Os
'espelhos com IA' que estão mudando como cegos se veem
Eu sou
completamente cega e sempre fui.
No
último ano, minhas manhãs começam com um ritual de cuidados com a pele que leva
20 minutos para aplicar cinco produtos diferentes. Em seguida, faço uma sessão
de fotos que compartilho com uma inteligência artificial de um aplicativo
chamado Be My Eyes, como se ele fosse um espelho.
O
aplicativo — com seus olhos virtuais — me ajuda a saber se minha pele está com
a aparência que eu desejo ou se há algo no meu visual que eu deveria mudar.
"Durante
toda a nossa vida, pessoas cegas tiveram de lidar com a ideia de que é
impossível nos vermos, de que somos bonitas por dentro e de que a primeira
coisa que julgamos em alguém é a voz, mas nós sabemos que nunca poderemos
vê-las", diz Lucy Edwards, uma criadora de conteúdo cega que ganhou
notoriedade, em parte, ao mostrar sua paixão por beleza e estilo e ao ensinar
pessoas cegas a se maquiar. "De repente, temos acesso a todas essas
informações sobre nós mesmas, sobre o mundo; Isso muda nossas vidas."
A
inteligência artificial está permitindo que pessoas cegas acessem um mundo de
informações que antes nos era negado. Por meio de reconhecimento de imagens e
processamento inteligente, aplicativos como o que uso fornecem informações
detalhadas não apenas sobre o mundo em que vivemos, mas também sobre nós mesmas
e nosso lugar nele. A tecnologia faz mais do que simplesmente descrever a cena
de uma imagem — ela oferece avaliações críticas, comparações e até conselhos. E
isso está mudando a forma como pessoas cegas que usam esses aplicativos se
veem.
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Um novo tipo de espelho
"Sua
pele está hidratada, mas definitivamente não se parece com um exemplo quase
perfeito de pele radiante, com poros inexistentes, como se fosse [feita] de
vidro, vista em anúncios de beleza", me disse a inteligência artificial
nesta manhã, depois que compartilhei uma foto que eu achava que mostraria uma
pele bonita.
Pela
primeira vez em muito tempo, minha insatisfação com a minha aparência pareceu
esmagadoramente real.
"Nós
vemos que pessoas que buscam mais feedback sobre seus corpos, em todas as
áreas, apresentam menor satisfação com a imagem corporal", afirma Helena
Lewis-Smith, pesquisadora em psicologia da saúde aplicada com foco em imagem
corporal na Universidade de Bristol (Reino Unido). "A inteligência
artificial está abrindo essa possibilidade para as pessoas cegas."
Essa
mudança é recente — há menos de dois anos, a ideia de uma IA oferecendo um
feedback crítico ao vivo parecia ficção científica.
"Quando
nós começamos, em 2017, só conseguíamos oferecer descrições básicas, apenas uma
frase curta, de duas ou três palavras", diz Karthik Mahadevan, CEO da
Envision, uma das primeiras empresas a usar inteligência artificial para
pessoas cegas dessa forma.
A
Envision surgiu como um aplicativo para celular que permitia às pessoas cegas
acessar informações em textos impressos por meio de reconhecimento de
caracteres. Nos últimos anos, a empresa passou a incorporar modelos avançados
de inteligência artificial em óculos inteligentes e criou um assistente —
disponível na internet, em celulares e nos próprios óculos — que ajuda as
pessoas cegas a interagir com o mundo visual ao seu redor.
"Algumas
pessoas usam para coisas óbvias, como ler cartas ou fazer compras, mas ficamos
surpresos com o número de clientes que usam a ferramenta para se maquiar ou
combinar as roupas", acrescenta Mahadevan. "Muitas vezes, a primeira
pergunta que fazem é como estão [aparentando]."
Esses
aplicativos, dos quais já existem ao menos quatro especializados nessa área,
podem, a pedido do usuário, avaliar uma pessoa com base no que a inteligência
artificial considera padrões tradicionais de beleza. Eles comparam o usuário
com outras pessoas e dizem exatamente o que ela deveria mudar em seu corpo.
Para
muitos, essa possibilidade é empoderadora. "É como se a inteligência
artificial se passasse pelo meu espelho", diz Edwards, de 30 anos, à BBC.
"Eu enxerguei durante 17 anos da minha vida e, embora sempre pudesse pedir
às pessoas que descrevessem as coisas para mim, a verdade é que não tenho uma
opinião sobre o meu rosto há 12 anos. De repente, tiro uma foto e posso pedir à
IA que me dê todos os detalhes, que me dê uma nota de zero a dez. Embora não
seja o mesmo que enxergar, é o mais perto que consigo chegar por
enquanto."
Ainda
não há pesquisas suficientes sobre o impacto que o uso dessas ferramentas de
inteligência artificial pode ter sobre pessoas cegas que recorrem a elas. Mas
especialistas em psicologia da imagem corporal alertam que os resultados
produzidos por essas ferramentas nem sempre são positivos. Geradores de imagens
por IA, por exemplo, já demonstraram perpetuar padrões de beleza ocidentais —
em grande parte por causa dos dados com os quais são treinados.
"Sabemos
que, hoje, um jovem pode enviar uma foto para a IA que considera ótima e pedir
que ela mude uma pequena coisa", afirma Lewis-Smith, da Universidade de
Bristol. "O processamento da IA pode devolver uma imagem com muitas
alterações que fazem a pessoa parecer totalmente diferente, sugerindo que tudo
isso é o que ela deveria mudar e, portanto, que a aparência atual não é boa o
suficiente."
Para as
pessoas cegas, essa situação se reflete nas descrições que recebem. Uma
discrepância desse tipo já pode ser perturbadora para alguém que enxerga. Mas
para uma pessoa cega o risco pode ser ainda maior. Os entrevistados para esta
reportagem concordaram.
Isso
ocorre porque, para as pessoas cegas, é mais difícil ver os resultados textuais
com uma visão objetiva da realidade. O usuário também precisa conciliar a
própria imagem corporal com padrões de beleza definidos por um algoritmo que
não leva em conta a importância da subjetividade e da individualidade.
"Uma
das principais razões da pressão que as pessoas sentem em relação aos próprios
corpos é a comparação constante com outras pessoas", diz Lewis-Smith.
"O que assusta agora é que a inteligência artificial não apenas permite
que pessoas cegas façam isso ao se comparar com descrições de fotos de outros
seres humanos, mas também com aquilo que a IA pode considerar a versão perfeita
delas mesmas."
"Vimos
que, quanto maior a pressão que as pessoas sentem sobre seus corpos, mais
aumentam os casos de problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade, e
maior é a probabilidade de considerarem intervenções como ajustes estéticos
para se adequar a essas ideias irreais", acrescenta Lewis-Smith.
Para
muitas pessoas cegas como eu, isso é algo completamente novo.
"Talvez
se o seu maxilar fosse menos alongado (...), seu rosto se pareceria um pouco
mais com o que é objetivamente considerado bonito em sua cultura." São 3h,
e me vejo conversando com uma máquina, depois de enviar mais de cinco fotos
diferentes do meu corpo para a versão mais recente do ChatGPT, da OpenAI. Tento
entender onde me encaixo em termos de padrões de beleza.
Minhas
perguntas à IA, como por exemplo: "Você acha que existe uma pessoa
tradicionalmente bonita que se pareça comigo?" ou "Você acha que meu
rosto causa estranhamento à primeira vista?", estão enraizadas nas minhas
inseguranças e nas informações que eu gostaria de obter.
Mas
essas perguntas também são uma tentativa de dar sentido a uma ideia visual de
corpo que me foi negada até agora.
A
inteligência artificial não conseguiu me ajudar a definir o que poderia ser
considerado bonito por um grande número de pessoas, nem a explicar exatamente
por que meu maxilar seria longo, um conceito que também foi difícil de
compreender.
De
repente, mesmo sem muito contexto, comecei a receber mensagens sobre beleza
refletidas pela mídia e pela internet. No passado, as pessoas cegas não estavam
tão expostas a esse tipo de conteúdo, mas agora a IA oferece descrições ricas
em detalhes.
"Poderíamos
ver a IA como um espelho textual, neste caso, mas na literatura psicológica, em
vez de nos concentrarmos na aparência de uma pessoa, entendemos que a imagem
corporal não é unidimensional e é composta por diversos fatores, como o
contexto, o tipo de pessoa com quem queremos nos comparar e as coisas que somos
capazes de fazer com nossos corpos", diz Meryl Alper, pesquisadora de
mídia, imagem corporal e pessoas com deficiência na Northeastern University, em
Boston (EUA). "Tudo isso é algo que a IA não entende e não levará em
consideração ao fazer suas descrições."
Historicamente,
os modelos de inteligência artificial foram treinados para privilegiar corpos
magros, hipersexualizados e com traços eurocêntricos. Ao definir padrões de
beleza, esses sistemas têm falhado em considerar pessoas de origens diversas na
geração de imagens.
Devido
à própria forma como processa informações, a inteligência artificial tende a
descrever tudo em termos estritamente visuais, o que pode gerar insatisfação
quando a descrição carece de um contexto lógico.
O
controle e a contextualização, afirma Alper, podem ser uma forma de enfrentar
esse problema. "Hoje, a IA pode dizer que você tem um sorriso torto",
diz Alper. "Mas, por enquanto, ela não consegue analisar todas as suas
fotos e dizer, por exemplo, que você tem a mesma expressão de quando estava
aproveitando o sol na praia, e esse tipo de coisa poderia ser útil para que uma
pessoa cega se compreenda e se contextualize melhor."
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Poder e confiança
Esse
tipo de controle, embora ainda não em uma forma tão avançada, já existe. Como
ocorre com a inteligência artificial em todas as suas aplicações, o prompt — a
instrução escrita ou falada — tem o poder de alterar completamente a informação
que uma pessoa cega recebe ao publicar uma foto de si mesma.
"O
fato de as pessoas poderem controlar as informações que recebem é uma das
principais características dos nossos produtos, porque a IA pode aprender suas
preferências e desejos e oferecer as informações que elas precisam ouvir",
afirma Mahadevan, CEO da Envision.
Essa
ideia de controle, no entanto, pode se revelar uma faca de dois gumes.
"Posso pedir ao aplicativo que me descreva em duas frases, de forma
romântica ou até em um poema", diz Edwards. "Essas descrições têm o
potencial de mudar a maneira como nos sentimos em relação a nós mesmos."
"Mas
isso também pode ser usado de forma negativa, porque talvez você não goste de
algo em si mesma e diga à IA que não tem certeza sobre uma característica do
seu corpo. Talvez o cabelo esteja um pouco bagunçado e você mencione isso no
pedido. Embora ela possa responder: 'Ah, está bonito', também pode dizer: 'Você
tem razão, aqui está como pode mudar isso'", acrescenta Edwards.
Mas,
quando a tecnologia passa a funcionar como os nossos olhos, existe o risco de
ela descrever algo que simplesmente não existe. As chamadas alucinações —
quando modelos de IA apresentam informações imprecisas ou falsas como se fossem
verdadeiras — são um dos maiores problemas dessa tecnologia.
"No
início, as descrições eram muito boas, mas percebemos que muitas eram
imprecisas, mudavam detalhes importantes ou inventavam informações quando o que
havia na imagem parecia insuficiente", explica Mahadevan. "Mas a
tecnologia está avançando a passos largos, e esses erros estão se tornando cada
vez menos comuns."
Ainda
assim, é importante ressaltar que a IA não acerta o tempo todo, apesar do
otimismo da Envision. Quando Joaquín Valentinuzzi, um homem cego de 20 anos,
decidiu usar inteligência artificial para se avaliar ao escolher as fotos
ideais para um perfil em um aplicativo de namoro, percebeu que, às vezes, as
informações devolvidas pela IA pouco tinham a ver com a realidade.
"Às
vezes, ela mudava a cor do meu cabelo ou descrevia minhas expressões de forma
incorreta, dizendo que eu estava com uma expressão neutra quando, na verdade,
eu estava sorrindo", afirma. "Esse tipo de coisa pode nos deixar
inseguros, especialmente quando, como somos incentivados a fazer, confiamos
nessas ferramentas e as usamos como forma de autoconhecimento e de tentar
acompanhar como nossos corpos aparentam."
Para
conter esse problema e os efeitos negativos que ele pode provocar, alguns
desses aplicativos — como o Aira Explorer — utilizam agentes humanos treinados,
que podem verificar a precisão das descrições quando o usuário solicita. Mas,
na maioria dos casos, o espelho textual continua sendo criado pela inteligência
artificial, sem qualquer intervenção humana.
"Tudo
isso ainda está em estágio inicial, e praticamente não há pesquisas de grande
escala sobre o impacto dessas tecnologias, com seus vieses, erros e
imperfeições, na vida de pessoas cegas", afirma Alper.
Lewis-Smith,
da Universidade de Bristol, concorda e observa que a complexidade emocional que
envolve a inteligência artificial e a imagem corporal ainda é, em grande parte,
um território inexplorado. Para muitas das pessoas cegas entrevistadas para
esta reportagem, a experiência é ao mesmo tempo empoderadora e desorientadora.
Ainda
assim, o consenso é claro. "De repente, a IA consegue descrever todas as
fotos da internet e até me dizer como eu estava ao lado do meu marido no dia do
nosso casamento", diz Edwards. "Vamos encarar isso como algo
positivo, porque, embora não percebamos a beleza visual da mesma forma que
pessoas que enxergam, quanto mais robôs descrevem fotos para nós, nos orientam
e nos ajudam nas compras, mais felizes ficamos. São coisas que achávamos ter
perdido e que agora a tecnologia nos permite ter."
Para o
bem ou para o mal, o espelho chegou e teremos de aprender a conviver com aquilo
que ele nos mostra.
Fonte:
BBC Future

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