Miguel
Borba de Sá: Verborragia esquerdista e inocuidade política no Brasil do ‘Sem
Anistia’
Em
abril de 1920, um apressado Lênin supervisionava o trabalho tipográfico de seu
mais recente manuscrito. O líder bolchevique ansiava por vê-lo publicado antes
do II Congresso da Internacional Comunista, em julho daquele ano. Tratava-se de
um alerta contra as tendências ditas “esquerdistas” em diversos países europeus
no pós 1ª guerra e que traziam riscos permanentes ao movimento revolucionário
em qualquer tempo ou lugar devido à sua postura “infantil”. Etarismos à parte,
não é preciso tomar os ensinamentos de Lênin dogmaticamente (como fazem alguns
e fizeram muitos) para perceber a importância atemporal de suas reflexões.
A
“doença” que Lênin diagnosticava mediante sua metáfora medicalizante é, sem
dúvida, política: um desvio, ou anomalia, frente ao que seria uma saudável
práxis revolucionária. Sua análise abre espaço para indagações sobre as causas,
sociais ou psíquicas, desta enfermidade. Mas, de todo modo, a lição central
parece pertinente até os dias de hoje: aqueles que se crêem “terrivelmente
revolucionários” (p.133) podem desempenhar, inadvertidamente, tarefas
terrivelmente reacionárias na prática por conta da falta de maturidade política
para avaliar os fatos e traçar estratégias com realismo e responsabilidade.
Diz-nos Lênin:
“A
infantilidade de ‘negar’ a participação no parlamentarismo consiste,
exatamente, em que com esse método tão ‘simples’, ‘fácil’ e
pseudo-revolucionário querem ‘resolver’ a difícil tarefa de lutar contra as
influências democrático-burguesas no seio do movimento operário e, na
realidade, a única coisa que fazem é fugir de sua própria sombra, fechar os
olhos diante das dificuldades e desembaraçar-se delas apenas com palavras.” (p.
132 – grifos no original).
Ora,
esta atitude tem sido repetida entre nós justamente no momento em que mais
precisamos de táticas e estratégias consistentes, tanto a curto, como a médio e
longo prazos. Talvez a atual era das “redes sociais” tenha agravado o problema.
Mas, como já sabia Lênin, estamos sempre diante da tentação de fugir das
questões mais difíceis e das tarefas impostas pela realidade mediante algum
escapismo retórico aparentemente radical. No Brasil, a história política
recente nos ajuda a refletir sobre o assunto.
Quem
não se lembra dos gritos de “Fora Todos!” durante as Jornadas de Junho de 2013?
Qual foi o resultado? Bem, sabemos que nem todos se foram; somente Dilma e seu
governo, ao fim e ao cabo. E, pior, também sabemos que não foi apenas Michel
Temer, mas foram muitos outros que chegaram a partir daquele momento, pois o
“Fora Todos!” coincidiu com a entrada em cena da extrema-direita brasileira. A
lição que ficou foi uma só: sempre sobram alguns. E, neste caso, quem sobrou
mesmo foi o clã Bolsonaro, que emergiu como nova liderança hegemônica para as
direitas brasileiras depois daquele “Fora Todos!”, ao lado de uma infinidade de
outras figuras políticas a ele subordinadas que, mal ou bem, perduram até hoje;
sem falar na ideologia medonha por eles difundida, cada vez mais incrustada no
senso-comum nacional.
É óbvio
que não se trata do único fator que explica a emergência do chamado
bolsonarismo na cena política tupiniquim. No entanto, é impossível negar que a
retórica despolitizante embutida num slogan como o “Fora Todos!” (que
invisibiliza as clivagens políticas e sociais existentes) se acomoda
perfeitamente aos diferentes discursos direitistas que buscam sempre hostilizar
a atividade política em si, como se todos os políticos fossem “farinha do mesmo
saco”. Não surpreende, portanto, que naquela altura alguns militantes do MBL
voluntariamente distribuíssem panfletos do PSTU em plena Avenida Paulista
durante um pronunciamento de Dilma Rousseff em 18 de Junho de 2013. Também
explica como a (falsa) imagem de figuras como Jair Bolsonaro, Trump ou Javier
Milei, vendidos como outsiders da política, possa ganhar tanto apelo. A aversão
à política embutida no “Fora Todos!” abre forçosamente as portas para algum
salvador da pátria que afirma vir de fora da política, seja proveniente do
empresariado, da academia, das Forças Armadas… ou até de programas de
televisão.
Durante
a pandemia, esta postura anti-leninista atingiu o seu paroxismo. Além do
vigilantismo quase hobessiano (forçosamente cínico, admitamos) que botou todos
contra todos, ficamos paulatinamente mais histriônicos na retórica ao passo que
cada vez mais débeis na prática. O conforto emocional momentâneo produzido pela
escolha de um bode expiatório chamado Bolsonaro produziu, mediante o crescente
poder dos influenciadores digitais, as palavras de ordem que guiam a esquerda
brasileira desde então. Xingá-lo de forma homofóbica (“vai tomar no…”) ou
chamá-lo de “genocida”, mesmo diante de todas as evidências em contrário,
passaram a ser as únicas ações políticas que ousávamos fazer. Mas, na verdade,
são não-ações. Foi absolutamente desconcertante apreciar a rebelião
anti-racista nos EUA, no seguimento do assassinato de Georgle Floyd, enquanto
nós aqui insistíamos em nos limitar a vigiar quem descumprisse o “Fica Em
Casa!” – que também pareceu um lema progressista aos ouvidos de muitos, apesar
de sua conotação evidentemente elitista, racista e sexista: muita gente não tem
casa segura para se isolar; não pode deixar de sair para trabalhar diariamente;
ou sofre violência doméstica dentro do próprio lar. Mas e daí, né? Seguimos em
frente nos achando super radicais.
Hoje, a
palavra de ordem supostamente radical é, obviamente, “Sem Anistia”. Estampado
em camisetas, janelas, adesivos em roupas e postagens na internet, além de
sempre entoada em concertos musicais, formaturas e nas poucas manifestações de
rua que a esquerda tem conseguido fazer, este lema tornou-se amplamente
hegemônico dentre quem não se considera “fascista”. Sedentos por um escapismo
emotivo, seguimos no delírio coletivo que nos faz crer que esta linha política
esteja correta ou, pior, que ela baste diante da enormidade de desafios que
temos pela frente. Ao que parece, o “Sem Anistia” serve, sobretudo, para nos
manter satisfeitos conosco mesmos e inertes frente às lutas que precisamos
travar. Até acordos de livre-comércio têm sido comemorados como vitórias do
“nosso” governo… Na falta de um projeto político próprio, ficamos fugindo de
nossa própria sombra para não ter de encarar a dura realidade em que a esquerda
brasileira está metida: sem rumo, sem quadros dirigentes qualificados, sem
política de massas, sem firmeza ideológica e, sobretudo, sem vergonha na cara
para sair da negação e ir, de fato, à luta por pautas que somente uma esquerda
verdadeiramente radicalizada poderá defender. E, vale acrescentar, seguimos sem
perceber que quando aparentemente nos mobilizamos, fazê-mo-lo justamente por
pautas explicitamente burguesas e distracionistas, como a famigerada PEC da
Blindagem (e que somente atingem um número expressivo de manifestantes por
terem sido convocadas pela grande imprensa que, não surpreendentemente, tem
sempre o cuidado de instruir os “esquerdistas” presentes a vestirem-se de verde
e amarelo).
Assim,
é urgente retomar as reflexões de Lênin para vencermos “a difícil tarefa” de
lutar contra as influências burguesas em nosso movimento, parando urgentemente
de fechar os olhos diante das dificuldades e achando que é possível
“desembaraçar-se delas apenas com palavras”.
O clamor da extrema-direita por anistia para os golpistas do 8 de
Janeiro e, principalmente, para os tontos iludidos pela ideologia bolsonarista
(como a tal cabeleireira Débora, aquela do batom na estátua) abriram um espaço
político ímpar, que logo desperdiçamos sem sequer refletirmos por um instante.
Em vez do punitivismo tosco do “Sem Anistia”, poderíamos ter negociado uma mega
operação de ampla anistia e desencarceramento em massa para as centenas de
milhares de brasileiros, na maioria negros e pobres, que se encontram em
privação de liberdade por crimes de baixo teor ofensivo ou que até já cumpriram
penas e ainda estão esquecidos em alguma prisão de condições desumanas. Em vez
de zombar da prisão de Bolsonaro mostrando os tornozelos livres em pleno
Congresso Nacional (como feito por uma deputada do PSOL), poderíamos ter mais
respeito pelas vítimas deste Estado Policial, exigindo uma sociedade livre dos
abusos de um sistema criminal que carrega, este sim, contornos explicitamente
fascistas (nosso Código Penal data de 1940). Acreditar que ele estará ao lados
dos trabalhadores em luta, ou que podemos eleger um herói dentre este ou aquele
ministro togado, é um engano que já começa a cobrar seu preço. E será cada vez
mais caro.
Infelizmente,
Bolsonaro é uma figura política de grande relevância no país hoje, talvez
apenas atrás de Lula em termos de liderança, base social e poder. Como tal, ele
precisa ser derrotado politicamente – nas urnas e nas ruas – sendo impossível
(e imprudente) terceirizar esta tarefa para o Judiciário, especialmente quando
todos os candidatos da direita já anunciaram que lhe concederão indulto
presidencial no dia da posse, caso eleitos. E nada garante que Lula será
reeleito… Aliás, como esquecer que Lula, que estava politicamente enfraquecido
pela Operação Lava-Jato, recuperou seu capital político justamente quando
suportou uma injusta prisão. Já paramos para pensar que o “Sem Anistia” pode
ser, na verdade, um favor que estamos fazendo a Bolsonaro, mantendo-o vivo
politicamente, vitimizado e humanizado pelo sofrimento? O próprio Bolsonaro
parece ter se apercebido disso e forçou a antecipação de sua prisão ao
danificar a tornozeleira eletrônica de forma explícita. Não adianta prender um
corpo para vencer uma luta política, pois é impossível manter uma ideologia
encarcerada. A prisão e o martírio podem acabar transformando, definitivamente,
o capitão em mito.
Como
bem sabem os grandes mestres, o “pensamento demonológico” é uma “patologia da
política”. O nada esquerdista Hans Morgenthau já insistia que “as
interpretações demonológicas (…) substituem a realidade dos fatos por uma
outra, fictícia, povoada por pessoas malvadas”, ou pior, por apenas um só
vilão, como Bolsonaro, Maduro ou Kadafi, cuja eliminação individual nos trará
de volta a graça perdida. A direita pensava o mesmo em relação a Lula. Esta
“irracionalidade” tende a “recusar-se a tomar conhecimento de uma realidade
ameaçadora e a reagir de modo efetivo a ela” (Morgenthau, 2003, p. 11-15). E,
por isto, precisamos urgentemente assumir a responsabilidade que o momento
histórico nos obriga e por a mão na massa do trabalho organizativo, que só pode
prosperar se nossas ideias e ideais estiverem novamente organizados em nossas
cabeças e corações. Até lá, é provável que sigamos dando tiros retóricos nos
próprios pés enquanto fugimos de nossa própria sombra.
• A pobreza do tempo e a exclusão das
mulheres da vida política na América Latina. Por Vanda Pignato
A
pobreza do tempo é uma das formas mais invisibilizadas — e, ao mesmo tempo,
mais estruturais — de desigualdade que afetam as mulheres no Brasil e na
América Latina. Ela se manifesta na sobrecarga cotidiana de trabalho doméstico,
de cuidado e de responsabilidades familiares que recaem majoritariamente sobre
as mulheres, limitando de maneira concreta seu acesso a direitos, oportunidades
e espaços de participação política e social.
Embora
as mulheres tenham ampliado sua presença no mercado de trabalho, essa inserção
não foi acompanhada por uma redistribuição justa do trabalho de cuidado. Ao
contrário, a maior parte das tarefas domésticas e do cuidado com crianças,
pessoas idosas, doentes ou com deficiência continua sendo realizada por elas,
de forma não remunerada e socialmente desvalorizada. Essa desigualdade produz
uma escassez crônica de tempo, que compromete a autonomia das mulheres e
restringe sua capacidade de participar da vida pública.
A
pobreza do tempo incide diretamente sobre a participação política das mulheres
e sua presença nos espaços de decisão. A militância, a atuação em partidos,
sindicatos, movimentos sociais, conselhos e instâncias de controle social
exigem tempo disponível, previsibilidade e condições materiais mínimas —
recursos que muitas mulheres simplesmente não possuem. Reuniões em horários
incompatíveis com as responsabilidades de cuidado, deslocamentos longos,
ausência de apoio institucional e a naturalização da sobrecarga feminina
funcionam como barreiras invisíveis que afastam mulheres da política.
Esse
problema não está restrito a espaços conservadores. Mesmo partidos e
organizações que se afirmam comprometidos com a justiça social seguem, muitas
vezes, organizando suas práticas, agendas e métodos de funcionamento sem
considerar o impacto da divisão sexual do trabalho sobre a participação das
mulheres. Reuniões longas, horários noturnos e a exigência de presença
permanente reproduzem exclusões históricas. Enfrentar essa realidade exige mais
do que discursos: requer transformar práticas, redefinir prioridades e
reorganizar tempos, metodologias e estruturas de participação, incorporando o
cuidado como uma dimensão central da democracia.
Na
América Latina, onde desigualdades sociais, raciais e territoriais se
sobrepõem, a pobreza do tempo incide com maior intensidade sobre mulheres
negras, indígenas, camponesas, moradoras das periferias urbanas e mulheres
migrantes. Os fluxos migratórios forçados — impulsionados pela pobreza, pela
violência, pela instabilidade política e pelas mudanças climáticas — afetam de
forma desproporcional as mulheres, que frequentemente assumem sozinhas a
responsabilidade pelo cuidado de crianças, idosos e familiares dependentes, em
contextos de informalidade, precariedade e ausência de redes de apoio. Para
essas mulheres, a exclusão dos espaços de decisão não decorre da falta de
interesse ou consciência política, mas de condições materiais profundamente
desiguais que restringem seu tempo, sua autonomia e suas possibilidades reais
de participação.
Enfrentar
a pobreza do tempo como um problema político é indispensável para fortalecer a
democracia. Isso implica reconhecer o cuidado como trabalho socialmente
necessário e promover políticas públicas que redistribuam responsabilidades
entre Estado, mercado e famílias. A luta contra a pobreza não pode ser neutra
em termos de gênero: ela precisa ser diferenciada, reconhecendo que mulheres
vivem a pobreza de forma mais intensa, acumulando jornadas, responsabilidades e
privações de tempo.
Nesse
sentido, o Brasil, sob a liderança do presidente Lula, tem a oportunidade de
inovar e aprofundar sua agenda social, incorporando de forma mais explícita a
dimensão do tempo e do cuidado nas políticas de combate à pobreza e de
fortalecimento da participação das mulheres. Integrar essa perspectiva
significa avançar não apenas na redução das desigualdades sociais, mas também
na democratização efetiva do poder.
Não
haverá democracia plena enquanto a política seguir estruturada a partir de
tempos, lógicas e práticas que excluem as mulheres. Enfrentar a pobreza do
tempo não é uma pauta acessória nem setorial: é uma condição para ampliar a
participação política, fortalecer os espaços progressistas e construir projetos
de transformação social verdadeiramente inclusivos no Brasil e na América
Latina.
Fonte:
Opera Mundi

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