Streeck:
“O alvo do Trump é a China”
Será
Trump um governante (neo)fascista? O que há de novo, em seu comportamento
brutal – e em quê ele apenas reproduz a atitude adotada pelos governantes
norte-americanos desde que se candidataram a potência hegemônica, no início do
século XX? Quais as particularidades de seu governo e projeto geopolítico?
Vale
conhecer, em meio a esta polêmica incessante, as opiniões do analista político
alemão Wolfgang Streeck. Ele reconhece a novidade dos ataques da Casa Branca e
o fato de destruírem a ordem internacional que Washington construiu, por
décadas, em seu próprio proveito. Tem dúvidas sobre o prognóstico: poderá a
força bruta alcançar o que o soft power já não é capaz de obter? O que isso
significaria, em termos de regressão política?
Ainda
que não haja elementos para responder a estas questões, Streeck parece estar
certo de algo. A elevação do orçamento militar dos EUA a US$ 1,5 trilhão, em
2026 (um valor equivalente ao PIB da Coréia do Sul) expõe seu desejo de
resolver o “paradoxo de Tucídides” investindo contra a China antes que ela seja
capaz de se defender. Será possível? Este pode ser o ponto central do debate
geopolítico em nossa época. A entrevista de Streeck ajuda a iluminá-lo.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Durante seu primeiro mandato como presidente, Trump
prometeu se concentrar principalmente nas agruras do povo americano. Estaríamos
agora testemunhando, ao contrário uma espécie de neoimperialismo estadunidense?
O
programa MAGA de Trump para “Tornar a América Grande Novamente” sempre teve
dois lados: reparar a sociedade norte-americana em crise e restaurar a
dominação mundial dos EUA. Qual deles predominaria? Continua obscuro até hoje.
Às vezes temos isolacionismo, às vezes intervencionismo; atualmente, ambos se
alternam ou até mesmo ocorrem simultaneamente. A “Doutrina Donroe” de Trump é
uma versão particular dessa mistura: intervencionismo, mas limitado à América
Central e do Sul; nada de novo aí. Globalmente, isso equivaleria a uma divisão
do mundo em “esferas de influência” regionais mutuamente respeitadas, nas quais
uma grande potência governaria mais ou menos como bem entendesse. O que não se
encaixa nesse cenário é o apoio incondicional a Israel em sua guerra de
aniquilação em Gaza e na Cisjordânia, nem as ameaças de bombardear o Irã.
·
Por que há tão pouca resistência às políticas de Trump na
democracia mais antiga do mundo?
À
primeira vista, isso surpreende. Mas não à segunda. A Constituição americana
tem quase dois séculos e meio e nunca foi adaptada às realidades de um Estado
moderno e centralizado (até 1945, os EUA sequer possuíam um exército federal
permanente). Por um tempo, o antigo sistema de freios e contrapesos se manteve,
mas apenas enquanto o país manteve-se em uma situação razoavelmente boa. Na
profunda crise social em que os EUA estão mergulhados há algum tempo, as
lacunas e fraturas na estrutura constitucional estão se tornando visíveis,
facilitando que uma figura inescrupulosa e ávida por poder como Trump – ele
próprio um produto da crise – as explore brutalmente (com cinco juízes nomeados
vitaliciamente para a Suprema Corte, praticamente tudo é possível), enquanto
ilude seus eleitores, fazendo-os acreditar que a “miséria” da qual Carter
falava na década de 1970 está finalmente sendo superada.
·
Trump representa um novo tipo de fascismo?
Para
ser franco: não há praticamente nada de novo, exceto que a máscara caiu. E nem
toda violência é “fascista”; não vamos desperdiçar o conceito. Os EUA sempre
foram surpreendentemente propensos à violência, tanto interna quanto
internacionalmente. Para eles, o período pós-guerra começou com Hiroshima e
Nagasaki, depois Coreia, Vietnã (ninguém mais sabe por que milhões de pessoas
foram dizimadas com napalm lá). Desde 1990, não houve um único dia em que os
EUA não estivessem em guerra em algum lugar do mundo. Atualmente, mantêm
aproximadamente 750 bases militares espalhadas pelo globo. É verdade que Trump
liberou o potencial violento da sociedade americana internamente, incitando
metade da população contra a outra metade. Mas o seu tipo de guerra civil está
muito aquém das guerras contra a escravidão e os indígenas do século XIX, e ele
também não é responsável pelo sistema prisional extraordinariamente vasto e
cruel. Isso é obra de seus antecessores.
·
Quem, por exemplo?
Bem, em
política externa, principalmente Bush e Cheney, que semearam o caos no Iraque,
Afeganistão e Síria – países que não fizeram nada contra os EUA e jamais
poderiam ter feito. Admito que a enorme quantidade de mortes infligidas graças
à tecnologia avançada, com quase nenhuma perda do próprio lado, tem,
fenomenologicamente falando, algo de fascista. Em 15 anos de guerra,
aproximadamente três milhões de vietnamitas morreram, em comparação com 50 mil
soldados americanos, número que, na década de 1960, correspondia ao de mortes
em acidentes de trânsito nos EUA a cada ano.
·
Como os europeus devem se comportar em relação aos EUA e
a Trump? Alguns falam da relativa força da UE como área econômica, enquanto
outros enfatizam a desunião e a fragilidade.
Ambas
as afirmações estão corretas. Os norte-americanos continuarão a adotar uma
postura intransigente com os europeus por um bom tempo. Elon Musk e seus
colegas oligarcas garantirão isso. Como conseguem fazer isso? O mais importante
é que os europeus não podem declarar guerra, direta ou indireta, contra a
Rússia sem se exporem às imposições dos EUA. E no que diz respeito à “unidade”,
acredito que a Alemanha não poderá concordar para sempre com a política de
sanções dos EUA contra a Rússia, e especialmente contra a China, por razões
econômicas. Tampouco pode se comprometer com uma política báltica ou polonesa
que acarrete o risco de ter que enviar tropas soldados para combater a Rússia
sem possuir armas nucleares.
·
O chanceler Merz aposta em seu “bom relacionamento” com
Trump e adota uma abordagem “amigável”. Será essa a estratégia correta?
Ninguém
sabe. Mas o que Merz deveria fazer? Enviar a marinha alemã para a Baía de
Chesapeake e exigir a extradição de Trump para o Tribunal Penal Internacional?
Por outro lado, ele não pode se mostrar tão amistoso quanto María Corina
Machado, já que não tem um Prêmio Nobel para oferecer. (Não que isso tenha
servido a ela de algo.) Você se lembra de como [o chanceler alemão Helmut]
Scholz se mostrou publicamente amistoso com Biden, mesmo quando este declarou à
imprensa que os americanos sabiam muito bem como bloquar o gasoduto Nord Stream
2, caso os alemães não o fizessem? Para isso, Trump também não foi necessário.
·
Você acha que a Groenlândia deveria ser deixada sob o
controle dos norte-americanos para evitar um grande conflito?
Você e
eu não temos nenhuma capacidade de influir sobre esta questão e, portanto, não
precisamos necessariamente ter uma opinião. Os americanos estão profundamente
envolvidos na Groenlândia há muito tempo – desde a Segunda Guerra Mundial e,
depois, permanentemente desde a Guerra Fria. Se você tivesse sobrevoado o norte
da Groenlândia em um dia ensolarado antes de 1990, como tive a sorte de fazer,
teria visto uma base militar norte-americana atrás da outra. Se quiser uma
previsão: dada a russofobia da Dinamarca, presumo que, com o apoio de uma OTAN,
ela concederá aos norte-americanos algo como soberania de fato, com pequenos
ajustes cosméticos para manter as aparências.
·
Quão perigoso se tornará o conflito entre os EUA e a
China?
Muito
perigoso. Os EUA vêm discutindo a China há muito tempo, desde Obama, sob a
perspectiva da chamada “armadilha de Tucídides”. Em resumo, o historiador
grego, ele próprio um general muito admirado, explicou a derrota dos atenienses
para os espartanos na Guerra do Peloponeso pelo fato de terem demorado demais,
enquanto Esparta crescia e se fortalecia, em vez de atacarem logo – num momento
em que poderiam tê-los derrotado facilmente.
·
O que isso significa?
Como
você sabe, a estratégia militar oficial dos EUA visa impedir o surgimento de
qualquer potência no mundo que possa rivalizar com eles. A discussão entre
especialistas gira em torno de saber se o momento certo para atacar já passou
ou não. Há alguns dias, Trump anunciou que o orçamento de defesa dos EUA
aumentará 50%, chegando a 1,5 trilhão de dólares até 2027. Para quê, afinal?
·
Não há progressos nas negociações entre os EUA e a
Rússia. Isso não indica que Putin não quer a paz?
Será
possível considerar que os EUA, ou a UE também não querem a paz? Ao contrário
de Ursula von der Leyen e de outros estrategistas, os norte-americanos não
partem do pressuposto de que a Rússia pode ser derrotada. Mas para eles isso
não importa; basta aos europeus manter a Rússia ocupada com uma guerra de
desgaste por procuração “até o último ucraniano”. Um efeito colateral bem-vindo
é que uma guerra prolongada torna impossível qualquer reaproximação entre a
Alemanha e a Rússia – o que é o pesadelo tradicional, especialmente da política
britânica em relação à Europa continental.
·
A guerra na Ucrânia foi iniciada pela Rússia, não pelos
EUA, certo?
É uma
longa história. Não se pode simplesmente planejar o lançamento de mísseis de
alcance intermediário a 800 quilômetros da capital de uma potência nuclear
rival sem que esta reaja. Mas concordo com você na medida em que a Rússia
conseguiu modernizar seu armamento e se converter em uma economia de guerra
durante os quatro anos de conflito, apesar de aparentemente ter sofrido pesadas
baixas no campo de batalha. Agora, parece estar ganhando terreno a cada dia,
contra uma coalizão europeia que jurou aos ucranianos, no início de 2022, que a
guerra terminaria até o Natal, com uma derrota retumbante para a Rússia (von
der Leyen chegou a anunciar que “nós” iríamos “desmantelar camada por camada” a
sociedade industrial russa por meio das sanções milagrosas que ela concebeu).
·
O que isso significa?
A
Rússia pode agora enxergar uma oportunidade de ir muito além das negociações de
Minsk e Istambul, e efetivamente eliminar a Ucrânia como um Estado-nação viável
num futuro próximo, ao mesmo tempo que humilha a União Europeia. Imagino que
Putin acharia isso irresistível. Os “europeus” teriam, então, provocado essa
situação.
·
Macron sugeriu a participação de Putin na cúpula do G7.
Puro desespero ou uma boa ideia?
Uma das
notórias autopromoções inconsequentes de Macron. Além disso, é espantoso como o
bom senso parece tão exótico hoje em dia. Como se pode acabar com uma guerra
que não se pode vencer no campo de batalha se se recusa a dialogar com o outro
lado?
·
Estaremos vivendo o fim de um mundo que conhecemos, com
sua ordem baseada em regras?
Não sei
o quão familiar este mundo lhe era; para mim, tornou-se estranho desde pelo
menos o bombardeio de Belgrado, se não antes. E, de qualquer forma, não era
realmente “baseado em regras” – talvez com a exceção do regime comercial da
OMC, que passou a existir cada vez mais apenas no papel desde a crise
financeira de 2008. Proclamada após o chamado fim da história no início da
década de 1990, a “ordem baseada em regras” foi administrada pelos EUA como
polícia, tribunal e executor do mundo, tudo ao mesmo tempo — e somente por
eles, a seu critério. Nunca aplicaram essa ordem a si mesmos: veja a invenção
do “dever de proteger” na década de 1990, o estado de emergência permanente sob
a “Guerra ao Terror”, que foi continuamente expandido após 2001, Israel e os
territórios palestinos ocupados como uma zona experimental sem lei para o
despovoamento não nuclear, a cruzada armada pela “democracia” contra o
“autoritarismo”. Sob o pretexto de ‘ordem’: um estoque de justificativas para
‘sanções’ de todos os tipos, a serem impostas arbitrariamente pelo único poder
punitivo que não pôde ser responsabilizado sequer por sua invenção mortal de
‘armas de destruição em massa’ iraquianas (com uma estimativa de 500 mil civis
mortos).
·
E o que mudou sob o governo Trump?
Ao
contrário de seus antecessores, Trump dispensa discursos polidos e eloquentes,
repletos de um discurso legalista e persuasivo. Mas o núcleo violento de sua
ideia de uma Pax Americana está longe de ser novidade. Aliás,
em comparação com Bush II e Obama, a pretensão de Trump ao Prêmio Nobel da Paz
não é totalmente absurda – pelo menos não ainda. Lembre-se de que Obama o
recebeu de graça, um ano após o início de seu primeiro mandato. E até Kissinger
o recebeu, no final.
¨
O ICE está incentivando seus agentes a entrarem à força
em residências sem mandado judicial
O
governo Trump está autorizando agentes de imigração a invadir residências e
efetuar prisões sem mandado judicial. Essa informação consta em um memorando
interno do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês),
divulgado pela Whistleblower Aid, uma organização jurídica sem fins lucrativos
que auxilia trabalhadores que denunciam abusos, citando dois funcionários
anônimos que tiveram acesso ao documento . O memorando, também visto pela
Associated Press, autoriza agentes do ICE a usar a força para entrar em uma
residência com base unicamente em uma ordem administrativa, e não em uma ordem
judicial. A Whistleblower Aid afirma que os dois funcionários federais estão
“revelando uma diretriz secreta e aparentemente inconstitucional”.
