quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

José Luís Fiori: No caminho do Caos

Na última semana de 2025, o sistema mundial entrou em estado de hipertensão caótica. Em apenas sete dias, e quase simultaneamente, os Estados Unidos fecharam o cerco marítimo e proibiram a circulação aérea sobre a Venezuela, sem que os dois países estivessem em guerra. A China cercou a ilha de Taiwan e realizou um exercício de guerra com fogo real, incluindo a interdição de alguns segmentos de seu espaço aéreo, em resposta às ameaças militaristas do Japão. A Ucrânia atacou a casa do presidente russo Vladimir Putin, na região de Novgorod, utilizando 91 drones e com apoio da inteligência inglesa e norte-americana. A Rússia anunciou que seu novo sistema de mísseis Oreshnik – indefensáveis e com capacidade nuclear – estava pronto para uso imediato, em resposta ao ataque da Ucrânia, a poucos minutos de distância de Berlim, Paris e Londres. Os Estados Unidos bombardearam o território da Nigéria e anunciaram novos ataques aéreos em caso de necessidade, segundo seu arbítrio. A Arábia Saudita bombardeou o Iêmen, sem que houvesse declaração de guerra. Inglaterra e França bombardearam o território da Síria sem aviso prévio. E por fim, os Estados Unidos atacaram o território venezuelano e sequestraram seu presidente, Nicolás Maduro.

O mais impactante foi sem dúvida o rapto do presidente venezuelano, seguido – como em outros ataques américas - de um tweet de Donald Trump, contendo ameaças e difundindo o medo que é uma peça essencial no exercício do poder. Assim mesmo, o ataque em si não representa uma novidade nas relações dos EUA com a América Latina, muito menos na história do “sistema interestatal” inventado pelos europeus. Os defensores do Direito Internacional em geral falam muito pouco, ou omitem diretamente uma de suas cláusulas fundamentais, a “cláusula de exclusão de ilicitude”, que garantiu às Grandes Potências do sistema interestatal (nunca mais do que 4 ou 5) o “direito” autoatribuído e a impunidade para de atacar e invadir o território de outros países, sem respeitar o “direito à soberania” considerado como a “pedra angular” do sistema de estados nacionais consagrada pelos europeus através da chamada Paz de Westfália, assinada em 1648.

A Inglaterra e a França usaram e abusaram deste “direito à invasão” nos últimos 200 anos, e acabaram de bombardear o território da Síria, sem nenhum tipo de permissão internacional, por sua livre e exclusiva vontade. E os Estados Unidos ingressaram neste pequeno clube dos países “com direito à invasão de terceiros”, em meados do século XIX, quando se apropriaram dos territórios mexicanos da Califórnia e do Texas, e iniciaram sua escalada imperial, após a guerra contra a Espanha, em 1898, seguida pela conquista de Cuba, Filipinas, República Dominicana, Haiti, Nicarágua, Panamá e Porto Rico – este segue até hoje sob o domínio norte-americano.

Em 1942, o geopolítico norte-americano Nicholas Spykman publicou uma obra fundamental para entender a estratégia internacional dos EUA depois da Segunda Guerra Mundial. Spykman sustenta teses e faz propostas geopolíticas que reaparecem a cada momento por trás do discurso aparentemente errático e confuso de Donald Trump e do seu Secretário de Estado, Marco Rubio.

Nicholas Spykman considerava que o Caribe e o Golfo do México faziam parte de um mesmo “mar interior” dos Estados Unidos, no qual México, Colômbia e Venezuela deveriam estar sob dependência direta dos Estados Unidos, por razões de segurança nacional, sem necessitar de nenhum tipo de justificativa doutrinária ou ideológica. Quase a mesma ideia que reaparece textualmente na nova “Estratégia de Segurança Nacional” dos Estados Unidos, divulgada pelo governo de Donald Trump no início de dezembro de 2025.

