As
forças sociais por trás da coalizão MAGA
Debates
recentes sobre guerra, imperialismo e violência estatal interna alimentaram
especulações sobre possíveis fissuras na coalizão
MAGA. Contudo, as divisões dentro do MAGA podem não representar uma ameaça
séria à durabilidade da política de Donald Trump, focada em sua imagem, que
abrange desde aventuras no exterior e o uso do ICE (Serviço de Imigração e
Alfândega dos EUA) até o uso confortável do poder coercitivo. Ainda assim,
essas fissuras merecem atenção especial — principalmente na medida em que podem
indicar oportunidades políticas.
LEIA A
ENTREVISTA:
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Estamos aqui para discutir se rachaduras estão se
formando dentro do bloco de direita contemporâneo e se essas rachaduras
poderiam criar novas oportunidades políticas para a esquerda. Recentemente,
houve um aumento nos comentários sobre uma possível divisão na coalizão de
direita, com o ponto de conflito mais visível sendo a política externa,
particularmente a recente invasão da Venezuela. Isso incomodou algumas figuras
proeminentes — Candace Owens, Marjorie Taylor Greene — e levou a especulações
sobre tensões crescentes dentro do movimento MAGA em geral. Ao mesmo tempo, não
me parece claro que o que estamos vendo vá resultar em uma ruptura profunda ou
significativa. As pesquisas mostram uma
oposição limitada à invasão da Venezuela entre os eleitores republicanos, e
momentos anteriores que foram apresentados como pontos de ruptura da coalizão —
a disputa entre Steve Bannon e Elon Musk ou o conflito mais recente
entre Charlie Kirk e Owens — acabaram gerando mais controvérsia do que debate
acalorado. O que você acha desses momentos e do discurso que os envolve?
JOHN
GANZ - Em primeiro lugar, acho importante pensar nas fissuras nos termos das
próximas eleições. Alguns candidatos têm bases eleitorais ou ambições que
tornam o posicionamento como anti-intervencionistas radicais politicamente
vantajoso. Marjorie Taylor Greene renunciou ao cargo na Câmara dos
Representantes e parece ter outras ambições — possivelmente até a presidência,
por mais improvável que isso possa parecer. Thomas Massie é uma das poucas
figuras que poderíamos chamar de “isolacionista” convicto, e essa não é uma
posição da qual ele tenha se afastado. Portanto, há claramente setores da
direita que continuam a se apegar a essa tradição isolacionista e veem vantagem
política em mantê-la. Os conflitos entre podcasters e streamers, e o drama
online mais amplo que envolve esses debates, tendem a ser tanto efêmeros quanto
espetaculares. Essas brigas surgem e desaparecem, e as posições envolvidas são
frequentemente inconsistentes. Se você observar Nick Fuentes, verá uma
distinção notável dentro de seu segmento da direita entre o intervencionismo em
favor de Israel e o que seus apoiadores definiriam como uma política externa
nacionalista estadunidenses. O imperialismo puro e simples não os incomoda
tanto; o que eles combatem são instituições como a OTAN e a ONU — e Israel, por
razões que não são particularmente admiráveis. Por outro lado, Fuentes aplaudiu
abertamente a intervenção na Venezuela. Na realidade, essa posição é coerente
com uma longa tradição da direita: uma política externa soberanista ou nacionalista
que não é nem pacifista nem genuinamente isolacionista. Ela favorece a
aplicação unilateral do poder estadunidense, particularmente no Hemisfério
Ocidental, e é preciso dizer francamente que essa tradição historicamente se
mostrou muito mais confortável com o uso da força contra populações não
brancas.
Em
relação a esses debates de política externa que geram divisões significativas,
as tensões são reais, mas limitadas. É evidente que JD Vance está tentando se
posicionar para atrair um eleitorado anti-intervencionista, e divisões podem
surgir nas primárias republicanas, como frequentemente acontece. Um candidato
pode representar essa vertente nacionalista-soberanista, enquanto outro —
alguém como Marco Rubio — tenta reabilitar uma forma de neoconservadorismo, mas
um neoconservadorismo desprovido de sua retórica humanitária tradicional. O
senso comum afirma que a política externa raramente é decisiva para os
eleitores estadunidenses, mas isso não é totalmente preciso. Ainda assim, eu
alertaria fortemente a não depositar esperanças em fissuras dentro do núcleo
ideológico do MAGA. O desenvolvimento mais promissor, a julgar pelas pesquisas,
reside nos eleitores menos comprometidos — aqueles que são instintivamente
pacifistas ou céticos em relação a intervenções estrangeiras. Esses eleitores
parecem cada vez mais receptivos a críticas ao intervencionismo, e temos visto
uma deserção significativa entre os eleitores moderados de Trump, que veem as
ações recentes como fracassos e traições, muitas vezes com um sentimento de
alarme. O núcleo ideológico do MAGA, por outro lado, pode se fragmentar
temporariamente, mas tende a se reestruturar. O que realmente estamos vendo é
uma decepção entre os eleitores que apoiaram Trump condicionalmente, e não uma
crise real de sua base ideologicamente comprometida.
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Intervencionismo MAGA
·
Eu também gostaria de perguntar sobre a genealogia mais
longa das correntes anti-intervencionistas da direita atual. Em When
the Clock Broke, você reconstrói a história do paleoconservadorismo como um
precursor de Trump, mostrando como a hostilidade dos paleoconservadores ao
internacionalismo liberal, às instituições de elite e à política de consenso do
pós-guerra ajudou a preparar o terreno ideológico para o populismo de direita
atual. Existe também uma tradição relativamente independente do libertarianismo
estadunidense que moldou a política do Tea Party e ganhou destaque público
durante episódios como o impasse de Bunkerville. Em uma conversa recente com
Elle Reeve, você descreveu o que chamou de “canal libertário-nazista” na
política de direita contemporânea e sugeriu que o próprio libertarianismo, de
certa forma, perdeu força ou foi radicalmente reconfigurado. Você poderia falar
um pouco sobre como entende essa transição?
JG - O
chamado “caminho do libertarianismo para a extrema-direita” foi algo que muitos
observadores notaram, visto que um número significativo de pessoas associadas
ao libertarianismo migrou para a direita, aderindo a políticas abertamente
fascistas. Há várias razões para isso. O libertarianismo estadunidense,
particularmente suas variantes mais radicais, sempre foi altamente racializado.
Ele também funcionou como uma corrente dissidente na política dos EUA, alienada
tanto da centro-direita quanto da centro-esquerda, e, portanto, propensa a
formar alianças com uma ampla gama de movimentos marginais e de oposição. Essa
dinâmica tornou as guinadas à direita mais prováveis. Existiu, e ainda existe,
uma corrente de paleolibertarianismo cujas ideias e movimentos estratégicos
prenunciaram aspectos do trumpismo. Essas figuras eram geralmente
anti-intervencionistas com princípios mais firmes. Murray Rothbard é um bom
exemplo: apesar de suas sérias falhas, sua posição mais consistente foi a
oposição ao que ele chamava de “Estado de bem-estar social” estadunidense, e
ele se manteve notavelmente firme em sua oposição às intervenções militares dos
EUA no exterior. O outro lado da fórmula paleo — os paleoconservadores ou
nacionalistas estadunidenses — nunca foi consistentemente pacifista. Sam
Francis, por exemplo, acreditava que os Estados Unidos deveriam seguir uma
política externa enérgica e unilateralista, destinada a proteger as indústrias
e os grupos eleitorais associados ao que era então chamado de Nova Direita. Essa
vertente está muito mais próxima do que temos no poder hoje. Ela entende os
Estados Unidos como um império concorrente entre outros impérios. Às vezes,
essa perspectiva assume um caráter explicitamente racial, mas sua lógica
central é geopolítica, e não doutrinária. O domínio dessa tradição significa
que o número de anti-intervencionistas genuinamente convictos na direita é
bastante pequeno. Isso ficou evidente após a Venezuela, quando muitas figuras
que haviam criticado intervenções anteriores rapidamente se alinharam a ela.
Para sermos justos, esse padrão não é exclusivo da direita. Na política
estadunidense em geral, o partido na oposição frequentemente denuncia a
política externa do partido no poder, apenas para continuar com políticas
semelhantes assim que assume o cargo. O que se apresenta como princípio muitas
vezes se revela como partidarismo.
·
Isso levanta uma questão adicional sobre os resquícios do
neoconservadorismo na política estadunidense atual. Em um debate recente com
Ross Barkan, você apontou que os regimes fascistas clássicos nunca foram
formações unificadas ou internamente coerentes; eles sempre refletiram uma
amálgama desigual de conservadores do antigo regime e novos militantes de
direita. Nesse sentido, os fascismos reais sempre foram permeados por
contradições, em vez de serem totalmente integrados. Gostaria que você
comentasse como vê essa dinâmica se desenrolando no momento atual. Ou seja,
como os elementos conservadores ou neoconservadores mais tradicionais interagem
com as tendências de direita mais recentes e, em alguns aspectos, mais
radicais?
JG - Podemos entender boa parte disso por meio
de analogias históricas. No início do século XX, havia uma corrente belicista,
nacionalista e imperialista na política italiana que via no fascismo uma
oportunidade para concretizar objetivos de longa data, como o irredentismo e a
expansão colonial. Uma dinâmica semelhante existia na Alemanha. A Alemanha
havia sido um império colonial antes da Primeira Guerra Mundial e continuou a
perseguir ambições imperialistas mesmo depois de perder suas colônias. Historicamente,
o fascismo surgiu em contextos onde o hipernacionalismo e a ambição imperial já
existiam, e o fascismo acelerou, absorveu ou cooptou esses elementos. [Adolf]
Hitler dependia do apoio de facções militaristas dentro da política alemã, da
burocracia e das forças armadas — grupos antidemocráticos e ávidos por
reafirmar o poder contra a França e a Rússia, mesmo que não fossem eles
próprios nacional-socialistas. Eles viam o fascismo como uma oportunidade. A
reaproximação entre neoconservadores, falcões e Trump pode ser entendida em
termos semelhantes. O que emerge é uma coalizão que inclui imperialistas da
velha guarda que podem não compartilhar as ambições domésticas mais radicais da
ala fascista, mas que, no entanto, estão profundamente comprometidos com o
expansionismo e o militarismo no exterior, ainda que de forma um tanto
moderada. Mas isso levanta uma das dimensões mais interessantes do atual debate
sobre o fascismo em termos de política externa: a Itália e a Alemanha eram
potências imperiais fracassadas ou de segunda linha que tentavam desafiar
potências mais dominantes, e seu radicalismo se dava, em parte, por uma função
de sua posição subordinada dentro da hierarquia imperial. Essa dinâmica não se
aplica obviamente ao caso dos EUA.
O que
distingue o movimento MAGA é uma profunda divisão nos EUA sobre as percepções
do poder imperial estadunidense. Da perspectiva das elites costeiras, liberais
e intervencionistas, o império estadunidense permanece em grande parte intacto.
Até o momento, a OTAN persiste, os Estados Unidos mantêm a dominância em
instituições como a ONU e a OMC [Organização Mundial do Comércio] e, embora
haja competição com a China, a primazia estadunidense está fundamentalmente
assegurada. Em contrapartida, outra parcela da população percebe os EUA como
uma potência em declínio que precisa de redenção nacional. Aqueles que
compartilham essa visão são muito mais propensos a apoiar Trump, que ecoa seu
sentimento de declínio e humilhação.
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“Imperialismo de idiotas”
·
Isso me faz lembrar de como, após a invasão da Venezuela,
vimos uma onda de comentários sugerindo que o governo Trump simplesmente havia
“tirado a máscara” do imperialismo estadunidense. Obviamente, havia referências explícitas à
Doutrina Monroe na Estratégia de Segurança Nacional, e na esquerda esse tipo de
comentário era frequentemente enquadrado por meio de comparações com teorias
clássicas do imperialismo — algo como: “Trump leu Lênin falando sobre imperialismo
e decidiu que gostava”. No entanto, você escreveu recentemente que o que
estamos vendo hoje não se encaixa perfeitamente nas explicações marxistas
clássicas do imperialismo. Você poderia reconstruir esse argumento e explicar o
que considera distintivo nessa forma atual de prática imperial?
JG - A
teoria leninista do imperialismo baseia-se na ideia de que o capital excedente
no núcleo imperial deve ser exportado para o exterior a fim de se manter
lucrativo. Lênin identifica quatro características centrais do imperialismo,
mas a exportação de capital é fundamental: a substituição da exportação de
mercadorias pela exportação de capital é, para ele, a mudança determinante. Trump
pode ter presumido que os grandes conglomerados petrolíferos estariam ansiosos
para exportar capital nessas condições, mas, na prática, eles têm se mostrado
bastante relutantes em fazê-lo. No modelo leninista clássico, o capital
monopolista ou financeiro — entendido como a fusão da grande indústria e do
setor bancário — busca oportunidades lucrativas para investimentos no exterior.
Essa dinâmica não parece se aplicar aqui. O capital financeirizado
contemporâneo, diferentemente do capital financeiro descrito por Lênin, é
profundamente avesso ao investimento em capital fixo. Prefere manter-se
líquido. A maioria das companhias petrolíferas hoje não está inclinada a
investimentos em produção em larga escala; preferem acumular caixa e limitar a
exposição. Há também tensões internas no setor: os Estados Unidos são agora um
grande produtor de petróleo, e os produtores nacionais têm poucos incentivos
para financiar projetos que possam prejudicar seus próprios preços. Pedir aos
investidores petrolíferos estadunidenses que invistam capital na Venezuela para
deprimir os preços globais é, da perspectiva deles, uma proposta irracional. O que
talvez seja mais esclarecedor é o que eu chamei, meio em tom de
brincadeira, de “imperialismo
amador”. Isso se refere a uma camada de empresas menores e mais especulativas —
que muitas vezes têm conexões políticas dentro da administração — que não
possuem as estruturas corporativas e a exposição ao mercado de ações dos
grandes conglomerados. Essas empresas menores são atraídas por empreendimentos
de curto prazo e alto risco: aventuras no exterior que prometem ganhos rápidos
em vez de uma acumulação lenta e de longo prazo. Elas parecem mais dispostas a
assumir o papel que Lênin atribuiu ao capital financeiro em sua leitura do
imperialismo.
Rosa
Luxemburgo também pode ser relevante aqui, pois sua teoria do imperialismo
enfatiza o dumping de mercadorias em mercados externos, em vez
da exportação de capital. As repetidas fantasias de Trump sobre empresas
estadunidenses vendendo mercadorias no exterior se alinham mais estreitamente
com sua estrutura, tornando sua obra digna de ser revisitada. Ainda mais
convincente, porém, pode ser a teoria do imperialismo de Hannah Arendt, que se
baseou fortemente em Luxemburgo. Lênin entendia o imperialismo como o estágio
final ou mais elevado do capitalismo, no qual os capitalistas são forçados a
uma fusão com o Estado para sustentar a acumulação. Arendt, por outro lado,
trata o imperialismo como o início da captura burguesa do Estado, onde a ética
empresarial da expansão perpétua se torna política nacional. Essa concepção de
imperialismo — como o imperativo burguês da expansão transformado em um projeto
de Estado — captura muito do que estamos vendo hoje e merece mais atenção. Outra
visão do imperialismo que vale a pena analisar é a de Karl Kautsky.
Ridicularizado por muito tempo por sua posição, Kautsky sugeriu que as
potências imperiais poderiam eventualmente cooperar, formando algo como um
cartel internacional que exploraria regiões periféricas, evitando guerras
destrutivas entre si. Daí surgiu uma fantasia social-democrata, derivada de
[Rudolf] Hilferding, de que a crescente cooperação e socialização entre as
grandes potências eventualmente tornaria possível uma transição pacífica para o
socialismo, uma vez que o capitalismo já teria realizado grande parte do
trabalho organizacional. Lênin rejeitou isso de forma categórica, insistindo
que as potências imperialistas inevitavelmente se voltariam umas contra as
outras. Contudo, durante grande parte do período pós-guerra, a ordem global
assemelhava-se mais à visão de ultraimperialismo de Kautsky: um sistema concebido
para gerir conflitos entre as grandes potências através de instituições e
acordos. Obviamente, há algo de convincente na insistência de Lênin de que as
rivalidades imperiais tendem ao conflito, assim como havia algo de profético na
crença de Kautsky de que a cooperação imperial era possível. O que estamos
vendo agora é algo como um choque entre essas duas visões de mundo, embora os
mecanismos em ação possam não corresponder precisamente às expectativas de
Lênin ou de Kautsky.
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A governança como espetáculo
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Um dos aspectos fascinantes da invasão da Venezuela —
como você mencionou — é que os principais atores da indústria petrolífera
americana não parecem tão entusiasmados quanto poderíamos esperar. Por outro
lado, essa reticência não parece ser compartilhada pelos eleitores
republicanos: as pesquisas ainda mostram uma oposição extremamente limitada.
Você vê isso como mais um caso em que Trump implementa políticas que parecem
materialmente contraproducentes — como sua política econômica — mas sem uma
erosão significativa do apoio de sua base? Ou você acha que a deserção está
começando a ocorrer — mesmo que não se manifeste como uma mudança drástica em
dados agregados de grande escala, como o índice geral de aprovação?
JG - Em
primeiro lugar, o movimento MAGA possui um núcleo extremamente comprometido que
aceita praticamente qualquer linha de propaganda e justifica quase tudo, mesmo
a ponto de prejudicar seriamente seus próprios interesses. O desenvolvimento
mais interessante — e mais promissor — reside nas margens: eleitores que não
são ideologicamente comprometidos, que podem inicialmente aceitar uma
narrativa, mas não estão preparados para acreditar em toda propaganda
indefinidamente. De qualquer forma, a situação na Venezuela é ambígua. Tem sido
uma certa decepção para os neoconservadores, que há muito desejam a derrubada
do regime e esperavam esse desfecho. Trump, no entanto, parece estar mais
interessado em coerção e extorsão do que em mudança de regime. Em última
análise, acho que vale a pena analisar todo o episódio sob a perspectiva da
propaganda. Como o próprio Trump provavelmente diria, a invasão da Venezuela
teve um aspecto cinematográfico: impecável, taticamente impressionante e
visualmente atraente. Este é o modelo que eles parecem determinados a repetir —
produzir vinhetas táticas discretas que pareçam poderosas e decisivas para o
seu público. É exatamente com isso que muitos reacionários estadunidenses
fantasiam. É Pete Hegseth em poucas palavras: a política moldada pela estética
televisiva.
A mesma
lógica se aplica às recentes operações do ICE [Serviço de Imigração e
Alfândega]. Grande parte da estratégia gira em torno da produção de imagens
impactantes, mas imagens são difíceis de controlar. Não está claro se as
imagens vindas de Minnesota beneficiaram o governo. Alguns apoiadores podem
gostar de ver agentes de segurança mascarados confrontando violentamente
liberais, mas a maioria das pessoas não reage positivamente a esse tipo de
cena. Isso aponta para uma ilusão central comum às mentalidades autoritárias e
totalitárias: a crença de que os líderes podem fabricar imagens e prever com
segurança como o público reagirá. Na realidade, a resposta do público é muito
menos previsível. Quanto à política externa, parece-me que qualquer ímpeto
inicial conquistado pelo governo foi desperdiçado. Foi minado, primeiro, pelo
episódio da Groenlândia e, depois, pela subsequente reversão dessa postura. A
postura belicosa em relação à Groenlândia foi intrigante, visto que os tratados
existentes com a Dinamarca e a OTAN já concedem aos Estados Unidos ampla margem
de manobra naquela região. Portanto, a intimidação pareceu desnecessária. Poderíamos
ser inclinados a analisar tudo isso por uma ótica puramente materialista —
mapeando frações de capital, interesses de classe e estratégias de acumulação.
Mas essa abordagem, por si só, é insuficiente. <><> Aberturas
populistas
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Gostaria de saber sua opinião sobre o que tudo isso pode
significar para a esquerda. Uma preocupação é que, mesmo no melhor cenário
possível — em que a coalizão de direita se desfaz seriamente — o beneficiário
provavelmente será o que o Partido Democrata tiver a oferecer, um
desenvolvimento que não se traduziria necessariamente em ganhos substanciais
para a esquerda. Aliás, podemos facilmente imaginar dissidentes do MAGA sendo
reabilitados como símbolos de moderação e estabilidade — uma manobra que empurra
a política tradicional para a direita, não para a esquerda, sem resolver o
problema mais profundo dos progressistas em relação à construção de hegemonia.
Como você acha que a esquerda deveria se posicionar diante das recentes
discussões sobre “divisões” e “falhas” no movimento MAGA?
JG - Primeiramente,
gostaria de dizer que, como alguém que trabalha dentro de uma tradição
antifascista, sou profundamente cético em relação a qualquer suposta
reaproximação entre direita e esquerda. Qualquer anti-imperialismo de direita,
como vimos repetidamente, é insincero e leviano. Historicamente, houve figuras
na esquerda anti-imperialista que expressaram curiosidade sobre Benito
Mussolini e Adolf Hitler porque se consideravam opositores do poder
anglo-estadunidense. Esse instinto é, sem dúvida, assustador e indefensável. Mas
existe uma corrente mais ampla e duradoura na política estadunidense: um
populismo genérico profundamente cético em relação à riqueza e à guerra, e que
frequentemente entende os dois como interligados. Isso nem sempre resulta em
uma análise sofisticada, e às vezes leva a conclusões equivocadas, mas há muito
tempo existe nos Estados Unidos um eleitorado estabelecido favorável a um
populismo pacifista que vê as guerras como projetos das elites e das grandes
corporações. Enquanto os republicanos permanecerem no poder e continuarem
envolvidos em corrupção e aventuras militares, esse instinto — essa tradição,
esse bloco eleitoral — torna-se novamente politicamente relevante. Os
democratas já apelaram com sucesso a esse eleitorado no passado. Bernie Sanders
conseguiu se comunicar eficazmente com esse grupo porque está claramente
conectado a ele.
A
opinião pública sobre o Oriente Médio também mudou substancialmente. Sou a
última pessoa a minimizar o papel do antissemitismo na política estadunidense
neste momento, mas mesmo na direita — particularmente na centro-direita — há um
crescente ceticismo em relação a Israel que não se encaixa perfeitamente no
antissemitismo de direita. Muitas pessoas não nutrem hostilidade contra os
judeus nem têm uma visão de mundo conspiratória; elas simplesmente acreditam
que a política dos EUA em relação a Israel deveria ser diferente. Essa mudança
é importante. Muitos eleitores apoiaram Trump porque ele se apresentou como um
populista e um opositor do intervencionismo. Esse apelo não era irracional, mas
é óbvio que Trump o traiu. Um candidato democrata que possa argumentar de forma
convincente que Trump era um falso populista e que abandonou uma tradição
existente de populismo moderado poderia plausivelmente conquistar alguns desses
eleitores. Outra dinâmica importante é o papel da IA e do capital de alta
tecnologia. Hoje, temos uma massa de elites tecnológicas
agressivamente belicistas e entusiastas do rearme e de guerras no exterior —
seja na Ucrânia, em Israel ou na Venezuela —
porque lucram com a venda de sistemas de armas e infraestrutura de vigilância.
Isso cria tensões na direita populista. Figuras como Steve Bannon e Nick
Fuentes são abertamente hostis à direita tecnológica,
enquanto JD Vance tenta ficar em cima do muro entre ambos os campos. Isso abre
uma oportunidade estratégica. Uma crítica genuinamente populista deveria ter
como alvo o belicismo dos oligarcas da tecnologia. Os vilões não são
necessariamente os magnatas do petróleo, mas sim as elites tecnológicas que
lucram com a militarização e a vigilância interna. Há também uma dimensão
materialista nisso. Ao contrário de alguns na esquerda que descartam a IA como
algo superestimado, acredito que ela impulsionará uma onda significativa de
proletarização. Esse processo será doloroso e desestabilizador, mas também
poderá criar condições nas quais as pessoas se tornem mais receptivas a ideias
e políticas populistas de esquerda. Esses acontecimentos sugerem uma possível
abertura.
Fonte:
Entrevista com John Ganz - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

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