União
ou ‘modelo Chile’: direita se divide quanto a estratégia para enfrentar Lula
Desde a
prisão de Jair Bolsonaro (PL), o campo de oposição ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) segue dividido e indefinido quanto à estratégia a ser
adotada para enfrentar o petista, que é candidato à reeleição, nas urnas.
Ao
ungir o filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL), como seu candidato ao Palácio
do Planalto, o ex-presidente sepultou os planos de quem trabalhava por uma
coalizão em torno de um presidenciável que não carregasse a rejeição do
sobrenome — de preferência Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Sem a
adesão ampla assegurada, o governador de São Paulo deixou a corrida e abriu
espaço para o grupo de governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, Ronaldo
Caiado (PSD), de Goiás, Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Eduardo Leite (PSD),
do Rio Grande do Sul, se apresentarem.
Parte
desses nomes passou a defender o “modelo Chile”, em alusão às eleições
presidenciais de 2025 no país vizinho, que terminaram com o direitista José
Antonio Kast eleito após a fragmentação do campo no primeiro turno. Por outro
lado, o crescimento de Flávio nas pesquisas fez refluir no PL a expectativa de
que os outros partidos abram mão da disputa para apoiar o “01”. Neste texto, a
IstoÉ apresenta os defensores de ambas as estratégias e explica quais fatores
pesam a favor de cada uma delas.
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Sem Tarcísio, resta Flávio
Em nome
da unificação, o argumento principal é evitar a fragmentação de votos no
primeiro turno e concentrar forças para evitar que Lula abra vantagem na
disputa. O incumbente ainda lidera os cenários de primeiro turno testados pela
maioria dos institutos de pesquisa, mas tem visto a diferença para os
concorrentes diminuir.
A tese
da “frente ampla de oposição” tem como principais defensores o pastor Silas
Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e o senador Ciro
Nogueira (PI), presidente do PP e ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro.
Ambos, no entanto, entendem que essa coalizão deveria ser liderada por
Tarcísio.
“A
direita pura não ganha a eleição. para ganhar de Lula, é preciso juntar centro
e direita. Se não juntar, ninguém ganha eleição“, disse Malafaia em entrevista
recente à emissora SBT News, em esperança de que o governador ainda possa se
candidatar. Já Ciro vê posição consolidada do ex-colega da Esplanada.
No PL,
há um esforço de unificação não em torno de Tarcísio, mas de Flávio, que chegou
a empatar tecnicamente com Lula em cenário de segundo turno testado pela Paraná
Pesquisas após fazer gestos de “moderação” em busca de ampliar seu eleitorado.
Presidente da legenda, Valdemar Costa Neto afirmou que não há espaço para uma
“terceira via” na disputa e, unida, a direita poderá derrotar o petista ainda
no primeiro turno. O dirigente sugeriu inclusive que Zema fosse candidato a
vice de Flávio, mas a hipótese não vingou.
À
IstoÉ, a cientista política e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de
Análise e Planejamento) Thaís Pavez afirmou que a estratégia de atrair partidos
da centro-direita para o palanque do “01” tem potencial para arranhar o
discurso “antissistema” do bolsonarismo. “A articulação desse discurso em uma
chapa única é um obstáculo”, disse.
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Por ‘modelo chileno’, PSD embaralha jogo da direita
Com a
filiação de Caiado, agora correligionário de Ratinho e Leite, o PSD de Gilberto
Kassab reuniu três presidenciáveis em uma só legenda. Em outas agremiações,
Zema, o fundador do MBL Renan Santos (Missão) e o ex-ministro Aldo Rebelo (DC)
também se apresentaram no campo da oposição a Lula e aproximaram o cenário
brasileiro do que se viu nas eleições do Chile.
Em
entrevista à CNN Brasil, o governador de Goiás se declarou um defensor do
“modelo chileno” e pregou uma “disputa respeitosa no primeiro turno para que
todos possam se unir no segundo”. Dias depois, o governador mineiro disse ao
jornal O Globo, na mesma linha: “Quanto mais candidatos tivermos pela direita,
mais votos teremos. No segundo turno, estaremos juntos apoiando aquele que
passar”.
Em
dezembro de 2025, os chilenos foram às urnas escolher seu presidente entre o
direitista José Antonio Kast e a comunista Jeannette Jara. Kast foi eleito com
apoio dos quatro concorrentes da centro-direita à direita que enfrentou no
primeiro turno. A tese de analistas é de que a pulverização de votos aumentou o
“mercado eleitor” do campo e contribuiu para a vitória do atual mandatário na
votação definitiva.
Para
Felipe Soutello, estrategista da campanha presidencial de Simone Tebet (MDB) e
idealizador da chapa Lula-Alckmin, a profusão de alternativas dá à oposição uma
possibilidade de explorar o esgotamento da polarização. “A concentração em uma
só candidatura afasta o sujeito de poder fazer escolhas do seu interesse antes
de decidir pelo ‘menos pior’“, disse à IstoÉ.
Em
cenário fragmentado, o primeiro turno da disputa terá potencial para testar a
força dos novos postulantes, especialmente em um campo órfão de seu líder mais
popular. “A estratégia da direita de chapa única atende só aos interesses da
família Bolsonaro, não aos interesses do eleitor que rejeita Lula”, afirmou
Soutello.
• Lula e Flávio Bolsonaro correm contra o
tempo para garantir palanques em MG; entenda
Líderes
nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) têm em Minas
Gerais um dos maiores entraves a suas articulações para o pleito. Nos últimos
dias, aliados de ambos reforçaram negociações para garantir que eles tenham
palanques fortes no estado.
O
esforço se justifica não só porque Minas é o segundo maior colégio eleitoral do
país, com mais de 16 milhões de votantes, mas porque o estado “decide” quem
sobe a rampa do Palácio do Planalto há quase oito décadas — no período, apenas
Getúlio Vargas se elegeu presidente, em 1950, sem ter maioria dos mineiros.
+Flávio
é ‘melhor candidato’ contra Lula do que Jair Bolsonaro, diz pesquisador
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Lula vê favorito indisposto
Lula e
Flávio correm contra o tempo. O petista decidiu retomar a aposta no
ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD) para ser seu candidato a
governador. Desde que ele foi preterido na disputa pela vaga deixada por Luís
Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal — Lula indicou Jorge Messias,
advogado-geral da União —, o palanque projetado pelo presidente ficou mais
distante e as articulações neste sentido esfriaram.
Nos
últimos dias, interlocutores voltaram a crer na possibilidade e uma filiação ao
União Brasil surgiu como hipótese para lançá-lo. Em entrevista ao portal UOL na
quinta-feira, 5, Lula declarou ainda não ter desistido da ideia.
Diante
da incerteza que ainda cerca Pacheco, petistas cogitaram a reitora da UFMG
(Universidade Federal de Minas Gerais), Sandra Goulart, e o PV convidou o
ex-prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda para se filiar e concorrer —
hipótese que ele descarta, porque está afastado da política. Nos dois casos,
falta viabilidade eleitoral.
Também
ex-prefeito da capital mineira, Alexandre Kalil se filiou ao PDT com a
possibilidade de reeditar a aliança da última eleição, quando deu palanque a
Lula, mas foi derrotado pelo governador Romeu Zema (Novo).
Ele se
reuniu com dirigentes petistas no fim de 2025, mas aliados relataram à
reportagem que, nas últimas semanas, a falta de gestos do PT e pesquisas
internas levaram Kalil a começar a preparação de sua campanha ao governo de
forma “independente”.
No
partido, quem defende seu nome é Marilia Campos, prefeita de Contagem. “Se
Pacheco declina e Kalil se coloca, temos de apoiar de primeira mão e trabalhar
essa liderança. Não podemos perder o bonde da história”, disse a petista, que
foi cotada ao Palácio Tiradentes, mas decidiu se lançar pré-candidata ao
Senado.
A
posição de Marília ficou mais distante de se concretizar nesta semana. Após o
presidente do PDT, Carlos Lupi, garantir em uma rede social que o PT apoiaria
Kalil na eleição, o presidente do PT, Edinho Silva, negou o acordo e o próprio
ex-prefeito subiu o tom para dizer que sobe no seu palanque “quem ele quiser”.
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No bolsonarismo, o fantasma de 2022
No
outro polo, o palanque de Flávio perdeu nesta semana sua alternativa mais
popular com a negativa do deputado federal Nikolas Ferreira (PL) em ser
candidato ao governo mineiro. O parlamentar afirmou que concorrerá à reeleição
porque considera sua atuação nacional mais importante para a direita.
O
fantasma que paira no bolsonarismo são as eleições de 2022. Na ocasião, Zema só
anunciou apoio a Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno, quando estava reeleito.
Na leitura de analistas, a falta de engajamento do governador na campanha do
ex-presidente ajuda a explicar a vitória apertada — e decisiva — que Lula teve
no estado: 50,20% a 49,80% no segundo turno.
O
receio é de que o vice-governador Mateus Simões (PSD), que assumirá o governo
em abril para concorrer à reeleição, faça o mesmo. O PSD tende a lançar nome
próprio ao Palácio do Planalto e, mais importante, Simões tem um acordo com
Zema para apoiar sua candidatura presidencial — que deve se confirmar, apesar
dos apelos do PL para tê-lo como vice de Flávio.
A
exigência de fidelidade também afastou do palanque do “01” o senador Cleitinho
Azevedo (Republicanos). Líder nas pesquisas para o governo, o parlamentar teve
rusgas com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), perdeu adesão do
bolsonarismo e passou a emitir sinais duvidosos quanto à participação na
eleição. Nesta semana, colocou o assunto em compasso de espera em razão do
diagnóstico de seu irmão mais novo, Matheus, com leucemia.
Fonte:
IstoÉ

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