Damny
Laya: O que o ataque à Venezuela diz à soberania digital
O
ataque estadunidense à Venezuela, que resultou no assassinato de mais de 100
pessoas e no sequestro do primeiro mandatário do país, Nicolás Maduro, e da
primeira-dama, Cilia Flores, representou um dos eventos mais violentos de
ruptura da soberania de um país da América Latina por Washington, algo que não
se via neste século. É o que informam analistas ouvidos nesta reportagem, que
avaliam o cenário após o evento e suas possíveis repercussões na soberania do
Brasil e da região.
A
intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela caracterizou-se pelo uso da
força e da tecnologia em peso: ao menos 150 aeronaves partiram do Mar do Caribe
e irromperam no território venezuelano. Boa parte dessas aeronaves foi usada
para efeito de guerra eletrônica. Segundo o The New York Times, foram hackeados a
rede elétrica da capital venezuelana e o sistema de defesa aérea, ação já
apontada como crime de guerra pela comunidade internacional. A Rússia fez o
mesmo quando da invasão da Ucrânia.
Para
Sérgio Amadeu, sociólogo, pesquisador e autor do livro As big techs e a
guerra total: O complexo militar-industrial dataficado, foi o “sequestro
mais caro do mundo”. Ele explica que o ataque ao país vizinho ao Brasil
combinou três fases de ação: um ataque cibernético feito pelas redes, que
desabilitou a energia elétrica e centros de controle, inclusive da empresa de
petróleo da Venezuela. Em seguida, passou-se à fase de ataque eletrônico, mais
no espectro eletromagnético, por onde passam as ondas. Cegaram-se radares e
destruiu-se a possibilidade de comunicação eletrônica. Por fim, combinou-se
isso com ataques de mísseis, ataques de drones, tudo para abrir caminho a uma
unidade de ação militar. “Foi uma operação baseada em dados, que exige um
aparato tecnológico informacional muito preciso, muito grande”, complementa o
especialista.
A
pesquisadora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília
(IPOL) e presidenta do Fórum para a Tecnologia Estratégica dos BRICS, Isabela
Rocha, também opina que foi uma operação militar “extremamente sofisticada, que
conseguiu incluir diversos setores das forças armadas junto com o setor
tecnológico”.
Esse
setor tecnológico é o aparato tecnológico informacional que forma parte do que
Amadeu chama de “complexo industrial militar dataficado”, o qual tem se
fortalecido graças ao alinhamento das big techs ao governo Trump. Tal
alinhamento ficou mais explícito no segundo mandato de Donald Trump, indo desde
o financiamento de sua campanha presidencial por parte das grandes corporações
de tecnologia (Meta, Amazon, Google, Microsoft, Alphabet, X, OpenAI), passando
por grandes jantares e projetos de desenvolvimento, até a incorporação de
líderes da OpenAI, Meta e Palantir ao Exército de Reserva dos Estados Unidos,
com patentes de tenente-coronel, em uma unidade batizada de Corpo Executivo de
Inovação. Um movimento que mistura tecnologia, segurança e poder político para
os Estados Unidos. Para Sérgio Amadeu é a “fusão das big techs com o
Pentágono”. Já a pesquisadora Isabela Rocha chama esse movimento de
“sofisticação e profissionalização da máquina de guerra, agora tecnológica, que
foi ensaiada em Gaza e agora está sendo aplicada de maneira mais refinada,
requintada, na América Latina”.
Isso
serviria de alerta de que essas empresas, municiadas por suas tecnologias, não
agem de forma neutra, motivadas pela inovação e pelo conhecimento, como
costumam se apresentar, mas pelos interesses econômicos de seus acionistas e de
seus aliados políticos. Na nova estratégia de segurança
nacional dos Estados Unidos afirma-se que o país buscará restaurar sua
preeminência no continente e impedir que potências externas obtenham controle
de ativos considerados vitais. A estratégia adota também vários princípios,
sendo um dos mais notórios o da “paz por meio da força”.
Alcides
Perón, professor da FCA-Unicamp e pesquisador da Rede Latino-americana de
Pesquisa em Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits), opina que devido à
crise hegemônica que sofrem os Estados Unidos, e que se manifesta na
dificuldade de manter seu modelo de produção e numa enorme concorrência que vai
retirando as vantagens estratégicas diante da China, “a estratégia do Trump é
retomar a Doutrina Monroe, estabelecer o controle e restabelecer a ordem sobre
a América Latina através do domínio econômico, com produção de exclusivos
comerciais — se for o caso, com a dominação militar — subjugando-a aos seus
desígnios e estratégias”.
Todo
esse contexto vem da perda de liderança dos Estados Unidos e pode justificar as
políticas de alinhamento com as big techs como forma de manter sua vantagem
estratégica produtiva na área de IA, na área de data centers, nas
áreas de infraestruturas telecomunicacionais, completa o pesquisador.
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As verdadeiras motivações por trás do ataque à Venezuela
Ações
como o ataque à Venezuela se encaixam como operações dos Estados Unidos não
para conduzir a política internacional, e sim para manter uma máquina de
guerra, na tentativa de recuperar sua hegemonia politica e economica, aponta
Isabela Rocha.
Trump
tem sido explicito à respeito. O presidente norteamericano afirmou em
reiteradas ocasiões que a intervenção na Venezuela é vital para os interesses
dos Estados Unidos e para a segurança nacional. Para Alcides Perón, as
declarações do presidente norteamericano estão vinculadas ao seguinte:
“segurança nacional depende de uma linha de fornecimento de petróleo direta que
não passe por regiões de influência de nossos adversários. A Venezuela tem as
maiores jazidas de petróleo, é onde os Estados Unidos extraem o petróleo, que,
ainda que [de tipo] grosso, difícil de refinar, garante para eles fornecimento
sem a ação direta de seus adversários”.
Além da
mensagem explicita há também um elemento simbólico: “mostrar para a América do
Sul que quem manda nas Américas são os Estados Unidos, e eles vão usar força
militar para provar isso”, afirma Sérgio Amadeu.
Outra
motivação sería “ter uma base importante para exercer uma nova agenda de
domínio neocolonial na América Latina”, entende Renata Mielli, coordenadora do
Comitê Gestor da Internet no Brasil e assessora especial do Ministério da
Ciência, Tecnologia e Inovação. A Venezuela é importante porque possui, além do
petróleo, uma posição estratégica. Nossa região, além do petróleo que temos
aqui no Brasil, é uma região rica em terras raras e minerais críticos,
“justamente a matéria-prima para o desenvolvimento mais acelerado dessa
indústria de ponta, da inteligência artificial, das baterias, dos data centers”
aponta a coordenadora do CGI.
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Soberania digital
Outro
aspecto que a ingerência do Trump na Venezuela traz ao debate é a questão da
soberania brasileira. Diante do alinhamento das big techs com Trump, o problema
se agrava, entendendo-se que, no contexto atual, a questão passa pela soberania
digital e tecnológica. Ou seja, o controle da infraestrutura crítica que
permite a coleta, gestão e distribuição de dados, que possibilitam o
funcionamento do ambiente digital, quase onipresente em qualquer atividade
política, econômica e financeira.
Mas o
Brasil não é um caso único. Boa parte dos países constituiu suas redes e
sistemas informacionais de maneira profundamente dependente das infraestruturas
tecnológicas globais. “Quando falamos de dependência em termos de autonomia,
controle absoluto, gerenciamento total e independência em relação às redes
internacionais, infraestruturas e formas de ocupação e prestação de serviços, o
Brasil não tem isso. E não terá num horizonte próximo”, afirma o professor
Alcides Perón.
A
coordenadora do CGI, Renata Mielli, convida-nos a analisar o contexto nacional.
“Precisamos olhar a soberania digital dentro do contexto de um país cuja
burguesia nunca desenvolveu um projeto de soberania em cadeias produtivas
fundamentais para que a gente pudesse dar passos nessa direção”, frisa ela.
Ainda
que esta classe não tenha desenvolvido um aparato tecnológico digital próprio,
é difícil dizer que, no médio prazo, o Estado tenha feito sua parte — como
quando da criação da Petrobras ou da Embraer, em seus respectivos momentos. Ao
contrário, as pesquisas sobre o tema apontam que diferentes governos federais,
estaduais e municipais, dos últimos 20 anos, têm agudizado a dependência dos
serviços das big techs. O sociólogo Sérgio Amadeu alerta que no cenário
geopolítico atual, onde a tecnologia digital e os dados são elementos cruciais,
“o governo brasileiro permanece contratando as big techs para cuidar de dados
estratégicos do Brasil”, o que coloca em risco a nossa soberania.
No
início do século, o governo Lula fez um movimento em direção à adoção de
softwares livres. Mas desde o início da década de 2010, esse movimento passou a
ser revertido, com a assinatura de contratos para uso de serviços das big
techs. Isso se apresenta, por exemplo, na forma como os dados das universidades
públicas são armazenados nos data centers da Alphabet/Google
ou da Microsoft, assim como a infraestrutura de e-mails e os sistemas de
reunião e compartilhamento de documentos. Ou ainda em como o Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação (FNDE) faz contratos com empresas
como a Palantir, frequentemente criticada por lucrar com vigilância em massa e
policiamento preditivo, sob o argumento de eficiência e inovação. Dessa forma,
são entregues “dados, sistemas fundamentais para o país, a uma empresa que notoriamente
faz parte do sistema de inteligência e desse complexo militar industrial
dataficado dos Estados Unidos”, denuncia o sociólogo Sérgio Amadeu.
Para
Amadeu, quando o governo brasileiro usa os sistemas das big techs, ao invés de
desenvolver soluções nacionais, “está retirando inteligência e dinheiro daqui e
deixando de prestigiar a inteligência coletiva local, que poderia se
desenvolver”. O sociólogo afirma que o país possui uma infraestrutura
universitária potente, com capacidade e técnicos suficientes para desenvolver
essa atividade produtiva e ao mesmo tempo fortalezer nossa soberania.
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Os novos caminhos a seguir
Diante
desse cenário de dependência, coerção e da nova arremetida colonial dos Estados
Unidos, o que resta para países como o Brasil, e para a América Latina, em
termos de construir soberania?
Para a
presidenta do Fórum para a Tecnologia Estratégica dos BRICS, Isabela Rocha,
“precisamos ter soberania em todos os níveis”. Uma soberania em termos de
infraestrutura dura, por exemplo, em produção de microcondutores e uma matriz
energética forte. Também em nível de software, parar de depender de programas
proprietários estrangeiros e passar a ter soluções de tecnologia baseadas no
Brasil, que rodem em nuvens brasileiras e sejam processadas no país. E,
finalmente, “cognição, buscar justamente a regulação das plataformas e da
internet como um todo, para que a gente possa proteger a forma de pensar do
Brasil e a nossa própria cultura”.
Amadeu
trata a soberania nacional como indissociável da soberania digital. “O Estado
brasileiro precisa ter uma política estratégica diferenciada, requalificar a
soberania; ela passa por uma ação tecnológica, porque não há soberania nacional
sem soberania digital sem soberania de dados”. O pesquisador sugere pensar o
tema em seu contexto político. Ele lembra que no Brasil, se a extrema direita
ganhar as eleições, a discussão sobre soberania será mais difícil. “Passaríamos
de uma possibilidade de agir, como estamos sugerindo às forças que estão no
governo, para uma fase de resistência, que será muito dura. E, se não podemos
ter uma aliança com governo, que podemos construir? Uma aliança com a sociedade
civil”, pensa Amadeu.
O
professor Alcides Perón enxerga o problema de forma similar, e recomenda
“pensarmos a soberania digital para além de uma relação apenas com o Estado”.
Ele acredita que a “soberania pode se articular a partir de formas populares,
autônomas”. Segundo ele, é possível construir mecanismos, redes e sistemas de
comunicação que, em certa medida, confrontem ou, pelo menos, desviem das formas
hegemônicas, das formas dominantes. “Isso que vai começar a surgir. Conforme as
políticas vão se tornando cada vez mais difíceis e as formas de comunicação,
menos confiáveis, alternativas vão surgindo, e a base popular vai ser
fundamental”. Quanto mais forem incentivadas formas populares de construção de
redes soberanas, de mecanismos de comunicação própria, de aplicações, de
sistemas e tecnologias que não passem pelos cânones estadunidenses das big
techs tradicionais, maiores serão as possibilidades de criar de maneira
autônoma, finaliza Perón.
Fonte: Outras Palavras

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