Ives
Gandra Martins e filha apoiam rede católica conservadora contra aborto e
questões de gênero
NOME
CENTRAL NO ATIVISMO CATÓLICO CONSERVADOR NO BRASIL, o jurista Ives Gandra
Martins está por trás de uma teia de organizações católicas conservadoras que
objetiva influenciar o Judiciário e o Legislativo brasileiros.
Ives
fundou e ajudou a construir pelo menos seis entidades religiosas conservadoras
na área jurídica para mover ações na Justiça e atuar no lobby pelas chamadas
pautas morais (aborto, questões de gênero, família e sexualidade). Esse
ecossistema tem influência política, alcança as instâncias superiores da
justiça e é ligado a redes conservadoras internacionais.
Junto à
sua filha, Angela Vidal Gandra Martins, advogada e secretária de Relações
Internacionais da prefeitura de São Paulo na gestão de Ricardo Nunes, do MDB,
ele tem a sua própria instituição, o Instituto Ives Gandra, fundado em 2018, em
São Paulo, para defender causas conservadoras.
Além
disso, o nome de Ives aparece também como fundador, integrante ou próximo de
entidades como a União Brasileira de Juristas Católicos, a Ubrajuc; Associação
Brasileira de Juristas Conservadores, a Abrajuc; União dos Juristas Católicos
de São Paulo, a Ujucasp; Instituto Brasileiro de Direito e Religião, o IBDR, e
Associação de Direito das Famílias e Sucessões, a ADFAS.
O filho
do jurista, o ministro do TST Ives Gandra Filho, é próximo à Associação
Brasileira de Juristas Conservadores, e em 2024 participou da convenção anual
da entidade. Ives Filho foi cogitado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal,
o STF, em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro, para substituir o então
ministro Marco Aurélio Mello.
As
organizações com influências da família Gandra já se posicionaram contra a
descriminalização do aborto, por exemplo. “Entidades como essas ingressam com
ações no Judiciário, têm forte inserção política, alcançam tribunais superiores
e influenciam a interpretação constitucional e a formação de jurisprudência”,
diz Rodrigo Toniol, professor de antropologia na Universidade Federal do Rio de
Janeiro, a UFRJ.
Prestes
a completar 91 anos no dia 12 de fevereiro, Ives continua na ativa, inclusive
em tribunais. Católico fervoroso, frequenta missas diárias, recebe políticos e
autoridades em sua casa, participa de debates e bancas de doutorado e mestrado
e ainda de audiências no Congresso Nacional.
Professor
emérito da Escola do Comando do Estado-Maior do Exército e da Universidade
Mackenzie, Ives é uma figura reconhecida
juridicamente, com mais de 200 trabalhos publicados na área. Desde a década de 1970, sempre foi um dos principais
nomes consultados pelos jornalões da grande imprensa para opinar sobre qualquer
tema relevante do meio Judiciário.
Seu
nome apareceu nas investigações sobre os atos do 8 de janeiro, em 2023, embora
não como investigado. Isso ocorreu depois que a Polícia Federal encontrou no
celular do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente
Bolsonaro, um questionário respondido por Ives sobre a utilização do artigo 142
da Constituição Federal para fundamentar juridicamente a tomada de poder pelas
Forças Armadas. De acordo com bolsonaristas, essa tese permitiria a intervenção
no país por um “poder moderador” – as Forças Armadas.
A
Associação Brasileira de Imprensa, a ABI, encaminhou uma representação à Ordem
dos Advogados do Brasil, a OAB, pedindo punição a Ives por “incitação ao
golpe”. O processo foi arquivado no ano passado. Para Ives, não houve golpe no
8 de Janeiro – “Sem armas não pode haver golpe. Sem as Forças Armadas, muito
menos”, afirmou, em vídeo reproduzido no Facebook. O jurista também alegou ter
escrito o texto encontrado no celular de Cid em 2017, a pedido de um major, bem
antes da eleição de Bolsonaro e dos altos golpistas na praça dos Três Poderes.
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As associações conservadoras no direito
Alguns
juízes, promotores e advogados, além de outros operadores do sistema de
Justiça, passaram a se organizar em grupos e associações – de denominações e
crenças diversas – para oferecer suporte a decisões judiciais baseadas na fé.
Esses grupos e associações procuram formar líderes para atuar nessa área,
oferecem formação em direito a partir da perspectiva religiosa, indicam nomes
para cargos importantes em tribunais e também tentam influir em votações no STF
e em outras instâncias do Judiciário.
Os
católicos conservadores, como também segmentos evangélicos, se organizaram para
tentar influenciar nessas decisões. Suas entidades mantêm relações estreitas,
por exemplo, com o Movimento Nacional contra o Aborto, para dar apoio a causas
judiciais relacionadas ao tema, mobilizando os fiéis católicos.
