quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Emir Sader: O sigiloso sucessor do capitalismo

Com esse subtítulo, o ex-ministro da economia da Grécia, Yanis Varoufakis, publicou seu principal livro: Tecno feudalismo. Na sua concepção, o capitalismo estaria morto, no sentido de que sua dinâmica já não dirige as economias atuais. Este papel passou a ser desempenhado, na sua concepção, por algo fundamentalmente diferente, que chama de “tecnofeudalismo”.

No centro da sua visão há uma ironia que pode parecer confusa, a de que o que teria matado o capitalismo seria o próprio capital. Não o capitalismo como o compreendemos desde o início da era industrial, mas o que seria uma nova forma de capital, uma mutação surgida nas duas últimas décadas, muito mais poderosa que sua predecessora.

Duas causas são as primordiais:

(i)          a privatização da internet, levada a cabo pelas grandes tecnológicas norte-americanas e chinesas; e

(ii)         a maneira como os governos ocidentais e os bancos centrais responderam à grande crise financeira de 2008.

Seu livro trata do que o capitalismo fez. A mutação do capital que ele chama “capital na nuvem” demoliu os dois pilares do capitalismo; os mercados e os lucros. Ambos continuam onipresentes, mas já exercem o controle de antes.

O que aconteceu nas duas últimas décadas é que o lucro e os mercados teriam sido expulsos do epicentro do sistema econômico e social, foram deslocados para as suas margens e foram substituídos. Os mercados, o meio do capitalismo, foram substituídos, na sua visão, por plataformas de comércio digitais, que parecem mercados, mas que não o são, e que podem ser melhor entendidas se são consideradas como feudos.

O lucro, o motor do capitalismo, teria sido substituído por seu predecessor feudal, a renda. Em concreto, uma forma de renda que deve ser paga para ter acesso a essas plataformas e, em geral, à nuvem, o que ele chama de “renda da nuvem”.

Dessa forma, o poder real, na sua concepção, não seria ostentado pelos proprietários do capital tradicional, isto é, a maquinaria, os edifícios, as redes ferroviárias e telefônicas, os robôs industriais. Estes continuam extraindo lucros dos trabalhadores, pela via da mão de obra assalariada, mas já não mandariam como antes.

Teriam se convertido em vassalos de uma nova classe feudal, os proprietários do capital na nuvem. Isto tem alguma relevância na nossa forma de viver e experimentar a vida? Seria necessário reconhecer que o nosso mundo teria se tornado tecnofeudal, o que ajudaria a resolver questões grandes e pequenas, desde a esquiva revolução da energia verde até a nova guerra fria entre os Estados Unidos e a China, da morte do indivíduo liberal e a impossibilidade da social democracia realizar a falsa promessa das criptomoedas e a urgente questão de como recuperar nossa autonomia e também nossa liberdade.

Esta realidade social substituiu o capitalismo por algo que ele considera muito mais desagradável, o tecnonofeudalismo. Para descrever o tecnofeudalismo, ele primeiro tem que explicar o que ele chama de assombrosas metamorfoses que viveu o capitalismo nas últimas décadas.

No feudalismo, o poder da classe dominante procedia da propriedade de terras que a maioria não poderia ter, mas à que estava vinculada. No capitalismo, o poder derivava de um capital que a maioria não possuía, mas com o qual tinha que trabalhar para sobreviver.

No tecnofeudalismo, uma nova classe dominante obteria seu poder da propriedade de um capital na nuvem, cujos tentáculos enredam a todo mundo.

O capital na nuvem se define, fisicamente, como a acumulação de maquinaria conectada em rede, software, algoritmos baseados em Inteligência artificial e hardware de comunicações que percorrem todo o planeta e realizam uma ampla realidade de tarefas, novas e antigas.

Por exemplo: Incitar a milhões de pessoas não assalariadas (servos da nuvem) a trabalhar grátis (e frequentemente de maneira inconsciente) para repor o estoque de capital na nuvem (por exemplo, subir fotos e vídeos no Instagram ou no Tiktok, ou colocar críticas de filmes, restaurantes e livros).

Apagar as luzes enquanto nos recomendam livros, filmes, férias, etc., que estão tão impressionantemente em sintonia com nossos interesses que no futuro estaremos predispostos a aquirir outros bens que se vendam nos feudos ou plataforma na nuvem (por exemplo, amazon.com), que funcionam com a mesma rede digital que nos ajuda a apagar as luzes enquanto nos recomenda livros, filmes, férias, etc., etc.

Utilizar a Inteligência artificial e os big data para dirigir o labor dos trabalhadores (os proletários na nuvem) na fábrica, ao mesmo tempo, que impulsam as redes de energia, os robôs, os caminhões, as linhas de produção automatizadas e as impressoras 3D que superam a fabricação convencional.

<><> Os imigrantes, os novos proletários mundiais!

Nada mais degradante, em um mundo com tantas coisas degradantes do que os precários barcos em que africanos tem suas embarcações naufragadas, tentando chegar à Europa! Quem são esses africanos? São alguns dos milhões de africanos cujos familiares foram tirados das suas casas e trazidos, nos porões de navios negreiros, para ser escravos na América, produzindo, como escravos, riquezas para a Europa!

Simples e terrível, mas muito real. São seus descendentes que agora, miseráveis e abandonados, que tentam cruzar o Mediterrâneo, da forma que seja, buscando sobrevivência em condições menos ruins. Mesmo, quando conseguem chegar, sendo discriminados, como negros, como africanos, como miseráveis.

Me lembro de estar em um seminário na Espanha, há algum tempo, quando um barco desses virou no Mediterrâneo e todos os seus ocupantes morreram. Embora fosse um seminário de gente progressista, não causou nenhuma reação, nenhuma indignação, nenhuma manifestação.

Os imigrantes, seja de origem africana ou de outra origem, circulam pela Europa, pelos Estados Unidos ou mesmo em países da América Latina, buscando alguma forma de vida menor cruel do que a que tem nos seus países de origem. Eles, que não nasceram escravos. Foram escravizados, tornados escravos, fazendo com que escravos e negros se tornassem quase sinônimos.

O mundo convive tranquilamente com a opressão e a exploração brutais da África, um continente ao lado da Europa. Basta conseguir cruzar o Mediterrâneo, para poderem chegar lá, onde serão tratados como raça inferior, onde serão discriminados e às vezes até expulsos de volta para seus países de origem.

Destino que acontece quando alguma embarcação é socorrida antes de naufragar, quando sua população é devolvida para suas condições miseráveis de vida na África. Ou quando alguns deles, por serem indocumentados, são expulsos para seus países de origem.

É um mundo “civilizado”, que produz a barbárie. Um mundo branco, loiro, ou de qualquer tez. Menos negro ou da cor de pele dos muçulmanos, igualmente discriminados.

“Civilização ou barbárie”, como disse um prócer latino-americano. Ambos convivem, lado a lado. A tal da “civilização” produz a barbárie, que ela continua a explorar, como empregados e empregadas negras, a seu serviço.

A miséria da África é um grito desesperado de quem, explorados e discriminados, pedem ajuda. Quem ouve suas vozes, se sua miséria é funcional, para desempenharem funções subalternas, que brancos não toparia cumprir? O que seria da “civilização” branca sem a miséria negra?

¨      O Neoliberalismo é uma arma do Imperialismo. Por André Fernandes

Acredito que muitos leitores já estão convencidos que o neoliberalismo é uma arma letal do Imperialismo, um “artefato de destruição em massa” que mata aos poucos e tem quase o mesmo efeito, a longo prazo, das bombas que liquidam milhares de famílias mundo afora em nome da “democracia e da liberdade”. Mas, permitam-me fazer uma reflexão sobre este tema que, segundo o eminente geógrafo David Harvey, não se trata de um sistema econômico, mas sim de um projeto político.

Como muitos sabemos, esta arma letal surgiu das mentes doentes de Margaret Tatcher e Ronald Reagan, inspiradas em arautos da economia como Milton Friedman, Friedrich Hayek e Ludwig Von Mises e a tão “notória” Escola Austríaca que apedeutas profissionais ainda insistem em clamar como prova de “conhecimento, inteligência e cultura”.

Em seu livro “Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico”, Vladimir Safatle - este sim um grande intelectual nacional - descreve o cotidiano sofrimento na sociedade assim como o calvário pelo qual passam os excluídos de um sistema econômico injusto e cruel que, apesar dos estragos feitos mundo afora, ainda possui propagandistas nas academias e nos meios de comunicação. Um sistema econômico que somente reproduz a disparidade social pela qual vivem os países do Sul Global - e agora, também os do Norte - fragmentando sociedades e destruindo países sem a necessidade de invasões militares - ou mesmo preparando-as para isto - e, por isso mesmo, semelhante a uma arma de guerra.

Clau von Clausewitz dizia que a guerra é a “continuação da política por outros meios". Como base neste princípio, me parece justo determinar que os políticos que defendem o neoliberalismo em solo pátrio são agentes e traidores pertencentes a uma “internacional” neoliberal que pretende destruir as nações com a finalidade de espoliar seus recursos naturais. Sendo assim, aqueles políticos que saúdam a bandeira nacional e se propalam zelosos da sociedade e “defensores da educação”, mas que defendem medidas neoliberais que beneficiam interesses alienígenas e os bancos privados, pertencem a uma força estrangeira para destruir o Brasil

e os países do Sul Global, independente da sigla e da ideologia que “dizem” pertencer. Aqueles que usam do cargo público para defender o sistema financeiro em detrimento da população são traidores, ponto final.

O neoliberalismo insiste em permanecer nos Estados nacionais, por mais que seja combatido. Como bem descreveu Naomi Klein em sua obra de referência - A Doutrina de Choque - o sistema neoliberal, muitas vezes é implantado como “solução” de crises políticas em tempos de “terra arrasada”. Tal qual uma “bomba silenciosa”, destrói famílias e provoca suicídios, pauperização e, finalmente, violência social mundo afora. A “solução”? Repressão policial. E assim, cria-se uma reação em cadeia onde a pobreza e a violência se reproduzem, sociedades são destruídas, e as potências imperialistas e o sistema financeiro ficam livre para exercer a espoliação e o saque. O objetivo final deste “método do caos” é transformar todos os países, inclusive o Brasil, em um “El Salvador”, que se tornou em um “exemplo” de administração estatal para aqueles que em suas vidas medíocres perderam a esperança de um mundo melhor.

Não é uma coincidência que a agressividade Europeia e Anglo-saxã se voltem para as nações que não adotaram o neoliberalismo como sistema econômico. Pouco importa se os bárbaros das estepes russas, os “confucianos marxistas”, ou os ”aiatolás” herdeiros dos sassânidas. A questão não é a “autocracia” eslava, os uigures de Xinjiang ou a obrigatoriedade do “hijab”: não se trata disso. Isso é para amadores que não enxergam o quadro mundial. Nem o espectro ideológico não importa aqui. Um dos grupos terroristas que levaram recentemente o caos às ruas de Teerã eram marxistas curdos, junto com fundamentalistas islâmicos que cortaram cabeças pelas ruas das cidades do Irã, enquanto a mídia internacional os chamavam de “manifestantes pacíficos”. Pretensos marxistas e “cortadores de cabeça” do mais radical islamismo, lutando juntos, financiados e treinados pelo Imperialismo “turbo capitalista”. Às vezes penso que, de fato, o mundo enlouqueceu. O espectro ideológico não faz a menor diferença na modernidade líquida de Bauman do ultra-neoliberalismo do turbo capitalismo selvagem que, agora, perdeu toda a vergonha na figura do Sr. Donald Trump.

Como disse certa vez a grande intelectual Marilena Chauí, é preciso destruir o neoliberalismo para construir algo novo, nem que para isto

tenhamos que ressuscitar John Maynard Keynes. Karl Polanyi, em sua obra “A grande Transformação”, pregava que o socialismo deve ser exercido como uma forma pontual de combate a miséria deixada pelo sistema capitalista mundial em suas periferias. Eu iria mais longe, o socialismo deve ser usado como uma arma de guerra. Um conflito, às vezes nem sempre silencioso, que, atualmente se transformou em um combate sem trégua pelos recursos naturais do planeta…nem a Groenlândia está a salvo.

Já está mais que claro que o destino dos países que adotam o neoliberalismo é perder sua soberania e seus recursos energéticos, afundados no caos social e dominados pelo narcotráfico, tal qual ocorre hoje num país “andino”, anteriormente pacifico, como o Equador. Uma sociedade desunida e fragmentada é facilmente dominada. Como exemplo maior de resistência, vemos as ruas de Caracas que, mesmo tendo seu presidente sequestrado, foi invadida por uma multidão clamando o seu retorno: pode-se sequestrar um “rei”, mas não a consciência de seus “súditos”, ou de uma nação unida. Ou mesmo nas ruas de Teerã, onde milhões de iranianos saíram às ruas em defesa do “regime iraniano” de forma espontânea - por mais que a imprensa internacional tente ocultar ou desqualificar este fato. A atomização, resultante da “luta de todos contra todos” tem como resultado apenas o enfraquecimento das nações, presas fáceis para a “internacional neoliberal”. Já as tradições, a cultura e o conhecimento histórico são os meios pelos quais as sociedades se defendem, muitas vezes de forma inconsciente, deste grande mal.

As palavras de ordem são “liberdade”, “direitos humanos” etc. Mas quantas liberdades e direitos foram usurpados, e quantas vidas foram destruídas, entre os mais de 6 milhões de mortos e refugiados resultantes das “guerras eternas” - como sempre faz questão de lembrar o analista geopolítico Pepe Escobar - que se iniciaram com a primeira Guerra do Golfo Pérsico no início da década de 1990? Às vezes me questiono: caso os países da América do Sul finalmente resolvessem resistir à “internacional neoliberal”, seguindo o exemplo de Cuba, em quanto tempo as “guerras eternas” não chegariam aqui? Hoje vemos, nos protestos das ruas de Minneapolis, as nefastas consequências deste sistema ultra-neoliberal opressor nas entranhas de sua matriz ideológica e material.

Tão nefasta e cruel, essa “arma de destruição em massa” foge ao controle e se volta, agora, até contra seus criadores, como o monstro de Frankenstein. Enquanto isso, o “caso Jeffrey Epstein” e sua “Ilha de Doutor Morreau”, visitada por políticos, milionários e “celebridades” em busca de “fantasias” macabras e sexuais, explodem as entranhas da elite neoliberal tal qual o “Alien” do diretor Ridley Scott, implodindo “o sangue e as vísceras” de uma elite inexoravelmente corrupta em franco declínio moral, material e espiritual. Tudo isso em um período onde esta mesma “elite” global escatológica tenta provocar uma Terceira Guerra Mundial em nome de uma pretensa ”superioridade” moral - fruto de um racismo endógeno e da alucinação de “mentes em decomposição” - e de uma hegemonia apodrecida desde sua origem.

Como disse certa vez um dos grandes intelectuais de “Terra Brasilis”, Professor José Luis Fiori, as duas ideologias europeias falharam em sua busca da felicidade do homem: o marxismo pela busca da igualdade e o liberalismo pela busca da prosperidade. O futuro, como diz o eminente professor, é um “futuro ético”: mas a busca desse futuro exigirá grande coragem em um mundo imoral. E não estou falando de qualquer moralidade religiosa ou pequeno burguesa, mas de uma “moralidade espiritual”. A procura da ética é o primeiro passo do combate à violência neoliberal e imperial. Talvez, quem sabe, a “reencarnação” da busca incessante e sem trégua do “homem novo”, como dizia antigamente um notório revolucionário: um homem que não luta apenas para obter vantagem pessoal, pela sua segurança material ou pela celebridade social. Uma luta inexorável e sem rendição em nome de dois conceitos frequentemente perseguidos, vilipendiados, esquecidos e ignorados: justiça e liberdade.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasil 247

 

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