Uma
ordem de detenção administrativa difere de um mandado de prisão judicial. A
primeira é emitida após um juiz de imigração ordenar a deportação de uma
pessoa; o segundo baseia-se em provas suficientes de que um crime foi cometido.
A Whistleblower Aid alega que o funcionário de imigração que assina o
formulário não é um "magistrado neutro e imparcial", uma vez que
trabalha para a agência que executa a ordem. Além disso, o governo Trump
demitiu juízes de imigração que não lhe eram simpáticos nos últimos meses e os
substituiu por advogados militares.
As
diretrizes do Departamento de Segurança Interna (DHS) confirmam os relatos de
alguns detidos e organizações de direitos humanos, que denunciaram agentes que
entram à força em residências sem mandado judicial. Uma das regras que esses
grupos ensinam aos migrantes para que façam valer seus direitos em operações do
ICE é não abrir a porta nem deixar ninguém entrar sem apresentar um mandado.
O
memorando afirma que os agentes devem primeiro bater à porta e se identificar,
explicando o motivo de sua presença na residência. Devem dar aos ocupantes uma
“oportunidade razoável para cumprir a lei” e, caso isso falhe, podem usar a
força para entrar. “Se o estrangeiro se recusar a permitir o acesso, os agentes
do ICE só devem usar a força necessária e razoável para entrar na residência,
após notificar o ocupante de sua autoridade e de sua intenção de entrar”, diz o
documento. Um período limitado, porém bastante amplo, entre 6h e 22h, é
estabelecido para a entrada em residências.
O uso
excessivo da força para invadir residências sem mandado judicial representa uma
mudança drástica em relação às administrações anteriores. Todas as operações
policiais, incluindo as conduzidas pelo ICE (Serviço de Imigração e Alfândega
dos EUA) e pela CBP (Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA), são regidas
pela Quarta Emenda da Constituição, que protege todas as pessoas no país contra
buscas e apreensões arbitrárias.
O
documento não foi distribuído a todos os funcionários do ICE, mas foi entregue
a alguns oficiais de alto escalão e está sendo usado para treinar novos
agentes. A agência vem recrutando pessoal há meses, pois está sobrecarregada
tentando cumprir as ordens de Trump para acelerar as prisões a fim de realizar
o maior esforço de deportação da história. Esses agentes estão recebendo
treinamento no Centro Federal de Treinamento de Agentes da Lei em Brunswick,
Geórgia.
O
memorando, assinado pelo Diretor Interino do ICE, Todd Lyons, e datado de 12 de
maio de 2025, afirma o seguinte: “Embora o Departamento de Segurança Interna
dos EUA não tenha historicamente se baseado exclusivamente em mandados
administrativos para prender estrangeiros sujeitos a ordens finais de
deportação em seus locais de residência, o Gabinete Jurídico do DHS determinou
recentemente que a Constituição dos EUA, a Lei de Imigração e Nacionalidade e
os regulamentos de imigração não proíbem o uso de mandados administrativos para
esse fim.”
A
porta-voz do Departamento de Segurança Interna, Tricia McLaughlin, afirmou que
todos os indivíduos que receberam um mandado administrativo do departamento já
tiveram “todo o devido processo legal e uma ordem final de deportação”. Em um
e-mail enviado à Associated Press, ela afirmou que os agentes que emitiram
esses mandados também encontraram motivos suficientes para a detenção do
indivíduo. Ela acrescentou que a Suprema Corte e o Congresso “reconheceram a
legalidade dos mandados administrativos em casos de imigração”, sem dar mais
detalhes.
O
senador democrata Richard Blumenthal, de Connecticut, que lidera uma
investigação em andamento sobre o tratamento dado a cidadãos americanos por
agentes federais de imigração, criticou o memorando. "Todos os americanos
deveriam ficar horrorizados com essa política secreta do ICE que autoriza seus
agentes a arrombarem portas e entrarem à força em suas casas. Essa é uma
política ilegal e moralmente repugnante que exemplifica o tipo de abusos
perigosos e vergonhosos que estamos testemunhando na América", disse ele
em um comunicado.
Fonte: Por
Wolfgang Streeck, entrevistado por Michael Hasse, no Sidecar | Tradução:
Antonio Martins, em Outras Palavras/El País

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