Para
decifrar o dinheiro – e tirá-lo dos parasitas
Por
mais de vinte anos, entre 1980 e 2016, Donald Trump construiu, explorou e
depois levou à falência um império de cassinos — o Trump Entertainment Resorts
— ao longo do icônico calçadão de Atlantic City. Seus cassinos privaram os
apostadores de ganhos suados, arruinaram detentores de títulos e investidores
do mercado de ações e terminaram como fracassos arrastados e custosos, embora
enriquecessem Trump. “O dinheiro que tirei de lá foi incrível”, disse ele ao
New York Times.
O
presidente do cassino era notório por emitir ações e contrair empréstimos
enormes, em títulos de alto risco, para financiar seus cassinos em Atlantic
City. Tudo isso para dilapidar os ativos e enriquecer a si mesmo e sua família.
Ações vendidas a incautos que logo despencaram em valor; títulos (promessas de
pagamento) que ele deixou de honrar; e cassinos que faliram — não uma, nem
duas, mas cinco vezes.
Assim
como Trump, Wall Street emitiu, desde a grande crise financeira de 2007,
quantidades desconhecidas de dívida em mercados privados e não regulamentados.
Isso tem levado analistas financeiros a alertarem para crescentes problemas de
endividamento nos mercados de gestão de ativos e crédito privado — e para uma
repetição da crise. Os grandes bancos de Wall Street também estão implicados:
eles já possuem US$ 1,3 trilhão em empréstimos para o setor bancário paralelo
não regulamentado. Assim como Trump, Wall Street usou a desregulamentação
financeira para saquear a economia global, explorar a natureza e enriquecer
enormemente o 1% mais rico.
Da
mesma forma, os gigantes do setor de tecnologia criaram “veículos de propósito
específico” [(special porpouse vehicles) para ocultar de seus balanços
patrimoniais US$ 120 bilhões em empréstimos, feitos para financiar data
centers. Temos razão em nos preocupar com os riscos financeiros da enorme
aposta de Wall Street na inteligência artificial. Os bilionários do setor estão
apostando mais de US$ 1 trilhão em uma tecnologia — Inteligência Artificial
Geral (IAG) — que ainda não existe, mas que promete literalmente “o mundo”.
Essa aposta é respaldada por especuladores, grandes e pequenos, que já
investiram US$ 5 trilhões no sucesso dessa aposta.
O
capitalismo sempre produziu empreendedores ousados, criativos e arrojados,
aqueles que sonharam, investiram e construíram ferrovias, computadores e a
internet. A diferença hoje é que, ao contrário das ferrovias, dos computadores
e até mesmo da internet, a Inteligência Artificial Geral (IAG) não existe . A
bolha da IAG pode ser apenas uma vasta manobra tecno-distópica, arquitetada
para colocar os chefões do Vale do Silício no controle político e financeiro de
uma força de trabalho vasta, globalizada e enfraquecida. Esta é a guerra de
classes em sua forma mais brutal: a que se tornou possível graças a um sistema
financeiro global fora de controle.
Assim
como Trump, seus amigos em Wall Street e nas grandes empresas de tecnologia
estão fascinados pela “novidade” criminosa que são as criptomoedas. Na véspera
de sua posse, o presidente e sua esposa lançaram memes digitais, $TRUMP e
$MELANIA, que adicionaram milhões à sua fortuna conjunta. Em apenas dois dias
de mandato, a presidência dos EUA já havia se tornado mais rentável para Trump
do que para qualquer outro presidente na história norte-americana, segundo o
editor sênior da revista Forbes. E, assim como Trump, Wall Street e os EUA
estão “mais uma vez no centro de uma tempestade fiscal e financeira global”,
como argumenta John Plender, um distinto colunista do Financial Times.
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O Cassino Global
Esses
são problemas do que eu chamo de Cassino Global, que viabiliza as apostas
insanas nos mercados financeiros internacionais e produz impacto direto em
nossas aposentadorias, no nosso sustento diário, na energia e na habitação; mas
também na biosfera.
Os
hábitos de especulação dos mercados financeiros globais são em grande parte
invisíveis para quem não é economista e para o público em geral. A visão
convencional do público sobre a relação entre economia e democracia é uma
ilusão, assim como foi, por tempos, muito difundida, a noção convencional de
que o clima era a mesma coisa que o tempo.
Nós, e
as economias em que vivemos, não somos governados por políticos eleitos,
ditadores ou seus funcionários públicos. As principais decisões políticas são
tomadas por operadores no sistema financeiro global, em grande parte
desregulamentado. O valor da economia e da moeda de uma nação é determinado, em
grande medida, por agentes invisíveis nos mercados financeiros. O mesmo ocorre
com as taxas de juros de um país, que, por sua vez, determinam se os
empresários estão dispostos, ou podem arcar com, os custos de investir na
economia doméstica. O valor de nossas aposentadorias e os preços de alimentos,
energia e moradia são alavancas econômicas essenciais, em grande parte
manipuladas por financistas irresponsáveis, e jamais obrigados a prestar
contas, que operam nos mercados financeiros e de commodities internacionais.
Embora
nossos políticos eleitos possam ser culpados, não podemos, com toda a
sinceridade, culpá-los pelo fracasso financeiro e pela volatilidade econômica.
Juntamente com os tecnocratas dos bancos centrais, as decisões e as atividades
de banqueiros globais, gestores de ativos, proprietários de fundos de hedge e
profissionais de gestão de ativos — que nunca se candidatam a cargos eletivos —
têm um impacto muito maior em nossas economias, vidas e meios de subsistência.
De maneiras poderosas, ainda que invisíveis. E, no entanto, suas atividades e
debates sobre o sistema são minimizados. Ficamos obcecados com os últimos
números da inflação e do desemprego, convencidos por economistas de que ambos
são, em grande parte, resultado de decisões tomadas pelos governantes e bancos
centrais.
Apesar
disso, o público não se deixa enganar facilmente. Embora desconheça como essas
decisões são tomadas, tem plena consciência de que os mercados ditam as
políticas econômicas e de que os políticos eleitos são relativamente impotentes
diante desses mercados. Contudo, compreender melhor como o sistema funciona
(para poder transformá-lo) torna-se mais difícil devido ao papel jogado pela
maior parte dos economistas. Eles negligenciam amplamente a questão do dinheiro
e das finanças, preferindo se concentrar no tangível: as transações econômicas
internas e o comércio.
Para a
maioria dos economistas tradicionais, o foco da economia é restrito e chão,
situado no que se denomina nível micro: o indivíduo, a família e a empresa. Os
microeconomistas tendem a negligenciar o impacto do sistema internacional e a
se concentrar nos eventos da “economia do dia a dia”, que por acaso é o título
de um livro da ministra da Fazenda britânica [Chancellor of the Exchequer],
Rachel Reeves. Ela define “três partes constituintes desta economia política:
trabalho e salários, famílias e domicílios, e os locais a que as pessoas
pertencem”.
O foco
doméstico baseia-se nas premissas da microeconomia convencional. Ou seja, em
que a demanda e a oferta de capital, bens e serviços dependem de uma
multiplicidade de tomadores de decisão racionais. que operam dentro das
fronteiras da nação e de seus mercados domésticos competitivos. Na verdade, a
maioria dos que tomam decisões opera em cantos remotos do Cassino Global.
Assim
como o público aprendeu a distinguir entre o tempo e o clima, entre o que é
local e o que é planetário, uma compreensão mais ampla do sistema financeiro,
em grande parte invisível, é essencial para transformá-lo. A tarefa é urgente.
As instituições democráticas foram esvaziadas e desarmadas em todo o mundo por
aqueles que atuam nos altos escalões do sistema financeiro global. Na atual
ordem mundial, somos efetivamente governados por atores ricos e poderosos, em
mercados sediados no Vale do Silício, em Wall Street, na Bolsa Mercantil de
Chicago e na City de Londres. (De agora em diante, incluirei todos esses atores
sob o termo Wall Street.)
O
governo exercido pelas finanças tornou-se insuportável para a sociedade humana.
Os mercados financeiros, que impõem preços exorbitantes para serviços
essenciais à humanidade — como água, moradia, energia, saúde e educação —,
desencadearam fortes reações políticas. Muitas sociedades acabaram recorrendo a
homens fortes, ditadores e figuras autoritárias em busca de “proteção” contra
os mercados. O raciocínio, como explicou Karl Polanyi em 1944, é simples: o
governo baseado em mercados (ou seja, o capitalismo) não poderia existir por
muito tempo sem “aniquilar a substância humana e natural da sociedade; teria
destruído fisicamente o homem e transformado seu ambiente em um deserto”.
Inevitavelmente,
a sociedade toma medidas, imaginando se proteger, continuou Polanyi. Mas
quaisquer que sejam estas medidas — por exemplo, a eleição de Donald Trump, que
prometeu proteção contra os mercados chinês e mexicano —, elas prejudicaram
esses mercados, desorganizaram a vida industrial e colocaram as sociedades em
risco de outras maneiras.
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O fechamento do Cassino
O
triunfalismo atual dos mercados financeiros e das corporações desvinculadas e
autorreguladas é uma prova do controle do privado sobre o sistema financeiro
internacional. Frequentemente, a base sistêmica do poder corporativo é
negligenciada e o foco se desloca para os indivíduos no topo das organizações
ou para suas atividades. Devemos, no entanto, concentrar-nos no poder
abrangente de um sistema financeiro internacional gerido por autoridades
privadas, e não públicas, e reconhecer que não será possível enfrentar a crise
ecológica até que o sistema internacional seja novamente governado por
instituições democráticas e publicamente responsáveis.
Será
que uma nova luta dos movimentos internacionalistas e progressistas conseguirá
derrotar os poderes de hoje,
fundamentais para o modelo atual de globalização financeirizada e o rentismo?
Ou estaremos fadados a suportar o inevitável efeito dominó do fracasso
econômico, da ruptura dos sistemas terrestres e de outra guerra global?
Embora
o mundo que nos controla pareça vasto e incontrolável, isso mudará em caso de
uma grande catástrofe ecológica ou financeira, ou algum outro evento
transformador. Entre 2007 e 2009, a esquerda (em sentido amplo) não estava
preparada para a crise financeira global. Não havia um “Plano B” e, assim, o
Cassino Global se consolidou. Agora, está ainda mais poderoso — grande demais
para falir e grande demais para ser preso. A sociedade precisa desenvolver,
debater e defender um sistema alternativo, internacionalista e mais estável
para se apoiar.
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Um roteiro para a transformação
Para
estabilizar o sistema financeiro internacional baseado nos mercados
financeiros, é necessário, em primeiro lugar, retornar a uma compreensão sólida
da natureza do dinheiro, suas possibilidades e limitações. Essa compreensão
ainda está além do alcance da maioria dos economistas tradicionais e, portanto,
de muitos no setor financeiro. Mas ela pode ser resgatada.
Em
segundo lugar, a atividade bancária e a intermediação financeira precisam ser
novamente integradas ao mundo democrático da regulação bancária, para que o
crédito ou financiamento necessários para a transformação da economia global
seja mobilizado.
Enfrentar
a ameaça das mudanças climáticas e do colapso da biodiversidade exige, mais uma
vez, subordinar os mercados de capitais aos interesses da sociedade e do
ecossistema, como John M. Keynes e Franklin Roosevelt conseguiram fazer
parcialmente nas décadas de 1930 e 1940. Isso demanda o que Greta Thunberg
chama de “pensamento catedral”. Fundamental para a mudança é a gestão dos
fluxos de capital transfronteiriços, hoje desregulamentados e sem rédeas. É a
mobilidade de capitais que permite aos ricos evitar impostos e transferir seus
lucros para paraísos fiscais. São as interrupções repentinas dos fluxos de
capital que podem desvalorizar uma moeda. E é a falha em regular os fluxos de
capital que torna tão difícil o ajuste do custo do dinheiro (juros) em função
dos interesses da economia doméstica.
Para
restaurar a autoridade pública democrática sobre a economia, a prioridade da
esquerda deve ser gerir — e não “controlar” — os fluxos de capital
transfronteiriços. Isso exigirá que ultrapassemos os fundamentos: a necessidade
de compreender a natureza do sistema que chamamos de dinheiro. Os componentes
importantes de uma economia global mais estável são uma arquitetura ou
estrutura internacional para a coordenação e cooperação internacionais, no que
diz respeito à gestão da mobilidade global de capitais, taxas de câmbio, taxas
de juros, taxas de impostos e alinhamento regulatório. O respeitado economista
colombiano José Antonio Ocampo descreve o arranjo atual como “o (não) sistema
monetário internacional”. Um novo sistema comercial mais estável pode ser
baseado no plano de Keynes para uma União Internacional de Compensações,
apresentado ao mundo pela primeira vez em abril de 1943, quando a Grã-Bretanha
propôs reformas monetárias globais. Esse plano ainda é relevante e está
disponível para adoção.
O
terceiro requisito diz respeito a políticas que gerenciem e apoiem o
investimento necessário para auxiliar na transformação da economia global,
afastando-a da dependência dos combustíveis fósseis e caminhando rumo à criação
de economias mais sustentáveis.
Um dos
principais objetivos é reorientar a atividade econômica para estímulos
internos, em vez de externos, visando a demanda doméstica, em vez da demanda
externa. Em 1984, Richard Kahn — provavelmente o herdeiro mais confiável do
legado de Keynes — reiterou a conclusão de seu mestre:
Se as
nações aprenderem a garantir o pleno emprego por meio de suas políticas
internas, não haverá necessidade de forças econômicas importantes que visem
colocar os interesses de um país contra os de seus vizinhos.
O mundo
ainda precisa aceitar esta lição simples ensinada por Keynes. A única maneira
de domar o poder do cassino global é se os fluxos de capital forem contidos em
“compartimentos” ou Estados; e se os estados trabalharem em conjunto para
gerenciar os fluxos de capital descontrolado em seus próprios compartimentos de
capital.
É
possível que esse tipo de pensamento pareça ilusório diante da vasta expansão,
do poder e da falta de prestação de contas dos mercados de capitais atuais —
incluindo o setor bancário paralelo, ou, como o Conselho de Estabilidade
Financeira (FSB) prefere chamar: o setor de Intermediação Financeira Não
Bancária — composto principalmente por fundos de pensão, seguradoras e outras
instituições financeiras (IFNs). Conforme relatado pelo FSB, o setor bancário
paralelo cresceu mais rapidamente do que o setor bancário na última década. Os
ativos financeiros do setor de IFNs totalizaram US$ 200,2 trilhões em 2019,
representando quase metade do sistema financeiro global naquele ano, um aumento
em relação aos 42% registrados em 2008.
Mas,
embora o setor pareça vasto e irrefreável, isso mudará em caso de uma grande
catástrofe ecológica ou algum outro evento transformador. A sociedade
precisará, então, de um sistema alternativo, internacionalista e mais estável
ao qual recorrer.
Hoje, o
vasto setor bancário paralelo opera no equivalente à estratosfera financeira.
Realiza empréstimos com garantia e utiliza acordos de recompra (repos) para
aumentar (alavancar) a liquidez nos mercados de capitais. Esse setor se
desenvolveu devido a uma compreensão convencional e equivocada do dinheiro como
um meio de troca baseado em garantias, que facilita a oferta de bens e
serviços. Essa compreensão equivocada do dinheiro como uma mercadoria, sujeita
às forças da oferta e da demanda, também explica a explosão dos acordos de
recompra no setor bancário paralelo e a ascensão das criptomoedas, incluindo o
bitcoin.
Como
argumentou Claudio Borio, chefe do Departamento Monetário e Econômico do Banco
de Compensações Internacionais:
Poucos
temas em economia geraram debates tão acalorados quanto a natureza do dinheiro
e seu papel na economia. O que é dinheiro? Qual a sua relação com a dívida?
Como ele influencia a atividade econômica? A literatura econômica dominante
recente é uma infeliz exceção. Com exceção de alguns poucos que se aventuraram
por essas águas, a macroeconomia deixou o dinheiro afundar. E com pouco ou
nenhum arrependimento.
Fonte:
Por Ann Pettifor, no Tribune | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras

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