quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Miguel Borba de Sá: Verborragia esquerdista e inocuidade política no Brasil do ‘Sem Anistia’

Em abril de 1920, um apressado Lênin supervisionava o trabalho tipográfico de seu mais recente manuscrito. O líder bolchevique ansiava por vê-lo publicado antes do II Congresso da Internacional Comunista, em julho daquele ano. Tratava-se de um alerta contra as tendências ditas “esquerdistas” em diversos países europeus no pós 1ª guerra e que traziam riscos permanentes ao movimento revolucionário em qualquer tempo ou lugar devido à sua postura “infantil”. Etarismos à parte, não é preciso tomar os ensinamentos de Lênin dogmaticamente (como fazem alguns e fizeram muitos) para perceber a importância atemporal de suas reflexões.

A “doença” que Lênin diagnosticava mediante sua metáfora medicalizante é, sem dúvida, política: um desvio, ou anomalia, frente ao que seria uma saudável práxis revolucionária. Sua análise abre espaço para indagações sobre as causas, sociais ou psíquicas, desta enfermidade. Mas, de todo modo, a lição central parece pertinente até os dias de hoje: aqueles que se crêem “terrivelmente revolucionários” (p.133) podem desempenhar, inadvertidamente, tarefas terrivelmente reacionárias na prática por conta da falta de maturidade política para avaliar os fatos e traçar estratégias com realismo e responsabilidade. Diz-nos Lênin:

“A infantilidade de ‘negar’ a participação no parlamentarismo consiste, exatamente, em que com esse método tão ‘simples’, ‘fácil’ e pseudo-revolucionário querem ‘resolver’ a difícil tarefa de lutar contra as influências democrático-burguesas no seio do movimento operário e, na realidade, a única coisa que fazem é fugir de sua própria sombra, fechar os olhos diante das dificuldades e desembaraçar-se delas apenas com palavras.” (p. 132 – grifos no original).

Ora, esta atitude tem sido repetida entre nós justamente no momento em que mais precisamos de táticas e estratégias consistentes, tanto a curto, como a médio e longo prazos. Talvez a atual era das “redes sociais” tenha agravado o problema. Mas, como já sabia Lênin, estamos sempre diante da tentação de fugir das questões mais difíceis e das tarefas impostas pela realidade mediante algum escapismo retórico aparentemente radical. No Brasil, a história política recente nos ajuda a refletir sobre o assunto.

Quem não se lembra dos gritos de “Fora Todos!” durante as Jornadas de Junho de 2013? Qual foi o resultado? Bem, sabemos que nem todos se foram; somente Dilma e seu governo, ao fim e ao cabo. E, pior, também sabemos que não foi apenas Michel Temer, mas foram muitos outros que chegaram a partir daquele momento, pois o “Fora Todos!” coincidiu com a entrada em cena da extrema-direita brasileira. A lição que ficou foi uma só: sempre sobram alguns. E, neste caso, quem sobrou mesmo foi o clã Bolsonaro, que emergiu como nova liderança hegemônica para as direitas brasileiras depois daquele “Fora Todos!”, ao lado de uma infinidade de outras figuras políticas a ele subordinadas que, mal ou bem, perduram até hoje; sem falar na ideologia medonha por eles difundida, cada vez mais incrustada no senso-comum nacional.

É óbvio que não se trata do único fator que explica a emergência do chamado bolsonarismo na cena política tupiniquim. No entanto, é impossível negar que a retórica despolitizante embutida num slogan como o “Fora Todos!” (que invisibiliza as clivagens políticas e sociais existentes) se acomoda perfeitamente aos diferentes discursos direitistas que buscam sempre hostilizar a atividade política em si, como se todos os políticos fossem “farinha do mesmo saco”. Não surpreende, portanto, que naquela altura alguns militantes do MBL voluntariamente distribuíssem panfletos do PSTU em plena Avenida Paulista durante um pronunciamento de Dilma Rousseff em 18 de Junho de 2013. Também explica como a (falsa) imagem de figuras como Jair Bolsonaro, Trump ou Javier Milei, vendidos como outsiders da política, possa ganhar tanto apelo. A aversão à política embutida no “Fora Todos!” abre forçosamente as portas para algum salvador da pátria que afirma vir de fora da política, seja proveniente do empresariado, da academia, das Forças Armadas… ou até de programas de televisão.

Durante a pandemia, esta postura anti-leninista atingiu o seu paroxismo. Além do vigilantismo quase hobessiano (forçosamente cínico, admitamos) que botou todos contra todos, ficamos paulatinamente mais histriônicos na retórica ao passo que cada vez mais débeis na prática. O conforto emocional momentâneo produzido pela escolha de um bode expiatório chamado Bolsonaro produziu, mediante o crescente poder dos influenciadores digitais, as palavras de ordem que guiam a esquerda brasileira desde então. Xingá-lo de forma homofóbica (“vai tomar no…”) ou chamá-lo de “genocida”, mesmo diante de todas as evidências em contrário, passaram a ser as únicas ações políticas que ousávamos fazer. Mas, na verdade, são não-ações. Foi absolutamente desconcertante apreciar a rebelião anti-racista nos EUA, no seguimento do assassinato de Georgle Floyd, enquanto nós aqui insistíamos em nos limitar a vigiar quem descumprisse o “Fica Em Casa!” – que também pareceu um lema progressista aos ouvidos de muitos, apesar de sua conotação evidentemente elitista, racista e sexista: muita gente não tem casa segura para se isolar; não pode deixar de sair para trabalhar diariamente; ou sofre violência doméstica dentro do próprio lar. Mas e daí, né? Seguimos em frente nos achando super radicais.

Hoje, a palavra de ordem supostamente radical é, obviamente, “Sem Anistia”. Estampado em camisetas, janelas, adesivos em roupas e postagens na internet, além de sempre entoada em concertos musicais, formaturas e nas poucas manifestações de rua que a esquerda tem conseguido fazer, este lema tornou-se amplamente hegemônico dentre quem não se considera “fascista”. Sedentos por um escapismo emotivo, seguimos no delírio coletivo que nos faz crer que esta linha política esteja correta ou, pior, que ela baste diante da enormidade de desafios que temos pela frente. Ao que parece, o “Sem Anistia” serve, sobretudo, para nos manter satisfeitos conosco mesmos e inertes frente às lutas que precisamos travar. Até acordos de livre-comércio têm sido comemorados como vitórias do “nosso” governo… Na falta de um projeto político próprio, ficamos fugindo de nossa própria sombra para não ter de encarar a dura realidade em que a esquerda brasileira está metida: sem rumo, sem quadros dirigentes qualificados, sem política de massas, sem firmeza ideológica e, sobretudo, sem vergonha na cara para sair da negação e ir, de fato, à luta por pautas que somente uma esquerda verdadeiramente radicalizada poderá defender. E, vale acrescentar, seguimos sem perceber que quando aparentemente nos mobilizamos, fazê-mo-lo justamente por pautas explicitamente burguesas e distracionistas, como a famigerada PEC da Blindagem (e que somente atingem um número expressivo de manifestantes por terem sido convocadas pela grande imprensa que, não surpreendentemente, tem sempre o cuidado de instruir os “esquerdistas” presentes a vestirem-se de verde e amarelo).

Assim, é urgente retomar as reflexões de Lênin para vencermos “a difícil tarefa” de lutar contra as influências burguesas em nosso movimento, parando urgentemente de fechar os olhos diante das dificuldades e achando que é possível “desembaraçar-se delas apenas com palavras”.  O clamor da extrema-direita por anistia para os golpistas do 8 de Janeiro e, principalmente, para os tontos iludidos pela ideologia bolsonarista (como a tal cabeleireira Débora, aquela do batom na estátua) abriram um espaço político ímpar, que logo desperdiçamos sem sequer refletirmos por um instante. Em vez do punitivismo tosco do “Sem Anistia”, poderíamos ter negociado uma mega operação de ampla anistia e desencarceramento em massa para as centenas de milhares de brasileiros, na maioria negros e pobres, que se encontram em privação de liberdade por crimes de baixo teor ofensivo ou que até já cumpriram penas e ainda estão esquecidos em alguma prisão de condições desumanas. Em vez de zombar da prisão de Bolsonaro mostrando os tornozelos livres em pleno Congresso Nacional (como feito por uma deputada do PSOL), poderíamos ter mais respeito pelas vítimas deste Estado Policial, exigindo uma sociedade livre dos abusos de um sistema criminal que carrega, este sim, contornos explicitamente fascistas (nosso Código Penal data de 1940). Acreditar que ele estará ao lados dos trabalhadores em luta, ou que podemos eleger um herói dentre este ou aquele ministro togado, é um engano que já começa a cobrar seu preço. E será cada vez mais caro.

Infelizmente, Bolsonaro é uma figura política de grande relevância no país hoje, talvez apenas atrás de Lula em termos de liderança, base social e poder. Como tal, ele precisa ser derrotado politicamente – nas urnas e nas ruas – sendo impossível (e imprudente) terceirizar esta tarefa para o Judiciário, especialmente quando todos os candidatos da direita já anunciaram que lhe concederão indulto presidencial no dia da posse, caso eleitos. E nada garante que Lula será reeleito… Aliás, como esquecer que Lula, que estava politicamente enfraquecido pela Operação Lava-Jato, recuperou seu capital político justamente quando suportou uma injusta prisão. Já paramos para pensar que o “Sem Anistia” pode ser, na verdade, um favor que estamos fazendo a Bolsonaro, mantendo-o vivo politicamente, vitimizado e humanizado pelo sofrimento? O próprio Bolsonaro parece ter se apercebido disso e forçou a antecipação de sua prisão ao danificar a tornozeleira eletrônica de forma explícita. Não adianta prender um corpo para vencer uma luta política, pois é impossível manter uma ideologia encarcerada. A prisão e o martírio podem acabar transformando, definitivamente, o capitão em mito.

Como bem sabem os grandes mestres, o “pensamento demonológico” é uma “patologia da política”. O nada esquerdista Hans Morgenthau já insistia que “as interpretações demonológicas (…) substituem a realidade dos fatos por uma outra, fictícia, povoada por pessoas malvadas”, ou pior, por apenas um só vilão, como Bolsonaro, Maduro ou Kadafi, cuja eliminação individual nos trará de volta a graça perdida. A direita pensava o mesmo em relação a Lula. Esta “irracionalidade” tende a “recusar-se a tomar conhecimento de uma realidade ameaçadora e a reagir de modo efetivo a ela” (Morgenthau, 2003, p. 11-15). E, por isto, precisamos urgentemente assumir a responsabilidade que o momento histórico nos obriga e por a mão na massa do trabalho organizativo, que só pode prosperar se nossas ideias e ideais estiverem novamente organizados em nossas cabeças e corações. Até lá, é provável que sigamos dando tiros retóricos nos próprios pés enquanto fugimos de nossa própria sombra.

•        A pobreza do tempo e a exclusão das mulheres da vida política na América Latina. Por Vanda Pignato

A pobreza do tempo é uma das formas mais invisibilizadas — e, ao mesmo tempo, mais estruturais — de desigualdade que afetam as mulheres no Brasil e na América Latina. Ela se manifesta na sobrecarga cotidiana de trabalho doméstico, de cuidado e de responsabilidades familiares que recaem majoritariamente sobre as mulheres, limitando de maneira concreta seu acesso a direitos, oportunidades e espaços de participação política e social.

Embora as mulheres tenham ampliado sua presença no mercado de trabalho, essa inserção não foi acompanhada por uma redistribuição justa do trabalho de cuidado. Ao contrário, a maior parte das tarefas domésticas e do cuidado com crianças, pessoas idosas, doentes ou com deficiência continua sendo realizada por elas, de forma não remunerada e socialmente desvalorizada. Essa desigualdade produz uma escassez crônica de tempo, que compromete a autonomia das mulheres e restringe sua capacidade de participar da vida pública.

A pobreza do tempo incide diretamente sobre a participação política das mulheres e sua presença nos espaços de decisão. A militância, a atuação em partidos, sindicatos, movimentos sociais, conselhos e instâncias de controle social exigem tempo disponível, previsibilidade e condições materiais mínimas — recursos que muitas mulheres simplesmente não possuem. Reuniões em horários incompatíveis com as responsabilidades de cuidado, deslocamentos longos, ausência de apoio institucional e a naturalização da sobrecarga feminina funcionam como barreiras invisíveis que afastam mulheres da política.

Esse problema não está restrito a espaços conservadores. Mesmo partidos e organizações que se afirmam comprometidos com a justiça social seguem, muitas vezes, organizando suas práticas, agendas e métodos de funcionamento sem considerar o impacto da divisão sexual do trabalho sobre a participação das mulheres. Reuniões longas, horários noturnos e a exigência de presença permanente reproduzem exclusões históricas. Enfrentar essa realidade exige mais do que discursos: requer transformar práticas, redefinir prioridades e reorganizar tempos, metodologias e estruturas de participação, incorporando o cuidado como uma dimensão central da democracia.

Na América Latina, onde desigualdades sociais, raciais e territoriais se sobrepõem, a pobreza do tempo incide com maior intensidade sobre mulheres negras, indígenas, camponesas, moradoras das periferias urbanas e mulheres migrantes. Os fluxos migratórios forçados — impulsionados pela pobreza, pela violência, pela instabilidade política e pelas mudanças climáticas — afetam de forma desproporcional as mulheres, que frequentemente assumem sozinhas a responsabilidade pelo cuidado de crianças, idosos e familiares dependentes, em contextos de informalidade, precariedade e ausência de redes de apoio. Para essas mulheres, a exclusão dos espaços de decisão não decorre da falta de interesse ou consciência política, mas de condições materiais profundamente desiguais que restringem seu tempo, sua autonomia e suas possibilidades reais de participação.

Enfrentar a pobreza do tempo como um problema político é indispensável para fortalecer a democracia. Isso implica reconhecer o cuidado como trabalho socialmente necessário e promover políticas públicas que redistribuam responsabilidades entre Estado, mercado e famílias. A luta contra a pobreza não pode ser neutra em termos de gênero: ela precisa ser diferenciada, reconhecendo que mulheres vivem a pobreza de forma mais intensa, acumulando jornadas, responsabilidades e privações de tempo.

Nesse sentido, o Brasil, sob a liderança do presidente Lula, tem a oportunidade de inovar e aprofundar sua agenda social, incorporando de forma mais explícita a dimensão do tempo e do cuidado nas políticas de combate à pobreza e de fortalecimento da participação das mulheres. Integrar essa perspectiva significa avançar não apenas na redução das desigualdades sociais, mas também na democratização efetiva do poder.

Não haverá democracia plena enquanto a política seguir estruturada a partir de tempos, lógicas e práticas que excluem as mulheres. Enfrentar a pobreza do tempo não é uma pauta acessória nem setorial: é uma condição para ampliar a participação política, fortalecer os espaços progressistas e construir projetos de transformação social verdadeiramente inclusivos no Brasil e na América Latina.

 

Fonte: Opera Mundi

 

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