Por
que 'O Morro dos Ventos Uivantes' já é o filme mais controverso do ano
O filme
mais controverso do ano? Normalmente, esse título fica reservado a um thriller
político provocador ou a um terror que quebra tabus.
Mas o
longa que atualmente provoca mais "discussão" — para usar um termo
educado — é a adaptação de um romance do século 19.
Desde
que a diretora Emerald Fennell anunciou que, após Bela Vingança e Saltburn,
faria sua própria versão de O Morro dos Ventos Uivantes, da escritora Emily
Brontë, comentaristas não têm faltado com opiniões — em sua maioria, negativas.
"Fennell
canalizou seus instintos criativos para um perturbador exercício de destruição
sem sentido", escreveu Lara Brown na The Spectator — e isso cinco meses
antes da estreia do filme, marcada para 12 de fevereiro.
Tudo no
filme foi alvo de críticas, do elenco aos figurinos, dos sotaques dos atores às
aspas no título: em inglês, é "Wuthering Heights", e não Wuthering
Heights, para enfatizar que se trata da interpretação própria de Fennell do
livro, e não do livro em si.
As
críticas têm sido incessantes. Mas será que as razões dessa hostilidade vão
além do ceticismo diante de um drama de época de qualidade duvidosa?
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O início da reação negativa
As
primeiras objeções surgiram ainda em julho de 2024, quando veio à tona a
notícia de que uma diretora conhecida por sátiras provocativas e espalhafatosas
adaptaria um clássico vitoriano reverenciado.
Ex-atriz
de cinema e televisão, Fennell escreveu e dirigiu dois sucessos, Bela Vingança
e Saltburn — o primeiro vencedor do Oscar de melhor roteiro em 2021.
Ambos,
porém, sofreram reações negativas. Fennell foi acusada de produzir obras em que
o estilo é mais importante que a qualidade. Ou seja, que pareciam tratar de
temas sérios — agressão sexual, guerra de classes — apenas para recorrer a
paletas de cores chamativas, reviravoltas baratas e memes embalados por
sucessos pop.
O
receio era que sua adaptação de Brontë seguisse o mesmo caminho.
O
volume de críticas aumentou em setembro de 2024, quando Margot Robbie e Jacob
Elordi foram confirmados como os protagonistas do livro, Cathy e Heathcliff.
Na
parte do romance que retrata do romance intenso, os personagens são
adolescentes, enquanto Robbie e Elordi têm hoje 35 e 28 anos, respectivamente.
Outro
fator é que Robbie — a própria Barbie — manteve o cabelo loiro e liso, em vez
dos "cachos castanhos" descritos no romance.
Mais
significativo ainda: Heathcliff é descrito em O Morro dos Ventos Uivantes como
semelhante a um "cigano de pele escura", levando alguns estudiosos a
sugerir que ele não era branco. Para alguns, é justamente essa não branquitude
que explica sua condição de outsider e os maus-tratos que sofre na história.
Diante
disso, poderia Fennell ser acusada de embranquecer o personagem — e perder o
sentido da obra — ao escalar Elordi?
A
diretora de elenco do filme, Kharmel Cochrane, não se abalou com a
negatividade. "Houve um comentário no Instagram dizendo que a diretora de
elenco deveria ser baleada", recordou ela em abril passado.
"Mas
não é preciso ser preciso. É apenas um livro. Não é baseado na vida real. É
tudo arte."
Talvez
seja verdade — e Robbie e Elordi não são os primeiros atores mais velhos e mais
brancos que as versões imaginadas por Brontë: Laurence Olivier e Merle Oberon
tinham 32 e 28 anos quando o filme de 1939 foi lançado.
Mas as
reclamações do ano passado mostram o quanto os tempos mudaram. O público está
muito mais sensível ao embranquecimento e à falta de autenticidade do que
antes.
Além
disso, a versão de 2011 dirigida por Andrea Arnold escalou o ator negro James
Howson como Heathcliff, enquanto Kaya Scodelario, que interpretou Cathy, tinha
19 anos quando o filme foi lançado. Para alguns, o novo elenco parecia um
retrocesso — precisamente ao ano de 1939.
Em
seguida, vieram as sessões-teste de agosto do ano passado.
Segundo
o site World of Reel, espectadores deram a entender que a história estava
"sem nuances emocionais e cheia de desvios sensacionalistas destinados
apenas ao choque".
Essas
afirmações foram reforçadas pelo trailer sensual divulgado no mês seguinte. Ao
que parecia, Fennell não queria que O Morro dos Ventos Uivantes fosse menos
extravagante, moderno ou sexualmente explícito do que Saltburn e Bela Vingança.
No
trailer, Robbie aparece fazendo pão de forma altamente sugestiva, com as faces
ruborizadas e a respiração ofegante no corpete apertado, enquanto se recorda do
torso nu de Elordi.
Há
também imagens de um espartilho sendo apertado, de Elordi tirando a camisa e,
bem, alguém colocando o dedo na boca de um peixe.
Uma
reação típica a todo esse desejo e lascívia foi um artigo do The Spinoff
intitulado "Todo mundo odeia o novo trailer de O Morro dos Ventos
Uivantes, e eis o porquê".
"Fennell
está pegando uma obra de arte e reduzindo-a à sua forma mais insossa",
escreveu Clare Mabey.
Foram
apontados muitos outros problemas além do erotismo explícito.
O
trailer era agressivamente anacrônico, com Charli XCX na trilha sonora, e Cathy
usando um vestido de noiva branco que, segundo a Vogue, "parecia mais
adequado aos anos 1980 do que ao início do século 19".
E,
quando um trecho do filme foi divulgado no mês passado, os próprios atores
foram ridicularizados por parecerem anacrônicos. "Com certeza eles tinham
ótimos dentistas naquela época", dizia um comentário no YouTube.
"Adoro a Margot, mas ela parece que vai tirar um iPhone do bolso a
qualquer momento", dizia outro.
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As razões da irritação
Mas
essas implicâncias levantam algumas questões importantes, a primeira delas: e
daí? Por que Fennell não poderia apresentar sua própria versão extravagante e
sensual de O Morro dos Ventos Uivantes?
Se As
Patricinhas de Beverly Hills pôde transportar um enredo de Jane Austen para a
Califórnia dos anos 1990, e Romeu + Julieta, de Baz Luhrmann, fez o mesmo com
Shakespeare, por que tanta preocupação com o desenho dos figurinos?
Há duas
respostas óbvias. Uma delas é sugerida pelo fato de que, no trailer, a Cathy de
Robbie soa mais aristocrática do que qualquer personagem de cinema justamente
desde os aristocratas de Saltburn.
O filme
anterior de Fennell se passa numa mansão aristocrática, e uma de suas melhores
qualidades era que a roteirista-diretora parecia conhecer intimamente seus
personagens da elite.
Não há
mistério sobre como isso aconteceu: filha do célebre designer de joias Theo
Fennell, ela cresceu em círculos privilegiados.
Como
escreveu Patrick Sproull na Dazed, "não são muitos os jovens de 18 anos
cuja festa de aniversário é fotografada pela [revista] Tatler e frequentada por
uma [Cara] Delevingne, vários herdeiros da [cervejaria] Guinness, membros da
nobreza e a filha do [cantor] Sting".
Em
suma, Fennell é aristocrática. De fato, sua origem é tão privilegiada que,
quando interpretou Camilla Parker-Bowles — hoje rainha Camilla — na série The
Crown, não precisou soar mais sofisticada do que já soa na vida cotidiana.
Isso
não agradou todo mundo. Por mais popular que Saltburn tenha sido, algumas
críticas afirmaram que o filme era caridoso demais com seus personagens ricos
justamente porque Fennell também pertence a esse meio.
"É
uma sátira que nunca mostra as garras, nunca levanta um dedo para criticar
essas pessoas", disse Sproull.
Outros
reclamaram que as conexões e vantagens de Fennell deram à sua carreira de
diretora uma vantagem inicial injusta.
Assim,
muitos comentaristas já estavam predispostos a não gostar de O Morro dos Ventos
Uivantes desde o início. A antipatia tinha tanto a ver com seus sentimentos em
relação à diretora quanto com o próprio filme.
Mas a
principal razão para toda essa irritação é simples: quem ama o romance de
Brontë realmente ama o romance de Brontë. Não é apenas apreço — é obsessão.
Como
escreveu Hephzibah Anderson em um artigo da BBC, "a maioria de nós lê O
Morro dos Ventos Uivantes na adolescência — ou seja, quando somos extremamente
impressionáveis".
Muitos
fãs passam a encará-lo como parte de sua identidade — e até de suas vidas
amorosas.
"Continuo
convencida de que o precedente para perseguir histórias de amor tóxicas me foi
apresentado na adolescência, por Heathcliff", confessou Olivia Petter na
British Vogue.
E ela
não está sozinha. Considerando a devoção dos aficionados pelo romance, era
inevitável que qualquer filme que se afastasse do texto fosse visto por alguns
como um ataque pessoal.
A
ironia é que Fennell afirma adorar o livro tanto quanto qualquer outra pessoa.
No Festival de Escrita Feminina Brontë, em setembro passado, ela disse que
estava "obcecada" e "enlouquecida" por O Morro dos Ventos
Uivantes desde que o leu aos 14 anos. "Se outra pessoa fizesse [o filme],
eu ficaria furiosa."
Provavelmente,
portanto, ela não está muito preocupada com a fúria dos outros — talvez até
esteja satisfeita. Cada nova informação divulgada sobre o filme gera milhares
de palavras apaixonadas, e, embora nem todas sejam elogiosas, sem dúvida
ajudaram a aumentar a visibilidade e a expectativa.
Será
que O Morro dos Ventos Uivantes pode realmente ser tão exagerado quanto sugerem
os trailers? Poderia ser tão ruim que chega a ser bom? Ou poderia até ser… bom?
As
reações nas redes sociais após uma exibição antecipada foram fortes, com um
crítico chegando a descrevê-lo como um "novo clássico de nível
divino".
"Mal
posso esperar para assistir ao O Morro dos Ventos Uivantes de Fennell",
escreveu Olivia Petter na Vogue. "Admito que, como fã dedicada do livro,
fiquei cética no início. Mas agora já não me importo com a precisão."
O velho
ditado de que não existe publicidade negativa nunca pareceu tão verdadeiro.
Fonte:
BBC Culture

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