quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Sara York: “Rent a Human”, agora é a inteligência artificial quem aluga a precariedade

Fevereiro de 2026 e uma plataforma chamada RentAHuman.ai emerge como a primeira a circular com força nos ambientes tecnológicos e nas redes sociais, com tal intuito. A proposta é, à primeira vista, apresentada como inovadora, uma vez que permite que inteligências artificiais “contratem” seres humanos para realizar, no mundo físico, tarefas que os algoritmos ainda não conseguem executar sozinhos. A IA planeja, organiza e solicita. O humano executa. Em poucas semanas, milhares de pessoas se cadastraram, atraídas pela promessa de renda rápida e pela curiosidade em torno de um modelo que, segundo seus criadores, representaria uma nova etapa da interação entre tecnologia e trabalho.

Mas por trás do discurso futurista, o Rent a Human revela algo profundamente antigo, a exploração sistemática da vulnerabilidade social fantasiada de inovação.

Na prática, a plataforma funciona como um grande mercado digital onde pessoas oferecem sua presença, seu tempo e seu corpo no espaço urbano para cumprir tarefas solicitadas por agentes automatizados. Buscar um pacote, fotografar uma rua, registrar um evento, ir a determinado local e enviar informações. O pagamento, em geral, é feito em criptomoedas, sem vínculo trabalhista, sem garantias legais, sem proteção social. O trabalhador não tem patrão visível, não tem contrato, não tem sindicato. Tem apenas um aplicativo, um algoritmo e a expectativa incerta de ser escolhido.

Como educadora, é impossível não enxergar nesse modelo uma pedagogia silenciosa da precarização. O Rent a Human ensina, diariamente, que o valor de uma pessoa está na sua disponibilidade absoluta, na sua capacidade de estar sempre pronta, sempre acessível, sempre barata. Ensina que tempo é mercadoria, que corpo é interface, que dignidade é negociável. Trata-se de uma forma de educação social informal, fora da escola, mas profundamente formadora que é uma pedagogia da sobrevivência.

Podemos imaginar, sem esforço, como isso se traduz no cotidiano brasileiro. Pensemos em uma jovem da periferia que, diante da falta de emprego formal, passa a checar diariamente o celular à espera de alguma tarefa. Não é muito diferente do antigo “bico”, tão comum nas grandes cidades. A diferença é que agora o contratante não é um comerciante do bairro nem um vizinho. É um software. Um sistema que não conhece sua história, não reconhece sua humanidade, não se importa com sua saúde, seu cansaço ou sua vida. Ele apenas processa dados e eu nem preciso te informar que máquinas quebram, mas não cansam!

Os defensores desse tipo de plataforma costumam argumentar que se trata de uma escolha individual, de uma forma flexível de trabalho, de uma oportunidade para quem precisa complementar renda. Esse discurso ignora, deliberadamente, o contexto social em que essas “escolhas” são feitas. Quando a geladeira está vazia, quando o aluguel atrasa, quando o desemprego é estrutural, não existe liberdade plena de escolha. Existe necessidade, urgência e medo. Chamar isso de autonomia é mascarar a desigualdade.

Estamos diante de uma nova etapa daquilo que já conhecemos como uberização. Primeiro foi o transporte. Depois a alimentação. Em seguida, a educação, a saúde, o cuidado. Agora, a própria presença humana. Não se vende mais apenas a força de trabalho. Vende-se a disponibilidade total, a atenção, o estar ali e até a própria existência temporária. É a transformação da humanidade em serviço sob demanda.

Nada disso é casual. A própria linguagem usada por essas plataformas revela o projeto que está em curso. Fala-se em “camada física”, “executores humanos”, “interfaces de carne”. Quando a linguagem desumaniza, a exploração se torna mais fácil, não se explora pessoas. Agora o título ao invés de “Exploram-se recursos” é “não mais se precarizam vidas”apenas otimizam-se processos.

Também não é por acaso quem ocupa majoritariamente esses espaços. Não são os herdeiros, os investidores, os grandes empresários. São jovens sem emprego, trabalhadores informais, migrantes, endividados, moradores das periferias, pessoas historicamente excluídas das políticas de proteção social. É sempre o mesmo corpo que o sistema oferece ao sacrifício em nome da eficiência.

Durante anos, fomos levados a acreditar que a inteligência artificial libertaria os seres humanos do trabalho pesado, repetitivo e exaustivo. Que sobraria tempo para a criação, para o cuidado, para a vida. Para muitos, porém, o que sobrou foi mais insegurança, mais informalidade, mais dependência de plataformas opacas, mais medo do futuro. A tecnologia não é neutra. Ela expressa os interesses de quem a controla.

Como educadora, não posso deixar de perguntar: que tipo de sociedade estamos ensinando às nossas crianças quando naturalizamos esse modelo? Um mundo em que humanos servem máquinas? Em que algoritmos decidem quem merece trabalhar? Em que dignidade vira um serviço opcional? Se aceitarmos isso como normal agora, eles herdarão isso como regra amanhã. E já está acontecendo…

Não se trata de recusar a tecnologia, nem de idealizar um passado sem inovação. Nesse momento trata-se de afirmar limites éticos, de lembrar que trabalho é direito, não favor. Que renda é política pública, não loteria digital, que cuidado é responsabilidade coletiva, não apenas produto, como já nos acostumávamos. Aliás, gente não é ferramenta.

O Rent a Human além de ser uma curiosidade tecnológica, apresenta um alerta, um sintoma de até onde o capitalismo digital está disposto a ir para transformar tudo em mercadoria, inclusive a própria existência. Quando uma sociedade passa a alugar pessoas, é porque falhou em garantir condições mínimas de vida. E quando passa a considerar isso normal, é porque falhou também como projeto civilizatório.

A disputa do nosso tempo não é apenas tecnológica, vinculação  profundamente pedagógica. Ou formamos sujeitos críticos, capazes de questionar essas estruturas, ou formaremos trabalhadores eternamente disponíveis para algoritmos que não sabem — e não querem saber — o que significa ser humano.

•        A regulamentação das inteligências artificiais. Por Ivan da Costa Marques

A inauguração das Inteligências artificiais em larga escala é relativamente recente. Mas elas já demonstraram sua utilidade e consequente atratividade para um amplo espectro de tarefas e ocupações associadas aos padrões cotidianos da vida moderna. É fácil verificar pessoalmente a capacidade das Inteligências artificiais de executar, autônoma ou interativamente e de maneira surpreendentemente satisfatória, tarefas às vezes não tão simples e rotineiras sobre textos, áudios e imagens.

Rejeitá-las seria comparável a imaginamos a rejeição do telefone em favor do menino de recados no começo do século XX. Reconhecer isso, no entanto, não nos impede de pensar e agir sobre como recebê-las levando em conta condições vigentes no Brasil.

A primeira condição para recebermos as Inteligências artificiais com proveito mais amplo é reconhecer que elas são diversas e devem ser tratadas situando-as caso a caso nos coletivos em que se fizerem presentes. Neste breve texto me circunscrevo ao coletivo (de pessoas e coisas) denominado “mercado de trabalho”.

Mais especificamente, me circunscrevo ao mercado da oferta e da demanda por trabalho para realizar tarefas simples e quase repetitivas tais como as de atendentes em call centers. O empresariado diz que as Inteligências artificiais surgem aí com vantagem incontornável, uma vez que neste caso muitas vezes já existe a opção “técnica” do trabalho humano ser substituídos por Inteligências artificiais contabilmente mais baratas.

Trazendo outro exemplo, não é um devaneio alarmista pensar que no prazo de poucos anos uma Inteligência artificial viabilizará que o trabalho hoje feito por dez escreventes nos tabelionatos e escritórios de advocacia possa ser feito por três deles (retreinados), desempregando sete em cada dez indivíduos nesta categoria de trabalhadores.

Os números que circulam nos meios empresariais apontam o potencial altamente disruptivo das Inteligências artificiais. No caso do trabalho contratado por empresas, o discurso empresarial traduz essa grande “diminuição do trabalho humano” oferecida pelas Inteligências artificiais como um “ganho de eficiência”. Acontece que para que esse “ganho de eficiência” deixe de ser uma abstração econômica misteriosa é preciso situá-lo materialmente no escopo de uma contabilidade, de uma métrica, de uma medida da vida econômica.

Mas ao se confiar na contabilidade do empresariado e na pureza de teorias econômicas dominantes como a melhor forma de se analisar o que acontece na vida econômica, não são levados em conta o sofrimento e a violência decorrentes das demissões e da falta de oportunidades de trabalho. Assim, a contabilidade, a métrica e as medidas dos custos deixam de considerar fatores cruciais para que se realize a tradução da “diminuição do trabalho humano” em “ganho de eficiência”.

Como as teorias econômicas dominantes não discutem quem ganha e quem perde, quando e onde com esse “ganho de eficiência”, a ideia de “progresso” instala com facilidade um poderoso lobby de oposição à regulamentação da utilização das Inteligências artificiais nas empresas, deixando para o “mercado” resolver por si só as situações decorrentes dos avanços da utilização desregulada das Inteligências artificiais nas empresas. A busca do “ganho de eficiência” se configura então como algo naturalmente bom e desejado por todos, sem que se atente para o que pode ser o “ganho de eficiência”.

<><> Onde poderão estar as prometidas novas tarefas

O “mercado” dirá genericamente que pelo menos uma parte do trabalho humano que a Inteligência artificial torna dispensável aparecerá algures como trabalho humano necessário voltado para outras tarefas decorrentes do uso da Inteligência artificial.

Para o “mercado” o ritmo de dispensa do trabalho humano na recepção das Inteligências artificiais nas empresas deve ser pautado unicamente pelo ritmo dos avanços técnicos no desenvolvimento das Inteligências artificiais. E toda resistência ao avanço tecnológico é rapidamente rejeitada como obscurantismo e classificada como “ludista”.

Mas estamos no Brasil e cabe olhar cuidadosamente esse argumento do “mercado” que naturaliza o ritmo de introdução das Inteligências artificiais como algo inseparável do ritmo do desenvolvimento tecnológico das Inteligências artificiais. Além disso, admitamos, o ritmo do desenvolvimento tecnológico das Inteligências artificiais é determinado em outros países, como EUA, China e Israel.

Não é difícil enxergar que o ritmo de criação de novo trabalho humano para compensar o que se tornou dispensável com as Inteligências artificiais possa variar conforme o país, a região, o estado ou mesmo o município.

Por isso também ganha força no Brasil a “conveniência” de delegar a solução da questão do desemprego criado pelas Inteligências artificiais às abstrações do “mercado” ou das teorias da ciência econômica. A “conveniência” está em contornar o desafio de pôr em prática uma regulamentação que deverá ser capilar e evolutiva para minimizar sofrimento e violência conforme os locais, o que soa como uma utopia chinesa aos ouvidos dos estamentos que governam nosso país.

Muito esquematicamente, carente de incontáveis complementos e aperfeiçoamentos, essa utopia envolveria:

(i)      a criação de dispositivos métricos detalhados e evolutivos de acompanhamento e contagem (uma estatística) de demissões e contratações ligadas às Inteligências artificiais no âmbito de coletivos locais, com capilaridade suficiente para detalhar a situação no mercado de trabalho indo pelo menos ao nível municipal;

(ii)      o engajamento de coletivos comunitários, sejam sindicatos, partidos políticos, grupos profissionais, empregados de uma empresa, redes sociais etc. interessadas em negociações que evolutivamente lutem por estabelecer uma regulamentação visando pôr em prática um fluxo equilibrado de demissões (trabalhos assumidos pelas IAs) e admissões (novos trabalhos para humanos) medidos por (i) em determinada região, estado ou município;

(iii)     a criação e implantação pelo Estado de um arcabouço legal que estabeleça as condições para que estas negociações entrem em cena com a força dos dispositivos legais.

A rede desses elementos entrelaçados definiria propriamente o escopo de uma contabilidade, uma métrica, uma medida para avaliar materialmente o custo e em decorrência o “ganho de eficiência” (“produção” / “custo”) trazido pelas Inteligências artificiais.

Para ser bem-sucedido, uma transformação do tipo sugerido acima na maneira de construir políticas públicas teria que ganhar escala numa formação “de baixo para cima”, com a participação e condução daqueles que são vítimas da violência e encarnam o sofrimento envolvido nas disrupções trazidas pelas Inteligências artificiais. Para quem tem seu trabalho rotineiro substituído pelas Inteligências artificiais, o desaparecimento do trabalho humano nos call centers e escritórios acontecer ao longo de dez, de cinco ou de um ano faz bastante diferença.

Impossível! Já ouço o descarte da proposta de recepção das Inteligências artificiais esboçada acima pelos estamentos que governam o Brasil, alegando desde “ingenuidade” a “radicalismo utópico”, não obstante a crescente admiração pelas realizações chinesas tão aparentes nas últimas décadas.

<><> Da mão invisível para as mãos visíveis

Como ponto de partida sine qua non é preciso reconhecer que o grau de violência e sofrimento pode ser ao menos em parte controlado mediante regulamentação. A ignição daquele “de baixo para cima” pode contar com o engajamento de coletivos mediadores nos diversos âmbitos sociotécnicos pelos brasis afora.

São muitos os exemplos de grupos mediadores do sofrimento, formados em associações formais ou informais de mulheres e homens das diversas ocupações e classes sociais. Em torno da questão de como resistir ao catastrófico lembremos que o engajamento em um coletivo mediador faz com que seus participantes se destaquem como praticantes que participam da formulação de problemas e não só como analistas ou usuários.

Em seu livro Em meio ao catastrófico: resistindo à barbárie que se aproxima, a filósofa belga Isabelle Stengers descreveu a capacidade de “pensar e agir em conjunto” como a possibilidade de uma “inteligência coletiva” incorporada em “grupos que reivindicam a capacidade de intervir, de complicar as coisas, de se intrometer naquilo que – tanto do ponto de vista do Estado quanto do empresariado – não lhes diz respeito”. (STENGERS, 2015:77).

Um dos enormes desafios para o nosso país diante das Inteligências artificiais é se preparar a tempo criando dispositivos métricos próprios para discutir ampla e democraticamente este “ganho de eficiência” e intervir escapando da força desenfreada do mercado que, grosso modo, foi no Ocidente elevada à categoria cognitiva de força natural.

Lutemos para que nossos coletivos de pensamento tenham a perspectiva de intervenção e vivam a tensão envolvida na escolha das formas de intervir. Com as Inteligências artificiais, caso a caso, quem ganha e quem perde, onde, quando e o quê? E com quais Inteligências artificiais?

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda

 

Nenhum comentário: