'Nunca
recuar': o assessor por trás das políticas mais controversas de Trump
Por
anos, Stephen Miller foi uma figura influente do conservadorismo no entorno
político do atual presidente americano, Donald Trump. Agora, ele é um
para-raios de polêmicas.
Seu
estilo implacável e combativo na condução das políticas do governo Trump
impulsionou a agenda linha-dura de imigração do presidente e ampliou sua
influência na projeção do poder dos Estados Unidos pelo hemisfério
ocidental.
O
início acelerado de 2026 do governo Trump, tanto no plano interno quanto no
externo, reforçou sua posição como uma das figuras mais poderosas do governo.
Mas
para a esquerda, ele é um vilão.
Na
capital americana, Washington D.C., cartazes com o rosto de Miller foram
colados em espaços públicos com a legenda "Fascism ain't pretty"
("Fascismo não é bonito", em tradução livre).
Integrantes
do Partido Democrata (de oposição ao governo Trump) pediram sua renúncia, e até
integrantes de seu próprio Partido Republicano (do qual Trump faz parte)
passaram a questionar publicamente seu julgamento político e sua eficácia.
E, nas
últimas semanas, Miller se viu em território pouco familiar: um operador dos
bastidores exposto repentinamente aos holofotes nacionais, com palavras e ações
submetidas a escrutínio.
Ele
teve de recuar — ao menos temporariamente — do tipo de confronto que
frequentemente apreciou travar.
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'Sempre avançar com força, nunca recuar'
Pouco
depois de dois agentes federais de imigração terem baleado e matado o
enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, durante
uma operação em Minneapolis no mês passado (24/1), Miller publicou várias
mensagens na rede social X nas quais acusou Pretti de ser um "terrorista
doméstico" e um "assassino".
A
sequência de postagens foi um ataque verbal agressivo, típico de alguém que
costumava discursar antes de Trump em comícios da campanha presidencial de 2016
(quando Trump venceu pela primeira vez). Miller acusou os democratas de
"alimentar as chamas da insurreição". As declarações sobre Pretti
eram objetivamente falsas.
Imagens
de vídeo divulgadas posteriormente mostraram que Pretti, embora estivesse
armado com um revólver legalmente registrado, não ameaçou agentes da Alfândega
e Proteção de Fronteiras (CBP, na sigla em inglês) antes de ser atingido por
spray de pimenta, derrubado e baleado dez vezes.
Dias
depois, Miller emitiu uma nota à imprensa em que sustentou que a avaliação
inicial do governo Trump sobre os disparos havia sido "baseada em
relatos" de agentes de imigração "em campo", e que esses agentes
"podem não ter seguido" o protocolo adequado.
Foi um
recuo raro do assessor de postura combativa, mas ainda assim insuficiente para
satisfazer seus críticos democratas, que o acusam de incentivar o Serviço de
Imigração e Controle de Alfândega (ICE, na sigla em inglês) a responder de
forma violenta a protestos.
"'Não
foi o suficiente para Stephen Miller que esses cidadãos americanos fossem
mortos pelo ICE e pela CBP, ele ainda teve de difamá-los com mentiras após suas
mortes'", escreveu o congressista Don Beyer (Partido Democrata), da
Virgínia, em uma publicação na rede social Bluesky.
"Miller
é um fanático enlouquecido e sedento por sangue, e suas políticas colocam vidas
em risco todos os dias em que ele permanece no poder."
Em
maio, foi Miller quem exigiu que as autoridades de fiscalização de imigração
intensificassem a detenção e a deportação de migrantes sem documentação em
cidades dos EUA. Miller disse à emissora americana Fox News que o governo havia
estabelecido a meta de 3.000 prisões por dia — número muito acima dos registros
anteriores.
Segundo
a publicação americana Washington Examiner, em uma reunião Miller
"demoliu" autoridades federais de imigração por não fazerem o
suficiente para deter imigrantes sem documentação em todo o território
americano. Desde então, o governo intensificou a fiscalização em uma lista
crescente de grandes cidades americanas, incluindo Washington D.C., Charlotte,
Chicago e, mais recentemente, Minneapolis.
"Tudo
o que fiz, fiz sob a direção do presidente e de Stephen [Miller]", disse
recentemente a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, ao site Axios, em
parte como resposta às críticas de que ela teria sido a principal responsável
pelas ações enérgicas de fiscalização da imigração do governo.
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Americanos passam a rejeitar táticas de imigração
Miller
negou ser movido por racismo ou preconceito. Ele defende a política de
imigração do presidente americano como reflexo do que os eleitores escolheram
que Trump realizasse.
Ainda
assim, no que vem sendo interpretado como um afastamento da abordagem agressiva
de Miller, Trump afirmou nesta semana que sua ofensiva precisava de um
"toque mais suave", após as mortes de Alex Pretti e Renee Good, outra
cidadã americana morta por agentes de imigração em Minneapolis.
A
aprovação geral da política de imigração caiu para 39%, o nível mais baixo
desde que Trump retornou à Casa Branca, segundo pesquisa da Reuters-Ipsos. Uma
maioria clara, de 58%, afirma que as táticas de fiscalização adotadas por
agentes do ICE foram "longe demais".
Essa
tendência coloca Miller diretamente no centro das críticas, no momento em que
os republicanos se preparam para as eleições legislativas de meio de mandato,
em novembro.
"Miller
é o arquiteto dessa política de deportação em massa", disse Bryan Lanza,
estrategista conservador que trabalhou nas campanhas presidenciais de Trump em
2016 e 2024. "Só saberemos em novembro se a culpa é dele. Os eleitores, no
fim das contas, podem ser implacáveis."
No
entanto, Miller mostrou ao longo dos anos ser um sobrevivente político.
Conservador combativo desde os tempos de colégio, na liberal Califórnia, ele
ascendeu de assessor no Senado a auxiliar de campanha e, depois, à Casa Branca,
onde atravessou as intrigas pessoais e disputas internas do primeiro governo
Trump.
Em
2019, ele disse ao jornal americano Washington Post ter sentido um "choque
elétrico na alma" quando Trump anunciou sua candidatura à Presidência.
Miller
permaneceu ao lado do presidente em seus momentos mais difíceis, incluindo a
derrota eleitoral de 2020, o ataque de apoiadores ao Capitólio dos EUA e seu
isolamento político em Washington D.C.. No ano passado, acompanhou Trump em seu
retorno ao poder.
"Stephen
Miller é central para a psique de Trump", afirmou Lanza. "Sempre
avançar com força; nunca recuar. Stephen [Miller] é alguém em quem ele sempre
pode contar para sustentar essa posição, em qualquer tema."
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Falando pelo presidente
O cargo
oficial de Miller na Casa Branca é chefe de gabinete adjunto para políticas
públicas e assessor de segurança interna.
"Stephen
Miller serviu fielmente o presidente Trump por anos porque é inteligente,
trabalhador e leal", disse a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, à
BBC.
"Stephen
articula todas as áreas do governo para garantir que cada política, externa e
interna, seja implementada em ritmo recorde. Os resultados do último ano falam
por si."
Em
determinado momento do ano passado, Miller chegou a ser cogitado como possível
assessor de segurança nacional da Casa Branca, substituindo Michael Waltz,
demitido do cargo — rumores que o presidente descartou de forma sumária.
"Stephen
está muito acima disso na hierarquia", disse Trump.
Em
março passado, quando os EUA se preparavam para lançar ataques aéreos contra
rebeldes houthis (grupo iemenita apoiado pelo Irã) no Iêmen, uma série de
mensagens trocadas no aplicativo Signal, compartilhadas inadvertidamente com
Jeffrey Goldberg, editor da revista The Atlantic, revelou Stephen Miller no
centro do planejamento da Casa Branca, expressando o desejo do presidente de
seguir adiante com o ataque.
"Pelo
que ouvi, o presidente foi claro: sinal verde", escreveu Miller a um grupo
de assessores graduados, entre eles JD Vance (vice-presidente dos EUA), Pete
Hegseth (secretário da Defesa) e Marco Rubio (secretário de Estado).
No
outono passado, Miller teria sido colocado à frente da supervisão de operações
militares no Caribe para localizar e destruir embarcações suspeitas de tráfico
de drogas — iniciativa que se expandiu para a operação bem-sucedida que
resultou na prisão e queda do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, no início
de janeiro (3/1).
Quando
Trump anunciou em seu resort de Mar-a-Lago a captura de Maduro, Miller estava
entre os poucos integrantes do alto escalão posicionados atrás do presidente.
O papel
de Miller na política externa, observa Lanza, é incomum, mas condizente com o
funcionamento pouco ortodoxo da Casa Branca.
"Stephen
é inteligente o bastante para saber que Donald Trump não é um presidente
tradicional, e que ele se aproxima de quem está ao seu redor em busca de
conselhos e opiniões", disse Lanza. "Stephen fez um bom trabalho ao
se manter próximo e oferecer esse apoio. Ele não teria tido o mesmo sucesso sob
um presidente mais convencional."
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Primeiros passos políticos na Califórnia
Miller
desenvolveu cedo seu gosto pela controvérsia e pela provocação.
Ele
cursou o ensino médio em Santa Monica, enclave litorâneo da grande Los Angeles,
onde defendeu o ensino apenas em inglês e outras pautas conservadoras. Sua
atuação começou em 1999, um ano depois de uma corte federal derrubar a
proibição da Califórnia a serviços sociais para migrantes sem documentação. Foi
também um período em que os registros de encontros na fronteira entre os
Estados Unidos e o México dispararam, alcançando níveis só novamente observados
após a Covid-19, durante o governo Joe Biden.
Em um
discurso gravado em vídeo durante uma campanha para o grêmio estudantil,
reclamou de ter sido orientado a recolher o próprio lixo, afirmando que essa
deveria ser uma função de funcionários pagos.
"Eu
sou o único candidato aqui que se destaca", disse. "Eu diria e faria
coisas que ninguém em sã consciência diria ou faria."
Miller
estudou ciência política na Universidade Duke, onde escreveu uma coluna de
direita no jornal estudantil e se tornou diretor executivo da Duke Conservative
Union. Ganhou alguma projeção nacional ao defender três estudantes brancos do
time de lacrosse da universidade acusados de estupro — acusação posteriormente
considerada falsa — por uma mulher negra.
Foi o
momento de maior orgulho de sua vida universitária, contaria depois à revista
The Atlantic, e que ajudaria a lançar sua carreira política. Pouco depois de se
formar, assumiu o cargo de secretário de Imprensa da então deputada
conservadora Michele Bachmann, de uma região rural de Minnesota.
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As 'leis de ferro' da força e do poder
Ao
longo do primeiro ano do retorno de Trump à Casa Branca, Miller esteve no
centro de algumas das principais iniciativas políticas do governo. Com essa
influência, vieram maior visibilidade e maiores riscos.
Após a
operação na Venezuela, Miller apareceu na emissora americana CNN para defender
uma visão ampliada do governo Trump, que posiciona os EUA como uma potência
dominante em todo o hemisfério ocidental — mesmo que isso implique confronto
com aliados tradicionais.
Foi sua
esposa, Katie Miller, uma podcaster de direita e ex-assessora de Trump em seu
primeiro mandato, quem reacendeu o debate sobre a aquisição da Groenlândia ao
publicar, na rede social X, uma imagem do território coberto pela bandeira
americana, poucas horas após o ataque à Venezuela.
Coube a
Miller falar diante das câmeras, oferecendo uma visão fria do poder americano e
de sua relação com o desejo do presidente de adquirir o território dinamarquês.
"Com
que direito a Dinamarca afirma controlar a Groenlândia?", questionou
Miller. "Ninguém vai enfrentar militarmente os EUA pelo futuro da
Groenlândia."
Ele
afirmou ainda que existem "leis de ferro do mundo".
"Vivemos
em um mundo, no mundo real… que é governado pela força, que é governado pelo
poder", disse.
As
declarações vieram na esteira do uso cirúrgico da força militar americana na
Venezuela. E, para um presidente que dias depois diria ao jornal americano New
York Times que os únicos limites a seus poderes globais são "minha própria
moralidade" e "minha própria mente", elas podem ter sido bem
recebidas.
