Ricardo
Queiroz Pinheiro: O ruído diário
Há dias
em que acompanhar a política exige fôlego. A sensação aparece no meio do
cotidiano, entre leituras interrompidas, telas abertas, acontecimentos que se
acumulam. Um incômodo leve, persistente, difícil de localizar. O corpo sente
antes de qualquer formulação. Algo no ritmo do tempo pesa, aperta, tira o ar.
Não vejo como uma crise individual, tampouco de desinteresse. É um sintoma de
um mundo acelerado. Uma experiência compartilhada, ligada à forma como os
acontecimentos políticos passam a se apresentar e a ocupar o dia.
Assim,
a aceleração técnica organiza esse tempo. As notícias chegam misturadas a
mensagens, vídeos, notificações, comentários, conflitos virtuais que atravessam
as horas em pequenas pancadas. O telefone vibra sobre a mesa, a tela se acende,
o acontecimento aparece já acompanhado de reação e solução posterior. A
política deixa de ter começo, meio e consequência; passa a circular como
presença contínua, quase como um cheiro no ambiente. Não se entra mais nela:
vive-se dentro dela.
contexto
e coragem jornalística.
Foi
conveniente, semana passada, a memória de uma leitura antiga. Em “Velocidade e
Política”, livro de 1977, o filósofo Paul Virilio trata a velocidade como algo
que reorganiza a própria experiência, comprimindo a duração e afetando a forma
como o mundo chega até nós.
Li esse
livro em outro tempo, desconfiado das amálgamas de Virilio, quando as ideias
ainda entravam devagar, quando a leitura era o precioso silêncio, quando o
corpo não vivia em estado permanente de alerta. Sem romantismo com um passado
lindo que nunca existiu. Há uma ironia delicada nisso. Aquela leitura, feita
com calma, descrevia com precisão um regime que hoje pesa sobre o nosso
cotidiano. A lembrança me faz parar para ler de novo.
O que
então parecia diagnóstico distante retornou agora como sensação corporal. O
corpo reconhece antes do entendimento o encurtamento do tempo, a pressão
constante, a dificuldade de respirar dentro do fluxo. A leitura reaparece menos
como referência intelectual, mais como memória viva ativa, algo que se confirma
na experiência diária. A aceleração deixa de ser o conceito e passa a ser
experiência.
Jogando
a bola no chão, esse regime torna-se visível em episódios recentes da política
brasileira. A cobertura cotidiana em torno da prisão de Jair Bolsonaro é um
exemplo. Organizada como uma novela diária, empurrada por pequenos detalhes:
despachos parciais, versões jurídicas, bastidores, reações, comentários que se
acumulam e se substituem. Cada fragmento desloca o anterior antes que qualquer
compreensão se estabilize. O desejo que o próximo microacontecimento confirme o
que desejamos.
A
figura política permanece intensamente presente, mesmo associada à ideia de
afastamento institucional. O tempo da política segue ocupado. A atenção
permanece solicitada. O ritmo acelera. A experiência política assume forma
seriada, episódica, sustentada por uma sucessão de atualizações que mantêm o
acompanhamento constante e dificultam o entendimento mais amplo, o presente
condensa o passado e comprime a ideia de futuro.
Algo
semelhante ocorre na repercussão de denúncias envolvendo o sistema financeiro e
decisões do Supremo Tribunal Federal, como no caso do Banco Master. A gravidade
do tema convive com sua difusão excessiva. Informações circulam em versões
abreviadas, comentários rápidos, nomes em profusão, resumos apressados,
atravessando o cotidiano junto a inúmeros outros assuntos.
A
repetição contínua transforma a denúncia em pano de fundo. O excesso produz
desgaste. O tempo curto da circulação impede que a gravidade se converta em
compreensão durável. O que exigiria elaboração passa a integrar o ruído diário,
naturalizado pela saturação.
Esses
episódios, tomados em conjunto, revelam uma mesma forma de experiência
política. A velocidade encurta a duração dos acontecimentos, enquanto o excesso
ocupa todo o campo da atenção. O tempo deixa de funcionar como espaço de
sedimentação e passa a operar como superfície móvel, constantemente
rearranjada. A política chega em fragmentos, reaparece em séries, espalha-se
por detalhes que pedem acompanhamento contínuo.
É aqui
que o diagnóstico de Mark Fisher ganha espessura. O capitalismo tardio aparece
como um regime que ocupa o horizonte da experiência, moldando ritmos,
expectativas e formas de atenção. O tempo apresenta-se permanentemente
preenchido. Pouco espaço para pausa, retorno, elaboração. A política circula
nesse ambiente atravessada por cansaço, saturação e dificuldade de projeção.
Nesse
ambiente, a angústia instala-se como experiência difusa. Um cansaço que não se
resolve com desligamento, uma irritação leve que acompanha o acompanhamento
cotidiano da política. O corpo reage antes da compreensão, acompanha antes de
organizar, sente antes de julgar. Pensar exige esforço adicional, quase um
trabalho de escavação em meio ao fluxo.
Essa
angústia interfere na possibilidade de construir racionalidades políticas,
tanto pela recusa da reflexão, como pela dificuldade prática de sustentá-la no
tempo. O juízo passa a se formar entre interrupções, fragmentos e retomadas
incompletas. O pensamento encontra pouco espaço para se depositar. O presente
avança sempre um pouco mais rápido do que a capacidade de compreendê-lo.
Volto,
então, ao ponto de partida. A falta de ar reaparece como sinal discreto desse
descompasso entre o ritmo imposto aos acontecimentos e o tempo necessário ao
pensamento. Um índice sensível de como a política passou a ser vivida sob
pressão contínua, saturação informacional e urgência permanente. Nomear essa
experiência não a dissolve. Mas talvez permita reconhecê-la como parte do
problema – e, com sorte, abrir algum espaço para que o pensamento volte a
respirar dentro do fluxo.
Aqui
paro e retorno às referências. Paul Virilio ajuda a perceber como a velocidade
comprime a duração e empurra o corpo para um estado constante de alerta; em
Mark Fisher, esse tempo aparece ocupado, sem intervalo, sempre cheio. A
política circula assim: presente demais, tempo de menos; os acontecimentos
passam, se acumulam, se substituem, sem repouso. Parar um pouco e ouvir a
dúvida pode ser uma solução. A dúvida não resolve nada, mas atrapalha a
engrenagem. E, às vezes, é aí que alguma coisa pode vicejar.
• O jogo de Kassab e a disputa na direita.
Por Igor Felippe Santos
A
filiação do presidenciável e governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD de
Gilberto Kassab surpreendeu e colocou uma pulga atrás da orelha de quem
acompanha o cenário político e eleitoral.
O PSD
passou a reunir nas suas fileiras três governadores de estados importantes, que
já apresentaram seus nomes para disputar a eleição presidencial deste ano:
Ratinho Júnior, do Paraná, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul e, agora,
Caiado.
O que
está por trás dessa movimentação de Kassab?
Tarcísio
de Freitas (Republicanos-SP), governador de São Paulo e considerado o nome mais
forte para o pleito, frustrou a expectativa de ser o candidato de unidade da
direita à Presidência com apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O
lançamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado pelo pai, diminuiu as
margens para qualquer candidatura fora da polarização entre esquerda e
extrema-direita.
Nas
últimas pesquisas realizadas, o presidente Lula lidera na faixa de 35%,
enquanto Flávio se consolidou em segundo lugar com mais de 20%.
O
levantamento Genial/Quaest, divulgado em 14 de janeiro, testou um cenário com
Flávio e Tarcísio. Lula ficou em primeiro lugar com 36%, enquanto Flávio teve
23% e Tarcísio somente 9%.
A
pesquisa sinaliza que qualquer nome fora da área de gravitação de Bolsonaro no
campo da direita terá muita dificuldade para se consolidar e passar para o 2º
turno.
Assim,
o problema para a direita não-bolsonarista não é simplesmente encontrar o
melhor nome para a disputa. Na prática, essa é uma questão secundária.
O
desafio central é abrir uma fresta entre as duas candidaturas com maior apelo
na sociedade e demonstrar a viabilidade de um terceiro campo político disputar
a presidência.
A
insegurança em relação à capacidade desse campo político levou Tarcísio a
abdicar da disputa presidencial, mesmo sendo o preferido dos partidos da
direita não-bolsonarista, da mídia empresarial e do grande capital.
Foi por
esse mesmo motivo que Caiado, preterido pelo União Brasil, se filiou ao PSD e
entrou no barco de Kassab junto com Ratinho e Leite.
O que
está em jogo nessa movimentação não é somente a eleição deste ano, mas a
disputa pela hegemonia no campo da direita.
Bolsonaro
se impôs na direita ao vencer a eleição de 2018 e se consolidou como a
principal liderança política, depois de 24 anos da polarização entre PT e PSDB.
A
direita com o discurso de compromisso com a democracia e de “modernização” do
Estado, que emergiu com o fim da ditadura militar e se organizou em torno dos
tucanos, se esfacelou.
Uma
parte foi para o extrema-direita e a outra aderiu ao projeto Lula em 2022. Uma
terceira parte caiu no fisiologismo político. Perdeu a perspectiva de poder.
A
aposentadoria de Lula das urnas depois da sua última eleição e a prisão de Jair
Bolsonaro colocam a necessidade desse campo se reorganizar e se consolidar para
fazer a disputa do governo federal.
Um
eventual segundo turno do presidente Lula contra Flávio Bolsonaro vai desenhar
o cenário dos próximos anos e dar sobrevida à extrema-direita.
Por
isso, esse jogo começa agora e a direita não-bolsonarista precisa ter um bom
desempenho nesta eleição.
Assim,
mostrar que tem capacidade de enfrentar a esquerda e disputar com o
bolsonarismo a hegemonia no campo da direita, independente de nomes e partidos.
O
grande capital, inclusive, aposta nessa via para superar a disputa entre os
campos de Lula e Bolsonaro e constituir uma unidade de todas as suas frações em
torno de uma candidatura que expresse seu projeto.
Kassab
maneja a ambição dos governadores e tenta fortalecer seu partido, que precisa
se transformar em um polo político autônomo.
Para
isso, garante que o PSD terá uma candidatura própria, dá liberdade para que
seus pré-candidatos defendam as suas ideias e trabalhem para se viabilizar. No
entanto, mantém interlocução com a esquerda e extrema-direita. Ganha em
qualquer cenário.
Tarcísio,
inclusive, se emancipará de Bolsonaro somente quando se consolidar um novo
campo da direita com força para conduzir a disputa pelo comando do país.
Até lá,
o governador de São Paulo vai permanecer na sombra de Bolsonaro e reforçar a fidelidade para manter o vínculo
com seus eleitores.
Ao
mesmo tempo, assiste à movimentação de Kassab, que terá que mostrar que o
projeto Tarcísio 2030 tem viabilidade para arrastá-lo.
Ratinho,
Leite e Caiado já estavam no mesmo barco das lideranças de direita sem espaço
para disputar o Palácio do Planalto à revelia do bolsonarismo.
Agora,
juntos no partido de Kassab, têm o desafio comum de desobstruir o caminho, que
passa por suplantar a família Bolsonaro e reorganizar o tabuleiro político
nacional.
Fonte:
Opera Mundi

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