O texto da “nova estratégia” contém inconsistências e carrega a marca da pressa e da colagem de várias posições que não são convergentes entre si. Mas não há dúvida de que a parte dedicada ao Hemisfério Ocidental foi escrita e incluída de forma apressada para justificar a ocupação militar americana do Caribe, e o seu ataque futuro à Groenlândia que também fica dentro do chamado Hemisfério Ocidental. E neste ponto não há que ter dúvidas: enquanto durar o governo de Donald Trump, depois do ataque à Venezuela, o que se deve prever é um assédio constante ao México, e um ataque com a proposta de submissão de Colômbia, Nicarágua e Cuba – neste caso, com o objetivo de destruir a própria memória da Revolução Cubana. Mas não é provável que ocorra nenhuma intervenção militar no resto da América do Sul – nem seria necessário, porque a maioria dos governos sul-americanos já está de joelhos por vontade própria, aceitando a instalação de bases militares em seus territórios que assegurem, no longo prazo, o cerco militar da massa continental, e do Brasil em particular. Os demais sul-americanos não têm maior importância geopolítica e não representam nenhuma ameaça de fato para os Estados Unidos, a despeito da presença econômica da China.

Apesar do alvoroço em torno da questão hemisférica, amplificado pelo ataque à Venezuela, o verdadeiro interesse e o objetivo central da Nova Estratégia de Segurança dos Estados Unidos não é a América Latina, mas a conquista da Groenlândia, a destruição da União Europeia, o esvaziamento da OTAN e a proposta de um novo modus vivendi com a Rússia e a China. É possível que Donald Trump jamais tenha lido Spykman, nem conheça sua tese de que o domínio mundial dos EUA dependerá de sua capacidade de construir um cerco militar em torno da “massa continental” eurasiana. Mas não há dúvida de que este é um objetivo central da proposta de Trump, de incorporar a Groenlândia ao território norte-americano, completando o cerco atômico da Rússia e da China pelo lado do Ártico, onde estaria a nova grande fronteira geopolítica e geoeconômica do mundo. Com o avanço do degelo das regiões polares, o Ártico aparece como importante “ponto de fuga” do sistema, por onde se poderá escoar a energia criada pela intensificação da luta entre as grandes potências. E onde deverão se multiplicar os novos espaços de competição entre as grandes corporações do capitalismo global.

A proposta de deslocamento ao norte da “fronteira russa” da disputa do poder global explica em boa medida o ataque demolidor da “Nova Estratégia” de Trump contra a União Europeia, contra o formato atual da OTAN e contra todos os valores cultivados pela “ética internacional” e pelo “universalismo” da cultura europeia. O novo documento fala explicitamente em devolver a Europa à sua velha condição de “mosaico” de pequenos Estados independentes e competitivos entre si, de forma a facilitar sua tutela bilateral pelos Estados Unidos.

Muitos analistas consideram que esse novo documento estratégico americano contém uma proposta implícita de construção de uma nova “ordem mundial” multipolar e multicivilizatória, sustentada por três grandes impérios ou “zonas de influência”, que seriam comandados por Estados Unidos, China e Rússia. Alguns fatos recentes, entretanto, e algumas outras realidades consolidadas parecem contradizer esta tese e reforçar uma hipótese diametralmente oposta.

Em primeiro lugar, há que ter presente que os Estados Unidos ainda são a única potência no mundo que possui e comanda uma infraestrutura militar global, com capacidade de intervenção imediata em quase todas as latitudes. Em cima disso, o presidente Trump acaba de anunciar para 2027 um aumento de 50% do orçamento militar norte-americano, no valor de 1,5 trilhão de dólares. Faz alguns meses Donald Trump já havia anunciado um programa de 830 bilhões de dólares para a criação um sistema de defesa aérea “impenetrável”, que ele chamou de Golden Dome, e um ambicioso projeto de modernização da Marinha dos Estados Unidos, o Golden Fleet, que se propõe a construir uma nova geração de navios de guerra integrando tecnologia de IA, lasers e armas hipersônicas, para garantir a supremacia marítima dos Estados Unidos.

Além disso, no dia a dia da gestão de sua política externa, Trump tem feito questão de demonstrar um poder universal de arbitragem e intervenção direta e instantânea em qualquer lugar do mundo, explicitando sua ingerência externa nos assuntos políticos nacionais de vários países. Um conjunto de decisões que não apontam para um poder compartilhado; pelo contrário, explicitam uma decisão clara de centralização do poder, e de cerco e contenção da China e da Rússia. No máximo, um oligopólio tripolar com dominância em última instancia dos Estados Unidos.

Ou seja, ao contrário do que muitos pensam, o projeto estratégico de Trump que está em pleno curso, representa uma aposta ainda mais radical na conquista unipolar de um império militar global, capaz de impor pela força as regras do jogo e a arbitragem final dos Estados Unidos, regras e arbítrio que poderão variar a cada momento, segundo os interesses e a vontade circunstancial dos Estados Unidos.

Esse projeto, entretanto, deverá provocar uma forte reação contrária da China e da Rússia, e talvez da própria Europa, e deverá estimular a multiplicação das potências atômicas ao redor do mundo. Além disso, no médio prazo, deve incentivar o uso da força em todo e qualquer conflito ou disputa regional, uma vez que a nova regra imposta pela potência dominante, é a da imposição da vontade dos mais fortes, por cima de qualquer lei ou inibição ideológica. Um caminho seguro, quase direto, na direção do caos.

<><> A ordem e o caos, longe do equilíbrio

O sistema internacional está vivendo uma convulsão global. Em momentos como este, de desordem e caos, alguns países sobem e outros descem na hierarquia mundial, enquanto a luta pelo poder global entre as potências que resistem e aquelas que desafiam a velha ordem em decomposição adquire enorme intensidade e grande imprevisibilidade. Ao mesmo tempo, no limite, o sistema como um todo se defende da sua própria entropia “fugindo para frente” e expandindo se em todas as direções, até o momento em que se redesenhe o novo mapa do poder global, através de uma sucessão de guerras interconectadas. Isto já aconteceu várias vezes através da história do sistema internacional em que vivemos, mas não há dúvida de que a desordem e o caos contemporâneos devem ser mais intensos e se prolongar por mais tempo do que no passado, porque desta vez, o epicentro da convulsão mundial envolve o deslocamento e o ocaso da “hegemonia civilizatória” da Europa.

A mesma Europa onde se formou o sistema interestatal, e que comandou o processo de “universalização” desse sistema nos últimos 800 anos. A expansão desse sistema deverá seguir depois da convulsão atual, mas não há nenhum determinismo ou teleologia que nos permita prever seu “destino final” ou mesmo seu futuro imediato. Só sabemos que o sistema interestatal obedece à lei implacável da “expansão do poder”, e que a tecnologia, as armas, o dinheiro e as ideias sempre estiveram a serviço dessa busca incansável dos europeus, e talvez, de todos os tempos e de todos os povos. Assim mesmo, é possível mapear algumas recorrências desse verdadeiro “universo em expansão”.

A partir do momento em que o “sistema interestatal” deu seus primeiros passos dentro da Europa, nos séculos XIII e XIV, ele cresceu de forma contínua até se transformar num sistema global. E essa expansão não foi um produto natural do crescimento dos “mercados” e do comércio, ou mesmo da “acumulação do capital”. Ela foi uma obra violenta do poder conquistador dos primeiros poderes territoriais que definiram suas fronteiras internas dentro da Europa, quase ao mesmo tempo em que se expandiam para fora do Velho Continente, transformando-se, a um só tempo, em Estados nacionais e impérios coloniais. Até o fim do século XVIII, o “sistema interestatal” era formado apenas por esses Estados europeus e seus impérios coloniais. Mas no século XIX, o sistema alargou-se para fora da Europa, com a independência de suas colônias americanas, e no século XX ele se “globalizou” depois da independência das colônias europeias da África e da Ásia, atingindo sua máxima extensão depois da completa inclusão da China nas últimas décadas do século passado.

É possível identificar duas características que ajudam a compreender melhor a força vitoriosa desses poderes territoriais europeus: i) a forma como seu poder político delimitou e se articulou com seus “mercados locais”, criando uma força poderosa com enorme capacidade de acumulação de poder e riqueza, através das sucessivas guerras de conquista que estiveram na origem dos primeiros “Estados economias nacionais”, e do seu novo modo de produção capitalista; e ii) a maneira como esses primeiros poderes territoriais, e logo em seguida, esses primeiros “Estados economias nacionais” nasceram, em conjunto, e numa situação de permanente competição e guerra entre si e com outros poderes territoriais de fora da Europa. Sem essa competição permanente, essas potências teriam perdido sua força, e o mais provável é que o sistema como um todo tivesse colapsado. Por isso, até hoje, mesmo as “grandes potências hegemônicas” dentro desse sistema interestatal precisam se expandir de forma contínua, para poder manter sua posição relativa dentro da hierarquia internacional e barrar o aparecimento de concorrentes em qualquer espaço do sistema.

Através dos séculos, a história desse sistema interestatal foi sendo construída através de sucessivas “explosões expansivas” que foram alargando as fronteiras e modificando a ordenação hierárquica do sistema. São grandes períodos que demarcam o avanço do sistema através da história. E em cada um desses períodos se pode observar um primeiro “momento” (que pode durar até um século ou mais), uma espécie de “condensação de energia”, seguida de uma grande “explosão expansiva”. No momento de “condensação”, aumenta e se universaliza a “pressão competitiva” entre as unidades de poder territorial, e logo em seguida, num segundo momento que em geral tem uma duração menor, o sistema “explode” e se expande em todas as direções, numa velocidade cada vez maior, ampliando suas fronteiras e multiplicando o poder de suas unidades mais competitivas.

A primeira dessas “grandes explosões expansivas” ocorreu durante o “longo século XIII” (entre 1150 e1350, mais ou menos) e deu origem ao próprio “sistema europeu” de guerras, tributos, moedas e trocas, que culminou com a formação do “sistema interestatal”. Naqueles dois séculos, a expansão “para fora” de um verdadeiro “mosaico” de unidades soberanas e competitivas foi liderado pela Igreja e pelos chefes dos principais feudos e reinos que participaram das Cruzadas contra os islâmicos na Palestina e na Península Ibérica; contra os ortodoxos, na Rússia; e contra a heresia dos povos nórdicos que haviam invadido a território europeu nos séculos anteriores. Da mesma forma, no “longo século XVI” (entre 1450 e 1650, mais ou menos) ocorreu uma segunda grande “condensação de energia”, seguida da “explosão expansiva” da Europa, liderada pelos povos ibéricos e seu “descobrimento” do Novo Mundo. E o mesmo voltou a ocorrer, pela terceira vez, no “longo século XIX” – entre 1750 e 1950, mais ou menos –, quando a “pressão competitiva” europeia desembocou na chamada “era do imperialismo” e da conquista colonial da África e da Ásia.

E agora de novo, desde as décadas de 70 e 80 do século XX, o mundo vem atravessando uma quarta grande “explosão expansiva” que começou com o fim dos impérios coloniais europeus e a multiplicação do número de Estados nacionais do sistema mundial, que eram cerca de 60 em 1960, e hoje são em torno de 200. Essa “condensação energética” cresceu durante o período da unipolaridade norte-americana, depois do fim da Guerra Fria, e alcançou dimensões ciclópicas com a plena incorporação da China ao sistema interestatal. Uma China que controla individualmente cerca de 20% da população mundial e possui um território que se iguala ao da velha Europa, com seus inúmeros pequenos Estados nacionais.

O aumento do número de Estados e a incorporação da China junto com a globalização do poder imperial norte-americano produziram a “condensação energética” que desembocou na “explosão sistêmica” a que estamos assistindo. A desordem e o caos que o mundo está vivendo são parte dessa explosão que deverá prolongar-se – muito provavelmente – por toda a segunda metade do século XXI. A nova expansão do sistema interestatal aponta para a conquista do espaço sideral e do fundo dos oceanos, e para a manipulação genética da espécie humana, e o controle à distância da mente humana. Por trás desse caos, desenvolve-se uma luta à morte entre as potências ascendentes e as que resistem a retirar-se do epicentro do poder mundial, em particular a Europa, neste caso. Trata-se de uma luta que não respeita regras e atropela todo tipo de normas e instituições preestabelecidas. Mas o tempo da resistência das velhas forças dominantes pode ser muito longo – deverá ser muito longo.

Depois disso, qual será a distribuição e a reconfiguração do poder global? Impossível saber ou adivinhar. Só sabemos que o sistema seguirá se expandindo, movido pela mesma energia que o moveu até hoje: a energia produzida pela luta entre as grandes potências pela conquista e monopolização do poder global. No caminho que leva a esse futuro, entretanto, existe a imprevisibilidade das “bifurcações estruturais” das grandes massas, e das “decisões conjunturais” dos grandes conquistadores e dos grandes predadores, individuais e coletivos, que caminham na frente dos povos. E existe também a capacidade de resistência e luta assimétrica contra a dominação e a favor da igualdade e da paz entre os povos.

Assim mesmo, uma coisa parece certa nesta terceira década do Século XXI: o que estamos assistindo não é apenas o fim da ordem mundial do pós-II Guerra Mundial e do pós Guerra Fria. É o fim da hegemonia ética e cultural do “universalismo europeu”, que foi até hoje o verdadeiro “software” do sistema interestatal que nasceu na própria Europa, e se universalizou no Século XX. Por isso o estrondo que estamos escutando é tão forte e assustador!

 

Fonte: IHU

 

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