Rudá
Ricci: Um dia de cão
“O
Brasil precisa se ver no espelho. Com urgência. O bolsonarismo não foi, ao que
parece, um acidente de percurso. Foi uma canalização deste substrato emocional
e cultural de nosso país focado no ressentimento e vingança”, escreve Rudá
Ricci, sociólogo, com larga experiência em educação e gestão participativa,
diretor do Instituto Cultiva.
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Eis o artigo.
Um
cachorro é brutalmente assassinado. Com muitos sinais de crueldade
inimagináveis. Os relatos deixam qualquer pessoa minimamente sã absolutamente
indignada. Ocorre que este fato não é isolado.
Maus-tratos
contra os animais é o 5º crime mais cometido no Brasil. Somente no Estado de
São Paulo, são 25 casos registrados por dia, segundo dados da Delegacia
Eletrônica de Proteção Animal (Depa), da Secretaria de Segurança Pública (SSP).
Há uma cultura de abusos e violência contra animais em nosso país. O que sugere
a necessidade de reeducação.
O fato
que envolveu o cachorro Orelha gerou uma comoção nas redes sociais. Atos de
solidariedade foram se espalhando como um movimento aparentemente espontâneo.
Até que a cultura da violência – a mesma que alimenta os ataques a animais –
entrou em cena.
Uma
profusão de postagens em várias redes sociais exibiu as fotos dos adolescentes
acusados do ato brutal contra Orelha. Não satisfeitos, alguns internautas
passaram a insuflar o linchamento desses jovens. Em seguida, estimularam que
fossem em bandos ao aeroporto onde desembarcariam dois jovens acusados. Os
ataques escalaram e passaram a se dirigir contra seus pais.
De
repente, o argumento apresentado pelos linchadores virtuais foi a de que os
jovens envolvidos seriam ricos. E, concluíam, ricos que cometem crimes passam
impunes e ilesos. Era a busca de um argumento que daria uma aura de nobreza, na
defesa da igualdade. Mas, não era disso que se tratava. Era uma onda de
violência incontida que se formava.
Estou
lendo o livro O Nazista e o Psiquiatra, escrito por Jack El-Hai. Nele é narrada
a história real de Douglas M. Kelley, um psiquiatra norte-americano enviado
para avaliar a saúde mental dos líderes nazistas presos após a Segunda Guerra
Mundial, incluindo Hermann Göring, para o julgamento de Nuremberg. Kelley
descreve a saúde mental do núcleo central do nazismo, após a morte de Hitler. O
psiquiatra queria entender a origem da crueldade. Percebeu que os encarcerados
não eram loucos e poderiam ser julgados já que “garantias e direitos judiciais
são inerentes a todo ser humano, sem exceção”, segundo afirmação de Carlos
Ayala Corao, presidente da Comissão Internacional de Juristas.
A
leitura do livro nos faz refletir sobre o que faz alguém que aparentemente é
mentalmente são desfechar um movimento nacional de ódio e violência contra
famílias e trabalhadores por interesse, mas também por revanche, como movimento
irracional e intempestivo.
Na
outra ponta, o que assombra a todo cientista social – e psicólogos – é o que
faz que parte significativa de uma nação se envolva numa desventura de
crueldade e destrutividade como se fosse algo natural ou justificável, como
ocorreu na Alemanha nazista, mas também aqui no Brasil, com o bolsonarismo.
Havia
interesse, é verdade. Géraldine Schwarz escreveu um livro desconcertante, Os
amnésicos, sobre a história de sua família, em especial, seu avô, e de outros
alemães que se aproveitaram do movimento irracional contra judeus para tomar
propriedades e postos de trabalho. No desespero de fugir da SS, judeus venderam
seus negócios e foram explorados por alemães inescrupulosos que se apresentavam
como beneméritos, negociando empresas a preços de banana. O mesmo ocorreu nas
universidades alemãs, onde professores judeus eram perseguidos por colegas que
assumiam seus cobiçados postos.
O
psicanalista alemão Erich Fromm, da Escola de Frankfurt, produziu uma obra
monumental para entender que tipo de almas torturadas se envolvem com
movimentos destemperados e violentos. Em Anatomia da Destrutividade Humana,
Fromm lista almas nitidamente torturadas, como sádicos, que aguardam um
ambiente propício para vir à tona e atacar indefesos. Mas, também relata casos
de tédio crônico que levam um velhinho a se atirar numa aventura que dê algum
sentido à sua vida, como ocorreu no dia 8 de janeiro em Brasília. Também
discorre sobre almas que necessitam e procuram uma liderança que dê ordem e
direção à sua vida, mesmo não concordando plenamente com o pensamento do ídolo
torto.
O caso
de Orelha envolve violências, no plural. Começa com o ato desumano contra um
cachorro indefeso e deságua num movimento de linchamento virtual alimentado por
um ódio irracional.
O
linchamento virtual é um sintoma de distúrbio grave de parte dos que se
apresentam como ativistas da causa animal. Tais ativistas cometeram diversos
crimes, como ao ofender o artigo 143 do Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) que proíbe a exposição de fotos de adolescentes acusados de alguma
infração. O ECA se baseia na concepção – fundamentada em muitos estudos
científicos, desde os desenvolvidos por Piaget até os atuais, sobre
desenvolvimento humano – de que adolescentes vivem uma fase de transição entre
a infância e a vida adulta.
No
Brasil, esta fase é limitada juridicamente entre os 12 e os 18 anos. Significa
que no adolescente há certo discernimento, mas ainda não conseguem tomar
decisões com total controle racional, dado que o córtex pré-frontal,
responsável pelas decisões racionais, planejamento, controle de impulsos e
pensamento crítico ainda está em amadurecimento, se completando por volta dos
25 anos.
Pesquisas
recentes da Universidade de Cambridge, publicadas na Nature Communications,
indicam que a adolescência cerebral pode se estender até os 32 anos. Este
período é caracterizado por intensas transformações estruturais no cérebro,
refinando conexões neurais e aumentando a eficiência cognitiva, indo além da
puberdade física e redefinindo o início da fase adulta plena.
Se se
trata de uma fase intermediária, a justiça tem que incorporar este fato e não
tratar o adolescente como adulto. Neste caso, o Brasil optou por tratá-lo de
maneira especial, como responsável pelos atos que comete, mas não imputável, ou
seja, não conferindo uma pena a um crime cometido, mas reeducando-o. Aliás, no
espírito das leis brasileiras, o adolescente internado não está sendo punido,
mas resguardado para se submeter a um programa de reeducação mais intenso.
Tanto que o adolescente internado é estimulado a manter relações com familiares
e manter pontes para sua ressocialização.
Em
países de cultura anglo-saxônica, este entendimento científico não é observado.
Assim, uma criança é entendida como plenamente consciente dos crimes que
comete. E daí surgem imensos erros do sistema judicial desses países. Um dos
casos mais impactantes foi o de Mary Bell, relatado em livro publicado no
Brasil com o título Gritos no Vazio.
O caso
se passa na Inglaterra e envolve uma menina de 11 anos de idade que assassina
duas crianças mais novas. Julgada e condenada, esta menina viveu enclausurada
durante grande parte de sua vida. Dentre outras descobertas sobre como se
envolvia emocionalmente com os crimes cometidos, a mais chocante é que Mary era
usada como “bônus” por sua mãe, que era prostituta, como oferenda a seus
clientes. Para tolerar os abusos, a menina se transportava mentalmente para um
lugar vazio e sentia que “morria”, retornando à vida quando saía do quarto.
Mary acreditava que o transporte da vida à morte, retornando à vida, ocorria
com todos. Uma vida tortuosa e torturada que misturou revolta, escapismo, ódio
e confusão entre fantasia e realidade.
A
prisão de crianças não alterou os dados de violência envolvendo adolescentes. O
que sugere que esta punição às crianças e adolescentes, além de não ter o menor
fundamento científico, é uma mera vingança abstrata de adultos que também são
tomados por medo e ódio.
Os
Estados Unidos, lembremos, lideram a penalização pesada de crianças. E as
crianças e adolescentes norte-americanas lideram assassinatos e ataques a
escolas e comunidades. A constatação é tão evidente que desde 2005, 29 Estados
americanos e a capital Washington aprovaram leis que tornaram mais difícil
processar e punir adolescentes como se fossem maiores de idade. Perceberam que
este tratamento não surtia efeito positivo nenhum. Mesmo assim, todos os anos
250 mil adolescentes são julgados e punidos como adultos nos Estados Unidos, o
que faz este país ter as maiores populações de jovens encarcerados do mundo.
A
questão central é que a adolescência é uma fase intermediária da vida que
Contardo Calligaris definiu como “moratória”. Como uma moratória em que sei que
devo, mas suspendo o pagamento até estar estável. O adolescente está quase
preparado para ser adulto, mas ainda não pode fazer tudo o que os adultos
fazem. A contradição que se instala é que os adultos incentivam os adolescentes
a “treinarem para ser adultos”. Incentivam que dirijam carros em terrenos
baldios ou ruas ermas para logo adiante conseguir tirar uma habilitação. Este é
apenas um exemplo de tantas outras contradições que adultos impõem aos
adolescentes.
Anos
atrás, fui convidado a dar uma palestra numa escola estadual na região
metropolitana de São Paulo. Pediram para eu falar de violência. Quando entrei,
uns 200 adolescentes estavam sentados na quadra coberta. Quando os vi na minha
frente, resolvi mudar o script que havia esboçado e comecei a relatar sobre
como sofri bullying na pré-adolescência e as peripécias de meus pais para
ajudar a superar tudo (nem sempre acertando). Os adolescentes pareciam atentos
e alguns riam na minha cara. Então, perguntei se eles também sofriam algo assim
e, de repente, uns 50 adolescentes arregaçaram os agasalhos que vestiam e
mostraram marcas de autoflagelação. Confesso que fiquei impactado e tentei me
recompor.
A
partir dessa visita à escola, comecei a estudar sobre autoflagelação. E a
pesquisar sobre os ambientes familiares. Nossa equipe do Instituto Cultiva
analisa dados colhidos por técnicos que visitam famílias de alunos de escolas
públicas. O que constatamos é que após a pandemia, mães e avós mergulharam num
caos emocional. Constatamos em dezenas de municípios de várias regiões e
dimensões que entre 40% e 70% das mães sofriam de depressão aguda, sendo que
metade não recebia atendimento especializado.
Durante
a pandemia, constatamos que professores viveram a mesma turbulência. Em dois
Estados que pesquisamos, da região Sudeste e Centro-Oeste, 40% dos professores
entrevistados relataram que os conflitos intrafamiliares aumentaram muito em
função do confinamento imposto pela pandemia e divisão de tarefas domiciliares
e profissionais que acarretou. Tudo feito em casa: cuidar dos filhos, preparar
as atividades remotas para seus alunos, limpar a casa e assim por diante.
Lembremos que as mães nunca dedicam menos de 30% de seu tempo semanal para
esses cuidados com família e sua casa e os homens, segundo o IBGE, nunca
dedicam mais que 15% do seu tampo semanal para as mesmas tarefas.
O fato
é que pouco sabemos sobre a extensão do impacto desses transtornos e
sofrimentos dos pais sobre seus filhos. O impacto, contudo, parece imenso sobre
adolescentes, fase em que começam a construir a noção de justiça e comparar uma
regra com outra. Seu discernimento é mais aguçado e as contradições explodem
nos seus olhos.
Ontem
foi um dia particularmente angustiante para mim. Fui percebendo que ativistas
sociais, aparentemente bem-intencionados, eram tragados pela onda de
linchamento virtual e escalavam para estimular ataques aos adolescentes
acusados de assassinar Orelha e destruir suas famílias.
Tentei
inicialmente argumentar que estavam cometendo um outro crime. Houve uma ou
outra compreensão, mas a tônica foi me atacar como se eu estivesse defendendo o
assassinato. Uma turba ensandecida desfilava diante dos meus olhos e não havia
como não relacionar com a explosão de ódio manipulada pelo nazismo e o
bolsonarismo.
Acredito
que as redes sociais estimulam tal comportamento irracional. Elas vivem disso,
na verdade. Um levantamento sobre o que atraiu mais no Google em 2025 em nosso
país revelou que o conflito atrai mais as atenções. Quem desejava atrair
seguidores e visualizações teve que partir para a briga.
Não
somos o país campeão mundial de linchamentos à toa. E não foi uma mera
coincidência que este recurso – o linchamento – foi estimulado ontem nas redes
sociais contra os adolescentes e suas famílias.
Temos
um substrato cultural que só espera um gatilho para ser acionado. Se o
acontecimento é significativamente explosivo e que justifique uma reação
coletiva e a indignação, mais potente será o gatilho. Acionado o gatilho, as
reações escalam e caminham para não se diferenciar com clareza sobre a reação
dos vingadores e a ação original dos criminosos em tela.
O
Brasil precisa se ver no espelho. Com urgência. O bolsonarismo não foi, ao que
parece, um acidente de percurso. Foi uma canalização deste substrato emocional
e cultural de nosso país focado no ressentimento e vingança.
Fonte:
IHU

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