terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Um genocídio esquecido: atrocidades da Guerra Filipino-Americana

em 4 de fevereiro de 1899, o exército dos Estados Unidos abria fogo contra os integrantes do movimento independentista Katipunan, dando início à Guerra Filipino-Americana.

Após mais de três séculos de domínio colonial espanhol, os filipinos, liderados por Emilio Aguinaldo, proclamaram a independência do país. A declaração, no entanto, não foi aceita pelos Estados Unidos, que reivindicaram o direito de colonizar as Filipinas.

O conflito logo evoluiu para uma ofensiva genocida. Soldados norte-americanos cometeram uma série interminável de massacres e bombardeios contra vilarejos e aldeias. A população civil foi encarcerada em campos de concentração e submetida a crises famélicas e táticas de guerra biológica.

Estima-se que até um milhão de pessoas morreram durante o conflito — o equivalente a 12% da população do arquipélago.

<><>  A colonização espanhola e a Revolução Filipina

Disputado pelos europeus desde o início do século 16, o arquipélago das Filipinas foi submetido ao domínio colonial espanhol a partir de 1565, quando Miguel López de Legazpi iniciou a construção dos primeiros assentamentos.

A Espanha controlou as Filipinas por mais de três séculos, instituindo uma dinâmica exploratória baseada nos sistemas de “encomienda” e de “polo y servicios” — regimes que asseguravam aos colonos espanhóis o direito de tutelar, tributar e impor trabalho escravo à população nativa. A Igreja Católica teve papel central na organização da empreitada colonial, operando a conversão em massa dos nativos e a gestão das comunidades.

A resistência da população filipina à ocupação espanhola remonta aos primórdios da colonização, com uma série de levantes registrados a partir de 1574. Notabilizou-se no século 18, por exemplo, a Rebelião de Dagohoy, um movimento insurgente que se estendeu por 56 anos, mas foi brutalmente esmagado pelos espanhóis.

O movimento nacionalista filipino se fortaleceu a partir do século 19, impulsionado pela formação de uma classe média urbana, fortemente influenciada pelo pensamento liberal e pelo radicalismo clássico. Em 1872, militares filipinos se insurgiram contra o governo espanhol, iniciando um levante junto ao arsenal de Cavite. O motim foi rapidamente debelado, mas serviu de inspiração para a luta autonomista.

Em 1891, o escritor José Rizal fundou a Liga Filipina, uma sociedade secreta que visava fomentar reformas na sociedade colonial. No ano seguinte, as alas mais radicais da liga se uniram para formar o Katipunan (“Associação”), organização revolucionária que pregava a luta armada contra a colonização espanhola.

Sob o comando de Andrés Bonifacio, o Katipunan angariou forte apoio popular, obtendo a adesão de milhares de camponeses e trabalhadores urbanos e conquistando a simpatia de militares de baixa patente. Em 1896, guerrilheiros vinculados ao Katipunan lançaram uma ofensiva contra o domínio colonial, dando início à Revolução Filipina.

Dentre as lideranças militares do Katipunan, destacava-se Emilio Aguinaldo, que conseguira importantes vitórias contra os espanhóis na região de Cavite. Membro da maçonaria, mais próximo dos latifundiários e da elite filipina, Aguinaldo rompeu com Bonifacio e ordenou sua execução, acusando-o de “traição”. Consolidou, assim, sua liderança sobre o Katipunan.

No fim de 1897, a vigorosa reação espanhola logrou recuperar vários dos territórios ocupados pelos rebeldes. Cercado pelas tropas coloniais em Bulacan, Aguinaldo negociou um armistício com a Espanha. Em troca do fim da insurreição, o líder filipino recebeu pagamentos em dinheiro e a permissão para se exilar em Hong Kong.

<><> A Guerra Hispano-Americana

Os guerrilheiros do Katipunan não eram a única força a contestar o domínio colonial da Espanha sobre as Filipinas. No mesmo período, os Estados Unidos iniciavam uma agressiva expansão ultramarina, refletindo a ambição de seu projeto imperialista emergente. Durante o governo de William McKinley, o país buscaria conquistar mercados, controlar centros fornecedores de matéria-prima e impor o controle estratégico sobre as rotas comerciais.

Os domínios ultramarinos da Espanha, um império colonial enfraquecido e mergulhado em disputas internas, logo se tornariam objetos da cobiça norte-americana. Em abril de 1898, a explosão do encouraçado USS Maine, destruído em uma operação de bandeira falsa, deu aos Estados Unidos o pretexto para a intervenção militar. Começou assim a Guerra Hispano-Americana.

As Filipinas eram uma das colônias espanholas que os Estados Unidos pretendiam tomar. O domínio sobre o arquipélago consolidaria a presença dos Estados Unidos junto às principais rotas comerciais do Oceano Pacífico. Além disso, permitiria criação de um entreposto privilegiado para o comércio com a China e de uma base para a exportação dos produtos norte-americanos.

O movimento independentista filipino foi visto pelos Estados Unidos como um instrumento estratégico para enfraquecer o domínio espanhol sobre as ilhas. Assim, o governo norte-americano se aliou ao Katipunan e convenceu Emilio Aguinaldo a retomar a luta anticolonial.

Aguinaldo retornou às Filipinas a bordo do navio-patrulha USS McCulloch. Financiado e armado pelo governo norte-americano, ele reuniu um exército com 18.000 combatentes e iniciou as ofensivas em terra contra as tropas espanholas. Em 12 de junho de 1898, Aguinaldo proclamou a independência das Filipinas e instaurou um governo paralelo.

A declaração de independência não foi reconhecida nem pela Espanha nem pelos Estados Unidos. Alegando que os filipinos eram “um povo primitivo” que seria “incapaz de se autogovernar”, os norte-americanos reivindicaram a posse do arquipélago. O Katipunan, que até então era um grupo aliado, de uma hora para outra tornou-se inimigo.

Com sua frota dizimada pelos norte-americanos durante a Batalha Naval de Cavite, a Espanha reconheceu que o desfecho da guerra estava selado. As tropas espanholas já haviam sido derrotadas em quase todo o arquipélago. Ocupavam agora somente a capital, Manila — então sob cerco dos combatentes do Katipunan.

Os norte-americanos queriam evitar que Manila fosse tomada pelos filipinos. A Espanha, por sua vez, queria evitar o desfecho humilhante de ser derrotada pela própria colônia. Os dois países chegaram então a um acordo: eles encenariam um combate no qual as tropas espanholas se renderiam às forças norte-americanas e transfeririam o controle sobre a capital — a chamada Batalha Simulada de Manila.

A Guerra Hispano-Americana foi formalmente encerrada em dezembro de 1898, após a assinatura do Tratado de Paris. O armistício determinava que os Estados Unidos assumiriam a posse da maioria das colônias espanholas, incluindo Cuba, Porto Rico, Guam e Filipinas.

<><> A Guerra Filipino-Americana

Finalizada a guerra com a Espanha, os Estados Unidos se dedicaram a esmagar o movimento independentista. Aguinaldo tentou ao máximo evitar o conflito com os antigos aliados, mas seus esforços foram em vão.

Os combates tiveram início em 4 de fevereiro de 1899, quando os soldados norte-americanos abriram fogo contra um acampamento montado nos subúrbios de Manila, surpreendendo os guerrilheiros filipinos. A ofensiva se estendeu até o dia seguinte, quando as tropas comandadas pelos generais Elwell Otis e Arthur MacArthur promoveram um banho de sangue, deixando mais de 700 mortos.

Em 11 de fevereiro, uma semana após o ataque-surpresa em Manila, navios de guerra norte-americanos bombardearam violentamente a cidade de Iloilo, reduzindo-a a escombros. As tropas invasoras prosseguiram avançando pela ilha de Luzon nos meses seguintes, logrando a captura da cidade de Malolos e o isolamento dos guerrilheiros em bolsões ao norte.

Os combatentes filipinos inicialmente tentaram o enfrentamento aberto contra as tropas norte-americanas, mas a disparidade bélica resultou em uma pesada sequência de derrotas. A maior parte dos insurgentes lutava com armas obsoletas e de baixo impacto. Muitos iam para os combates armados apenas com facões, lanças ou arcos e flechas.

Em setembro de 1899, os filipinos passaram a priorizar táticas de guerrilha, repetindo a estratégia empregada contra os espanhóis. Organizavam ações de sabotagem, escaramuças, emboscadas e ataques rápidos contra unidades militares de médio e pequeno porte. A mudança de estratégia deu frutos, levando os filipinos a triunfarem sobre os norte-americanos nas batalhas de Paye, Catubig, Makahambus, Pulang Lupa e Mabitac.

O comando militar dos Estados Unidos reagiu decretando lei marcial nas Filipinas e requisitando reforços. Mais de 130.000 soldados foram mobilizados durante as operações. Os ataques se tornaram cada vez mais violentos, com recurso sistemático a bombardeios e incursões em núcleos urbanos. O governo norte-americano também tentou criar cisões no movimento independentista, oferecendo anistia aos guerrilheiros que se rendessem.

A virulência dos ataques e a superioridade bélica e numérica das tropas norte-americanas acabaram por subjugar a capacidade de resistência do Katipunan. Em março de 1901, Emilio Aguinaldo, o líder dos insurgentes filipinos, foi capturado pelas tropas do general Frederick Funston.

