Estatinas:
redutor de colesterol mais seguro do que diz bula
"Quando
a bula te deixa doente" – esse poderia ser o título da nova meta-análise
sobre os efeitos colaterais das estatinas publicada nesta semana na revista
científica The Lancet. O estudo foi realizado por um coletivo de pesquisa
chamado Cholesterol Treatment Trialists (CTT) Collaboration ou Colaboração de
Pesquisadores de Tratamento do Colesterol.
As
estatinas reduzem os níveis de colesterol no sangue, principalmente a
quantidade do chamado colesterol "ruim", o LDL. Níveis elevados de
LDL podem causar o acúmulo de colesterol
nas paredes dos vasos sanguíneos, aumentando o risco de ataque cardíaco e
acidente vascular cerebral.
As
estatinas têm sido usadas por centenas de milhões de pessoas em todo o mundo
nas últimas três décadas e comprovadamente reduzem ataques cardíacos, derrames
e mortes por doenças cardiovasculares.
Embora
os cientistas geralmente concordem que os efeitos positivos das estatinas
superam os riscos potenciais, os pacientes muitas vezes interrompem o
tratamento ou sequer o iniciam por medo de efeitos colaterais, já que as bulas
das estatinas listam dezenas de possíveis efeitos colaterais.
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Muito mais benefícios que riscos
Esse
medo é quase sempre infundado – de acordo com os resultados da mais recente
meta-análise. Nela, os autores examinaram um total de 19 estudos para
determinar se os efeitos colaterais listados nas bulas eram realmente
atribuíveis ao uso de estatinas.
Em
todos os 19 estudos, um grupo de pacientes recebeu um medicamento da classe das
estatinas e outro grupo recebeu apenas um placebo. Nem os pacientes nem os
pesquisadores sabiam a qual grupo pertenciam durante os estudos – isso é
chamado de "duplo-cego". Os estudos examinaram um total de cinco
medicamentos da classe das estatinas.
O
resultado foi que, além dos efeitos leves já conhecidos das estatinas sobre os
músculos e a diabetes, apenas quatro efeitos colaterais puderam ser comprovados
– de um total de 66 possíveis efeitos colaterais descritos na bula.
Apenas
alterações em edemas, níveis anormais de enzimas hepáticas, composição da urina
e anormalidades na função hepática puderam ser documentadas. E mesmo com esses
quatro efeitos colaterais, as diferenças entre as pessoas que tomavam os
medicamentos para baixar o colesterol e aquelas que recebiam apenas um placebo
foram geralmente bastante pequenas.
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"Estatinas não aumentam risco de câncer ou demência"
Importante
saber: "Esses potenciais efeitos colaterais geralmente aparecem logo no
início do tratamento – ou não aparecem nunca", afirma Oliver Weingärtner,
médico sênior do Departamento de Medicina Interna do Hospital Universitário de
Jena, na Alemanha, que não participou do estudo. Portanto, verificar a função
hepática nas primeiras semanas de tratamento ajudará a esclarecer se alguma
alteração ocorre.
Além
dos possíveis efeitos sobre os músculos e o risco de diabetes, os resultados
mostraram "que as estatinas estão associadas apenas a um leve aumento
absoluto nos níveis de enzimas hepáticas, mas não a nenhum dos outros inúmeros
sintomas listados na bula", resume Ulrich Laufs, diretor do departamento
de cardiologia do Hospital Universitário de Leipzig, que também não participou
da meta-análise.
Estudos
de longo prazo também demonstraram que o risco de efeitos colaterais graves,
como degradação muscular ou danos ao fígado, é extremamente baixo – e mesmo o
uso prolongado de estatinas "não causa aumento no risco de câncer ou
demência".
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Por que medo há tanto medo de estatinas?
Mesmo
com o conhecido aumento do risco de diabetes devido às estatinas, meta-análises
mostraram que o diabetes ocorreu principalmente quando os pacientes já estavam
predispostos a desenvolvê-lo antes de tomar os medicamentos para baixar o
colesterol, relata o grupo de pesquisa CTT.
O único
problema real com as estatinas é a dor muscular, afirma Stefan Blankenberg,
presidente da Sociedade Alemã de Pesquisa de Cardiologia, que não participou da
meta-análise. "Essa dor é dose-dependente e desaparece após a suspensão
das estatinas." Mas muitos pacientes "esperam" a dor muscular.
"Isso está de acordo com a ocorrência de dor muscular no grupo placebo nos
estudos."
Segundo
Ulrich Laufs, do Hospital Universitário de Leipzig, cerca de 90% de todos os
efeitos colaterais relatados associados às estatinas estão relacionados ao
chamado efeito nocebo. Em resumo, isso significa que, se esperarmos certos
efeitos negativos, iremos experimentá-los.
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Por que bulas mencionam tantos efeitos colaterais?
"Muitos
efeitos colaterais aparecem nas bulas principalmente por questões de
responsabilidade legal", explica o médico Oliver Weingärtner.
Os
fabricantes de medicamentos são legalmente obrigados a fornecer informações
completas sobre possíveis efeitos colaterais, interações medicamentosas e
contraindicações na bula. Caso contrário, podem ser responsabilizados por
quaisquer danos resultantes. Para evitar isso, é listado um grande número de
possíveis efeitos colaterais.
"Embora
uma suspeita bem fundamentada seja muitas vezes suficiente para a inclusão de
um efeito colateral, sua remoção exige comprovação definitiva (...) em grupos
muito grandes de pacientes", afirma Ulrich Laufs. Este é um processo
longo, complexo e caro que, em última instância, requer até mesmo a aprovação
da Comissão Europeia.
"O
tamanho das bulas que vemos atualmente causa considerável incerteza e faz com
que medicamentos altamente eficazes deixem de ser usados", lamenta Oliver
Weingärtner. Ele sugere que os medicamentos também incluam resultados de
estudos randomizados e duplo-cegos.
Stefan
Blankenberg também defende a mudança das bulas. Ele propõe que seja feita uma
espécie de resumo: "Algumas linhas que, além da bula legalmente exigida,
reflitam a realidade e apontem os benefícios e riscos reais", sublinha.
• Ruído rosa pode prejudicar o sono em vez
de ajudar
Frequências
auditivas como o ruído rosa, utilizadas por muitas pessoas para ajudar a
dormir, podem estar surtindo o efeito contrário. É o que indica um estudo
recente, segundo o qual esses sons afetam a fase do sono conhecida como REM
(sigla em inglês para "movimento ocular rápido") e prejudicam a
qualidade do repouso noturno.
Na
pesquisa, publicada no início de fevereiro na revista Sleep, os cientistas da
Faculdade de Medicina Perelman na Universidade da Pensilvânia questionam o uso
generalizado de softwares de "sons ambientais" que são propagandeados
como ajuda para quem tem dificuldades em dormir.
O ruído
rosa é um conjunto de frequências de áudio que soa de forma constante e
uniforme. Existem outros sons parecidos, como o ruído branco, marrom e azul,
mais agudos ou mais graves. São similares a barulhos emitidos, na natureza,
pelo oceano ou pela chuva. Eletrodomésticos, como aparelhos de ar-condicionado
e ventiladores, também produzem esse tipo de som.
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Qualidade e quantidade
Descansar
dormindo não depende só das horas, mas também da qualidade do sono. Durante a
noite, o corpo passa por diferentes fases do sono: o ciclo profundo e o REM. O
primeiro é essencial para a recuperação física, para consolidar a memória e
eliminar toxinas do cérebro. Já o segundo, conhecido como "sono dos
sonhos", é fundamental para a regulação emocional, a aprendizagem e o
desenvolvimento cerebral. Os dois se complementam e são necessários para um
descanso físico e mental adequado, lembram os autores do estudo.
Para
avaliar o impacto do ruído, os pesquisadores observaram 25 adultos saudáveis,
com idades entre 21 e 41 anos, em um laboratório do sono durante oito horas de
sono em sete noites consecutivas.
Os
participantes, que anteriormente não tinham usado ruído para dormir nem tinham
distúrbios do sono, foram expostos a diferentes condições, incluindo ruído de
aviões, ruído rosa, ruído de aviões combinado com ruído rosa e ruído de aviões
com tampões nos ouvidos.
Todas
as manhãs, eles preenchiam testes e questionários que avaliavam a qualidade do
sono, o estado de alerta e outros efeitos sobre a saúde.
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Resultados reveladores
A
exposição ao ruído dos aviões – em comparação com o silêncio – reduziu em
aproximadamente 23 minutos por noite a fase mais profunda do sono. Quando os
participantes usaram tampões nos ouvidos, essa perda foi reduzida
consideravelmente.
Em
contrapartida, o ruído rosa por si só, reproduzido a 50 decibéis (comparável ao
som de uma "chuva moderada"), foi associado a uma diminuição de quase
19 minutos de sono REM.
Mas a
combinação de ruído rosa e o barulho de aviões revelou ser ainda mais
problemática: tanto o sono profundo como o sono REM diminuíram em comparação
com as noites silenciosas, e o tempo que os participantes permaneceram
acordados durante a noite aumentou em 15 minutos, efeito que não tinha sido
observado quando o ruído de aviões ou o ruído rosa eram gerados separadamente.
Além
disso, os participantes afirmaram que o sono era mais leve, que acordavam com
mais frequência e que a qualidade geral do sono era pior quando expostos ao
ruído dos aviões ou ao ruído rosa. Essas percepções negativas, no entanto,
praticamente desapareciam quando os participantes usavam tampões para os
ouvidos.
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Hábito popular
Os
resultados do estudo comprovam que, apesar da popularidade, o efeito do ruído
rosa (ou similares, como o branco ou o marrom) no sono é muito limitado.
Todas
as noites, milhões de pessoas recorrem a esses áudios com aplicativos,
softwares específicos ou plataformas digitais. Só no Spotify, o ruído branco,
por exemplo, tem milhões de horas de reprodução diária, e no YouTube esses
vídeos acumulam centenas de milhões de visualizações.
O
estudo conclui que o uso desses sons no sono deveria ser objeto de pesquisas
mais abrangentes e insiste que usar tampões é muito mais eficaz.
Além
disso, os pesquisadores afirmam que a alteração do sono REM é frequente em
distúrbios como depressão, ansiedade e doença de Parkinson, o que torna
especialmente relevante proteger essa fase do descanso. As crianças passam muito mais tempo nessa
fase do sono do que os adultos, o que as torna especialmente vulneráveis aos
efeitos negativos do ruído rosa.
Fonte:
DW Brasil

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