Sara
York: “Rent a Human”, agora é a inteligência artificial quem aluga a
precariedade
Fevereiro
de 2026 e uma plataforma chamada RentAHuman.ai emerge como a primeira a
circular com força nos ambientes tecnológicos e nas redes sociais, com tal
intuito. A proposta é, à primeira vista, apresentada como inovadora, uma vez
que permite que inteligências artificiais “contratem” seres humanos para
realizar, no mundo físico, tarefas que os algoritmos ainda não conseguem
executar sozinhos. A IA planeja, organiza e solicita. O humano executa. Em
poucas semanas, milhares de pessoas se cadastraram, atraídas pela promessa de
renda rápida e pela curiosidade em torno de um modelo que, segundo seus
criadores, representaria uma nova etapa da interação entre tecnologia e
trabalho.
Mas por
trás do discurso futurista, o Rent a Human revela algo profundamente antigo, a
exploração sistemática da vulnerabilidade social fantasiada de inovação.
Na
prática, a plataforma funciona como um grande mercado digital onde pessoas
oferecem sua presença, seu tempo e seu corpo no espaço urbano para cumprir
tarefas solicitadas por agentes automatizados. Buscar um pacote, fotografar uma
rua, registrar um evento, ir a determinado local e enviar informações. O
pagamento, em geral, é feito em criptomoedas, sem vínculo trabalhista, sem
garantias legais, sem proteção social. O trabalhador não tem patrão visível,
não tem contrato, não tem sindicato. Tem apenas um aplicativo, um algoritmo e a
expectativa incerta de ser escolhido.
Como
educadora, é impossível não enxergar nesse modelo uma pedagogia silenciosa da
precarização. O Rent a Human ensina, diariamente, que o valor de uma pessoa
está na sua disponibilidade absoluta, na sua capacidade de estar sempre pronta,
sempre acessível, sempre barata. Ensina que tempo é mercadoria, que corpo é
interface, que dignidade é negociável. Trata-se de uma forma de educação social
informal, fora da escola, mas profundamente formadora que é uma pedagogia da
sobrevivência.
Podemos
imaginar, sem esforço, como isso se traduz no cotidiano brasileiro. Pensemos em
uma jovem da periferia que, diante da falta de emprego formal, passa a checar
diariamente o celular à espera de alguma tarefa. Não é muito diferente do
antigo “bico”, tão comum nas grandes cidades. A diferença é que agora o
contratante não é um comerciante do bairro nem um vizinho. É um software. Um
sistema que não conhece sua história, não reconhece sua humanidade, não se
importa com sua saúde, seu cansaço ou sua vida. Ele apenas processa dados e eu
nem preciso te informar que máquinas quebram, mas não cansam!
Os
defensores desse tipo de plataforma costumam argumentar que se trata de uma
escolha individual, de uma forma flexível de trabalho, de uma oportunidade para
quem precisa complementar renda. Esse discurso ignora, deliberadamente, o
contexto social em que essas “escolhas” são feitas. Quando a geladeira está
vazia, quando o aluguel atrasa, quando o desemprego é estrutural, não existe
liberdade plena de escolha. Existe necessidade, urgência e medo. Chamar isso de
autonomia é mascarar a desigualdade.
Estamos
diante de uma nova etapa daquilo que já conhecemos como uberização. Primeiro
foi o transporte. Depois a alimentação. Em seguida, a educação, a saúde, o
cuidado. Agora, a própria presença humana. Não se vende mais apenas a força de
trabalho. Vende-se a disponibilidade total, a atenção, o estar ali e até a
própria existência temporária. É a transformação da humanidade em serviço sob
demanda.
Nada
disso é casual. A própria linguagem usada por essas plataformas revela o
projeto que está em curso. Fala-se em “camada física”, “executores humanos”,
“interfaces de carne”. Quando a linguagem desumaniza, a exploração se torna
mais fácil, não se explora pessoas. Agora o título ao invés de “Exploram-se
recursos” é “não mais se precarizam vidas”apenas otimizam-se processos.
Também
não é por acaso quem ocupa majoritariamente esses espaços. Não são os
herdeiros, os investidores, os grandes empresários. São jovens sem emprego,
trabalhadores informais, migrantes, endividados, moradores das periferias,
pessoas historicamente excluídas das políticas de proteção social. É sempre o
mesmo corpo que o sistema oferece ao sacrifício em nome da eficiência.
Durante
anos, fomos levados a acreditar que a inteligência artificial libertaria os
seres humanos do trabalho pesado, repetitivo e exaustivo. Que sobraria tempo
para a criação, para o cuidado, para a vida. Para muitos, porém, o que sobrou
foi mais insegurança, mais informalidade, mais dependência de plataformas
opacas, mais medo do futuro. A tecnologia não é neutra. Ela expressa os
interesses de quem a controla.
Como
educadora, não posso deixar de perguntar: que tipo de sociedade estamos
ensinando às nossas crianças quando naturalizamos esse modelo? Um mundo em que
humanos servem máquinas? Em que algoritmos decidem quem merece trabalhar? Em
que dignidade vira um serviço opcional? Se aceitarmos isso como normal agora,
eles herdarão isso como regra amanhã. E já está acontecendo…
Não se
trata de recusar a tecnologia, nem de idealizar um passado sem inovação. Nesse
momento trata-se de afirmar limites éticos, de lembrar que trabalho é direito,
não favor. Que renda é política pública, não loteria digital, que cuidado é
responsabilidade coletiva, não apenas produto, como já nos acostumávamos.
Aliás, gente não é ferramenta.
O Rent
a Human além de ser uma curiosidade tecnológica, apresenta um alerta, um
sintoma de até onde o capitalismo digital está disposto a ir para transformar
tudo em mercadoria, inclusive a própria existência. Quando uma sociedade passa
a alugar pessoas, é porque falhou em garantir condições mínimas de vida. E
quando passa a considerar isso normal, é porque falhou também como projeto
civilizatório.
A
disputa do nosso tempo não é apenas tecnológica, vinculação profundamente pedagógica. Ou formamos
sujeitos críticos, capazes de questionar essas estruturas, ou formaremos
trabalhadores eternamente disponíveis para algoritmos que não sabem — e não
querem saber — o que significa ser humano.
• A regulamentação das inteligências
artificiais. Por Ivan da Costa Marques
A
inauguração das Inteligências artificiais em larga escala é relativamente
recente. Mas elas já demonstraram sua utilidade e consequente atratividade para
um amplo espectro de tarefas e ocupações associadas aos padrões cotidianos da
vida moderna. É fácil verificar pessoalmente a capacidade das Inteligências
artificiais de executar, autônoma ou interativamente e de maneira
surpreendentemente satisfatória, tarefas às vezes não tão simples e rotineiras
sobre textos, áudios e imagens.
Rejeitá-las
seria comparável a imaginamos a rejeição do telefone em favor do menino de
recados no começo do século XX. Reconhecer isso, no entanto, não nos impede de
pensar e agir sobre como recebê-las levando em conta condições vigentes no
Brasil.
A
primeira condição para recebermos as Inteligências artificiais com proveito
mais amplo é reconhecer que elas são diversas e devem ser tratadas situando-as
caso a caso nos coletivos em que se fizerem presentes. Neste breve texto me
circunscrevo ao coletivo (de pessoas e coisas) denominado “mercado de
trabalho”.
Mais
especificamente, me circunscrevo ao mercado da oferta e da demanda por trabalho
para realizar tarefas simples e quase repetitivas tais como as de atendentes em
call centers. O empresariado diz que as Inteligências artificiais surgem aí com
vantagem incontornável, uma vez que neste caso muitas vezes já existe a opção
“técnica” do trabalho humano ser substituídos por Inteligências artificiais
contabilmente mais baratas.
Trazendo
outro exemplo, não é um devaneio alarmista pensar que no prazo de poucos anos
uma Inteligência artificial viabilizará que o trabalho hoje feito por dez
escreventes nos tabelionatos e escritórios de advocacia possa ser feito por
três deles (retreinados), desempregando sete em cada dez indivíduos nesta
categoria de trabalhadores.
Os
números que circulam nos meios empresariais apontam o potencial altamente
disruptivo das Inteligências artificiais. No caso do trabalho contratado por
empresas, o discurso empresarial traduz essa grande “diminuição do trabalho
humano” oferecida pelas Inteligências artificiais como um “ganho de
eficiência”. Acontece que para que esse “ganho de eficiência” deixe de ser uma
abstração econômica misteriosa é preciso situá-lo materialmente no escopo de
uma contabilidade, de uma métrica, de uma medida da vida econômica.
Mas ao
se confiar na contabilidade do empresariado e na pureza de teorias econômicas
dominantes como a melhor forma de se analisar o que acontece na vida econômica,
não são levados em conta o sofrimento e a violência decorrentes das demissões e
da falta de oportunidades de trabalho. Assim, a contabilidade, a métrica e as
medidas dos custos deixam de considerar fatores cruciais para que se realize a
tradução da “diminuição do trabalho humano” em “ganho de eficiência”.
Como as
teorias econômicas dominantes não discutem quem ganha e quem perde, quando e
onde com esse “ganho de eficiência”, a ideia de “progresso” instala com
facilidade um poderoso lobby de oposição à regulamentação da utilização das
Inteligências artificiais nas empresas, deixando para o “mercado” resolver por
si só as situações decorrentes dos avanços da utilização desregulada das
Inteligências artificiais nas empresas. A busca do “ganho de eficiência” se
configura então como algo naturalmente bom e desejado por todos, sem que se
atente para o que pode ser o “ganho de eficiência”.
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Onde poderão estar as prometidas novas tarefas
O
“mercado” dirá genericamente que pelo menos uma parte do trabalho humano que a
Inteligência artificial torna dispensável aparecerá algures como trabalho
humano necessário voltado para outras tarefas decorrentes do uso da
Inteligência artificial.
Para o
“mercado” o ritmo de dispensa do trabalho humano na recepção das Inteligências
artificiais nas empresas deve ser pautado unicamente pelo ritmo dos avanços
técnicos no desenvolvimento das Inteligências artificiais. E toda resistência
ao avanço tecnológico é rapidamente rejeitada como obscurantismo e classificada
como “ludista”.
Mas
estamos no Brasil e cabe olhar cuidadosamente esse argumento do “mercado” que
naturaliza o ritmo de introdução das Inteligências artificiais como algo
inseparável do ritmo do desenvolvimento tecnológico das Inteligências
artificiais. Além disso, admitamos, o ritmo do desenvolvimento tecnológico das
Inteligências artificiais é determinado em outros países, como EUA, China e
Israel.
Não é
difícil enxergar que o ritmo de criação de novo trabalho humano para compensar
o que se tornou dispensável com as Inteligências artificiais possa variar
conforme o país, a região, o estado ou mesmo o município.
Por
isso também ganha força no Brasil a “conveniência” de delegar a solução da
questão do desemprego criado pelas Inteligências artificiais às abstrações do
“mercado” ou das teorias da ciência econômica. A “conveniência” está em
contornar o desafio de pôr em prática uma regulamentação que deverá ser capilar
e evolutiva para minimizar sofrimento e violência conforme os locais, o que soa
como uma utopia chinesa aos ouvidos dos estamentos que governam nosso país.
Muito
esquematicamente, carente de incontáveis complementos e aperfeiçoamentos, essa
utopia envolveria:
(i) a criação de dispositivos métricos
detalhados e evolutivos de acompanhamento e contagem (uma estatística) de
demissões e contratações ligadas às Inteligências artificiais no âmbito de
coletivos locais, com capilaridade suficiente para detalhar a situação no
mercado de trabalho indo pelo menos ao nível municipal;
(ii) o engajamento de coletivos comunitários,
sejam sindicatos, partidos políticos, grupos profissionais, empregados de uma
empresa, redes sociais etc. interessadas em negociações que evolutivamente
lutem por estabelecer uma regulamentação visando pôr em prática um fluxo
equilibrado de demissões (trabalhos assumidos pelas IAs) e admissões (novos
trabalhos para humanos) medidos por (i) em determinada região, estado ou
município;
(iii) a criação e implantação pelo Estado de um
arcabouço legal que estabeleça as condições para que estas negociações entrem
em cena com a força dos dispositivos legais.
A rede
desses elementos entrelaçados definiria propriamente o escopo de uma
contabilidade, uma métrica, uma medida para avaliar materialmente o custo e em
decorrência o “ganho de eficiência” (“produção” / “custo”) trazido pelas
Inteligências artificiais.
Para
ser bem-sucedido, uma transformação do tipo sugerido acima na maneira de
construir políticas públicas teria que ganhar escala numa formação “de baixo
para cima”, com a participação e condução daqueles que são vítimas da violência
e encarnam o sofrimento envolvido nas disrupções trazidas pelas Inteligências
artificiais. Para quem tem seu trabalho rotineiro substituído pelas
Inteligências artificiais, o desaparecimento do trabalho humano nos call
centers e escritórios acontecer ao longo de dez, de cinco ou de um ano faz
bastante diferença.
Impossível!
Já ouço o descarte da proposta de recepção das Inteligências artificiais
esboçada acima pelos estamentos que governam o Brasil, alegando desde
“ingenuidade” a “radicalismo utópico”, não obstante a crescente admiração pelas
realizações chinesas tão aparentes nas últimas décadas.
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Da mão invisível para as mãos visíveis
Como
ponto de partida sine qua non é preciso reconhecer que o grau de violência e
sofrimento pode ser ao menos em parte controlado mediante regulamentação. A
ignição daquele “de baixo para cima” pode contar com o engajamento de coletivos
mediadores nos diversos âmbitos sociotécnicos pelos brasis afora.
São
muitos os exemplos de grupos mediadores do sofrimento, formados em associações
formais ou informais de mulheres e homens das diversas ocupações e classes
sociais. Em torno da questão de como resistir ao catastrófico lembremos que o
engajamento em um coletivo mediador faz com que seus participantes se destaquem
como praticantes que participam da formulação de problemas e não só como
analistas ou usuários.
Em seu
livro Em meio ao catastrófico: resistindo à barbárie que se aproxima, a
filósofa belga Isabelle Stengers descreveu a capacidade de “pensar e agir em
conjunto” como a possibilidade de uma “inteligência coletiva” incorporada em
“grupos que reivindicam a capacidade de intervir, de complicar as coisas, de se
intrometer naquilo que – tanto do ponto de vista do Estado quanto do
empresariado – não lhes diz respeito”. (STENGERS, 2015:77).
Um dos
enormes desafios para o nosso país diante das Inteligências artificiais é se
preparar a tempo criando dispositivos métricos próprios para discutir ampla e
democraticamente este “ganho de eficiência” e intervir escapando da força
desenfreada do mercado que, grosso modo, foi no Ocidente elevada à categoria
cognitiva de força natural.
Lutemos
para que nossos coletivos de pensamento tenham a perspectiva de intervenção e
vivam a tensão envolvida na escolha das formas de intervir. Com as
Inteligências artificiais, caso a caso, quem ganha e quem perde, onde, quando e
o quê? E com quais Inteligências artificiais?
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda

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