
Nós nos esquecemos de um ponto: que a religião, a ideia de Deus, havia dado
completo sentido ao mundo. Isso é incrível. Na Idade Média [476-1453], as
pessoas viviam em um mundo ordenado, onde Deus dava sentido a tudo.
Durante
séculos e séculos, a humanidade viveu desta forma, mais ou menos até o final do
século 19, quando Nietzsche [1844-1900] escreveu aquele texto extraordinário,
que mostra um louco dizendo "Deus morreu e nós o matamos". A partir
daquele momento, este grande relato cai. Houve tentativas de substituir este
relato, de dar uma explicação global para o mundo, como o marxismo e a
psicanálise. Mas estas tentativas não funcionaram. Não existe um relato que
substitua o relato de Deus, o relato da religião. A condição pós-moderna
consiste precisamente nisso, como dizia em 1979 o filósofo francês
Jean-François Lyotard [1924-1998]. Não temos mais grandes relatos.
Cada um
busca a vida à sua maneira. Alguns encontram um substituto em religiões
alternativas; outros, na arte, na política, no consumo... E, às vezes, muitas
pessoas se ressentem disso, da ausência desse grande relato comum, ou seja, a
ausência de Deus, a nostalgia do absoluto, como dizia o escritor George Steiner
[1929-2020].
Acredito
que isso fica visível no final do meu livro, embora eu não fosse consciente do
todo. De fato, o protagonista se autointitula "o louco sem Deus",
como o louco de Nietzsche, o louco que sente falta dessa grande explicação
global. E é possível que muitas pessoas sintam falta dela.
• E isso gera, como você conta no livro,
um nó na garganta.
Cercas:
Esse nó na garganta é o que eu descobri na adolescência, quando perdi Deus,
essa angústia. E tentei combater a angústia, ou seja, o vazio que Deus havia
deixado, com a literatura. É claro que foi um erro, pois a literatura não
fornece certezas nem respostas. Ela gera incertezas e inquietude. Mas, na
própria busca, já havia uma resposta. Ou seja, que a literatura, de alguma
forma, me serviu como sucedâneo, como substituto da religião. E o meu caso não
é uma exceção. De fato, no final do século 19, grandes escritores, como Gustav
Flaubert [1821-1880], por exemplo, os grandes pais da modernidade, se
autointitularam "sacerdotes da arte". Eles consideravam a arte como
uma espécie de sacerdócio.
• Você também fala do
"constantinismo", a união entre a Igreja e o Estado. Parece que já
havíamos superado isso, mas hoje temos a impressão de que houve uma regressão.
Observamos muitas forças políticas que continuam se apoiando na religião ou que
a usam como desculpa para seus projetos políticos.
Cercas:
O constantinismo é a união entre o poder e a religião. Ele foi catastrófico
para a Igreja. E a Igreja Católica de hoje — Francisco era um exemplo — combate
radicalmente o constantinismo. Pelo menos o Vaticano de Francisco e, sem
dúvida, o deste homem [o papa atual, Leão 14]. Outra questão é que outras
igrejas continuam instaladas no constantinismo. E, de fato, no Ocidente, muitas
pessoas, sobretudo da extrema-direita, usam a religião para seus próprios
projetos políticos.
Isso é
mortal, é catastrófico por um motivo básico. Porque o cristianismo não pode
estar junto do poder, ele precisa ser um contrapoder.
• Esta é outra das ideias que você
aprofunda em O Louco de Deus...
Cercas:
É que um ponto elementar está esquecido. Jesus Cristo era alguém perigoso, era
subversivo, era revolucionário. Ele dizia coisas muito perigosas. "Eu não
vim trazer a paz, mas sim a espada." "Todos os homens e todas as
mulheres são iguais", dizia ele, em uma época em que o mundo era dominado
pela escravidão. Ainda hoje é perigoso, é revolucionário dizer isso. Jesus
Cristo não era um homem que andava ligado ao poder e ao dinheiro, muito pelo
contrário. Era alguém que andava por aí com pessoas que não tinham onde cair
mortas, com indigentes, prostitutas, com os párias da sociedade. Este é o
verdadeiro cristianismo. O que vivemos é uma perversão do cristianismo. É um
cristianismo constantinista, ou seja, vinculado ao poder. Um cristianismo
clerical, no qual o clero está acima dos crentes. Isso também é letal para o
cristianismo.
Em
grande parte, a história da Igreja Católica é a história da perversão do
cristianismo. Existe uma frase de um grande escritor francês, Charles Péguy
[1873-1914], revolucionário e místico do início do século 20, que é
corretíssima: "O que há de mais contrário ao cristianismo é o espírito
burguês."
Mas o
que nós conhecemos é um cristianismo burguês, de pessoas privilegiadas.
• Você diz especificamente que Francisco
era anticlerical. Quais são os problemas causados pelo clericalismo? Do seu
ponto de vista, a Igreja continua sendo clerical?
Cercas:
E do ponto de vista de Francisco, também. Por isso, ele combateu o clericalismo
até a morte. Era um dos seus principais inimigos. O clericalismo é a ideia de
que o sacerdote está acima dos fiéis. Francisco dizia que este é o câncer da
Igreja. O sacerdote, o clero em geral, faz parte dos fiéis. Francisco tinha uma
imagem muito boa, era um homem com imagens literárias.
Ele
havia sido professor de literatura e dizia: "O sacerdote precisa estar, ao
mesmo tempo, diante dos fiéis para guiá-los, dentro do rebanho de fiéis, porque
ele faz parte do rebanho, e atrás para ajudar os que não conseguem seguir, mas
nunca acima. É desse estar acima que vem grande parte dos males da
Igreja." Não sou eu que digo isso, quem dizia era ele.
Sem ir
muito longe, os abusos sexuais, que não são mais do que abuso de poder. Se você
está acima dos demais, pode ter a tentação de abusar deles. Neste sentido, sim,
é claro que uma parte da Igreja continua sendo clerical. Mas o clericalismo é
simplesmente letal para a Igreja. Por isso, Francisco era muito radical a este
respeito.
• E como você vê o novo papa? Você
acredita que ele também seja anticlerical?
Cercas:
Sim, com certeza. Talvez ainda seja cedo para dizer, porque é um homem muito
prudente. Francisco entrou como um vendaval, veio revolucionar as coisas, armar
confusão, como ele dizia. E ele fez isso, acredito que fez. Este entrou de
forma muitíssimo mais suave. Acredito que o caminho seja o mesmo, pois é o que
a Igreja Católica fixou desde o Concílio Vaticano 2°, o retorno ao cristianismo
de Cristo. O que acontece é que alguns papas o seguiram com mais ênfase e
outros com menos. O que mais ênfase colocou foi Francisco, sem sombra de
dúvida. O novo papa segue o mesmo caminho, mas a forma é totalmente diferente.
E a forma é fundamental.
Desde o
primeiro dia, o que se viu foi um papa muito mais clássico, muito mais
tradicional, muito menos inovador. Ele vem acalmar as águas. Vem unir o que
Francisco separou, pois é preciso dizer que Francisco deixou uma Igreja
bastante dividida, com muitas pessoas opostas a ele de forma muito radical,
dentro da própria Igreja. E vem reunir um pouco as coisas. Mas ainda não
sabemos. Ele não fez grandes mudanças no Vaticano.
Existe
um ponto que sim, é verdadeiro. Que este homem, antes de tudo, é um
missionário. Francisco falava em uma Igreja missionária, pois os missionários
são os que melhor encarnam o cristianismo de Cristo, esse cristianismo radical,
que faz o mesmo que os cristãos primitivos. Abandonar tudo, ambições, família
etc. e se lançar para o fim do mundo. É isso que fazem os missionários do meu
livro, a 50 graus abaixo de zero. Eles vão estender a mão. Porque não vão
evangelizar como os missionários antigos, mas sim ficar com os indigentes, com
os que não têm onde cair mortos — ou seja, com os que ficava Jesus Cristo. Este
homem tem uma particularidade. Ele, ao mesmo tempo, é missionário e conhece a
cúria. Isso o torna o mais original de todos. Não conheço um papa assim.
• Como você acreditava que seria o
Vaticano antes de entrar lá e ter acesso a tantas pessoas? Você encontrou o que
esperava?
Cercas:
Certamente, não. Veja, o meu maior esforço para escrever este livro foi
eliminar minha visão preconceituosa. Todo mundo está repleto de preconceitos de
todo tipo, contra e a favor do Vaticano, da Igreja Católica, do cristianismo
etc. Sobretudo nos nossos países, de forte tradição cristã, como a Espanha e os
países latino-americanos. Todo mundo acredita saber tudo. Nada do que eu
esperava se realizou. Tudo é surpreendente, desde o princípio do livro, com uma
proposta nunca feita antes pelo Vaticano, de abrir as portas para um escritor e
permitir que ele perguntasse e escrevesse o que quisesse, além de acompanhar o
papa. E isso segue até o final do livro, que, se fosse crente, diria que é um
pequeno milagre.
Eu
brinco muito com o livro. Acredito que o humor é o que há de mais sério no
mundo, o que certamente também era a crença do papa Francisco. Por isso, é um
livro humorístico. Não consigo conceber a literatura sem humor, especialmente
os romances. E, é claro, eu brinco com o fato de que esperava encontrar, sei
lá, orgias na Capela Sistina, sacrifícios humanos, o Santo Sudário, enfim, todo
este tipo de clichê, de lendas que circulam sobre o Vaticano. Todos estes
mistérios são simplesmente isso, lendas. Ou seja, invenções.
• Você diz no livro que a fé é um
superpoder. O que você acredita ser mais fácil, ter esse superpoder ou não?
Cercas:
Vejamos, não sei se você compreende. Eu passei de ateu a ser agnóstico. Hannah
Arendt (1906-1975) me convenceu ao dizer que "um ateu é um estúpido que
acredita saber o que não se pode saber". Ou seja, da mesma forma que é
impossível demonstrar a existência de Deus, também é impossível demonstrar que
Deus não existe. Por isso, o mais racional é ser agnóstico, certo? A verdade é
que, seja você ateu ou agnóstico, eu, pelo menos, às vezes, senti inveja dos
crentes de verdade. Da minha mãe, por exemplo. Na verdade, ela é a autêntica
protagonista deste livro. Digo, em algum momento, que, se compararmos sua fé
com a do papa Francisco, a do papa era um tanto duvidosa, um tanto frágil. Ou
com a dos missionários. Ou seja, eu senti inveja da serenidade, da força
fornecida pela fé. Minha mãe era capaz de fazer coisas que eu nunca irei
conseguir.
O livro
tenta ser divertido. Para mim, é um romance acima de tudo. Mas também fala de
coisas muito sérias, como a fé ou a relação com a razão. A fé não é algo
voluntário. Você não pode dizer "Quer saber? Tenho interesse. Como a fé me
dá mais força, mais energia, como é um superpoder e, além disso, nunca se sabe,
vou ter fé." A fé ou você tem, ou não tem. Você não pode fingir, como
também não pode fingir a felicidade. Eu mesmo, embora quisesse recuperá-la, não
saberia como fazer.
Por
isso, acredito realmente que a grande escritora americana Flannery O'Connor
[1925-1964] tinha razão quando dizia que "é muito mais difícil ter fé do
que não ter" (a fé autêntica).
• Quando você fala no livro, por exemplo,
da beleza da homilia do papa na Mongólia, observamos o poder de sedução das
palavras. Até que ponto vai a relação, neste sentido, entre a religião e a
literatura?
Cercas:
Obviamente, a Bíblia é um texto literário deslumbrante. É incontestável. Mesmo
que você não seja religioso, é evidente que a Bíblia teve uma influência imensa
na tradição literária. No livro, de qualquer forma, destaco que a Igreja tem um
problema com a linguagem. Por um lado, é uma linguagem antiga, sem interesse.
Este é um problema enorme da Igreja.
Jesus
Cristo atraía pelos seus feitos, pelo que fazia. O próprio Nietzsche afirma
que, contra a pessoa de Jesus Cristo, não se pode falar nada de mal, pois suas
ações são extraordinárias. Ele seduzia pelo seu posicionamento, pelas suas
obras, pelo que fazia como pessoa, como personagem. Mas também atraía pelo que
dizia, pela sua linguagem, que era totalmente nova e tão deslumbrante que seus
discípulos recolhem suas palavras nos evangelhos como se fossem pepitas de
ouro.
A
linguagem da Igreja envelheceu, se enfraqueceu, passou a ser muito pouco
interessante. E, aqui, a Igreja tem um problema, mas também porque sua
linguagem, muitas vezes, é hermética, não é atraente e ninguém a entende. A
literatura e a religião ficaram intimamente ligadas por séculos. E isso já não
acontece. A Igreja tem um grave problema linguístico.
• E não só a literatura, mas também a arte
ajudava a levar as pessoas para a religião. É o que acontece quando você entra
em uma catedral e se sente minúsculo naquele espaço dedicado a Deus. Ou quando
você ouve, como você conta com muito humor no livro, uma música de Bach
(1685-1750) no metrô de Barcelona, na Espanha, e sente que o teto do vagão irá
se abrir e Deus irá aparecer para dizer: "Como que eu não existo, seus
babacas? Aqui estou eu, de barba e tudo."
Cercas:
Bem, eu cito o filósofo romeno Emil Cioran [1911-1995], que diz: "Deus não
sabe quantos crentes ele deve a Bach." E é verdade, você ouve o Magnificat
e tem, por um momento, a sensação de que Deus existe. Bach, como dizem, era o
quinto evangelista, ou talvez o primeiro. É claro que a Igreja Católica foi
totalmente decisiva no Ocidente de todos os pontos de vista, incluindo o
literário, artístico, político, todos. É algo que se esquece completamente. Às
vezes, me pergunto, como ateu e anticlerical, como aceitei escrever um livro
como este. E respondo com outra pergunta: como não aceitar escrever um livro
como este? Nenhuma instituição durou tanto tempo, nem foi tão decisiva no
Ocidente, quanto a Igreja Católica. Talvez nenhuma no mundo. Como não iria
aceitar entrar ali para ver o que existe e poder contar?
Uma
instituição que, além disso, é estranhíssima, esquisitíssima. Estamos
habituados a ela e nos parece normal, mas não é normal, é a mais incomum do
mundo. Basta pensar que, no centro desta instituição, está algo chamado de
ressurreição da carne e a vida eterna. É algo absolutamente incrível e que
convenceu, seduziu milhões e milhões e milhões de pessoas. Algumas delas,
inteligentíssimas, os homens mais inteligentes da história. Por isso, é algo
extraordinário. Como não vou entrar ali para ver tudo isso?
• Você chegou à conclusão de que o
extraordinário não é o papa, mas a Igreja, que continua existindo 2 mil anos
depois, enquanto impérios e reinados caíram. Qual é o superpoder da Igreja?
Cercas:
Não sei. Se eu fosse crente, acreditaria que é um milagre, pois não existe nada
semelhante. Existe algo muito poderoso no cristianismo. Cristo era um
revolucionário social, mas também um revolucionário metafísico. Cristo não se
rebelou apenas socialmente. Ele se rebelou metafisicamente, contra a morte.
Isso está no centro do cristianismo, a rebelião contra a morte. Tenho muita
simpatia por isso porque a morte me dá nojo, não gosto nada dela. Absolutamente
nada, não quero morrer. O cristianismo diz que "você não vai morrer".
É uma imensa promessa.
Esta
rebelião tem enorme potência. Como escreveu Espinoza [1632-1677]: "Todo
ser quer persistir em seu ser." É o que define os seres humanos. Queremos
continuar sendo. E o cristianismo oferece um caminho para esse desejo de
continuar existindo, que é a ressurreição da carne e a vida eterna.
Definitivamente, ele oferece esta rebelião. É disso que trata este livro.
• Sua mãe está no centro do livro. Até que
ponto você foi movido pelo amor filial?
Cercas:
Quando me fizeram a proposta de escrever este livro, a primeira pessoa em que
pensei foi na minha mãe. Minha mãe era uma mulher profundamente crente,
seriamente católica. E, quando meu pai morreu, ela dizia que iria vê-lo após a
morte. Eles passaram toda a vida juntos, mais de 50 anos. Ela não dizia isso
porque fosse uma ideia sua, mas porque está no próprio coração do cristianismo.
Assombrosamente, muitos cristãos parecem ter esquecido, mas é exatamente assim.
Este
livro trata de um louco sem Deus — eu, que fui educado na fé e perdi a fé. Ele
vai em busca do louco de Deus, ou seja, Francisco — o primeiro papa que assumiu
o nome de Francisco de Assis [c.1181-1226], que se autointitulava o louco de
Deus. E foi com ele até o fim do mundo — ou seja, a Mongólia — para fazer esta
pergunta.
Uma
pergunta elementar e, por sua vez, fundamental. A pergunta central do
cristianismo e um dos principais enigmas da nossa civilização. Minha mãe irá
ver meu pai depois da morte? Sim ou não?
Neste
livro, o aparente protagonista é o papa Francisco, mas a protagonista real é
minha mãe, como era meu pai em Anatomia de Um Instante. Mas você tem toda a
razão. Não há ninguém que tenha me influenciado tanto quanto meus pais. Este é
um fato e, de alguma forma, falar deles é falar de mim mesmo. Investigá-los é
investigar a mim mesmo.E ao me investigar, investigo o que somos nós, seres
humanos. Em última análise, é o que faz a literatura.
• BBC: Você acredita que Francisco esteja
agora conversando com sua mãe?
Cercas:
É que não sou crente. Este é o meu problema. Além disso, a ressurreição da
carne e a vida eterna não significam que eu e você iremos nos encontrar como
estamos fazendo agora e podemos continuar falando pelo Zoom. Não acredito que
exista Zoom no céu. Significa outras coisas, significa a transcendência. Mas
existem muitas formas de transcendência. Existe, por exemplo, uma lei que diz
"a matéria não se cria, nem se destrói, apenas se transforma". E não
se trata de uma lei religiosa, mas de uma lei física. Ou seja, agora que meus
pais estão mortos, os dois, sei que eles estão comigo, que eu sou meus pais,
porque as carnes deles se transformaram na minha carne, porque suas células se
transformaram nas minhas células. Não se trata de imaginação, é um fato
constatável. E já é uma forma de transcendência.
O
escritor espanhol Miguel de Unamuno [1864-1936] dizia: "A imortalidade são
os filhos." Algo disso existe. Meus pais, de alguma forma, continuam
vivendo em mim.
Quando
me olho no espelho, vejo meu pai. E, quando digo determinadas coisas, vejo
minha mãe, ouço minha mãe. Mas a literatura busca uma forma de transcendência.
Cada vez que abrimos e lemos uma página de Miguel de Cervantes [1547-1616],
ele, de alguma forma, está conosco, mesmo tendo morrido há tantos séculos. O
que nós, seres humanos, não queremos é morrer. Eu não quero morrer e não
acredito nessas pessoas que dizem que irão aceitar quando o momento chegar. Eu
não gosto disso.
Precisarei
aceitar, não há remédio, mas preferiria continuar falando aqui. É mais
divertido para mim do que desaparecer para sempre. Parece horrível, parece
injusto, parece idiota. Não gosto.
Fonte:
Por Paula Rosas, da BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário