quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Do crescimento meteórico à liquidação: a armadilha rentista do Banco Master

Em novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master, decisão provocada por uma severa crise de liquidez e suspeitas de irregularidades. O episódio transformou-se em um dos mais intrincados do sistema financeiro brasileiro, mobilizando a Polícia Federal em investigações, gerando disputas institucionais entre órgãos como o TCU e o STF, e deixando mais de 1,6 milhão de clientes na expectativa de reembolso pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito). A estratégia de crescimento do Banco Master, um banco de investimentos e crédito de médio porte, baseou-se em um modelo de alto risco. Para atrair investidores, oferecia CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com rentabilidade extraordinariamente alta. Os recursos captados eram então direcionados para financiar operações arriscadas, como o investimento em empresas em recuperação (turnaround), e para expandir seus negócios em crédito consignado, crédito pessoal, gestão de recursos, seguros e fusões e aquisições. Este modelo resultou em um crescimento meteórico da receita, que foi de R$ 190 milhões, em 2018, para quase R$ 1 bilhão em 2019.

Paralelamente à liquidação, a Polícia Federal deu início à Operação Compliance Zero, que investiga um esquema de fraude de grande monta no Banco Master. As principais suspeitas são a emissão de títulos falsos, a manipulação de balanços para inflar o patrimônio e a comercialização de carteiras de crédito inexistentes – especialmente ao BRB –, além de investigar uma suposta campanha digital para atacar a imagem do Banco Central e defender o Master. Daniel Vorcaro era o controlador do Banco Master e do Will Bank, ambos liquidados pelo Banco Central nos últimos meses por problemas quanto à liquidez e suspeitas de violação das leis que regem o sistema financeiro no Brasil. Vorcaro foi preso por doze dias, mas já responde em liberdade com tornozeleira eletrônica. Segundo o Banco Central, o grupo Master é conglomerado prudencial bancário, classificado como de crédito diversificado, porte pequeno e enquadrado no segmento S3 da regulação prudencial, tendo como instituição líder o Banco Master S/A. O conglomerado detém 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Ainda, a liquidação do banco gerou um rombo de aproximadamente R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que permite o reembolso de parte dos clientes que investiram nas duas instituições.

Em uma nota emitida em dezembro de 2025, entidades do setor financeiro defenderam a atuação do Banco Central no caso da liquidação do Banco Master. A nota foi assinada pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC), a Associação Nacional das Instituições de Crédito (Acrefi), a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Zetta, entidade que representa empresas do setor financeiro e de meios de pagamento. Juntas, as associações representam mais de 100 instituições, cerca de 90% do setor financeiro e 98% dos ativos do sistema. A supervisão do BC atuou de forma preventiva, assegurando que bancos e demais instituições mantenham níveis adequados de capital e liquidez, além de políticas de risco compatíveis com seus modelos de negócio.

O tamanho do problema implicado pelo caso certamente merece uma conjugação de esforços pelas entidades pertinentes. Atualmente o episódio é investigado pela Polícia Federal e Procuradoria Geral da República, tramita no Supremo Tribunal Federal e envolve o processo de liquidação do Master pelo Banco Central.  O governo está certo em solicitar que esses órgãos atuem em conjunto e em cobrar do Banco Central que promova uma investigação sobre possíveis fraudes em fundos de investimentos, como forma de prevenir novos acontecimentos.

Contudo, o cerne da questão reside no fato de que o poder financeiro dessas grandes empresas está intrinsecamente ligado a uma influência política considerável. Essa aliança lhes confere uma notável habilidade de influenciar as agências estatais que deveriam, justamente, coibir e sancionar tais práticas. Ao longo dos últimos meses, reportagens apontaram que Daniel Vorcaro mantém estreitas ligações políticas com figuras de diferentes espectros, incluindo o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega (PT) e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). Em Brasília, ele é particularmente associado ao senador Ciro Nogueira e ao presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda. Outras possíveis relações incluem o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), conexão reforçada pelo fato de seu cunhado, Fabiano Zettel – também alvo da Operação Compliance Zero –, ter sido o maior doador individual às campanhas de ambos em 2022. Além do poder político, reportagens revelaram que Vorcaro firmou contratos com familiares de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), levantando suspeitas sobre sua influência na cúpula do Judiciário. A pressão sobre o caso aumentou com revelações de que irmãos do ministro Toffoli venderam ações de um resort em negócio milionário com um fundo ligado à gestora Reag, que tinha vínculos com o Banco Master, enquanto o próprio ministro passou 168 dias no local desde dezembro de 2022.

A suspeita sobre Daniel Vorcaro também recai sobre transações fraudulentas na venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB). Paralelamente, sua instituição, o Banco Master, será um dos focos da CPMI do INSS, que investiga o mercado de empréstimos consignados descontados na folha de aposentados e pensionistas. O INSS cobra do Banco Master a comprovação de que seus clientes autorizaram as operações antes dos descontos, diante da suspeita de que pelo menos 250 mil empréstimos tenham sido realizados sem consentimento. Todos esses casos revelaram um dos episódios mais graves do sistema financeiro brasileiro, envolvendo suspeitas de fraudes bilionárias, uso de fundos de investimento para ocultar prejuízos e tentativas de socorro via banco público.

Fica claro como Daniel Vorcaro e suas empresas fraudulentas possuem recursos para afetar não só um grupo político, mas toda a estrutura econômica do suposto Estado democrático brasileiro. É um esquema de produção de riqueza fictícia, sem qualquer  contribuição produtiva correspondente  e com capacidade de capturar a riqueza social para “salvar” os investidores, ao mesmo tempo que limita a capacidade do Estado de utilizar seu orçamento com despesas sociais para a maioria da população. O que não é mérito somente da economia e sistema financeiro brasileiro.

O sistema financeiro global opera em uma dimensão intangível e hipercomplexa de controle e extração, um terreno para o qual os arcabouços regulatórios nacionais se mostram profundamente inadequados. Enquanto nossos reguladores lutam para monitorar – e muitas vezes sequer compreender – os mecanismos modernos de criação e circulação de riqueza, as fronteiras territoriais e as tarifas sobre transações materiais tornam-se anacrônicas. Essa dissonância regulatória cria vulnerabilidades estruturais fundamentais: o sistema é opaco por formato e escorregadio por natureza. Além disso, essa arquitetura favorece e é sustentada por uma vulnerabilidade política correlata: a concentração de capital. A maior parte da riqueza no topo da pirâmide não deriva de inovação ou produção, mas de mecanismos passivos como heranças e dividendos, que perpetuam desigualdades e dissociam o poder econômico de qualquer contrapartida produtiva ou social. Assim, o sistema se protege em duas frentes: na complexidade técnica inacessível e na consolidação de um poder oligárquico e hereditário, imune tanto ao escrutínio estatal quanto à lógica meritocrática do mercado.

A exploração rentista constitui uma forma de extração de riqueza muito mais intensa e ilegítima do que a exploração capitalista tradicional, embora também se aproveite desta. O sistema atual configura um modelo profundamente injusto, porém coeso e articulado, que deve ser confrontado precisamente em sua totalidade sistêmica. Os rentistas capturaram o sistema a partir do topo, convertendo a economia em um mecanismo de extração de renda em favor de uma minoria. O professor Ladislau Dowbor expôs que “em termos econômicos, o PIB global deverá atingir US$ 115 trilhões em 2025, o que representa quase 5 mil dólares por mês para uma família de quatro pessoas. Se corrigirmos a diferença no poder de compra do dólar em diferentes países, o PIB global em Paridade do Poder de Compra (PPC) equivale a US$ 180 trilhões, ou 7 mil dólares por mês por família de quatro pessoas. Pela primeira vez na história da humanidade, o que produzimos é mais do que suficiente para garantir uma vida digna e confortável para todos. Isso é essencialmente resultado de avanços científicos e tecnológicos, não de ‘mercados’”.

A magnitude da crise que atravessamos, portanto, não é simplesmente uma questão de insuficiência material ou financeira, mas sim uma falha de ordem política e social. Riquezas especulativas, alicerçadas em um rentismo intrinsecamente estéril, estão desviando os meios fundamentais para os dilemas mais urgentes: a intensificação da desigualdade e a crise climática. A desigualdade vai muito além de privação e desamparo, pois representa a cristalização de um poder econômico de poucos que se traduz em domínio político. Precisamos edificar uma sociedade economicamente funcional, equitativa em suas relações e regenerativa em seu vínculo com o planeta. Nada disso está fora do alcance humano, mas para isso é necessário uma organização social que não permita o surgimento e consolidação de rentistas e Vorcaros.

 

Fonte: Por Bianca Valoski, para Opera Mundi

 

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