Mas
causaram incômodo até dentro do próprio partido de Trump.
"Ou
Stephen Miller passa a se ater ao que sabe fazer ou precisa deixar esse
cargo", disse à CNN o senador republicano Thom Tillis, da Carolina do
Norte, crítico frequente do presidente nos últimos meses.
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Uma batalha pela civilização
As
declarações de Miller podem ter provocado resistência entre veteranos da
política externa republicana, como [Thom] Tillis, mas sua visão internacional
está alinhada ao movimento America First ("América em primeiro
lugar", em tradução livre) de Trump.
"O
que define uma política America First é aquilo que atende diretamente aos
interesses dos cidadãos americanos", disse Joshua Trevino, pesquisador
sênior da Western Hemisphere Initiative no America First Policy Institute.
"Enfrentamos
uma situação global que mudou, e as instituições, práticas e reflexos que
funcionaram bem no passado já não funcionam", afirmou. "E o governo
Trump tenta corrigir isso."
Para
Miller e Trump, isso significou recorrer ao poder militar, político e econômico
bruto dos EUA para avançar prioridades internas, como imigração, crime, tráfico
de drogas e comércio.
Eles
apontam a América Latina como a origem de grande parte do fentanil (opióide) e
de outras drogas perigosas responsáveis por mortes nos EUA, e alegam que os
"narco-terroristas" contribuíram para a violência em cidades
americanas. Também acusam o Canadá de se beneficiar de desequilíbrios
comerciais com os EUA para fortalecer sua própria economia.
Sua
visão global inclui ainda posicionar os EUA como defensores de determinados
valores culturais e políticos: protetores da "Civilização Ocidental",
como Miller já descreveu.
"Nossa
linhagem e nosso legado remontam a Atenas, Roma, Filadélfia, Monticello",
disse Miller em um memorial ao ativista conservador Charlie Kirk, morto em
setembro passado.
"Nossos
ancestrais construíram as cidades. Produziram arte e arquitetura. Criaram a
indústria. Defendemos o que é bom, virtuoso e nobre."
Trump
expressou sentimento semelhante durante seu tempo na Casa Branca, ao afirmar
ter "a coragem de preservar nossa civilização diante daqueles que
tentariam subvertê-la e destruí-la", em discurso feito em 2017, na
Polônia.
Ao
enquadrar as disputas como uma crise existencial, Trump e Miller conseguem
defender soluções que, de outra forma, pareceriam extremas ou desnecessárias.
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Quando o relógio bater meia-noite
Especialistas
em tráfico de drogas observam que atacar embarcações venezuelanas pouco
contribui para conter o fluxo de fentanil, que entra majoritariamente nos EUA
pela fronteira com o México. Também rebatem a ideia de que imigrantes
latino-americanos sejam mais propensos ao crime ou a transtornos mentais.
Podem
ainda citar dados que mostram que o comércio entre EUA e Canadá é mutuamente
benéfico. Mas, se o objetivo for a preservação cultural, então, na visão de
Trump e Miller, qualquer medida para isolar os EUA da influência estrangeira,
seja na imigração ou no comércio, poderia ser justificada.
Essa
abordagem, no entanto, expôs Miller — e Trump — a acusações de racismo e
etnonacionalismo.
"Stephen
Miller é uma figura central na formulação da agenda do governo Trump",
escreveu o grupo liberal Common Cause em uma postagem de blog publicada em
2025. "De viabilizar a violência estatal contra famílias imigrantes a
promover retórica nacionalista branca no governo, sua carreira é um alerta
sobre o que acontece quando o preconceito ganha poder institucional."
Apesar
de toda a controvérsia, o vínculo de Miller com Trump explica por que sua
posição no círculo íntimo do presidente segue aparentemente segura.
"Aos
meus colegas que acham que é possível convencer Donald Trump de que Stephen
Miller é um peso para ele, desejo boa sorte", disse, na semana passada, o
senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul.
"Quando
o relógio bater meia-noite na era Trump, algumas pessoas sairão pela porta
junto com Donald Trump. Stephen Miller estará nesse grupo."
Fonte: BBC
News na América do Norte

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