Jeffrey
Epstein financiou modelos brasileiras e avisou dias antes sobre sua prisão; MPF
apura citação em Natal
Os
milhões de novos documentos sobre o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein divulgados pelo
governo americano nas últimas semanas mostram que ele manteve relações pessoais
com modelos brasileiras, ajudou-as financeiramente e até pode tê-las empregado
em algum momento como assistentes.
Há
conversas datadas pelo menos desde 2006 nos arquivos, antes de ele ter sido
preso pela primeira vez.
Nessas
conversas, mantidas por e-mail, ele é convidado para festas, fala de visitas a
São Paulo, diz que vai mandar dinheiro, pede para que apresentem outras
mulheres para quando fosse viajar ao Brasil, recebe fotos de mulheres (idades
não são mencionadas) e até avisa a uma delas poucos dias antes de ser preso
pela primeira vez, em 2008.
Como o
contexto dos e-mails é limitado e não há clareza sobre ações ilegais, todos os
nomes serão preservados neste texto.
Parte
desses arquivos foi tirada do ar pelo governo americano nos últimos dias,
após identificação de vítimas.
A BBC
News Brasil mostrou, na última semana,
que um parceiro de Epstein conversou com ele sobre a intenção de comprar uma
revista de moda no Brasil e que teriam um
contato direto no país para conseguir garotas, inclusive com menores de idade.
Revelou
também, por meio de entrevista com uma
vítima, que
diversas brasileiras estiveram em sua mansão.
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Denúncia ao Ministério Público Federal
Uma
dessas mensagens envolvendo uma brasileira chegou ao conhecimento do Ministério
Público Federal (MPF) em Natal, no Rio Grande do Norte, na última semana.
Uma
troca interna de ofícios teve início depois de o procurador-chefe Gilberto
Barroso de Carvalho Júnior comunicar ter recebido informações "dando conta
do aliciamento e envio de mulher residente nos arredores de Natal/RN
possivelmente para a prática de atos sexuais com a pessoa de Jeffrey Epstein,
nos EUA".
Na
última semana, jornalistas e sites no Estado noticiaram que havia menções a uma
mulher de Natal nas trocas de emails.
Datadas
de 2011, as mensagens, obtidas pela BBC News Brasil, não confirmam se houve
aliciamento, nem revelam a idade da pessoa citada. Mas mostram o interesse de
Epstein em uma brasileira após ela ser apresentada por uma conhecida. Mostram
também que esta ponte no Brasil também tentou apresentá-lo a outras amigas.
Os
diálogos detalham a organização para a emissão de passaporte, o plano de
levá-la aos EUA e pedidos explícitos de Epstein por fotos em trajes de banho e
lingerie.
O caso
foi encaminhado à Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de
pessoas e ao Contrabando de Imigrantes.
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'Patrão'
As
primeiras mensagens são trocadas em 2006. Epstein pergunta a uma modelo se pode
se encontrar com outra mulher (possivelmente brasileira, pelo nome) e pede que
ela ligue para ele em Nova York no domingo.
Em uma
mensagem anterior, a interlocutora brasileira diz que "tem algo" para
ele, sem dizer o quê, ao que Epstein responde: "Estou esperando por
foto."
Em
dezembro, ele avisa que estaria em São Paulo e pergunta "Princesa, onde
você está? Estarei em São Paulo nesta semana. Quem está lá?"
Em
outra, avisa que está em Paris e pergunta "há amigos (ou amigas, já que o
termo usado é "any friends") aqui?"
A
mulher, que, em um dos e-mails, o chama de "patrão" (em português),
pede a Epstein informações sobre a operação de uma grande empresa de lingerie
feminina no exterior e diz que seu namorado tem interesse em investir na marca.
Ela
também pergunta a ele se uma amiga pode ficar na casa dele em Nova York e se
ele pode ajudar com sua passagem, ao que ele respondeu: "Eu a
conheço?"
Em ao
menos um dos e-mails em que Epstein é copiado, de 2008, há o título Save
the Date ("guarde a data", em tradução literal da expressão
geralmente usada em convites para eventos), com nomes e emails de diversas
modelos brasileiras e empresários do setor da moda.
As
conversas terminam com Epstein dizendo que "vai para a cadeia por um ano,
começando na segunda. Te desejo boa sorte."
Esta
última mensagem foi enviada em 28 de junho de 2008.
No dia
30, ele se declararia culpado de acusações de ter solicitado prostitutas
menores de idade e é condenado a cumprir pena.
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'Posso te mandar dinheiro?'
Ao
longo de 2012, Epstein troca uma série de mensagens com outra modelo
brasileira. As mensagens dão a entender que eles mantinham algum tipo de
relacionamento e que Epstein a ajudava com dinheiro.
"Meu
amor, obrigada por tudo. Você é incrível. Obrigada por se importar comigo. Eu
gosto muito de você. Não só pelo sexo, mas pelo seu coração. Espero te ver em
breve", diz ela em uma das mensagens, enviada em fevereiro de 2012.
Em
julho, novos agradecimentos. "Sinto muito sua falta, obrigada por tudo,
por sempre estar perto de mim. Você é o melhor. Não se esqueça de que você vive
no meu coração."
Epstein
pergunta a ela se "ela pode ir à ilha depois do dia 1" e oferece um
avião para buscá-la.
Em
fevereiro, ele diz que quer mandar dinheiro para ela e que não gosta de que
"ela não tenha nada".
"Você
tem alguma conta bancária em que eu possa mandar dinheiro?", ao que ela
responde com informações de um banco brasileiro.
Em
julho, ela diz a Epstein que "precisa de um adiantamento" e diz que
quer ajudar um namorado que está começando a trabalhar com investimentos.
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Cirurgia estética e apresentação de mulher em Natal
Uma
brasileira que aparece com frequência nos arquivos mantinha uma relação de
proximidade e dependência financeira com Jeffrey Epstein.
Entre
2009 e 2013, as mensagens mostram que ela não apenas solicitava recursos para
despesas pessoais e procedimentos estéticos, mas também apresentava outras
mulheres ao bilionário, embora as idades dessas mulheres não sejam mencionadas
em nenhum momento das conversas.
Em
2009, as trocas de mensagens detalham pedidos de dinheiro para uma cirurgia de
implante de silicone; a mulher adiou o procedimento enquanto aguardava o
pagamento, afirmando que pretendia "se exibir em Palm Beach" após o
resultado.
Para
viabilizar o pedido, Epstein instruiu funcionários a realizarem transferências
bancárias, inclusive em moeda brasileira.
O
suporte financeiro estendia-se a outros pedidos: uma funcionária de Epstein
relatou que a brasileira esteve em seu escritório solicitando 450 dólares para
a compra de um celular e, em outro momento, registros mostram assistentes
coordenando pagamentos para serviços de beleza de luxo tanto para a jovem
quanto para sua mãe.
O papel
da brasileira na intermediação de contatos consta em registros de janeiro de
2011, quando ela tratou da ida de uma jovem de Natal para os Estados Unidos — é
esse o caso que trata o MPF no procedimento aberto, citado no início desta
reportagem.
Em uma
mensagem, ela descreveu que a moça não falava o idioma, nunca havia viajado e
vinha de uma família simples, sugerindo que ela viajasse no mesmo voo para
facilitar o trajeto. A idade da jovem não é mencionada nos registros.
Acompanhando
o relato, a brasileira enviou fotos da jovem e afirmou que Epstein iria
"adorá-la". A resposta de Epstein foi um pedido por mais imagens,
especificando que deveriam ser de "lingerie ou biquíni".
Embora
o bilionário tenha escrito posteriormente que a ajuda poderia ser "mal
interpretada", a brasileira continuou a sugerir o encontro, propondo que
ocorresse em Paris e reforçando que a jovem era o "tipo" dele.
Natal é
mencionada também em outro contexto, quando o agente de modelos Jean-Luc Brunel
diz a Epstein que esteve na cidade, em 2010. Brunel era um conhecido parceiro
de Epstein.
Brunel foi encontrado morto na prisão em
Paris, na França, em 2022. Estava detido desde o início de uma investigação
formal, após ser acusado de assédio sexual e estupro contra jovens com idades
entre 15 e 18 anos na França. Ele negava as acusações.
Há
ainda uma mensagem em 2013, da mesma brasileira, em que ela pede ajuda a
Epstein. Diz que está com ordem de despejo, não tem recursos para pagar um
advogado e pede um lugar para ficar.
No
mesmo texto, ela mencionou uma nova amiga recém-chegada do Brasil que teria
interesse em conhecê-lo.
