Do
crescimento meteórico à liquidação: a armadilha rentista do Banco Master
Em
novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do
Banco Master, decisão provocada por uma severa crise de liquidez e suspeitas de
irregularidades. O episódio transformou-se em um dos mais intrincados do
sistema financeiro brasileiro, mobilizando a Polícia Federal em investigações,
gerando disputas institucionais entre órgãos como o TCU e o STF, e deixando
mais de 1,6 milhão de clientes na expectativa de reembolso pelo FGC (Fundo
Garantidor de Crédito). A estratégia de crescimento do Banco Master, um banco
de investimentos e crédito de médio porte, baseou-se em um modelo de alto
risco. Para atrair investidores, oferecia CDBs (Certificados de Depósito
Bancário) com rentabilidade extraordinariamente alta. Os recursos captados eram
então direcionados para financiar operações arriscadas, como o investimento em
empresas em recuperação (turnaround), e para expandir seus negócios em crédito
consignado, crédito pessoal, gestão de recursos, seguros e fusões e aquisições.
Este modelo resultou em um crescimento meteórico da receita, que foi de R$ 190
milhões, em 2018, para quase R$ 1 bilhão em 2019.
Paralelamente
à liquidação, a Polícia Federal deu início à Operação Compliance Zero, que
investiga um esquema de fraude de grande monta no Banco Master. As principais
suspeitas são a emissão de títulos falsos, a manipulação de balanços para
inflar o patrimônio e a comercialização de carteiras de crédito inexistentes –
especialmente ao BRB –, além de investigar uma suposta campanha digital para
atacar a imagem do Banco Central e defender o Master. Daniel Vorcaro era o
controlador do Banco Master e do Will Bank, ambos liquidados pelo Banco Central
nos últimos meses por problemas quanto à liquidez e suspeitas de violação das
leis que regem o sistema financeiro no Brasil. Vorcaro foi preso por doze dias,
mas já responde em liberdade com tornozeleira eletrônica. Segundo o Banco
Central, o grupo Master é conglomerado prudencial bancário, classificado como
de crédito diversificado, porte pequeno e enquadrado no segmento S3 da
regulação prudencial, tendo como instituição líder o Banco Master S/A. O
conglomerado detém 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do Sistema
Financeiro Nacional (SFN). Ainda, a liquidação do banco gerou um rombo de
aproximadamente R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que permite
o reembolso de parte dos clientes que investiram nas duas instituições.
Em uma
nota emitida em dezembro de 2025, entidades do setor financeiro defenderam a
atuação do Banco Central no caso da liquidação do Banco Master. A nota foi
assinada pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC), a Associação Nacional das
Instituições de Crédito (Acrefi), a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e
a Zetta, entidade que representa empresas do setor financeiro e de meios de
pagamento. Juntas, as associações representam mais de 100 instituições, cerca
de 90% do setor financeiro e 98% dos ativos do sistema. A supervisão do BC
atuou de forma preventiva, assegurando que bancos e demais instituições
mantenham níveis adequados de capital e liquidez, além de políticas de risco
compatíveis com seus modelos de negócio.
O
tamanho do problema implicado pelo caso certamente merece uma conjugação de
esforços pelas entidades pertinentes. Atualmente o episódio é investigado pela
Polícia Federal e Procuradoria Geral da República, tramita no Supremo Tribunal
Federal e envolve o processo de liquidação do Master pelo Banco Central. O governo está certo em solicitar que esses
órgãos atuem em conjunto e em cobrar do Banco Central que promova uma
investigação sobre possíveis fraudes em fundos de investimentos, como forma de
prevenir novos acontecimentos.
Contudo,
o cerne da questão reside no fato de que o poder financeiro dessas grandes
empresas está intrinsecamente ligado a uma influência política considerável.
Essa aliança lhes confere uma notável habilidade de influenciar as agências
estatais que deveriam, justamente, coibir e sancionar tais práticas. Ao longo
dos últimos meses, reportagens apontaram que Daniel Vorcaro mantém estreitas
ligações políticas com figuras de diferentes espectros, incluindo o senador
Ciro Nogueira (PP-PI), o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega (PT) e o
governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Em Brasília, ele é
particularmente associado ao senador Ciro Nogueira e ao presidente nacional do
União Brasil, Antonio Rueda. Outras possíveis relações incluem o ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas
(Republicanos), conexão reforçada pelo fato de seu cunhado, Fabiano Zettel –
também alvo da Operação Compliance Zero –, ter sido o maior doador individual
às campanhas de ambos em 2022. Além do poder político, reportagens revelaram
que Vorcaro firmou contratos com familiares de ministros do Supremo Tribunal
Federal (STF), levantando suspeitas sobre sua influência na cúpula do
Judiciário. A pressão sobre o caso aumentou com revelações de que irmãos do
ministro Toffoli venderam ações de um resort em negócio milionário com um fundo
ligado à gestora Reag, que tinha vínculos com o Banco Master, enquanto o
próprio ministro passou 168 dias no local desde dezembro de 2022.
