Países
ocidentais têm piora no Índice de Corrupção de 2025
Até as
democracias mais consolidadas do mundo estão cada vez mais mergulhadas na
corrupção, revelou o Índice de Percepção da Corrupção (IPC) de 2025, da ONG
Transparência Internacional, publicado nesta terça-feira (10/02). O estudo
destaca uma preocupante erosão das lideranças contra a corrupção no Ocidente. O
Brasil manteve a posição registrada em 2024, a 107ª de 182 nações – a sua pior
colocação do ranking.
A 31ª
edição do IPC classifica mais de 180 países e territórios de acordo com os
níveis percebidos de corrupção no setor público, que avançou em países
tradicionalmente bem classificados, como os Estados Unidos, o Canadá, o Reino
Unido e a Suécia.
O
índice de 2025 apontou queda drástica no número de países com pontuação acima
de 80 – visto como um parâmetro para governança limpa – em uma escala de 0
(altamente corrupto) a 100 (muito limpo). Se há uma década 12 países estavam
neste grupo, em 2025 eram apenas cinco.
Mesmo
com a Dinamarca alcançando a pontuação mais alta (89) pelo oitavo ano
consecutivo, seguida de perto por Finlândia (88) e Singapura (84), a
Transparência Internacional lamentou a falta de "lideranças ousadas"
em todo o mundo. Segundo a organização, isso vem enfraquecendo os esforços no
combate à corrupção.
"Vários
governos não consideram mais o combate à corrupção uma prioridade", disse
François Valerian, presidente da Transparência Internacional, à DW. "Os
governos podem ter tido a impressão de que [...] já haviam feito de tudo para
combater a corrupção e precisavam se voltar para outras prioridades."
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Por que os EUA caem nos índices globais de corrupção?
Os EUA
caíram para sua pontuação mais baixa de todos os tempos no IPC: 64, queda de 10
pontos em relação a 2016. A Transparência Internacional aponta que o clima
político nos EUA vem se deteriorando há mais de uma década e ressalta que os
dados mais recentes não refletem totalmente os acontecimentos desde o retorno
do presidente dos EUA, Donald Trump, à Casa Branca.
Embora
a pontuação dos EUA no ranking tenha permanecido estável durante a maior parte
do governo do antecessor de Trump, Joe Biden, relatórios anteriores destacaram
escândalos éticos de grande repercussão na Suprema Corte dos EUA como
responsáveis por uma queda significativa no ano passado.
"Não
podemos atribuir tudo a Trump, porque houve reformas preocupantes que começaram
antes dele", disse Valerian à DW.
O
relatório, no entanto, citou o "uso de cargos públicos para perseguir e
restringir vozes independentes", assim como a "normalização de
políticas conflituosas e transacionais", "a politização da tomada de
decisões por parte do Ministério Público" e "ações que minam a
independência judicial". A entidade anticorrupção afirmou que essas
medidas "enviam um sinal perigoso de que práticas corruptas são
aceitáveis".
Desde o
início de seu segundo mandato, Trump vem adotando medidas que alimentam essas
preocupações, como o desmantelamento de emissoras públicas como a Voz da
América e a instrumentalização de agências governamentais contra oponentes
políticos, incluindo membros do governo Biden e outros altos funcionários dos
EUA.
O
republicano também foi acusado de minar a independência judicial e enfraquecer
a aplicação da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior, que foi originalmente
aprovada para impedir que cidadãos e entidades dos EUA subornassem funcionários
de governos estrangeiros para obter contratos.
Valerian
criticou a revisão dessa lei por Trump através de uma ordem executiva que a
transformou em uma ferramenta de segurança nacional. Ele também destacou o
apoio do presidente republicano a criptomoedas como o Bitcoin – frequentemente
usadas para lavagem de dinheiro – e a um programa de imigração acelerada para
estrangeiros ricos, apelidado pelos críticos de Cartão de Ouro de Trump.
"Com
base em nossa experiência internacional, esses esquemas [de visto] atraem
pessoas corruptas e também podem atrair criminosos", disse Valerian.
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Campanha anticorrupção da Europa está estagnada?
Ao
longo da mesma década, a maior queda na percepção de corrupção foi no Reino
Unido. O país teve score de 70 pontos e caiu 11 pontos, o que, segundo a
Transparência Internacional, está ligado às falhas contínuas na aplicação de
padrões éticos para ministros, legisladores e outros funcionários do governo.
A
organização também citou escândalos de compras relacionados à pandemia de
covid-19, em que pessoas próximas ao poder em Londres conseguiram contratos
lucrativos para o fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPI) com
pouca fiscalização.
Outras
nações ocidentais que registraram grandes quedas no ranking nos últimos 10 anos
são a Nova Zelândia, que caiu nove pontos (81), a Suécia, que teve queda de
oito pontos (80), e o Canadá, cuja pontuação caiu sete pontos (75). A queda da
Alemanha nos últimos 10 anos foi mais modesta, de quatro pontos, para 77. Ainda
assim, o país subiu dois pontos em relação ao ano anterior.
O
índice registrou uma queda de quatro pontos na França, que caiu para 66 na
última década, citando a diminuição da repressão à corrupção e os crescentes
riscos de conluio entre funcionários e interesses privados. O relatório elogiou
a condenação do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy pelo recebimento de
fundos ilícitos, inclusive do falecido líder líbio Muammar Kafafi, que foram
usados em sua campanha presidencial.
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Onde o combate à corrupção perde impulso?
O
relatório observou que 50 países registraram quedas significativas no ranking
desde 2012, notadamente, Turquia, Hungria e Nicarágua. Isso se deve ao
retrocesso democrático, enfraquecimento das instituições e do Estado de
Direito, nepotismo e busca de privilégios.
A
corrupção abre cada vez mais as portas para o crime organizado penetrar na
política latino-americana, alertou a Transparência Internacional, observando
que até mesmo a Costa Rica e o Uruguai – outrora consideradas as democracias
mais fortes da região, com notas altas no IPC – vivenciam atualmente os tipos
de pressões de corrupção vistas na Colômbia, no México e no Brasil.
O
relatório afirmou que os declínios são "acentuados, duradouros e difíceis
de reverter, à medida que a corrupção se torna sistêmica e profundamente
enraizada nas estruturas políticas e administrativas". "Quanto mais
concentrado o poder, maior o abuso de poder. Quanto mais secreto o poder, mais
fácil é abusar dele", disse Valerian.
A
entidade anticorrupção também lamentou a interferência política nas operações
de organizações não governamentais (ONGs), especialmente as que criticam os
governos vigentes. O relatório observou um aumento na repressão e nos cortes de
financiamento para ONGs na Geórgia, Indonésia e Peru. Em certos países, está
cada vez mais difícil para jornalistas independentes, grupos da sociedade civil
e delatores se manifestarem contra a corrupção.
A
iniciativa anticorrupção da Ucrânia recebeu elogios, mesmo enquanto o país
continua a lutar contra a invasão russa em seu território. Escândalos recentes
mostram que a corrupção continua sendo um problema no setor de defesa, mas o
fato de esses casos estarem vindo à tona publicamente e sendo levados a
julgamento indica que a nova estrutura anticorrupção do país está começando a
surtir efeito, afirmou o relatório.
"Um
país, a Ucrânia, decidiu lutar contra a corrupção, enquanto a Rússia escolheu o
caminho oposto", disse Valerian, observando que Moscou revogou leis
destinadas a prevenir e punir a corrupção.
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Brasil permanece na pior posição
Já o
Brasil manteve a sua pior posição no ranking em 2025, a 107ª posição, com 35
pontos, apesar de uma alta de um ponto em comparação com 2024. O país ficou
abaixo da média global e das Américas, ambas com 42 pontos.
"O
resultado mantém o país em um patamar historicamente baixo, reforçando uma
trajetória marcada por fragilidade institucional, baixa efetividade dos
mecanismos de integridade
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Como se saem os países com pior classificação?
A
Transparência Internacional também observou que os regimes autoritários,
incluindo os da Venezuela e do Azerbaijão, apresentam, em geral, o pior
desempenho no ranking, já que "a corrupção é sistêmica e se manifesta em
todos os níveis". No índice mais recente, mais de dois terços das nações
ficaram abaixo de 50, o que, segundo o relatório, indica "sérios problemas
de corrupção na maior parte do planeta".
O
documento destaca que os países classificados abaixo de 25 são afetados
principalmente por conflitos e regimes altamente repressivos, incluindo Líbia,
Iêmen e Eritreia, que obtiveram 13 pontos, juntamente com Somália e Sudão do
Sul, ambos com nove pontos.
Do lado
positivo, o relatório destacou como muitos países subiram da parte inferior
para o meio do ranking, incluindo Albânia, Angola, Costa do Marfim, Laos,
Senegal, Ucrânia e Uzbequistão, e observou ganhos de longo prazo de nações com
pontuações já altas, incluindo Estônia, Coreia do Sul, Butão e Seychelles.
Fonte:
DW Brasil

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