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'Estou indo a São Paulo. Tem algumas amigas pra mim?'
Em
outra conversa, em abril de 2006, uma modelo brasileira faz um desabafo a
Epstein.
Ela
pede desculpas por tê-lo desapontado (o contexto não é explicado) e diz que não
foi sua intenção.
"Acho
que estava um pouco com medo ou preocupada... que um dia você não gostasse mais
de mim e me mandasse para casa."
Ela
lembra de um episódio em que "Jean Luck" esteve no Brasil e que
Epstein pediu que ela falasse com ele para conseguir um emprego.
Ela
possivelmente se referia a Jean-Luc Brunel, ex-agente de modelos francês e
parceiro de Epstein, também acusado de ter traficado mulheres.
As
vindas de Brunel ao Brasil em busca de modelos são conhecidas e há até uma
foto dele em Brasília e vídeos em uma agência de recrutamento.
"Ele
me disse que não sabia como você ainda gostava de mim. Que você sempre fica com
uma garota por pouco tempo e depois a manda para casa. E ele tinha certeza de
que você se cansaria de mim mais cedo ou mais tarde".
Ela
relata que conheceu, na mesma época, um namorado, de quem ela disse que
gostava, mas ainda sentia a falta de Epstein.
"E
você não acha que é por causa do dinheiro. Se fosse, eu teria ido quando você
me convidou. Eu realmente gostava de você."
Epstein
responde à mensagem com um "não se preocupe".
Em
dezembro do mesmo ano, ele avisa que está indo a São Paulo e pergunta:
"Você tem algumas amigas para mim?"
Ela
então responde: "Em São Paulo eu não tenho nenhuma de que você fosse
gostar, são mais velhas."
Em 2007
eles voltam a se falar e ela pede dicas de como investir seu dinheiro.
"Estou
ganhando um bom dinheiro. E como nunca tive essa quantia, não sei o que fazer!
Só quero perguntar se você poderia me dar algumas dicas sobre onde posso
investir ou qualquer outra coisa... Você poderia?"
E ele
responde: "Compre um bom apartamento no Brasil. Mande mais fotos."
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'Não conheço muitas garotas. Você é exigente'
Há
outra troca de e-mails, em 2010, que relata um conflito entre Epstein e uma
modelo endividada. O nome dela foi tarjado. Não é possível afirmar se ela é
brasileira ou se apenas trabalha com marcas brasileiras.
A
mulher escreve dizendo que precisa "muito" falar com ele e afirma ter
uma dívida de "US$ 26 mil" relacionada a uma casa em Nova York.
Diz
estar com medo de "não poder mais ir para a América". Relata que
participaria de "um desfile", que descreve como "um grande
evento", com "supermodelos brasileiras". E afirma: "É uma
grande chance para mim e eu estou cheia de problemas." Em outro trecho,
ela: "Por favor, me ajude. Eu só quero trabalhar, fazer uma carreira e ir
ao Brasil."
Epstein
responde dizendo que ela precisa oferecer algo em troca, não apenas pedir.
"Acho
que é hora de você perceber que toda vez que fala comigo, você me pede algo,
toda vez", escreve. Em seguida, acrescenta: "Seria bom se, de vez em
quando, você desse algo em troca ou oferecesse algo." Apesar disso,
conclui: "Dito isso, vou tentar."
Ela
responde dando a entender que tem dificuldades em apresentar garotas a ele por
ele ser "muito exigente".
"É
claro que eu quero fazer algo por você, mas você me pede algo que é difícil.
Como eu posso fazer isso?", escreve. Em outro trecho, afirma: "Eu não
conheço muitas garotas. Quero fazer tudo por você, mas me peça algo que eu
realmente possa fazer."
Epstein
então rebate:
"Você
nunca manda nem um agradecimento", escreve. "Não estou falando das
meninas. Você nunca manda nem um biscoito." E continua: "Você nunca
pergunta o que pode fazer. Você só pede o que quer naquele momento." E
conclui: "Não é assim que um amigo se comporta."
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Como caso Epstein derrubou o braço direito do
primeiro-ministro do Reino Unido
O
governo do Reino Unido, do primeiro-ministro Keir Starmer, sofreu uma baixa
neste domingo (8/2) na esteira do caso Jeffrey Epstein, o bilionário
americano condenado por crimes sexuais encontrado morto na prisão em
2019.