Como
representante da Ujucasp, Ives, em 2023, enviou ao STF uma argumentação oral
contra a arguição de descumprimento de preceito fundamental, a ADPF 442, que
pediu a descriminalização do aborto até a 12ª
semana de gestação. Ele defendeu que a vida começa
na concepção e que o aborto viola princípios
constitucionais fundamentais. Apontou como uma das fontes técnicas
a Academia de Ciências do Vaticano.
O
Instituto Ives Gandra também assinou, junto a outras 19 associações
conservadoras, uma carta aberta ao STF referente à ADPF 442, sustentando a
mesma posição.
Esses
grupos têm como principal objetivo defender a tradição católica, diz o padre e
teólogo Manoel Godoy, professor de Teologia Pastoral na Faculdade Jesuíta de
Belo Horizonte. Eles se fortaleceram no meio católico depois do Concílio
Vaticano II – uma série de reuniões de bispos convocada pelo papa João XXIII,
na Basílica de São Pedro, entre 1962 e 1965, que buscava uma nova fase de
diálogo da Igreja com a sociedade moderna.
“Vivemos
um momento crucial para o catolicismo. Nas últimas décadas, surgiram vários
desses grupos que se apresentam como defensores da verdadeira tradição
católica. Historicamente, pode-se constatar que se trata de um fenômeno
recorrente. Porém, depois do Concílio Vaticano II, tais grupos foram se
alinhando com propostas políticas de direita e extrema direita”, afirma Godoy.
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As redes conservadoras no Brasil e exterior
O
Instituto Ives Gandra, presidido por Angela Gandra Martins, dedica-se a um
ativismo jurídico e à promoção do que considera ser uma “cosmovisão jurídica,
moral e política alicerçada em valores cristãos e no liberalismo econômico”,
como avalia o professor Toniol, da UFRJ. O instituto é ligado a redes
conservadoras no Brasil e no exterior e atua na formação de “elites jurídicas e
intelectuais comprometidas com a agenda conservadora”, diz Toniol.
O
instituto oferece seminários como “Direito natural e segurança jurídica nas
decisões judiciais”. Seus integrantes atuam conjuntamente com outras
organizações católicas e jurídicas; participam de atividades e debates no
Legislativo e no Judiciário; e têm presença constante em audiências no
Congresso Nacional e no STF para tratar de temas como aborto, homeschooling
(educação domiciliar), direitos da família e liberdade religiosa.
Membros
do instituto também ocupam posições relevantes no cenário político e
administrativo no país, e mantêm conexões com redes internacionais
identificadas com a agenda moral conservadora.
O
Instituto Ives Gandra se destaca e chama a atenção por seu enraizamento nas
redes conservadoras, católicas ou não; na sua capacidade de mobilizar
argumentos técnico-jurídicos em defesa de pautas morais; e em sua inserção
direta nos espaços de formulação de políticas públicas, tanto em âmbito
nacional quanto internacional, analisa Rodrigo Toniol.
“Embora
não atue como parte em processos judiciais movidos por associações católicas,
seus membros estão continuamente presentes em comissões legislativas,
audiências públicas e iniciativas parlamentares, além de atuarem como amicus
curiae (a permissão de uma terceira pessoa ou entidade num processo de que não
seja parte da ação) em julgamentos relevantes”, explica Toniol. “Isso lhe
confere um papel central na engenharia intelectual do conservadorismo católico
contemporâneo”.
No
Instituto Brasileiro de Direito e Religião, o IBDR, Ives Gandra Martins também
tem posição de destaque: é presidente de honra do conselho. Fundado em 2018, o
instituto diz funcionar como centro de debate sobre as relações entre direito,
política e religião. É um dos primeiros think tanks sobre lei e religião do
país. Em seu site, o IBDR ressalta não ser “só mais um think tank a surfar na
onda dos movimentos conservadores que ressurgem no país”. Afirma não ser uma
entidade “ideológica” e nega qualquer vínculo partidário.
O IBDR
tem como membros, além de Ives, nomes como Antônio Cabrera, ex-ministro da
Agricultura no governo Collor, e Warton Hertz de Oliveira, assessor do
Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no governo Bolsonaro.
Embora tenha sido fundado por um grupo majoritariamente católico, o instituto
busca uma “unidade programática” com o mundo evangélico.
Ives
Gandra também aparece no conselho científico da Associação de Direito de
Família e das Sucessões, a ADFAS. A entidade, fundada em 2014, organiza cursos,
seminários e eventos e diz promover a proteção jurídica da família. A família,
nesse caso, entendida como um núcleo composto por um homem e uma mulher unidos
em uma relação monogâmica e selada pelo matrimônio.
Os
Gandra são ainda membros do Opus Dei, a organização católica conservadora
fundada em 1928 pelo sacerdote espanhol Josemaría Escrivá, canonizado pelo papa
João Paulo II, em 2002. Tem cerca de 90 mil membros em diversos países e sofreu
restrições em sua atuação impostas pelo Papa Francisco, que travou duras
disputas com grupos conservadores católicos.
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Ativista antiaborto
A filha
de Ives, a advogada Angela Gandra, que atuou como secretária nacional da
Família no governo Bolsonaro, no ministério comandado pela hoje senadora
Damares Alves, do Republicanos do DF, é uma ativista antiaborto e apoiadora de
organizações como o Centro de Reestruturação para a Vida, o Cervi, de São
Paulo; e a Associação Virgem de Guadalupe, de São José dos Campos, no Vale do
Paraíba, que desenvolvem ações para impedir que mulheres abortem.
Angela
esteve em diferentes ocasiões no STF e no Senado defendendo posições pró-vida e
contrárias à legalização do aborto. Em 2023, representou o Instituto Ives
Gandra em uma audiência pública sobre o projeto de lei 1338/2022, que
regulamenta o ensino domiciliar, argumentando que cabe aos pais decidir sobre a
educação formal dos filhos.
Como
secretária da Família, foi uma das responsáveis pela inclusão do Brasil no
Consenso de Genebra, um documento contrário à adoção de leis internacionais
pró-aborto, elaborado pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump, em 2020,
em seu primeiro governo, e assinado por 36 países. O Brasil saiu do Consenso em
2023.
Em
2022, Angela discursou no Senado dos EUA em sessão dedicada à comemoração dos
dois anos do Consenso de Genebra, e defendeu “a vida em todos os estágios de
desenvolvimento” e “o direito soberano das nações em legislar sobre o aborto e
a preservação da vida”.
No
mesmo ano, participou da IV Cúpula Transatlântica da Political Network for
Values, realizada na Hungria, e de outros encontros com líderes de diversos
países em nome da “defesa da vida e da família”. Atuou ainda ao lado de grupos
ultraconservadores da Polônia em campanha que levou a restrições ao aborto
naquele país. Nesses espaços, Angela Gandra figurou como representante oficial
do Instituto Ives Gandra e a voz brasileira no circuito internacional de
mobilização contra o aborto, a educação sexual em escolas públicas e a defesa
das questões de gênero nas políticas públicas.
<><> A relevância da família Gandra
“A
família Gandra navega com legitimidade e muita destreza não só no campo
jurídico, mas também no campo político brasileiro”, avalia Rodrigo Toniol.
Para o
professor, a relevância da família para essa espécie de ecossistema católico
está baseada na grande legitimidade jurídica que Ives, sobretudo, acumulou ao
longo dos anos num campo que não necessariamente é só religioso. “Essa
legitimidade é emprestada para ele quando fala em nome de um certo nicho
religioso e, a partir daí, constitui uma série de associações”, diz o
professor.
Ives
Gandra Martins é uma espécie de iniciador, analisa Toniol, que inaugura um
conjunto variado e amplo de associações. “Ele inventa essas associações, cria e
dá o ato inaugural. E elas passam a atuar não numa espécie de cooperação
imediata, mas numa espécie de ecossistema mesmo, numa retroalimentação em
termos de formação e daquilo que elas produzem, como pautas em defesa de seus
interesses”, completa.
O
teólogo Manoel Godoy ressalta também que a ação dessas entidades vai além da
defesa da tradição católica. “Um outro viés desses grupos se manifesta em
pautas moralizantes, sempre com o argumento da defesa dos bons costumes das
famílias tradicionais”, analisa o teólogo.
“O
trinômio Deus-Pátria-Família aparece sempre como um slogan identificador de
tais grupos. Porém, eles não titubeiam em trair os três elementos que compõem
esse trinômio”, diz Godoy. Com o advento das redes sociais, os grupos
tradicionalistas vêm conquistando muitos espaços, inclusive no meio dos jovens,
vindo a compor o que Godoy chama de “um batalhão de guerra das defesas de suas
proposições com a juventude”. “No meio eclesiástico, se identificam como
neoapologetas. Não poupam discursos radicais contra os que não pensam como
eles, destilando ódio e fomentando intolerâncias de toda a ordem”.
Esses
grupos, acrescenta Godoy, contam com o apoio da hierarquia católica. “Isso
dificulta um claro discernimento sobre suas práticas. Somente com a superação
dessa avalanche global da extrema direita poderemos ter um catolicismo plural,
tolerante e de diálogo frutífero”, avalia o teólogo.
Fonte:
Por Gilberto Nascimento, em The Intercept

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