A
suspeita sobre Daniel Vorcaro também recai sobre transações fraudulentas na
venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB).
Paralelamente, sua instituição, o Banco Master, será um dos focos da CPMI do
INSS, que investiga o mercado de empréstimos consignados descontados na folha
de aposentados e pensionistas. O INSS cobra do Banco Master a comprovação de
que seus clientes autorizaram as operações antes dos descontos, diante da
suspeita de que pelo menos 250 mil empréstimos tenham sido realizados sem
consentimento. Todos esses casos revelaram um dos episódios mais graves do
sistema financeiro brasileiro, envolvendo suspeitas de fraudes bilionárias, uso
de fundos de investimento para ocultar prejuízos e tentativas de socorro via
banco público.
Fica
claro como Daniel Vorcaro e suas empresas fraudulentas possuem recursos para
afetar não só um grupo político, mas toda a estrutura econômica do suposto
Estado democrático brasileiro. É um esquema de produção de riqueza fictícia,
sem qualquer contribuição produtiva
correspondente e com capacidade de
capturar a riqueza social para “salvar” os investidores, ao mesmo tempo que
limita a capacidade do Estado de utilizar seu orçamento com despesas sociais
para a maioria da população. O que não é mérito somente da economia e sistema
financeiro brasileiro.
O
sistema financeiro global opera em uma dimensão intangível e hipercomplexa de
controle e extração, um terreno para o qual os arcabouços regulatórios
nacionais se mostram profundamente inadequados. Enquanto nossos reguladores
lutam para monitorar – e muitas vezes sequer compreender – os mecanismos
modernos de criação e circulação de riqueza, as fronteiras territoriais e as
tarifas sobre transações materiais tornam-se anacrônicas. Essa dissonância
regulatória cria vulnerabilidades estruturais fundamentais: o sistema é opaco
por formato e escorregadio por natureza. Além disso, essa arquitetura favorece
e é sustentada por uma vulnerabilidade política correlata: a concentração de
capital. A maior parte da riqueza no topo da pirâmide não deriva de inovação ou
produção, mas de mecanismos passivos como heranças e dividendos, que perpetuam
desigualdades e dissociam o poder econômico de qualquer contrapartida produtiva
ou social. Assim, o sistema se protege em duas frentes: na complexidade técnica
inacessível e na consolidação de um poder oligárquico e hereditário, imune
tanto ao escrutínio estatal quanto à lógica meritocrática do mercado.
A
exploração rentista constitui uma forma de extração de riqueza muito mais
intensa e ilegítima do que a exploração capitalista tradicional, embora também
se aproveite desta. O sistema atual configura um modelo profundamente injusto,
porém coeso e articulado, que deve ser confrontado precisamente em sua
totalidade sistêmica. Os rentistas capturaram o sistema a partir do topo,
convertendo a economia em um mecanismo de extração de renda em favor de uma
minoria. O professor Ladislau Dowbor expôs que “em termos econômicos, o PIB
global deverá atingir US$ 115 trilhões em 2025, o que representa quase 5 mil
dólares por mês para uma família de quatro pessoas. Se corrigirmos a diferença
no poder de compra do dólar em diferentes países, o PIB global em Paridade do Poder
de Compra (PPC) equivale a US$ 180 trilhões, ou 7 mil dólares por mês por
família de quatro pessoas. Pela primeira vez na história da humanidade, o que
produzimos é mais do que suficiente para garantir uma vida digna e confortável
para todos. Isso é essencialmente resultado de avanços científicos e
tecnológicos, não de ‘mercados’”.
A
magnitude da crise que atravessamos, portanto, não é simplesmente uma questão
de insuficiência material ou financeira, mas sim uma falha de ordem política e
social. Riquezas especulativas, alicerçadas em um rentismo intrinsecamente
estéril, estão desviando os meios fundamentais para os dilemas mais urgentes: a
intensificação da desigualdade e a crise climática. A desigualdade vai muito
além de privação e desamparo, pois representa a cristalização de um poder
econômico de poucos que se traduz em domínio político. Precisamos edificar uma
sociedade economicamente funcional, equitativa em suas relações e regenerativa
em seu vínculo com o planeta. Nada disso está fora do alcance humano, mas para
isso é necessário uma organização social que não permita o surgimento e
consolidação de rentistas e Vorcaros.
Fonte:
Por Bianca Valoski, para Opera Mundi

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