Chefe
de gabinete de Starmer, Morgan McSweeney renunciou ao cargo ao assumir
"total responsabilidade" por ter aconselhado o premiê a nomear Peter Mandelson, figura
próxima a Epstein, como embaixador britânico nos Estados Unidos no ano passado.
"Nosso
partido e eu temos uma dívida de gratidão com ele", disse Starmer sobre
McSweeney neste domingo.
Líder
do Partido Conservador, de oposição, Kemi Badenoch afirmou que o
primeiro-ministro "precisa assumir responsabilidade por suas próprias
decisões terríveis".
Em sua
carta de demissão, McSweeney disse que a "a decisão de nomear Peter
Mandelson foi errada. Ele prejudicou nosso partido, nosso país e a confiança na
própria política".
A crise
no governo britânico ocorre após a polícia iniciar uma investigação criminal
sobre alegações de que Mandelson teria repassado informações sensíveis a
Epstein em 2009. Os documentos revelados nos EUA revelaram e-mails da época em
que Mandelson era secretário de negócios do Reino Unido.
Os
documentos mostraram ainda que Mandelson enviou mensagens de apoio a Epstein
quando o americano enfrentava acusações de crimes sexuais em 2008.
Além
disso, os últimos documentos revelados mostraram que o marido brasileiro de Mandelson, Reinaldo
Avila da Silva, recebeu pagamentos de US$ 75 mil (R$ 390 mil) do bilionário
americano. Após essa revelação, Mandelson anunciou que estava deixando o
Partido Trabalhista, de Keir Starmer, alegando que não queria "causar mais
constrangimento".
Em
setembro do ano passado, o primeiro-ministro já havia anunciado a demissão de
Mandelson do cargo de embaixador nos Estados Unidos, alegando que surgiram
novas informações sobre a profundidade da relação entre ele e Epstein.
"Os
e-mails mostram que a profundidade e a extensão do relacionamento de Peter
Mandelson com Jeffrey Epstein são substancialmente diferentes do que se sabia
na época de sua nomeação", escreveu o Ministério das Relações Exteriores
em um comunicado na ocasião.
Nos
últimos dias, Starmer acusou Mandelson de mentir durante todo o processo de
"verificação de segurança" para o cargo e de deturpar a extensão de
sua relação com Epstein.
Segundo
apuração da BBC, Mandelson avalia que respondeu de forma precisa às perguntas
sobre sua relação com Epstein durante o processo de verificação para o cargo. O
ex-embaixador também avalia que não agiu de forma criminosa em nenhum momento e
que não foi motivado por ganho financeiro.
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Análise: o 'para-raios' de Starmer - Por Chris Mason, editor de política da BBC
McSweeney
há muito era visto como o gênio por trás da remodelação — ou do renascimento,
como alguns preferem — do Partido Trabalhista. Ele fez campanha para
transformá-lo novamente em um partido competitivo eleitoralmente. A ele é
amplamente creditada a vitória esmagadora dos Trabalhistas na última eleição,
que levou Starmer ao poder.
Há
algum tempo o ex-chefe de gabinete vinha sofrendo forte pressão — ele se
tornou, em certa medida, um para-raios.
McSweeney
reconhece que teve papel central na nomeação de Mandelson — uma decisão que
desde então provocou a maior crise do mandato do primeiro-ministro.
A
grande questão agora é se a saída de McSweeney reduzirá a pressão sobre essa
crise política. Ou se, ao retirar o próprio "para-raios" que ele
representava, a pressão passará a atingir diretamente o primeiro-ministro.
Vale
lembrar que, no momento da nomeação de Mandelson, muitas pessoas consideraram a
escolha acertada, diante da necessidade de alguém com habilidade diplomática em
Washington após o retorno de Donald Trump ao poder.
E as
primeiras evidências indicavam que Mandelson estava desempenhando bem o cargo.
No
entanto, as revelações extraordinárias que vieram à tona evidentemente mudaram
o cenário.
Apesar
da ampla maioria obtida por Starmer na eleição, seu governo tem sido ofuscado
por turbulências em Downing Street, sede do governo birtânico.
Também
é importante lembrar que este é um governo relativamente novo, mas a
instabilidade observada ao seu redor é do tipo que normalmente se associa ao
fim do mandato de um primeiro-ministro.
Fonte:
BBC News Brasil

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