terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Estatinas: redutor de colesterol mais seguro do que diz bula

"Quando a bula te deixa doente" – esse poderia ser o título da nova meta-análise sobre os efeitos colaterais das estatinas publicada nesta semana na revista científica The Lancet. O estudo foi realizado por um coletivo de pesquisa chamado Cholesterol Treatment Trialists (CTT) Collaboration ou Colaboração de Pesquisadores de Tratamento do Colesterol.

As estatinas reduzem os níveis de colesterol no sangue, principalmente a quantidade do chamado colesterol "ruim", o LDL. Níveis elevados de LDL podem causar  o acúmulo de colesterol nas paredes dos vasos sanguíneos, aumentando o risco de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral.

As estatinas têm sido usadas por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo nas últimas três décadas e comprovadamente reduzem ataques cardíacos, derrames e mortes por doenças cardiovasculares.

Embora os cientistas geralmente concordem que os efeitos positivos das estatinas superam os riscos potenciais, os pacientes muitas vezes interrompem o tratamento ou sequer o iniciam por medo de efeitos colaterais, já que as bulas das estatinas listam dezenas de possíveis efeitos colaterais.

<><> Muito mais benefícios que riscos

Esse medo é quase sempre infundado – de acordo com os resultados da mais recente meta-análise. Nela, os autores examinaram um total de 19 estudos para determinar se os efeitos colaterais listados nas bulas eram realmente atribuíveis ao uso de estatinas.

Em todos os 19 estudos, um grupo de pacientes recebeu um medicamento da classe das estatinas e outro grupo recebeu apenas um placebo. Nem os pacientes nem os pesquisadores sabiam a qual grupo pertenciam durante os estudos – isso é chamado de "duplo-cego". Os estudos examinaram um total de cinco medicamentos da classe das estatinas.

O resultado foi que, além dos efeitos leves já conhecidos das estatinas sobre os músculos e a diabetes, apenas quatro efeitos colaterais puderam ser comprovados – de um total de 66 possíveis efeitos colaterais descritos na bula.

Apenas alterações em edemas, níveis anormais de enzimas hepáticas, composição da urina e anormalidades na função hepática puderam ser documentadas. E mesmo com esses quatro efeitos colaterais, as diferenças entre as pessoas que tomavam os medicamentos para baixar o colesterol e aquelas que recebiam apenas um placebo foram geralmente bastante pequenas.

<><> "Estatinas não aumentam risco de câncer ou demência"

Importante saber: "Esses potenciais efeitos colaterais geralmente aparecem logo no início do tratamento – ou não aparecem nunca", afirma Oliver Weingärtner, médico sênior do Departamento de Medicina Interna do Hospital Universitário de Jena, na Alemanha, que não participou do estudo. Portanto, verificar a função hepática nas primeiras semanas de tratamento ajudará a esclarecer se alguma alteração ocorre.

Além dos possíveis efeitos sobre os músculos e o risco de diabetes, os resultados mostraram "que as estatinas estão associadas apenas a um leve aumento absoluto nos níveis de enzimas hepáticas, mas não a nenhum dos outros inúmeros sintomas listados na bula", resume Ulrich Laufs, diretor do departamento de cardiologia do Hospital Universitário de Leipzig, que também não participou da meta-análise.

Estudos de longo prazo também demonstraram que o risco de efeitos colaterais graves, como degradação muscular ou danos ao fígado, é extremamente baixo – e mesmo o uso prolongado de estatinas "não causa aumento no risco de câncer ou demência".

<><> Por que medo há tanto medo de estatinas?

Mesmo com o conhecido aumento do risco de diabetes devido às estatinas, meta-análises mostraram que o diabetes ocorreu principalmente quando os pacientes já estavam predispostos a desenvolvê-lo antes de tomar os medicamentos para baixar o colesterol, relata o grupo de pesquisa CTT.

O único problema real com as estatinas é a dor muscular, afirma Stefan Blankenberg, presidente da Sociedade Alemã de Pesquisa de Cardiologia, que não participou da meta-análise. "Essa dor é dose-dependente e desaparece após a suspensão das estatinas." Mas muitos pacientes "esperam" a dor muscular. "Isso está de acordo com a ocorrência de dor muscular no grupo placebo nos estudos."

Segundo Ulrich Laufs, do Hospital Universitário de Leipzig, cerca de 90% de todos os efeitos colaterais relatados associados às estatinas estão relacionados ao chamado efeito nocebo. Em resumo, isso significa que, se esperarmos certos efeitos negativos, iremos experimentá-los.

<><> Por que bulas mencionam tantos efeitos colaterais?

"Muitos efeitos colaterais aparecem nas bulas principalmente por questões de responsabilidade legal", explica o médico Oliver Weingärtner.

Os fabricantes de medicamentos são legalmente obrigados a fornecer informações completas sobre possíveis efeitos colaterais, interações medicamentosas e contraindicações na bula. Caso contrário, podem ser responsabilizados por quaisquer danos resultantes. Para evitar isso, é listado um grande número de possíveis efeitos colaterais.

"Embora uma suspeita bem fundamentada seja muitas vezes suficiente para a inclusão de um efeito colateral, sua remoção exige comprovação definitiva (...) em grupos muito grandes de pacientes", afirma Ulrich Laufs. Este é um processo longo, complexo e caro que, em última instância, requer até mesmo a aprovação da Comissão Europeia.

"O tamanho das bulas que vemos atualmente causa considerável incerteza e faz com que medicamentos altamente eficazes deixem de ser usados", lamenta Oliver Weingärtner. Ele sugere que os medicamentos também incluam resultados de estudos randomizados e duplo-cegos.

Stefan Blankenberg também defende a mudança das bulas. Ele propõe que seja feita uma espécie de resumo: "Algumas linhas que, além da bula legalmente exigida, reflitam a realidade e apontem os benefícios e riscos reais", sublinha.

•        Ruído rosa pode prejudicar o sono em vez de ajudar

Frequências auditivas como o ruído rosa, utilizadas por muitas pessoas para ajudar a dormir, podem estar surtindo o efeito contrário. É o que indica um estudo recente, segundo o qual esses sons afetam a fase do sono conhecida como REM (sigla em inglês para "movimento ocular rápido") e prejudicam a qualidade do repouso noturno.

Na pesquisa, publicada no início de fevereiro na revista Sleep, os cientistas da Faculdade de Medicina Perelman na Universidade da Pensilvânia questionam o uso generalizado de softwares de "sons ambientais" que são propagandeados como ajuda para quem tem dificuldades em dormir.

O ruído rosa é um conjunto de frequências de áudio que soa de forma constante e uniforme. Existem outros sons parecidos, como o ruído branco, marrom e azul, mais agudos ou mais graves. São similares a barulhos emitidos, na natureza, pelo oceano ou pela chuva. Eletrodomésticos, como aparelhos de ar-condicionado e ventiladores, também produzem esse tipo de som.

<><> Qualidade e quantidade

Descansar dormindo não depende só das horas, mas também da qualidade do sono. Durante a noite, o corpo passa por diferentes fases do sono: o ciclo profundo e o REM. O primeiro é essencial para a recuperação física, para consolidar a memória e eliminar toxinas do cérebro. Já o segundo, conhecido como "sono dos sonhos", é fundamental para a regulação emocional, a aprendizagem e o desenvolvimento cerebral. Os dois se complementam e são necessários para um descanso físico e mental adequado, lembram os autores do estudo.

Para avaliar o impacto do ruído, os pesquisadores observaram 25 adultos saudáveis, com idades entre 21 e 41 anos, em um laboratório do sono durante oito horas de sono em sete noites consecutivas.

Os participantes, que anteriormente não tinham usado ruído para dormir nem tinham distúrbios do sono, foram expostos a diferentes condições, incluindo ruído de aviões, ruído rosa, ruído de aviões combinado com ruído rosa e ruído de aviões com tampões nos ouvidos.

Todas as manhãs, eles preenchiam testes e questionários que avaliavam a qualidade do sono, o estado de alerta e outros efeitos sobre a saúde.

<><> Resultados reveladores

A exposição ao ruído dos aviões – em comparação com o silêncio – reduziu em aproximadamente 23 minutos por noite a fase mais profunda do sono. Quando os participantes usaram tampões nos ouvidos, essa perda foi reduzida consideravelmente.

Em contrapartida, o ruído rosa por si só, reproduzido a 50 decibéis (comparável ao som de uma "chuva moderada"), foi associado a uma diminuição de quase 19 minutos de sono REM.

Mas a combinação de ruído rosa e o barulho de aviões revelou ser ainda mais problemática: tanto o sono profundo como o sono REM diminuíram em comparação com as noites silenciosas, e o tempo que os participantes permaneceram acordados durante a noite aumentou em 15 minutos, efeito que não tinha sido observado quando o ruído de aviões ou o ruído rosa eram gerados separadamente.

Além disso, os participantes afirmaram que o sono era mais leve, que acordavam com mais frequência e que a qualidade geral do sono era pior quando expostos ao ruído dos aviões ou ao ruído rosa. Essas percepções negativas, no entanto, praticamente desapareciam quando os participantes usavam tampões para os ouvidos.

<><> Hábito popular

Os resultados do estudo comprovam que, apesar da popularidade, o efeito do ruído rosa (ou similares, como o branco ou o marrom) no sono é muito limitado.

Todas as noites, milhões de pessoas recorrem a esses áudios com aplicativos, softwares específicos ou plataformas digitais. Só no Spotify, o ruído branco, por exemplo, tem milhões de horas de reprodução diária, e no YouTube esses vídeos acumulam centenas de milhões de visualizações.

O estudo conclui que o uso desses sons no sono deveria ser objeto de pesquisas mais abrangentes e insiste que usar tampões é muito mais eficaz.

Além disso, os pesquisadores afirmam que a alteração do sono REM é frequente em distúrbios como depressão, ansiedade e doença de Parkinson, o que torna especialmente relevante proteger essa fase do descanso.  As crianças passam muito mais tempo nessa fase do sono do que os adultos, o que as torna especialmente vulneráveis aos efeitos negativos do ruído rosa.

 

Fonte: DW Brasil

 

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