terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Suzy Azevedo: Quando palavras viram insultos - a confusão ideológica no debate público brasileiro

O debate político brasileiro sempre foi marcado por fragilidades conceituais, mas esse quadro se tornou mais visível e amplificado nos últimos anos. Termos como fascismo, comunismo, socialismo, feminismo, direita e esquerda circulam hoje com grande frequência nas redes sociais e no discurso público. Muitas vezes usados como rótulos vazios, insultos morais ou identidades tribais, e não como categorias analíticas.

Direita e esquerda são ferramentas classificatórias contingentes, úteis em certos contextos analíticos, mas insuficientes e instáveis como categorias universais de compreensão política. Seus significados variam conforme contextos históricos, econômicos e culturais, o que limita seu uso como rótulos fixos no debate político contemporâneo.

No Brasil, a falta de coerência ideológica dos partidos e o pragmatismo das alianças políticas tornam difícil usar “direita” e “esquerda” de forma consistente. Essa fragilidade fica evidente quando posições muito diferentes são agrupadas sob os mesmos rótulos ideológicos, independentemente do que de fato defendem.

No debate público brasileiro, categorias políticas distintas são frequentemente reduzidas a um único rótulo ideológico. As causas desse empobrecimento são estruturais, não casuais, e se intensificam quando conceitos historicamente definidos passam a ser utilizados sem critério.

Fascismo, comunismo e nazismo passaram a ser usados, com frequência, como sinônimos genéricos de autoritarismo ou apenas como xingamentos. No debate público, “comunismo” virou rótulo para qualquer proposta de política social. A social-democracia é confundida com regimes totalitários, e o feminismo costuma ser tratado como uma ideologia única, ignorando a diversidade histórica de suas correntes.

Parte da responsabilidade por esse empobrecimento recai sobre a própria imprensa. Ao adotar linguagem imprecisa, reproduzir slogans políticos sem contextualização e tratar conceitos complexos como autoexplicativos, o jornalismo contribui para a erosão do debate público. Quando a mediação falha, a simplificação passa a orientar a cobertura, comprometendo a qualidade da informação.

Não se trata de exigir formação acadêmica do público, mas de reconhecer que o funcionamento do debate democrático depende de referências conceituais minimamente compartilhadas. Sem isso, termos políticos deixam de informar e passam a inflamar posições, em vez de esclarecer o debate.

Nesse contexto, o papel da imprensa como mediadora conceitual torna-se decisivo. A forma como termos políticos são apresentados, contextualizados ou simplificados influencia diretamente a qualidade do debate público.

•        A ética na imprensa e a política. Por Roberto Carlos Simões Galvão

A influência da imprensa sobre a opinião pública sempre despertou a atenção de alguns políticos poderosos, interessados em omitir ou salientar a verdade dos fatos conforme as suas conveniências. É realmente difícil imaginar prejuízo social comparável ao silêncio dos meios de comunicação diante dos descalabros do poder público. Uma das maiores redes de televisão do Brasil já foi acusada de omissão frente aos abusos cometidos pelo governo militar à época da ditadura (1964-1985). A referida rede de TV foi complacente diante do terror, não denunciou o regime antidemocrático, nem as perseguições políticas, nem as torturas. Em troca, favoreceu-se da mão generosa do Estado, tornou-se rica e poderosa obtendo sucessivas concessões de canais de televisão país afora. Oriunda de um Brasil miserável, alcançou a proeza de tornar-se a quarta maior rede de televisão do planeta, ao mesmo tempo em que uma parcela da imprensa crítica – que denunciava o regime autoritário – era censurada e perseguida.

A realidade de tais fatos não se restringe à grande imprensa nacional, tampouco se limita a uma determinada época na história do país. Referindo-se à imprensa americana, O´Sullivan pontuou que “o alarde frequente em torno da chamada imprensa democrática com base em critérios profissionais, objetivos e imparciais não resiste a um exame cuidadoso” (O´SULLIVAN, 2004, p.177). Com efeito, em qualquer tempo ou lugar a imprensa poderá render-se aos interesses infames de grupos poderosos. Basta para isso que se omita diante da corrupção, basta que informe haver austeridade em Prefeituras, Câmaras de Vereadores ou Assembleias Legislativas, entre outras esferas do poder público, cujos cofres são arrombados na calada da noite.

