quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Os impactos da liquidação do Master no Digimais, banco de Edir Macedo

A liquidação do Master, determinada pelo Banco Central (BC) em novembro de 2025, impacta em outras instituições financeiras. Entre elas, a Digimais, banco do religioso Edir Macedo que já cambaleava assolado por crises e processos judiciais.

A situação do Digimais não é boa há um bom tempo. Relatórios de 2024 e 2025 apontaram alta inadimplência após a pandemia, o que corroeu o patrimônio e exigiu aportes recorrentes para evitar quebra técnica. O dinheiro veio do próprio Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record de Televisão.

Em 2025, o Digimais passou por reestruturações sob supervisão do BC, incluindo negociações de venda devido a desafios operacionais. Ao longo do ano, o investidor Mauricio Quadrado, ex-sócio do Banco Master, chegou a anunciar que tinha fechado a compra com o líder religioso. O negócio, no entanto, não avançou.

Play Video

Outro empresário que manifestou interesse, e cuja proposta foi apresentada ao Banco Central, é Tércio Borlenghi Jr., fundador e controlador da Ambipar. O negócio azedou pouco antes do colapso da multinacional brasileira, que apresentou pedido de recuperação judicial em outubro de 2025.

A Ambipar é alvo de um processo envolvendo o dono do Master, Daniel Vorcaro. A investigação, que tramita na Comissão de Valores Imobiliários (CVM), apura a possível atuação em conjunto de Vorcaro e outros investidores para inflar o patrimônio da Ambipar.

O NuBank também chegou a negociar com Edir Macedo, mas desistiu da transação. Assim, a saída, proposta pelo BC, de venda da instituição naufragou. Desde então, o Digimais vaga como um zumbi pelo sistema financeiro sem condições de se reestruturar sozinho e sem interessados em embarcar no negócio.

O colapso estrondoso do Master e as críticas ao Banco Central ao lidar com a situação do banco de Daniel Vorcaro não ajudam em nada na situação do Digimais. A autarquia tem aumentado as cobranças e acompanhado de perto os bancos médios em situação crítica.

Ainda pesa sobre o Digimais uma batalha judicial com um fundo de investimento devido a falhas em um pacote de mais de 54 mil cédulas de crédito bancário (CCBs) cedidas pelo banco.

A disputa, que chega a cifra de R$ 660 milhões, envolve a qualidade do crédito oferecido, alegando que o Digimais teria repassado carteiras problemáticas, o que gerou necessidade de judicialização para responsabilização do banco. Até parece história repetida.

•        Caso Master: as nuvens estão pesadas para os irmãos de Toffoli. Por Mário Sabino

O caso do Banco Master é de uma gravidade absoluta. Tanto é que, assim como o escândalo Epstein, nos Estados Unidos, há muita gente poderosa querendo abafá-lo, porque implicada até o último CDB com Daniel Vorcaro, o banqueiro das luzes (no cabelo).

A PF, no entanto, não quer largar esse osso duro de roer, pelo bem geral da nação. No fim de semana, aspectos importantes da investigação transpiraram por meio do jornalista Lauro Jardim.

O resort Tayayá, que no papel pertencia aos irmãos de Dias Toffoli, permanece no foco da PF.

O primo do ministro, Mario Umberto Degani, fundador do resort, seria “a chave para se abrir muitas portas dessa história nebulosa”, diz o jornalista.

Não faltam nuvens, e organizo, aqui, a sequência do que Lauro Jardim publicou para o leitor do Metrópoles entender o tamanho da encrenca que se avizinha.

Depois que uma parte sua foi vendida ao cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, curioso misto de pastor e fisiculturista, o Tayayá passou a ter como proprietário — sempre no papel — um advogado da J&F, o conglomerado dos irmãos Batista que teve uma multa judicial de R$ 10,3 bilhões cancelada por Dias Toffoli.

No meio dos rolos de compra e venda do resort, estava uma empresa chamada Maridt, que oficialmente pertence aos irmão de Dias Toffoli.

“A Maridt vendeu em 2025 sua parte no resort Tayayá. Possuía um terço do negócio. Tinha como sócio o pastor Fabiano Zettel. Há uma série de dúvidas que investigações sobre a Maridt podem esclarecer”, escreve Lauro Jardim.

As dúvidas estão longe de ser singelas: a empresa dos Toffoli prestaria consultorias? Teria contratos com escritórios de advocacia dos quais recebia pagamentos mensais?

De acordo com o jornalista, “há suspeitas de que a resposta é sim para ambas a perguntas. A quem exatamente a Maridt transferia diretamente o dinheiro que recebia por esses trabalhos é o que se vai querer saber”.

Outra notícia aponta para uma fonte de pesadelos em Brasília: os cinco celulares de Vorcaro, um deles com “segurança pesada”.

Segundo Lauro Jardim, em um desses celulares “há ao menos uma mensagem do pastor Fabiano Zettel, seu braço direito para transações heterodoxas, pedindo que alguns pagamentos fossem liberados, pois estava sendo cobrado insistentemente por uma autoridade da República”.

Que autoridade seria essa?

“Alguns ministros do STF já foram alertados que o correr das investigações do caso Master vai respingar com força na Corte”, lê-se na coluna do meu ex-colega de revista.

Respingar com força pode ser traduzido como enlamear.

•        Vorcaro deve responder por crime de estelionato

O banqueiro Daniel Vorcaro deve ser enquadrado por estelionato e fraude ao sistema financeiro, de acordo com informações obtidas pela coluna junto a pessoas que acompanham de perto as investigações.

O artigo 171 do Código Penal define o crime como “obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento”.

A instituição financeira foi liquidada pelo Banco Central no dia 18 de novembro do ano passado, “pela grave crise de liquidez e pelo comprometimento significativo da sua situação econômico-financeira, bem como por graves violações às normas que regem a atividade das instituições integrantes do SFN (sistema financeiro nacional)”.

Play Video

As investigações tramitam no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro Dias Toffoli.

A defesa de Vorcaro afirma que a instituição atuou dentro das regras do jogo e foi vítima dos grandes bancos para evitar novos entrantes no mercado.

O mesmo capítulo do Código Penal que trata do estelionato inclui outras fraudes que também podem alcançar o dono do Banco Master.

>>>> São elas:

<><> Estelionato

Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento: Pena – reclusão, de um a cinco anos, e multa.

<><> Fraude com a utilização de ativos virtuais, valores mobiliários ou ativos financeiros

Art. 171-A. Organizar, gerir, ofertar ou distribuir carteiras, ou intermediar operações que envolvam ativos virtuais, valores mobiliários ou quaisquer ativos financeiros com o fim de obter vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento.

Pena: reclusão de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.

<><> Fraudes e abusos na fundação ou administração de sociedade por ações

Art. 177. Promover a fundação de sociedade por ações, fazendo, em prospecto ou em comunicação ao público ou à assembleia, afirmação falsa sobre a constituição da sociedade, ou ocultando fraudulentamente fato a ela relativo.

Pena: reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa, se o fato não constitui crime contra a economia popular.

<><> Emissão irregular de conhecimento de depósito ou “warrant”

Art. 178. Emitir conhecimento de depósito ou warrant em desacordo com disposição legal.

Pena: reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.

•        Galípolo usa caso Master para defender autonomia financeira do BC

O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, disse que a autonomia financeira do BC poderia reforçar a capacidade de supervisão sobre o mercado da instituição. A afirmação foi feita durante comentário sobre o caso do Banco Master, em evento realizado em São Paulo, promovido pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC), sobre o tema estabilidade financeira.

“Temos um aumento no número das instituições que estão sob supervisão do Banco Central e outras que não estão, em meio à redução significativa de pessoas e recursos”, disse Galípolo. “Tenho falado de maneira reiterada sobre a necessidade de dar um salto, fazer um catching up (uma ‘atualização’) no que estamos atrasados, de autonomia financeira e orçamentária.”

O presidente do BC brasileiro observou que vários bancos centrais do mundo discutem como, com a inteligência artificial, migrar da supervisão por amostragem a uma mais ampla e detalhada. “Mas tenho questões de sigilo.”

<><> Passo a passo

Ao longo de sua exposição no evento, Galípolo relatou a sequência de fatos que marcaram a atuação do BC no caso Master, eximindo os diretores do órgão de qualquer responsabilidade ou atraso nas decisões. Esse processo culminou em 18 de novembro de 2025, quando o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial e instaurou o Regime de Administração Especial Temporária (RAET) no Master.

Galípolo observou que um dos problemas identificados em comentários sobre a operação do Master eram as captações de CDBs emitidos com percentual acima da taxa do CDI. “Mas, como se sabe, não há nenhum tipo de regra que vede essas captações a uma taxa como aquela”, disse. “Então, aquilo não configuraria, como muita gente achou que poderia configurar, um objeto para fazer qualquer coisa como liquidar o banco.”

<><> Credibilidade

O presidente do BC disse que, no fim de 2024, a instituição começou a passar por “problemas de credibilidade, de dificuldades de fazer captação em plataforma”. “Isso impõe restrições de liquidez”, afirmou. “Ainda em novembro (de 2024), a diretoria de Fiscalização do BC chama o banco para um termo de comparecimento, dando um cartão amarelo, e dá seis meses, não quatro, para que o banco apresentasse as devidas correções do ponto de vista de liquidez, governança e patrimônio”, mencionou.

Em janeiro, segundo Galípolo, o diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos, que assumiu o cargo em 2023, começa a “levantar dúvidas sobre algumas negociações de carteira”. “O que soou estranho era a formação de novas carteiras, num cenário de problemas de liquidez”, disse. Em fevereiro, um grupo específico foi criado para fazer uma analisar essas mesmas carteiras.

<><> Notícia de fatos

Na sequência, em março, acrescentou Galípolo, esse grupo apresentou uma primeira versão desses estudos para o diretor de fiscalização do BC. “Não foram encontradas evidências que corroborassem a existência da carteira”, afirmou. “Naquele momento, o Ailton (o diretor de Fiscalização) traz para mim justamente esse problema, dizendo que isso justificaria a gente fazer uma notícia de fatos. Naquele momento, chega também a possibilidade de aquisição do Master pelo BRB.”

“A análise demorou, porque a documentação chegava de maneira incompleta. O diretor de Fiscalização deu o cartão amarelo, identificou o que potencialmente possa ser a fraude, notificou o Ministério Público”, disse Galípolo. “Preciso dar o mérito a Renato de Brito Gomes (diretor de Organização do Sistema Financeiro do BC), que foi extremamente diligente na proposta de aquisição.”

A partir de abril, relatou o presidente do BC, ocorre uma coordenação do trabalho com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). “Não há nenhuma carta com valor ou coisas desse tipo”, disse. “O que o FGC passou a fazer foi pagar os CDBs que já teria de pagar no caso de uma liquidação.” Para Galípolo, foi graças ao trabalho coordenado com o FGC que foi possível constituir um processo de rejeição da compra do BRB e também do voto de liquidação.

 

Fonte: Metrópoles

 

Nenhum comentário: