Um
genocídio esquecido: atrocidades da Guerra Filipino-Americana
em 4 de
fevereiro de 1899, o exército dos Estados Unidos abria fogo contra os
integrantes do movimento independentista Katipunan, dando início à Guerra
Filipino-Americana.
Após
mais de três séculos de domínio colonial espanhol, os filipinos, liderados por
Emilio Aguinaldo, proclamaram a independência do país. A declaração, no
entanto, não foi aceita pelos Estados Unidos, que reivindicaram o direito de
colonizar as Filipinas.
O
conflito logo evoluiu para uma ofensiva genocida. Soldados norte-americanos
cometeram uma série interminável de massacres e bombardeios contra vilarejos e
aldeias. A população civil foi encarcerada em campos de concentração e
submetida a crises famélicas e táticas de guerra biológica.
Estima-se
que até um milhão de pessoas morreram durante o conflito — o equivalente a 12%
da população do arquipélago.
<><> A colonização espanhola e a Revolução
Filipina
Disputado
pelos europeus desde o início do século 16, o arquipélago das Filipinas foi
submetido ao domínio colonial espanhol a partir de 1565, quando Miguel López de
Legazpi iniciou a construção dos primeiros assentamentos.
A
Espanha controlou as Filipinas por mais de três séculos, instituindo uma
dinâmica exploratória baseada nos sistemas de “encomienda” e de “polo y
servicios” — regimes que asseguravam aos colonos espanhóis o direito de
tutelar, tributar e impor trabalho escravo à população nativa. A Igreja
Católica teve papel central na organização da empreitada colonial, operando a
conversão em massa dos nativos e a gestão das comunidades.
A
resistência da população filipina à ocupação espanhola remonta aos primórdios
da colonização, com uma série de levantes registrados a partir de 1574.
Notabilizou-se no século 18, por exemplo, a Rebelião de Dagohoy, um movimento
insurgente que se estendeu por 56 anos, mas foi brutalmente esmagado pelos
espanhóis.
O
movimento nacionalista filipino se fortaleceu a partir do século 19,
impulsionado pela formação de uma classe média urbana, fortemente influenciada
pelo pensamento liberal e pelo radicalismo clássico. Em 1872, militares
filipinos se insurgiram contra o governo espanhol, iniciando um levante junto
ao arsenal de Cavite. O motim foi rapidamente debelado, mas serviu de
inspiração para a luta autonomista.
Em
1891, o escritor José Rizal fundou a Liga Filipina, uma sociedade secreta que
visava fomentar reformas na sociedade colonial. No ano seguinte, as alas mais
radicais da liga se uniram para formar o Katipunan (“Associação”), organização
revolucionária que pregava a luta armada contra a colonização espanhola.
Sob o
comando de Andrés Bonifacio, o Katipunan angariou forte apoio popular, obtendo
a adesão de milhares de camponeses e trabalhadores urbanos e conquistando a
simpatia de militares de baixa patente. Em 1896, guerrilheiros vinculados ao
Katipunan lançaram uma ofensiva contra o domínio colonial, dando início à
Revolução Filipina.
Dentre
as lideranças militares do Katipunan, destacava-se Emilio Aguinaldo, que
conseguira importantes vitórias contra os espanhóis na região de Cavite. Membro
da maçonaria, mais próximo dos latifundiários e da elite filipina, Aguinaldo
rompeu com Bonifacio e ordenou sua execução, acusando-o de “traição”.
Consolidou, assim, sua liderança sobre o Katipunan.
No fim
de 1897, a vigorosa reação espanhola logrou recuperar vários dos territórios
ocupados pelos rebeldes. Cercado pelas tropas coloniais em Bulacan, Aguinaldo
negociou um armistício com a Espanha. Em troca do fim da insurreição, o líder
filipino recebeu pagamentos em dinheiro e a permissão para se exilar em Hong
Kong.
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A Guerra Hispano-Americana
Os
guerrilheiros do Katipunan não eram a única força a contestar o domínio
colonial da Espanha sobre as Filipinas. No mesmo período, os Estados Unidos
iniciavam uma agressiva expansão ultramarina, refletindo a ambição de seu
projeto imperialista emergente. Durante o governo de William McKinley, o país
buscaria conquistar mercados, controlar centros fornecedores de matéria-prima e
impor o controle estratégico sobre as rotas comerciais.
Os
domínios ultramarinos da Espanha, um império colonial enfraquecido e mergulhado
em disputas internas, logo se tornariam objetos da cobiça norte-americana. Em
abril de 1898, a explosão do encouraçado USS Maine, destruído em uma operação
de bandeira falsa, deu aos Estados Unidos o pretexto para a intervenção
militar. Começou assim a Guerra Hispano-Americana.
As
Filipinas eram uma das colônias espanholas que os Estados Unidos pretendiam
tomar. O domínio sobre o arquipélago consolidaria a presença dos Estados Unidos
junto às principais rotas comerciais do Oceano Pacífico. Além disso, permitiria
criação de um entreposto privilegiado para o comércio com a China e de uma base
para a exportação dos produtos norte-americanos.
O
movimento independentista filipino foi visto pelos Estados Unidos como um
instrumento estratégico para enfraquecer o domínio espanhol sobre as ilhas.
Assim, o governo norte-americano se aliou ao Katipunan e convenceu Emilio
Aguinaldo a retomar a luta anticolonial.
Aguinaldo
retornou às Filipinas a bordo do navio-patrulha USS McCulloch. Financiado e
armado pelo governo norte-americano, ele reuniu um exército com 18.000
combatentes e iniciou as ofensivas em terra contra as tropas espanholas. Em 12
de junho de 1898, Aguinaldo proclamou a independência das Filipinas e instaurou
um governo paralelo.
A
declaração de independência não foi reconhecida nem pela Espanha nem pelos
Estados Unidos. Alegando que os filipinos eram “um povo primitivo” que seria
“incapaz de se autogovernar”, os norte-americanos reivindicaram a posse do
arquipélago. O Katipunan, que até então era um grupo aliado, de uma hora para
outra tornou-se inimigo.
Com sua
frota dizimada pelos norte-americanos durante a Batalha Naval de Cavite, a
Espanha reconheceu que o desfecho da guerra estava selado. As tropas espanholas
já haviam sido derrotadas em quase todo o arquipélago. Ocupavam agora somente a
capital, Manila — então sob cerco dos combatentes do Katipunan.
Os
norte-americanos queriam evitar que Manila fosse tomada pelos filipinos. A
Espanha, por sua vez, queria evitar o desfecho humilhante de ser derrotada pela
própria colônia. Os dois países chegaram então a um acordo: eles encenariam um
combate no qual as tropas espanholas se renderiam às forças norte-americanas e
transfeririam o controle sobre a capital — a chamada Batalha Simulada de
Manila.
A
Guerra Hispano-Americana foi formalmente encerrada em dezembro de 1898, após a
assinatura do Tratado de Paris. O armistício determinava que os Estados Unidos
assumiriam a posse da maioria das colônias espanholas, incluindo Cuba, Porto
Rico, Guam e Filipinas.
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A Guerra Filipino-Americana
Finalizada
a guerra com a Espanha, os Estados Unidos se dedicaram a esmagar o movimento
independentista. Aguinaldo tentou ao máximo evitar o conflito com os antigos
aliados, mas seus esforços foram em vão.
Os
combates tiveram início em 4 de fevereiro de 1899, quando os soldados
norte-americanos abriram fogo contra um acampamento montado nos subúrbios de
Manila, surpreendendo os guerrilheiros filipinos. A ofensiva se estendeu até o
dia seguinte, quando as tropas comandadas pelos generais Elwell Otis e Arthur
MacArthur promoveram um banho de sangue, deixando mais de 700 mortos.
Em 11
de fevereiro, uma semana após o ataque-surpresa em Manila, navios de guerra
norte-americanos bombardearam violentamente a cidade de Iloilo, reduzindo-a a
escombros. As tropas invasoras prosseguiram avançando pela ilha de Luzon nos
meses seguintes, logrando a captura da cidade de Malolos e o isolamento dos
guerrilheiros em bolsões ao norte.
Os
combatentes filipinos inicialmente tentaram o enfrentamento aberto contra as
tropas norte-americanas, mas a disparidade bélica resultou em uma pesada
sequência de derrotas. A maior parte dos insurgentes lutava com armas obsoletas
e de baixo impacto. Muitos iam para os combates armados apenas com facões,
lanças ou arcos e flechas.
Em
setembro de 1899, os filipinos passaram a priorizar táticas de guerrilha,
repetindo a estratégia empregada contra os espanhóis. Organizavam ações de
sabotagem, escaramuças, emboscadas e ataques rápidos contra unidades militares
de médio e pequeno porte. A mudança de estratégia deu frutos, levando os
filipinos a triunfarem sobre os norte-americanos nas batalhas de Paye, Catubig,
Makahambus, Pulang Lupa e Mabitac.
O
comando militar dos Estados Unidos reagiu decretando lei marcial nas Filipinas
e requisitando reforços. Mais de 130.000 soldados foram mobilizados durante as
operações. Os ataques se tornaram cada vez mais violentos, com recurso
sistemático a bombardeios e incursões em núcleos urbanos. O governo
norte-americano também tentou criar cisões no movimento independentista,
oferecendo anistia aos guerrilheiros que se rendessem.
A
virulência dos ataques e a superioridade bélica e numérica das tropas
norte-americanas acabaram por subjugar a capacidade de resistência do
Katipunan. Em março de 1901, Emilio Aguinaldo, o líder dos insurgentes
filipinos, foi capturado pelas tropas do general Frederick Funston.
Aguinaldo
foi forçado a emitir uma proclamação formal de rendição aos Estados Unidos e
jurou lealdade à Casa Branca. A captura do líder filipino representou um duro
golpe para o movimento independentista, mas os guerrilheiros seguiram lutando.
Miguel Malvar substituiu Aguinaldo no comando das forças revolucionárias, ao
passo que o general Vicente Lukbán impôs uma resistência aguerrida na ilha de
Samar.
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Atrocidades e crimes de guerra
Determinado
a erradicar o Katipunan — e a desestimular, através do medo, o alistamento de
voluntários nas forças insurgentes — o comando militar dos Estados Unidos
lançou uma campanha ainda mais sangrenta, conduzindo ataques deliberados contra
a população civil. Chacinas e massacres tornaram-se ocorrências rotineiras e
centenas de vilarejos foram saqueados, depredados e incendiados.
Entre
os crimes de guerra mais hediondos cometidos pelos Estados Unidos durante a
guerra está a Marcha por Samar. Visando capturar o comandante Vicente Lukbán, o
general de brigada Jacob Smith ordenou que os seus soldados invadissem a cidade
de Balangiga, na Ilha de Samar, incendiassem as residências e matassem “todos
os filipinos capazes de segurar uma arma”.
Quando
o major Littleton Waller, o chefe da expedição, questionou “a partir de qual
idade” os soldados norte-americanos deveriam considerar que “um filipino
consegue segurar uma arma”, Smith retrucou sem titubear: “10 anos”. A ordem
levou ao assassinato de até 5.000 pessoas em Samar. Crianças, adolescentes,
mulheres, idosos. Ninguém foi poupado — mesmo não possuindo quaisquer vínculos
com a guerrilha.
Além de
matar civis e incendiar as residências, os militares norte-americanos também
abatiam os animais e destruíam as lavouras. Estradas e rotas de acesso aos
vilarejos foram bloqueadas. O objetivo era cortar a chegada de comida e
suprimentos, forçando os filipinos a se submeterem ao domínio estrangeiro por
meio da privação. A medida foi agravada pelo severo bloqueio naval imposto pela
esquadra norte-americana, causando uma grave crise famélica no arquipélago e
levando centenas de milhares de pessoas à morte.
Os
militares norte-americanos também empregaram táticas de guerra biológica,
jogando cadáveres, excrementos e dejetos em nascentes, riachos e reservatórios
de água. Essas ações levaram ao surgimento de uma epidemia de cólera que matou
entre 150.000 e 200.000 pessoas.
Centenas
de milhares de filipinos foram confinados em campos de concentração (ditos
“zonas de segurança”), forçados a viver em espaços insalubres e superlotados,
sofrendo com maus-tratos, torturas, fome e doenças. Estima-se que mais de
11.000 pessoas morreram nessas instalações.
Os
massacres cometidos pelo Exército dos Estados Unidos nas Filipinas foram
denunciados pela imprensa, gerando pressão pela punição dos responsáveis.
Muitos dos crimes foram relatados pelos próprios militares norte-americanos.
Um
soldado de Nova York contou em uma carta que um oficial chamado Wheaton ordenou
o assassinato de mais de mil habitantes de um vilarejo (crianças e mulheres em
sua maioria) como retaliação pela morte de um único soldado. Já o cabo Sam
Gillis confessou ter matado mais de 300 civis em um único dia.
O
general Jacob Smith foi o primeiro norte-americano a ser processado por crimes
de guerra em uma corte marcial. Não obstante, o oficial contava com a proteção
do governo dos Estados Unidos e teve sua punição abrandada, limitando-se à
aposentadoria compulsória.
Não se
sabe o número exato de vítimas do genocídio perpetrado pelos Estados Unidos nas
Filipinas. As estimativas mais conservadoras apontam que cerca de 250.000
pessoas foram mortas. Outras fontes, incluindo o livro “Geografia Geral das
Ilhas Filipinas”, de Manuel Arellano Remondo, indicam que mais de um milhão de
pessoas morreram durante a invasão — o equivalente a 12% da população do
arquipélago no início do século 20.
A
Guerra Filipino-Americana chegou oficialmente ao fim em 4 de julho de 1902, já
no governo de Theodore Roosevelt. Os conflitos e chacinas cometidos contra os
nativos, no entanto, prosseguiram nos anos seguintes. É o caso do Massacre de
Bud Dajo, ocorrido durante a Rebelião Moro, quando as tropas do coronel Joseph
Wilson Duncan assassinaram quase mil pessoas — a população inteira de um
aldeamento do povo Tausug.
O
domínio colonial dos Estados Unidos nas Filipinas se prolongaria por mais de 40
anos. Os norte-americanos impuseram o uso do inglês como língua oficial,
baniram tradições locais, criminalizaram e proibiram movimentos políticos e
sociais e expropriaram a maior parte das terras. A independência das Filipinas
somente seria reconhecida em 4 de julho de 1946.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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