O político corrupto jamais dispensará o apoio da imprensa de sua região. Pelo contrário, buscará favorecê-la de todas as formas, cedendo benefícios, promovendo isenções fiscais etc. O retorno, quando ocorre, vem em forma de apoio político traduzido nas manchetes dos jornais. Com efeito, a palavra emitida nos canais de rádio, televisão e imprensa escrita, invariavelmente expressa o perfil dos homens públicos. Poderá destituí-los do poder ou alicerçá-los neste ainda mais. Dissertando sobre o assunto, Hobsbawn escreveu: “[…] tornou-se evidente que os meios de comunicação eram um componente mais importante do processo político que os partidos e sistemas eleitorais, e provavelmente assim continuariam” (HOBSBAWN, 1996, p.559).

O bom jornalista, todavia, não se rende às propostas imorais, nem se cala diante da corrupção. O jornalismo ético busca a verdade dos fatos, mesmo que isso acarrete a perda de benefícios e privilégios, o que não raramente acontece. Os ganhos oriundos do jornalismo complacente e omisso diante dos abusos do poder econômico e da ingerência na administração pública, poderão fazer da imprensa uma empresa lucrativa, mas nunca um canal de comunicação entre o cidadão comum e a realidade de seu tempo. O jornalismo tem uma função social a desempenhar – e por isso não deve ser visto como um negócio – devendo se posicionar a favor da democracia, educando seus leitores e ouvintes para serem cidadãos.

•        O que fazer quando o algoritmo empurra para o conflito? Por Armando Medeiros de Faria

A comunicação pública entrou em uma zona de risco quando o conflito passou a ser estratégia deliberada de liderança. Impulsionados pelas redes sociais, gestores trocaram a lógica republicana da previsibilidade, do serviço e do interesse público pela lógica algorítmica do barulho, do ataque e da turbulência permanente. O confronto rende visibilidade, engajamento e fidelização de bolhas, mas desloca o foco do essencial: a prestação de serviços públicos, o atendimento cotidiano da população e o uso responsável do dinheiro público.

Criar crises nas redes pode gerar ganhos políticos de curto prazo, mas cobra um preço alto: erosão da confiança, banalização da crise e exaustão do público. O próprio algoritmo opera com lógica de saturação: o que hoje engaja, amanhã cansa e perde efeito. Quando tudo vira crise, nada mais é tratado como relevante. O cidadão aprende a não acreditar, a não esperar respostas e a buscar informação fora do Estado.

Não há atalhos, milagres ou fórmulas prontas para reverter esse cenário. O enfrentamento exige reconstrução paciente da comunicação pública como política de Estado – não como arma de disputa ou performance digital.

O primeiro passo é criar uma barreira clara entre comunicação política e comunicação pública. A lógica da disputa, da provocação e da busca obsessiva por atenção pode até fazer sentido em contextos eleitorais, mas se torna disfuncional e perigosa quando transferida para o exercício do mandato. Comunicação pública deve recolocar os valores republicanos no centro da estratégia: clareza, universalidade, estabilidade e foco no cidadão – não em torcidas, bolhas ou antagonismos. A comunicação que cabe aos partidos políticos e que cabe ao Estado demanda uma separação não apenas conceitual, mas operacional.

Comunicação pública precisa funcionar como um núcleo próprio, com linguagem, ritmos e critérios distintos. Na comunicação dirigida à coletividade, agressividade comunica desprezo, deboche comunica descaso, ataques soam como fuga de responsabilidade e conflito permanente comunica instabilidade. Comunicação pública não é torcida organizada nem arena de vaidades. Seu foco não é o algoritmo nem o adversário político: é o cidadão.

Escapar do apelo ao “sucesso” nas redes é difícil porque o algoritmo atua como incentivo estrutural, não apenas comportamental. Ele premia emoção extrema, conflito e simplificação agressiva – exatamente o oposto do que a comunicação pública exige. Esperar apenas autocontenção individual é ingênuo. É preciso deslocar o eixo de avaliação: menos engajamento e mais previsibilidade, menos reação e mais orientação, menos ruído e mais utilidade pública.

A regulamentação pode ajudar, mas não resolve sozinha. Regras claras sobre uso institucional das redes, distinção entre contas pessoais e oficiais – e limites para linguagem compatível com o cargo são importantes – desde que sejam efetivamente aplicadas. Normas simbólicas, que não produzem consequências, tornam-se irrelevantes.

O desafio é político e cultural: conter a lógica do espetáculo sem cair no silêncio e reafirmar que, na esfera pública, o direito do cidadão à informação correta deve prevalecer sobre a sedução do gestor pelo aplauso digital. Comunicação pública não pode competir com algoritmos nos seus próprios termos – precisa estabelecer outros.

Em resumo, alguns insights:

1 – Separar comunicação pública de disputa política

O primeiro passo é estrutural: blindar a comunicação de serviço ao público do jogo de ataque e resposta das redes. Isso significa criar canais, porta-vozes e rotinas que não entrem no ringue algorítmico. Ou utilizar, no mix das redes, aquela cujo editor é o olhar do cidadão.

Outro caminho é retirar anúncios de serviços essenciais da lógica das redes sociais e reforçar sites oficiais, aplicativos, atendimento direto e comunicação local. Certamente é menos “moderno”, mas é mais confiável. Informação pública que interessa diretamente à população tem que buscar audiência, mas não pode ficar refém de “engajamento”.

Dados, orientações e decisões administrativas seguem ritos estáveis, linguagem técnica acessível e canais previsíveis – mesmo em cenários de polarização. Comunicação pública precisa de zonas livres do algoritmo.

2 – Reduzir o volume, aumentar a previsibilidade

O algoritmo favorece a hiperprodução: falar o tempo todo, reagir a tudo, comentar qualquer ruído. A comunicação pública pode fazer o oposto: falar menos, mas com regularidade e clareza.

Durante a pandemia, algumas secretarias de saúde, com enfoque técnico-científico, conquistaram confiança justamente por manter boletins regulares, linguagem estável e ausência de ataques. Não disputavam narrativa; entregavam dados.

No exterior, a primeira-ministra da Nova Zelândia, sob liderança de Jacinda Ardern, foi frequentemente citada por adotar comunicações curtas, empáticas e previsíveis, mesmo sob pressão midiática intensa. Não respondia às provocações; respondia às necessidades da sociedade.

Em suma: prestação de contas comunica mais do que performance.

3 – Trocar a lógica do “Estado narcísico” para o espelho do público

Toda comunicação deve responder a três perguntas essenciais: O que aconteceu? O que muda para a vida das pessoas? O que elas devem fazer agora?

Quando essas respostas estão claras, o bate-boca perde espaço e a promoção de autoridades não se estabelece. Quando as respostas não estão, o ruído ocupa tudo. Comunicação pública é utilidade pública.

4 – Criar freios internos à comunicação impulsiva

Se o algoritmo acelera, o Estado precisa desacelerar. Alguns órgãos públicos começaram a adotar protocolos internos de checagem, timing e avaliação de respostas antes de postagens sensíveis.

Esta governança (nos tempos da mídia tradicional havia a pergunta-controle: temos de responder a tudo?) inclui evitar postagens reativas (que só retroalimentam a provocação) e priorizar notas técnicas e dados em vez de declarações pessoais. Pode parecer antiquado, mas é exatamente isso que reduz crises fabricadas.

A institucionalidade guiada pelo interesse da comunidade é um antídoto contra o impulso algorítmico.

5 – Fake news e o desafio de criar vínculos

O enfrentamento às fake news não se dá pela velocidade do desmentido isolado, mas pela consistência do vínculo. Quando o cidadão sabe onde encontrar a informação correta – e confia nesse canal – a desinformação perde força. Em vez de responder a cada boato, ataque ou provocação, o Estado deve investir em referências fixas: páginas oficiais de checagem, notas técnicas permanentes, perguntas e respostas atualizadas e conteúdos explicativos que não mudam ao sabor do ruído.

Outra medida essencial é “despersonalizar a comunicação”. Fake news prosperam quando o debate se desloca para egos e disputas simbólicas. Comunicação pública eficaz fala em nome da instituição, apresenta dados verificáveis, documentos acessíveis e decisões rastreáveis de prestação de contas.

Menos opinião, menos indignação e mais orientações que possibilitam vínculos.

6.       Remar contra o algoritmo tem custo

Talvez o ponto mais honesto seja este: quem escolhe não fabricar crise perde alcance, perde trending topics e perde aplausos imediatos. Mas ganha algo mais raro: confiança no médio e longo prazo.

Há gestores e equipes de comunicação pública – no Brasil e fora – que seguem trabalhando afastados do espetáculo, comunicando com sobriedade, sendo ignorados pelos rankings de engajamento, mas respeitados quando a crise real chega.

Seja qual for o caminho, não é rendição, nem fórmula pronta. É escolha.

Remar contra a maré dos algoritmos não significa negar as redes, mas é participar com uma premissa: recusar-se a ser governado por elas. Comunicação pública não existe para vencer disputas simbólicas, e sim para reduzir incertezas, proteger direitos e organizar a vida coletiva. Em um ambiente que lucra com o caos, escolher este caminho é também um ato político – com ampla convergência com os pilares da comunicação pública.

•        O filtro invisível. Por Marcos Fabrício Lopes da Silva

Atualmente, a desinformação emerge como uma verdadeira pandemia que ameaça a essência do nosso 𝘮𝘰𝘥𝘶𝘴 𝘷𝘪𝘷𝘦𝘯𝘥𝘪 coletivo, o qual deveria se fundamentar na factualidade informativa e não em supostas “realidades virtuais”. Em um cenário em que a inteligência artificial (IA) molda nossa interação com a informação, torna-se necessário refletir sobre duas dimensões complementares: a da inovação tecnológica e da inteligência artificial, e a da informação, compreendendo a comunicação como um veículo de transformação social.

Vivemos uma época em que a desinformação se dissemina de forma alarmante, e nossa compreensão do mundo é mediada por algoritmos que, como entidades invisíveis, nos sugerem conteúdos alinhados às nossas preferências. Das redes sociais aos motores de busca, esses sistemas funcionam como filtros que moldam as notícias e opiniões às quais temos acesso. O impacto dessa mediação digital na formação de opiniões é inegável e exige uma análise crítica.

O consumo de informação, que nos mantém atualizados sobre o que acontece no mundo — seja no âmbito político, econômico, científico ou social — transformou-se em um processo digital. Esse processo trouxe vantagens significativas, como escalabilidade e facilidade de acesso, aspectos que aprendemos a valorizar e sem os quais, muitas vezes, já não sabemos viver. Nesse mundo hiperconectado, em que sentimos ter à disposição toda a informação do mundo no bolso, torna-se essencial cultivar a “dúvida” como presença constante em nossos pensamentos. Essa postura crítica nos leva a questionar: será que esta informação é verdadeira? Terá esta imagem sido manipulada?

Os mecanismos digitais que nos auxiliam a navegar e filtrar o vasto oceano de informações disponíveis baseiam-se em modelos matemáticos preditivos que remontam aos primórdios da inteligência artificial. Com o tempo, esses modelos evoluíram e tornaram-se mais eficazes na organização e disponibilização de conteúdos. Entre os diversos modelos existentes, destacam-se os de recomendação e os de aprendizagem por reforço. Ambos operam com base em sistemas de recompensas, orientando os algoritmos na produção de resultados mais relevantes para o usuário. Mas afinal, o que significa essa “recompensa”? Ela se traduz em cliques, likes, sinais de aprovação e interações diversas. É o reflexo do uso que fazemos de nosso livre-arbítrio: aquilo que escolhemos ver, ler, ouvir — e, muitas vezes, não questionar.

Ao navegar na internet, somos constantemente guiados por algoritmos que personalizam a informação de acordo com nossos interesses e comportamentos anteriores. Redes sociais, motores de busca e plataformas de notícias selecionam conteúdos que provavelmente nos agradarão ou que reforçam nossas crenças, criando uma “bolha” informacional. Dentro dessa bolha, estamos expostos a conteúdos semelhantes aos que já consumimos, enquanto opiniões divergentes ou diferentes pontos de vista são limitados ou até mesmo eliminados — fenômeno descrito por Eli Pariser em O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você (2012).

Os mecanismos de busca e as plataformas digitais utilizam algoritmos de personalização para organizar e disponibilizar conteúdos de acordo com padrões de comportamento do usuário. O Google mostra resultados de busca de acordo com o que cada usuário costuma procurar. O Facebook reduz a exibição de atualizações de amigos com quem há pouca interação. Já a Amazon destaca produtos que podem interessar logo na primeira visita ao site. Esses processos exemplificam a lógica algorítmica de recomendação, fundamentada na análise de dados de navegação e interação, cujo objetivo é maximizar a pertinência dos conteúdos apresentados e, simultaneamente, ampliar o engajamento do usuário.

É grande o impacto da manipulação algorítmica na formação da opinião pública. O ambiente digital é essencialmente numérico, pois se estrutura a partir do número, que possibilita a existência do algoritmo como tradutor de ações. No início da história da computação, apenas a matemática estava sujeita à digitalização. Contudo, à medida que passamos a adotar as ferramentas computacionais como principal meio de expressão — não apenas para a matemática, mas para toda a informação digital — o conhecimento e o discurso humano passaram a ser submetidos às lógicas processuais que permeiam a computação.

A capacidade de discernir a verdade e a responsabilidade que temos enquanto consumidores de informação serão determinantes para um futuro em que a desinformação não prevaleça sobre a factualidade. A reflexão crítica, aliada à transparência algorítmica e à educação midiática, constitui um caminho essencial para preservar a pluralidade informacional e fortalecer os valores democráticos em uma sociedade cada vez mais mediada pela tecnologia. Como já havia assinalado Lima Barreto (1881-1922) em Elogio da Morte: “Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas. O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana” (ABC, de 19/10/1918).

 

Fonte: Observatório da Imprensa

 

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