Tratamentos
para Parkinson: quais são as novas opções no Brasil
A
Doença de Parkinson é uma das condições neurodegenerativas mais comuns no
mundo, afetando cerca de 10 milhões de pessoas globalmente, dentre elas cerca
de 200 mil brasileiros por ano, segundo estimativas da Organização Mundial da
Saúde (OMS).
De
caráter progressivo e ainda sem cura, a doença impacta apresenta sintomas como
tremores, rigidez muscular, lentidão dos movimentos e, em estágios mais
avançados, alterações no equilíbrio, cognição e comportamento emocional. Apesar
de avanços constantes na medicina, a busca por novas opções de tratamento, que
melhor se enquadrem a cada paciente, são foco de médicos.
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Cirurgia DBS
Um dos
procedimentos de terapia avançada mais comuns é a cirurgia DBS, realizada a
partir do implante de eletrodos no cérebro que enviam sinais elétricos ao corpo
para aliviar os sintomas.
Segundo
Marcelo Valadares, neurocirurgião funcional e pesquisador da Unicamp
(Universidade Estadual de Campinas), o procedimento é indicado em
aproximadamente 15 a 20% dos pacientes, porcentagem que corresponde àqueles em
que o efeito da medicação não está mais presente.
"A
gente chama isso de períodos de rigidez ou períodos de aumento do tremor. A
cirurgia também é eficaz naqueles que apresentavam melhora com medicamentos,
mas em determinado momento começam a ter complicações."
A DBS é
contraindicada para pacientes que tiveram nenhuma resposta à Levodopa já que,
conforme explica o médico, as vias cerebrais onde o DBS age são similares às
vias onde atua o remédio popular.
"Pacientes
muito idosos também, acima de setenta e cinco anos, são pacientes que muitas
vezes não lidam bem com o processo cirúrgico ou que apresentam quadros de
demência diante de alterações cognitivas", ressalta o profissional.
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Ultrassom
O
chamado ultrassom focado guiado por ressonância é um tratamento novo no Brasil,
indica Marcelo Valadares. "Ele é muito importante para pacientes que tem o
predomínio do sintoma de tremor. Muito tremor, pouca rigidez", diz o
especialista.
O
procedimento é feito em uma única sessão e, segundo Marcelo, promete ser uma
coisa "minimamente invasiva". "Não tem corte, você faz uma lesão
em uma estrutura milimétrica do cérebro através de ultrassom", explica.
No
entanto, ele é restrito à pessoas que têm sintomas de tremor predominante em
apenas um dos lados do corpo. "Ele ainda pode ser usado em pessoas com
idade mais avançada que não desejam ou não toleram uma cirurgia."
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Medicamentos
Uma das
medicações mais recomendadas aos pacientes com Parkinson é a Levodopa.
"Ela funciona tão bem porque a substância transformada em dopamina no
organismo e a doença de Parkinson tem na sua base a falta desse
neurotransmissor em determinada região do cérebro", explica o
profissional. A substância está envolvida em processos como sensação de prazer,
motivação, aprendizado e a coordenação motora.
"O
grande problema é que, ao longo dos anos, o uso contínuo da dopamina leva à
adaptações do organismo que fazem com que o remédio não funcione tão bem mais,
ou geram efeitos colaterais ao uso contínuo da medicação", adverte
Valadares.
Apesar
disso, ainda é o remédio mais recomendado para a maioria dos pacientes.
Outros
medicamentos podem ser administrados, ora combinados com a Levodopa ou não.
Isso dependerá da necessidade de cada tipo de paciente.
"Nós
temos outras substâncias que não são precursores de dopamina, mas agem nos
mesmos receptores. E nós temos também remédios que vão influenciar a forma como
a dopamina é processada e absorvida no organismo", acrescenta o médico.
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Cannabis medicinal
Embora
ainda limitadas, o neurologista Luis Otavio Caboclo considera que as evidências
científicas abrem uma possibilidade real de utilizar a Cannabis medicinal para
ampliar o cuidado dos pacientes com a doença.
Ele
explica que a Cannabis contém compostos conhecidos como canabinoides, sendo o
canabidiol (CBD) e o tetraidrocanabinol (THC) os mais estudados.
“Tais
substâncias interagem com o sistema endocanabinoide do organismo, responsável
por regular funções como controle motor, dor, humor e sono – todas
frequentemente afetadas em pacientes com Parkinson”, explica o especialista. A
combinação e a dosagem ideais, no entanto, ainda são objetos de pesquisa.
“O uso
da Cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um profissional de saúde
qualificado. Países como Canadá, Estados Unidos e Brasil já permitem seu uso
sob prescrição médica, em situações específicas”, informa Caboclo.
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Outras inovações?
"Há
uma expectativa de que, no futuro, se possa envolver a inteligência artificial
nos tratamentos, de forma a ter soluções mais personalizadas para cada
paciente", indica Marcelo Valadares.
"Nós
temos também a perspectiva da chegada ao Brasil da Levodopa de gel via
intestinal. Ela é importante pra alguns pacientes, com quadros bastante
avançados, que não tem indicação de cirurgia. Temos também em caráter de
pesquisa estudos visando terapia gênica e estudos estudos com células tronco,
que estão em fases bem iniciais, mas prometem trazer novas opções de
tratamento", conclui o neurocirurgião.
• Médicos testam implante de
células-tronco para tratar Parkinson nos EUA
Cientistas
da Keck Medicine, da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos,
deram início a um ensaio clínico experimental que pode mudar o futuro do
tratamento da doença de Parkinson.
A
pesquisa testa o implante de células-tronco cultivadas em laboratório
diretamente no cérebro, com o objetivo de restaurar a capacidade do órgão de
produzir dopamina, o componente químico cuja ausência causa os principais
sintomas da enfermidade.
O
Parkinson é uma condição neurológica de longo prazo que piora gradualmente.
Atualmente, embora existam tratamentos para amenizar os sintomas, não há cura
ou terapia comprovada que retarde o avanço da doença.
A
escassez de dopamina, mensageiro químico essencial para o movimento, memória e
humor, leva a tremores, rigidez muscular e lentidão motora.
A nova
estratégia utiliza células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs). Diferente
das células embrionárias, as iPSCs são criadas a partir de células adultas
(como pele ou sangue) e reprogramadas para se transformarem em qualquer tipo de
célula. No caso do estudo, elas são desenvolvidas para se tornarem neurônios
produtores de dopamina.
"Acreditamos
que essas células podem amadurecer de forma confiável e oferecer a melhor
chance de reiniciar a produção de dopamina no cérebro", afirmou Xenos
Mason, neurologista da Keck Medicine e copresquisador do estudo.
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Como funciona o procedimento
Durante
a cirurgia, os médicos realizam uma pequena abertura no crânio e, com o auxílio
de imagens de ressonância magnética em tempo real, implantam as células nos
gânglios basais, região que controla os movimentos.
Após a
cirurgia, os pacientes são monitorados por um período de 12 a 15 meses para
observar melhorias motoras e possíveis efeitos colaterais. O acompanhamento a
longo prazo deve durar até cinco anos.
"Se
o cérebro puder produzir níveis normais de dopamina novamente, a doença de
Parkinson pode ser retardada e a função motora restaurada", explicou o
neurocirurgião Brian Lee, principal investigador do estudo.
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Próximos passos
A
terapia, denominada RNDP-001 e desenvolvida pela Kenai Therapeutics, recebeu o
status de "fast-track" da FDA (órgão regulador dos EUA), o que
acelera o processo de revisão e desenvolvimento.
A Keck
Medicine é um dos três locais nos Estados Unidos que participam deste ensaio
clínico inicial, que conta com 12 voluntários em estágios de moderado a grave
da doença.
O
objetivo final dos pesquisadores é consolidar uma técnica capaz de reparar
funções motoras e oferecer uma qualidade de vida significativamente superior
aos pacientes que hoje convivem com os limites impostos pelo Parkinson.
• Como é o impacto do diagnóstico para os
pacientes
O
neurologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Edson Issamu Yokoo,
explica de que forma os pacientes costumam receber o diagnóstico e segundo ele,
"se mostram assustados e muito temerosos".
O
médico conta que isso se deve a "um entendimento global, um entendimento
social, que a doença de Parkinson é uma doença altamente incapacitante, com
comprometimentos, impactos importantes da atividade da vida diária, e na cabeça
deles já se forma aquela imagem que a pessoa cometida vai terminar de maneira
incapacitada, tremendo, uma cadeira de rodas, tudo isso faz com que eles tenham
uma imagem muito assustadora sobre o diagnóstico de doença de Parkinson".
Issamu
Yoko ressalta, no entanto, que uma grande parcela dos pacientes que tem a
doença de Parkinson consegue controlar seus sintomas e nem sempre vão evoluir
para esse estado em que as pessoas geralmente têm essa ideia de algo mais
assustador.
Marcelo
Valadares, neurocirurgião funcional e pesquisador da Unicamp (Universidade
Estadual de Campinas), aponta que "algumas pessoas consideram isso como
uma doença terminal, erroneamente". De acordo com o especialista, o
impacto do diagnóstico pode ser reduzido com orientação adequada e suporte
emocional da família.
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Aceitação do diagnóstico
O
inconformismo do diagnóstico, segundo os médicos, também se deve ao fato da
doença ser degenerativa, ou seja, progressiva e sem cura. No entanto, terapias
podem reduzir a possibilidade do quadro ser agravado.
Segundo
Valadares, o desespero ao receber a notícia está ligado ao medo e ao
desconhecimento sobre a doença. "Obviamente, ninguém quer ter uma doença.
E à medida que você consegue orientar, o desconhecimento vai deixando de
existir e o paciente compreende melhor e o tempo ajuda nessa aceitação".
"Existem
sim mudanças na vida cotidiana de muitos pacientes, mas eles começam a encarar
isso de uma maneira mais positiva e proativa. No fim, cada pessoa tem seu tempo
próprio para lidar com a aceitação. É importante que o profissional que entende
que pode orientar com o seu conhecimento esteja próximo e possa oferecer o
suporte emocional adequado para o paciente", acrescentou o especialista.
Issamu
ressalta que "aceitar o seu diagnóstico de maneira serena e tranquila é um
fator muito importante para o equilíbrio e evolução satisfatória da sua doença,
evitando que se adquira complicações adicionais, como perturbações emocionais,
ansiedade, depressão, manter o equilíbrio para que as pessoas ao redor também
não se desequilibrem emocionalmente com o diagnóstico ou com a manifestação da
doença".
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Apoio da família
Especialistas
ressaltam que além do apoio familiar, se informar sobre a doença é essencial
para diminuir o inconformismo diante do diagnóstico.
"Os
pacientes e seus familiares podem melhorar muito a qualidade de vida em
primeiro lugar se informando sobre a doença, buscando entender quais as causas,
em que situações determinados sintomas aparecem e o que pode ser feito para
melhorar aquilo. Eles podem buscar o apoio profissional multidisciplinar, isso
é muito importante, porque essa é uma doença que normalmente não é tratada só
por um médico, é preciso também um fisioterapeuta, um fonoaudiólogo,
psicólogo", aponta o neurocirurgião Valadares.
"Então
muitas vezes uma equipe é necessária para pacientes com determinados quadros
que não são leves. É preciso manter uma rotina ativa, é muito importante que o
paciente faça exercícios físico regularmente, isso melhora a mobilidade e
alivia os sintomas a medida que o paciente desenvolve a parte física, e as
limitações físicas ficam menos perceptíveis. É preciso ter uma rede de apoio
emocional, familiares e amigos são muito importantes para escutar, auxiliar e
participar da vida dos pacientes, ter uma convivência mais positiva",
completa.
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Sintomas de Parkinson
No dia
a dia, os pacientes passam a lidar com sintomas motores e não motores. Os
motores estão ligados "aos tremores, a rigidez, a dureza para os
movimentos, a lentidão e ainda problemas de equilíbrio. São os principais
sintomas relacionados à parte física e isso pode afetar tarefas simples como
vestir uma roupa, comer, caminhar, trabalhar ou até mesmo se comunicar".
Por
outro lado, também existem os sintomas de depressão, ansiedade, alterações
cognitivas, dificuldade de se alimentar, dificuldade de engolir, o que pode
aparecer em determinado momento da doença que precisa também de uma série de
adaptações na rotina diária.
As
dificuldades que o paciente já vem cursando também envolvem transtornos
intestinais, com uma obstipação e transtornos do sono. Isso porque "o
Parkinson interfere numa das fases do sono, que faz com que a pessoa não durma
direito, não tenha uma boa recuperação e tenha dificuldades no dia a dia",
segundo Issamu Yokoo.
Fonte:
CNN Brasil

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