'Fé,
família e liberdade': incorporadores imobiliários estão criando comunidades
para nacionalistas cristãos nos EUA
Josh
Abbotoy contempla os frondosos bosques e as pastagens encravadas entre as
colinas dos montes Apalaches, no Estado americano do Tennessee.
Ele
descreve o que pretende construir ali: um bairro com dezenas de lotes
residenciais, em torno da atividade agrícola e, o mais importante: uma igreja.
"É
muito possível que um cliente venha comprar e construir mais ou menos onde nos
encontramos neste momento", afirma ele, enquanto subimos até o cume de uma
colina.
Ele é o
fundador da empresa imobiliária Ridgerunner, que comprou terras neste local e
no estado vizinho do Kentucky. Mas este não é um projeto imobiliário qualquer.
Abbotoy
é uma figura de destaque nos círculos conservadores americanos. Ele descreve
seu projeto como uma "comunidade baseada na afinidade".
Ele é
dirigido não só a pessoas interessadas na paz e na tranquilidade da vida rural,
mas também em uma série de ideais de direita.
"Fé,
família e liberdade", afirma ele. "Estes são os valores que tentamos
exaltar."
Inicialmente,
quando se instalou no condado de Jackson, ele não chamou muita atenção dos
moradores da região.
Mas, no
final de 2024, uma reportagem da TV local trouxe a público algumas das
polêmicas declarações dos primeiros clientes mais sinceros de Abbotoy: o pastor
e escritor Andrew Isker, de Minnesota, e o empresário C. Jay Engel, da
Califórnia.
Eles se
autodenominam "nacionalistas cristãos". E colocam em dúvida os
valores modernos, questionando se o sufrágio feminino e o movimento pelos direitos civis foram boas
ideias.
Eles
também pedem deportações em massa de imigrantes em situação legal, superando
imensamente os planos atuais do presidente americano, Donald Trump.
Às
vezes, eles também dizem: "Revoguem o século 20."
A
reportagem na televisão fez disparar o alarme entre alguns moradores locais.
"Você
não sabe quem são essas pessoas, nem do que elas são capazes", afirmou Nan
Coons, uma mulher de meia-idade, durante recente entrevista perto da praça
central da cidade de Gainesboro, onde fica o terreno.
"E
isso dá medo", segundo ela.
Abbotoy
não se identifica como nacionalista cristão, mas ele afirma que as preocupações
sobre seus inquilinos são exageradas.
Desde
então, o projeto de urbanização da Ridgerunner atraiu atenção nacional nos
Estados Unidos.
E os
moradores de Gainesboro, uma localidade de cerca de 900 habitantes e apenas um
semáforo, se envolveram em uma disputa que reflete batalhas políticas muito
mais importantes.
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Chegam os podcasters
Isker e
Engel anunciaram sua mudança para Gainesboro no ano passado, no seu podcast
intitulado Contra Mundum ("contra o mundo", em
latim).
Seu
programa, agora, é gravado em um estúdio no escritório da Ridgerunner em
Gainesboro. Eles incentivaram seus ouvintes a se mudar para comunidades
pequenas, buscar influência local e se unir a eles na luta para colocar os
rigorosos valores cristãos conservadores no centro do governo americano.
"Se
conseguíssemos criar lugares onde se pudesse exercer o poder político, o que
poderia significar fazer parte da junta de comissários do condado ou até ter
influência sobre os comissários do condado e o xerife... conseguir fazer isso é
extremamente valioso", declarou Isker, em um episódio do podcast.
Engel
popularizou no X a ideia dos "americanos por legado" (heritage
Americans, em inglês).
Este é
um conceito difuso, aplicado principalmente aos anglo-protestantes, cujos
antepassados chegaram aos Estados Unidos há pelo menos um século.
Engel
afirma que não se refere explicitamente aos brancos, mas que o conceito tem
"fortes correlações étnicas".
Ele
pediu a deportação em massa de imigrantes, incluindo aqueles em situação legal.
Para ele, "povos como os índios, do sudeste asiático, os equatorianos e os
imigrantes africanos são os menos capazes de se integrar e deveriam ser
enviados para casa imediatamente".
Nos
seus programas e textos escritos, eles também têm expressado sentimentos
contrários à comunidade LGBTQIA+.
Os
podcasters negam ser nacionalistas brancos. Ambos são clientes da Ridgerunner e
a igreja de Isker será trasladada para a capela da comunidade, quando estiver
terminada.
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A 'resistência'
Estas
opiniões radicais alarmaram os moradores. Alguns deles criaram um grupo de
resistência informal.
"Acredito
que eles estejam tentando rotular nossa cidade e nosso condado como sede da sua
ideologia do nacionalismo cristão", afirma a matriarca da cidade, Diana
Mandli, destacada empresária local que, até pouco tempo atrás, era proprietária
de um bar na praça central de Gainesboro.
No
final do ano passado, Mandli liderou os protestos, escrevendo uma mensagem em
uma lousa, no lado de fora do seu estabelecimento.
"Se
você for uma pessoa ou grupo que promove a inferioridade ou a opressão dos
outros, por favor, coma em outro lugar."
Surgiram
outros sinais contra o novo projeto.
Quando
as pessoas ficaram sabendo que os responsáveis pela Ridgerunner estavam
reunidos em um restaurante fast food da região, dezenas de pessoas foram até lá
para confrontá-los.
Os
antepassados de Nan Coons moraram em Gainesboro desde a época da Guerra da
Independência dos Estados Unidos (1775-1783). Ela conta ter conversado com
Engel.
"Ele
me explicou que eles promovem o que ele chama de 'voto familiar'... um voto por
família e, é claro, quem votaria seria o marido da família", deixando as
mulheres fora do eleitorado.
Desde
então, Engel vem declarando publicamente que não é "errado" que as
mulheres votem, mas ele apoia a ideia do sufrágio familiar.
Morando
em um condado onde 80% da população votou em Donald Trump nas últimas eleições,
Coons está acostumada com vizinhos que detêm opiniões conservadoras.
Mas ela
e outras pessoas saíram do protesto ainda mais convencidas de que as crenças
dos seus novos vizinhos são extremistas demais.
Eles
dizem que não querem expulsá-los da cidade, mas pretendem alertar sobre o que
eles consideram opiniões extremas. E sua intenção é também frustrar qualquer
tentativa futura do grupo, de assumir o controle do governo local.
"É
aqui que precisamos definir os limites", afirma Coons.
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O que é o nacionalismo cristão?
O
nacionalismo cristão é uma nebulosa visão de mundo, que não tem uma única
definição abrangente.
No seu
ponto mais radical, como descrevem teóricos como o escritor Stephen Wolfe, os
nacionalistas cristãos defendem que o governo seja exercido por um
"príncipe cristão", um ditador religioso todo-poderoso que reine
sobre as autoridades civis e oriente seus súditos rumo à
"religiosidade".
Suas
versões menos extremistas incluem convocações para que as leis cristãs sejam
explicitamente consagradas nos códigos legais americanos, para que os líderes
religiosos se envolvam profundamente na política ou, simplesmente, para que se
reconheça a origem cristã dos pais fundadores dos Estados Unidos.
Esta
multiplicidade de definições criou uma ambiguidade estratégica que, segundo
especialistas, contribuiu para que o nacionalismo cristão se infiltrasse na
corrente dominante.
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Grandes ideias ou plano da direita radical?
O
projeto de Abbotoy ainda está nos estágios iniciais. Sua empresa está
construindo estradas e formando a infraestrutura sanitária.
A BBC
visitou o local em novembro passado. Na época, os trabalhadores estavam
ocupados, derrubando um velho celeiro em ruínas — um dos muitos que marcam a
paisagem dos Apalaches.
Mas o
negócio vai de vento em popa. Cerca de metade dos terrenos já estão
contratados.
Abbotoy
prevê a construção das primeiras casas e a mudança dos seus primeiros clientes
para o local no início de 2027.
Ele
afirma que muitos dos seus clientes estão se mudando para o Tennessee, que tem
maioria republicana, vindo de Estados majoritariamente democratas, como a
Califórnia e Nova York.
"As
pessoas querem viver em comunidades onde sentem que compartilham valores
importantes com seus vizinhos", afirma ele.
Abbotoy
declarou que não se considera nacionalista cristão, mas qualifica as críticas
aos seus clientes de "absurdas". O construtor afirma que eles não têm
nenhuma intenção de tentar assumir o governo local.
"Eles
falam de grandes ideias e livros", segundo Abbotoy.
Em
relação a algumas das suas opiniões mais controversas, ele defende que
"reverter o século 20 pode significar muitas coisas. Muitos conservadores
diriam que tomamos muitos caminhos equivocados."
Isker e
Engel não responderam aos diversos pedidos de comentários e a uma lista de
perguntas enviada pela BBC, até o momento da publicação desta reportagem.
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A luta se estende por todo o país
A luta
dos moradores de Gainesboro atraiu figuras muito distantes da pequena
localidade do Tennessee.
Abbotoy
se formou na Faculdade de Direito de Harvard. Ele também é sócio de um fundo de
capital de risco conservador chamado New Founding e fundador do portal American
Reformer, que publicou textos de outros destacados nacionalistas cristãos.
Por
outro lado, seus oponentes receberam ajuda com pesquisas e assessoramento da
organização nacional States at the Core, criada no ano passado. Seu objetivo é
combater o autoritarismo nas pequenas comunidades.
Ela é
financiada por um grupo de organizações de esquerda. A States at the Core não
atendeu o pedido de entrevista da BBC.
Os
homens da Ridgerunner destacaram a organização como prova de que a oposição ao
seu projeto foi criada por liberais poderosos. Mas os moradores locais defendem
que esta afirmação é ridícula.
"Ninguém
me pagou para dizer nada", responde Coons.
Em
Gainesboro, pessoas de todos os setores observam uma realidade muito mais
ampla: uma luta política em grande escala, sendo travada na zona rural dos
Estados Unidos.
Os
republicanos conseguiram grandes avanços na zona rural no século 21. E, em
2024, Trump ampliou sua vantagem entre as comunidades rurais, ao receber 69%
dos votos.
O
Comitê de Campanha Democrata do Congresso americano anunciou recentemente
investimentos na casa de dezenas de milhões de dólares, frente às eleições de
meio de mandato, em novembro deste ano. Parte destes valores será dedicada a
atrair eleitores rurais.
"Sem
dúvida, existe um interesse renovado do Partido Democrata pelo envolvimento das
pessoas da zona rural", segundo Abbotoy.
"E,
paralelamente, houve uma onda de pessoas que se mudaram para pequenas cidades
dos Estados Unidos, exatamente porque gostam do Cinturão da Bíblia, da cultura
tradicional conservadora."
Mas Nan
Coons e seus aliados afirmam que não estão dispostos a ceder zonas rurais, como
sua cidade natal, para os nacionalistas cristãos.
"Se
quisermos mudar esta tendência, é preciso começar pela sua rua, pelo seu
bairro, pela sua pequena cidade", afirma ela.
"Preciso
defender algo e é isso que eu defendo."
Fonte:
Por Ellie House e Mike Wendling, de Gainesboro (Tennessee, EUA) para a BBC News

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