Aguinaldo foi forçado a emitir uma proclamação formal de rendição aos Estados Unidos e jurou lealdade à Casa Branca. A captura do líder filipino representou um duro golpe para o movimento independentista, mas os guerrilheiros seguiram lutando. Miguel Malvar substituiu Aguinaldo no comando das forças revolucionárias, ao passo que o general Vicente Lukbán impôs uma resistência aguerrida na ilha de Samar.

<><> Atrocidades e crimes de guerra

Determinado a erradicar o Katipunan — e a desestimular, através do medo, o alistamento de voluntários nas forças insurgentes — o comando militar dos Estados Unidos lançou uma campanha ainda mais sangrenta, conduzindo ataques deliberados contra a população civil. Chacinas e massacres tornaram-se ocorrências rotineiras e centenas de vilarejos foram saqueados, depredados e incendiados.

Entre os crimes de guerra mais hediondos cometidos pelos Estados Unidos durante a guerra está a Marcha por Samar. Visando capturar o comandante Vicente Lukbán, o general de brigada Jacob Smith ordenou que os seus soldados invadissem a cidade de Balangiga, na Ilha de Samar, incendiassem as residências e matassem “todos os filipinos capazes de segurar uma arma”.

Quando o major Littleton Waller, o chefe da expedição, questionou “a partir de qual idade” os soldados norte-americanos deveriam considerar que “um filipino consegue segurar uma arma”, Smith retrucou sem titubear: “10 anos”. A ordem levou ao assassinato de até 5.000 pessoas em Samar. Crianças, adolescentes, mulheres, idosos. Ninguém foi poupado — mesmo não possuindo quaisquer vínculos com a guerrilha.

Além de matar civis e incendiar as residências, os militares norte-americanos também abatiam os animais e destruíam as lavouras. Estradas e rotas de acesso aos vilarejos foram bloqueadas. O objetivo era cortar a chegada de comida e suprimentos, forçando os filipinos a se submeterem ao domínio estrangeiro por meio da privação. A medida foi agravada pelo severo bloqueio naval imposto pela esquadra norte-americana, causando uma grave crise famélica no arquipélago e levando centenas de milhares de pessoas à morte.

Os militares norte-americanos também empregaram táticas de guerra biológica, jogando cadáveres, excrementos e dejetos em nascentes, riachos e reservatórios de água. Essas ações levaram ao surgimento de uma epidemia de cólera que matou entre 150.000 e 200.000 pessoas.

Centenas de milhares de filipinos foram confinados em campos de concentração (ditos “zonas de segurança”), forçados a viver em espaços insalubres e superlotados, sofrendo com maus-tratos, torturas, fome e doenças. Estima-se que mais de 11.000 pessoas morreram nessas instalações.

Os massacres cometidos pelo Exército dos Estados Unidos nas Filipinas foram denunciados pela imprensa, gerando pressão pela punição dos responsáveis. Muitos dos crimes foram relatados pelos próprios militares norte-americanos.

Um soldado de Nova York contou em uma carta que um oficial chamado Wheaton ordenou o assassinato de mais de mil habitantes de um vilarejo (crianças e mulheres em sua maioria) como retaliação pela morte de um único soldado. Já o cabo Sam Gillis confessou ter matado mais de 300 civis em um único dia.

O general Jacob Smith foi o primeiro norte-americano a ser processado por crimes de guerra em uma corte marcial. Não obstante, o oficial contava com a proteção do governo dos Estados Unidos e teve sua punição abrandada, limitando-se à aposentadoria compulsória.

Não se sabe o número exato de vítimas do genocídio perpetrado pelos Estados Unidos nas Filipinas. As estimativas mais conservadoras apontam que cerca de 250.000 pessoas foram mortas. Outras fontes, incluindo o livro “Geografia Geral das Ilhas Filipinas”, de Manuel Arellano Remondo, indicam que mais de um milhão de pessoas morreram durante a invasão — o equivalente a 12% da população do arquipélago no início do século 20.

A Guerra Filipino-Americana chegou oficialmente ao fim em 4 de julho de 1902, já no governo de Theodore Roosevelt. Os conflitos e chacinas cometidos contra os nativos, no entanto, prosseguiram nos anos seguintes. É o caso do Massacre de Bud Dajo, ocorrido durante a Rebelião Moro, quando as tropas do coronel Joseph Wilson Duncan assassinaram quase mil pessoas — a população inteira de um aldeamento do povo Tausug.

O domínio colonial dos Estados Unidos nas Filipinas se prolongaria por mais de 40 anos. Os norte-americanos impuseram o uso do inglês como língua oficial, baniram tradições locais, criminalizaram e proibiram movimentos políticos e sociais e expropriaram a maior parte das terras. A independência das Filipinas somente seria reconhecida em 4 de julho de 1946.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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