quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026


 

Tratamentos para Parkinson: quais são as novas opções no Brasil

A Doença de Parkinson é uma das condições neurodegenerativas mais comuns no mundo, afetando cerca de 10 milhões de pessoas globalmente, dentre elas cerca de 200 mil brasileiros por ano, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS).

De caráter progressivo e ainda sem cura, a doença impacta apresenta sintomas como tremores, rigidez muscular, lentidão dos movimentos e, em estágios mais avançados, alterações no equilíbrio, cognição e comportamento emocional. Apesar de avanços constantes na medicina, a busca por novas opções de tratamento, que melhor se enquadrem a cada paciente, são foco de médicos.

<><> Cirurgia DBS

Um dos procedimentos de terapia avançada mais comuns é a cirurgia DBS, realizada a partir do implante de eletrodos no cérebro que enviam sinais elétricos ao corpo para aliviar os sintomas.

Segundo Marcelo Valadares, neurocirurgião funcional e pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o procedimento é indicado em aproximadamente 15 a 20% dos pacientes, porcentagem que corresponde àqueles em que o efeito da medicação não está mais presente.

"A gente chama isso de períodos de rigidez ou períodos de aumento do tremor. A cirurgia também é eficaz naqueles que apresentavam melhora com medicamentos, mas em determinado momento começam a ter complicações."

A DBS é contraindicada para pacientes que tiveram nenhuma resposta à Levodopa já que, conforme explica o médico, as vias cerebrais onde o DBS age são similares às vias onde atua o remédio popular.

"Pacientes muito idosos também, acima de setenta e cinco anos, são pacientes que muitas vezes não lidam bem com o processo cirúrgico ou que apresentam quadros de demência diante de alterações cognitivas", ressalta o profissional.

<><> Ultrassom

O chamado ultrassom focado guiado por ressonância é um tratamento novo no Brasil, indica Marcelo Valadares. "Ele é muito importante para pacientes que tem o predomínio do sintoma de tremor. Muito tremor, pouca rigidez", diz o especialista.

O procedimento é feito em uma única sessão e, segundo Marcelo, promete ser uma coisa "minimamente invasiva". "Não tem corte, você faz uma lesão em uma estrutura milimétrica do cérebro através de ultrassom", explica.

No entanto, ele é restrito à pessoas que têm sintomas de tremor predominante em apenas um dos lados do corpo. "Ele ainda pode ser usado em pessoas com idade mais avançada que não desejam ou não toleram uma cirurgia."

<><> Medicamentos

Uma das medicações mais recomendadas aos pacientes com Parkinson é a Levodopa. "Ela funciona tão bem porque a substância transformada em dopamina no organismo e a doença de Parkinson tem na sua base a falta desse neurotransmissor em determinada região do cérebro", explica o profissional. A substância está envolvida em processos como sensação de prazer, motivação, aprendizado e a coordenação motora.

"O grande problema é que, ao longo dos anos, o uso contínuo da dopamina leva à adaptações do organismo que fazem com que o remédio não funcione tão bem mais, ou geram efeitos colaterais ao uso contínuo da medicação", adverte Valadares.

Apesar disso, ainda é o remédio mais recomendado para a maioria dos pacientes.

Outros medicamentos podem ser administrados, ora combinados com a Levodopa ou não. Isso dependerá da necessidade de cada tipo de paciente.

"Nós temos outras substâncias que não são precursores de dopamina, mas agem nos mesmos receptores. E nós temos também remédios que vão influenciar a forma como a dopamina é processada e absorvida no organismo", acrescenta o médico.

<><> Cannabis medicinal

Embora ainda limitadas, o neurologista Luis Otavio Caboclo considera que as evidências científicas abrem uma possibilidade real de utilizar a Cannabis medicinal para ampliar o cuidado dos pacientes com a doença.

Ele explica que a Cannabis contém compostos conhecidos como canabinoides, sendo o canabidiol (CBD) e o tetraidrocanabinol (THC) os mais estudados.

“Tais substâncias interagem com o sistema endocanabinoide do organismo, responsável por regular funções como controle motor, dor, humor e sono – todas frequentemente afetadas em pacientes com Parkinson”, explica o especialista. A combinação e a dosagem ideais, no entanto, ainda são objetos de pesquisa.

“O uso da Cannabis medicinal deve sempre ser acompanhado por um profissional de saúde qualificado. Países como Canadá, Estados Unidos e Brasil já permitem seu uso sob prescrição médica, em situações específicas”, informa Caboclo.

<><> Outras inovações?

"Há uma expectativa de que, no futuro, se possa envolver a inteligência artificial nos tratamentos, de forma a ter soluções mais personalizadas para cada paciente", indica Marcelo Valadares.

"Nós temos também a perspectiva da chegada ao Brasil da Levodopa de gel via intestinal. Ela é importante pra alguns pacientes, com quadros bastante avançados, que não tem indicação de cirurgia. Temos também em caráter de pesquisa estudos visando terapia gênica e estudos estudos com células tronco, que estão em fases bem iniciais, mas prometem trazer novas opções de tratamento", conclui o neurocirurgião.

        Médicos testam implante de células-tronco para tratar Parkinson nos EUA

Cientistas da Keck Medicine, da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, deram início a um ensaio clínico experimental que pode mudar o futuro do tratamento da doença de Parkinson.

A pesquisa testa o implante de células-tronco cultivadas em laboratório diretamente no cérebro, com o objetivo de restaurar a capacidade do órgão de produzir dopamina, o componente químico cuja ausência causa os principais sintomas da enfermidade.

O Parkinson é uma condição neurológica de longo prazo que piora gradualmente. Atualmente, embora existam tratamentos para amenizar os sintomas, não há cura ou terapia comprovada que retarde o avanço da doença.

A escassez de dopamina, mensageiro químico essencial para o movimento, memória e humor, leva a tremores, rigidez muscular e lentidão motora.

A nova estratégia utiliza células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs). Diferente das células embrionárias, as iPSCs são criadas a partir de células adultas (como pele ou sangue) e reprogramadas para se transformarem em qualquer tipo de célula. No caso do estudo, elas são desenvolvidas para se tornarem neurônios produtores de dopamina.

"Acreditamos que essas células podem amadurecer de forma confiável e oferecer a melhor chance de reiniciar a produção de dopamina no cérebro", afirmou Xenos Mason, neurologista da Keck Medicine e copresquisador do estudo.

<><> Como funciona o procedimento

Durante a cirurgia, os médicos realizam uma pequena abertura no crânio e, com o auxílio de imagens de ressonância magnética em tempo real, implantam as células nos gânglios basais, região que controla os movimentos.

Após a cirurgia, os pacientes são monitorados por um período de 12 a 15 meses para observar melhorias motoras e possíveis efeitos colaterais. O acompanhamento a longo prazo deve durar até cinco anos.

"Se o cérebro puder produzir níveis normais de dopamina novamente, a doença de Parkinson pode ser retardada e a função motora restaurada", explicou o neurocirurgião Brian Lee, principal investigador do estudo.

<><> Próximos passos

A terapia, denominada RNDP-001 e desenvolvida pela Kenai Therapeutics, recebeu o status de "fast-track" da FDA (órgão regulador dos EUA), o que acelera o processo de revisão e desenvolvimento.

A Keck Medicine é um dos três locais nos Estados Unidos que participam deste ensaio clínico inicial, que conta com 12 voluntários em estágios de moderado a grave da doença.

O objetivo final dos pesquisadores é consolidar uma técnica capaz de reparar funções motoras e oferecer uma qualidade de vida significativamente superior aos pacientes que hoje convivem com os limites impostos pelo Parkinson.

        Como é o impacto do diagnóstico para os pacientes

O neurologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Edson Issamu Yokoo, explica de que forma os pacientes costumam receber o diagnóstico e segundo ele, "se mostram assustados e muito temerosos".

O médico conta que isso se deve a "um entendimento global, um entendimento social, que a doença de Parkinson é uma doença altamente incapacitante, com comprometimentos, impactos importantes da atividade da vida diária, e na cabeça deles já se forma aquela imagem que a pessoa cometida vai terminar de maneira incapacitada, tremendo, uma cadeira de rodas, tudo isso faz com que eles tenham uma imagem muito assustadora sobre o diagnóstico de doença de Parkinson".

Issamu Yoko ressalta, no entanto, que uma grande parcela dos pacientes que tem a doença de Parkinson consegue controlar seus sintomas e nem sempre vão evoluir para esse estado em que as pessoas geralmente têm essa ideia de algo mais assustador.

Marcelo Valadares, neurocirurgião funcional e pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), aponta que "algumas pessoas consideram isso como uma doença terminal, erroneamente". De acordo com o especialista, o impacto do diagnóstico pode ser reduzido com orientação adequada e suporte emocional da família.

<><> Aceitação do diagnóstico

O inconformismo do diagnóstico, segundo os médicos, também se deve ao fato da doença ser degenerativa, ou seja, progressiva e sem cura. No entanto, terapias podem reduzir a possibilidade do quadro ser agravado.

Segundo Valadares, o desespero ao receber a notícia está ligado ao medo e ao desconhecimento sobre a doença. "Obviamente, ninguém quer ter uma doença. E à medida que você consegue orientar, o desconhecimento vai deixando de existir e o paciente compreende melhor e o tempo ajuda nessa aceitação".

"Existem sim mudanças na vida cotidiana de muitos pacientes, mas eles começam a encarar isso de uma maneira mais positiva e proativa. No fim, cada pessoa tem seu tempo próprio para lidar com a aceitação. É importante que o profissional que entende que pode orientar com o seu conhecimento esteja próximo e possa oferecer o suporte emocional adequado para o paciente", acrescentou o especialista.

Issamu ressalta que "aceitar o seu diagnóstico de maneira serena e tranquila é um fator muito importante para o equilíbrio e evolução satisfatória da sua doença, evitando que se adquira complicações adicionais, como perturbações emocionais, ansiedade, depressão, manter o equilíbrio para que as pessoas ao redor também não se desequilibrem emocionalmente com o diagnóstico ou com a manifestação da doença".

<><> Apoio da família

Especialistas ressaltam que além do apoio familiar, se informar sobre a doença é essencial para diminuir o inconformismo diante do diagnóstico.

"Os pacientes e seus familiares podem melhorar muito a qualidade de vida em primeiro lugar se informando sobre a doença, buscando entender quais as causas, em que situações determinados sintomas aparecem e o que pode ser feito para melhorar aquilo. Eles podem buscar o apoio profissional multidisciplinar, isso é muito importante, porque essa é uma doença que normalmente não é tratada só por um médico, é preciso também um fisioterapeuta, um fonoaudiólogo, psicólogo", aponta o neurocirurgião Valadares.

"Então muitas vezes uma equipe é necessária para pacientes com determinados quadros que não são leves. É preciso manter uma rotina ativa, é muito importante que o paciente faça exercícios físico regularmente, isso melhora a mobilidade e alivia os sintomas a medida que o paciente desenvolve a parte física, e as limitações físicas ficam menos perceptíveis. É preciso ter uma rede de apoio emocional, familiares e amigos são muito importantes para escutar, auxiliar e participar da vida dos pacientes, ter uma convivência mais positiva", completa.

<><> Sintomas de Parkinson

No dia a dia, os pacientes passam a lidar com sintomas motores e não motores. Os motores estão ligados "aos tremores, a rigidez, a dureza para os movimentos, a lentidão e ainda problemas de equilíbrio. São os principais sintomas relacionados à parte física e isso pode afetar tarefas simples como vestir uma roupa, comer, caminhar, trabalhar ou até mesmo se comunicar".

Por outro lado, também existem os sintomas de depressão, ansiedade, alterações cognitivas, dificuldade de se alimentar, dificuldade de engolir, o que pode aparecer em determinado momento da doença que precisa também de uma série de adaptações na rotina diária.

As dificuldades que o paciente já vem cursando também envolvem transtornos intestinais, com uma obstipação e transtornos do sono. Isso porque "o Parkinson interfere numa das fases do sono, que faz com que a pessoa não durma direito, não tenha uma boa recuperação e tenha dificuldades no dia a dia", segundo Issamu Yokoo.

 

Fonte: CNN Brasil


Nenhum comentário: