Gaza
sem palestinos: plano de Trump é ocupação permanente pelos EUA — e já começou
No fim
de janeiro, o Drop Site News revelou um rascunho
de resolução da
recém-batizada “Junta de Paz” de Trump. A resolução esboça o que, em essência,
é a segunda fase do pouco realista plano de paz do presidente dos Estados
Unidos, que marcou o início de uma nova etapa de horror em Gaza sob a aparência
de um cessar-fogo.
As
medidas apontadas na resolução ignoram a realidade no terreno e traçam
um panorama muito sombrio do que os EUA estão planejando para Gaza.
Longe de abandonar as imagens ridículas e ofensivas que Trump
compartilhou naquele vídeo de IA do ano passado,
em que aparecia ao lado de Elon Musk em uma praia de uma Gaza irreconhecível,
esta resolução constitui o plano de batalha para transformar Gaza no playground
dos ricos que Jared Kushner
apresentou no
mais recente Fórum Econômico Mundial de Davos. Trata-se de uma Gaza em que os
únicos palestinos que permanecem são os escolhidos para servir ao novo regime.
É uma
Gaza sob ocupação permanente dos Estados Unidos.
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A “Junta Executiva” que controlaria Gaza
A Junta
de Paz (Board of Peace – BoP) foi a que mais chamou a atenção, mas não é o eixo
central no que diz respeito a Gaza. Ela foi concebida como uma força
internacional para desafiar as Nações Unidas e, atualmente, é composta
integralmente por figuras de extrema-direita e autocráticas; é provável que
continue assim.
A Junta
será liderada por Donald Trump, e sua função como
presidente do conselho tem caráter pessoal, independentemente de seu papel como
presidente dos Estados Unidos. Ele detém pleno poder sobre a composição da
Junta e poder de veto absoluto sobre todas as suas ações. Trump continuará controlando
a Junta até que decida deixá-la ou até sua morte, e tem autoridade exclusiva
para nomear seu sucessor. Seria difícil imaginar uma autocracia mais explícita.
A Junta
de Paz pode delegar sua autoridade como desejar, e foi o que fez em relação a
Gaza. O Comitê Executivo (Executive Board – EB) é o órgão que governará o
território, embora também tenha outras áreas sob sua responsabilidade. Por
isso, delegou seu poder a outro grupo, denominado Conselho Executivo de Gaza
(Gaza Executive Board – GEB). Há uma sobreposição considerável entre os membros
dos dois comitês.
Entre
os integrantes do Comitê Executivo estão nomes bastante conhecidos, como Steve
Witkoff, principal negociador de Trump; Susan Wiles, sua chefe de gabinete;
Jared Kushner, seu genro; e Tony Blair, ex-primeiro-ministro do Reino Unido e
considerado criminoso de guerra pela invasão do Iraque em 2003.
Os
demais nomes podem ser menos conhecidos, mas todos são relevantes e, em
conjunto, delineiam um quadro bastante preocupante de como essa Junta deverá
atuar.
- Hakan Fidan Ali
Al-Thawadi é
ministro de Assuntos Estratégicos do Qatar. Foi uma figura-chave nas
negociações entre os Estados Unidos e o Hamas ao longo do último ano.
Israel se opôs à sua inclusão, mas não com grande veemência. Al-Thawadi
cultivou uma relação sólida com Trump.
- O general Hassan
Rashad é
chefe dos serviços de inteligência do Egito.
- Marc Rowan é um
bilionário estadunidense e um dos principais doadores da campanha
presidencial de Donald Trump. É presidente da United Jewish
Appeal–Federation of New York e uma figura de destaque da comunidade
judaica estadunidense pró-Israel. Rowan foi um dos líderes da campanha
para silenciar críticas de acadêmicos e ativistas estudantis ao genocídio
cometido por Israel e liderou a campanha pela
destituição da
presidente da Universidade da Pensilvânia, Liz Magill, em 2024.
- Reem Al-Hashimy é ministra
de Estado para a Cooperação Internacional dos Emirados Árabes Unidos. Foi
uma das principais porta-vozes em apoio aos Acordos de Abraão.
- Nickolay
Mladenov é
um diplomata búlgaro veterano que foi membro do Parlamento Europeu e alto
funcionário das Nações Unidas. Trabalhou em estreita colaboração com Blair
no Quarteto — um organismo internacional encarregado, ao menos
formalmente, de promover uma solução de dois Estados entre Israel e
Palestina, mas que fracassou de forma retumbante — e apoiou os Acordos de
Abraão quando foram assinados. Mladenov demonstrou tanta habilidade
diplomática que conquistou elogios
públicos de
Israel, dos Estados Unidos, da Autoridade Palestina e de líderes do Hamas.
Trump o nomeou “alto representante para Gaza”, o que lhe confere um papel
central, para além de sua participação no Comitê Executivo de Gaza, na
implementação do plano de Trump. Mladenov expressou ceticismo em relação
ao “acordo do século” (o plano de paz de Trump de 2020 para Israel e
Palestina), o que torna relevante observar como acabou conquistando a
confiança do presidente dos EUA.
- Yakir Gabay, um israelense
com cidadania cipriota, é um magnata bilionário do setor imobiliário.
Ganhou notoriedade por sua participação na pressão exercida sobre o então
prefeito de Nova York, Eric Adams, para que fizesse a
polícia reprimir
violentamente as manifestações na Universidade de Columbia contra o genocídio.
- Sigrid Kaag é
diplomata da ONU há muitos anos e ex-ministra das Relações Exteriores dos
Países Baixos. Recentemente, foi coordenadora especial da ONU para o
processo de paz no Oriente Médio, embora tenha renunciado ao cargo no mês
de junho passado. Kaag não fez comentários sobre sua suposta nomeação para
o Comitê Executivo de Gaza, e é duvidoso que tenha aceitado ou venha a
aceitar essa função.
Não só
não há palestinos na Junta Executiva de Gaza, como também não há ninguém com
experiência na defesa dos interesses palestinos. O Comitê Executivo, ao qual o
Comitê para Gaza prestará serviços de “assessoria”, já inclui grande parte
desses “assessores”: Witkoff, Wiles, Kushner, Blair e Rowan, além do secretário
de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e do subdiretor da NSA, Robert
Gabriel.
Continua
após o anúncio
Trump
também nomeou o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, e o advogado Martin
Edelman, que mantém estreitos vínculos com os Emirados Árabes Unidos, para o
Comitê Executivo. Aryeh Lightstone, ex-assessor do embaixador de Trump em
Israel durante seu primeiro mandato, David Friedman, e Josh Gruenbaum, um
burocrata que trabalhou estreitamente com Witkoff e Kushner, foram nomeados
assessores da Junta Executiva.
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Os palestinos não participam do planejamento do futuro de Gaza
Embora
não haja israelenses na Junta Executiva, ela está repleta de apoiadores
extremistas da direita israelense e de Netanyahu. Isso torna o mandato ambíguo
de todo o empreendimento ainda mais preocupante.
A
proposta publicada pelo Drop Site afirma que “as atividades de
reconstrução e reabilitação da Junta serão dedicadas exclusivamente àqueles que
consideram Gaza seu lar e local de residência”. No entanto, a proposta não
oferece nenhuma oportunidade para que a população de Gaza tenha voz na sua
situação atual, muito menos em seu futuro. A Junta Executiva legisla sobre
todas as normas. Uma Força Internacional de Estabilização (ISF), liderada pelos
Estados Unidos, controla toda a segurança.
A ISF
estará sob o comando do major-general estadunidense Jasper Jeffers. Trump, e
somente Trump, tem o poder de destituir o comandante da ISF e deve aprovar
pessoalmente qualquer candidato que venha a substituí-lo.
O plano
estabelece ainda que “apenas aquelas pessoas que apoiem e ajam de maneira
coerente [com o Plano Integral de Trump para Gaza] poderão participar das
atividades de governança, reconstrução, desenvolvimento econômico ou
assistência humanitária em Gaza”.
O único
papel atualmente previsto para os palestinos em Gaza é executar as decisões
tomadas por outros em seu nome.
Em
outras palavras, os palestinos que desejarem se envolver de alguma forma em
Gaza terão de passar pelo teste de lealdade de Trump, apoiando o controle
externo dos Estados Unidos sobre a Faixa de Gaza. O mesmo se aplicará a
qualquer empresa, ONG ou mesmo indivíduo que queira participar, de alguma
maneira, da reconstrução de Gaza — seja no plano físico, político ou econômico.
Idealmente,
para Trump e Jared Kushner, Gaza se transformaria em uma
gigantesca “cidade-empresa”. A maior parte da costa seria destinada ao turismo.
A fronteira oriental de Gaza com Israel seria convertida em zonas industriais e
enormes centros de dados, o que certamente refletiria os grandes investimentos
que Trump e seus aliados dos Emirados vêm realizando em inteligência
artificial.
Entre
essas áreas haveria zonas residenciais separadas por parques, áreas agrícolas e
complexos esportivos. Na Cisjordânia, esses parques e áreas agrícolas costumam
ser declarados zonas militares fechadas e utilizados para outros fins pela
força ocupante.
Como
ficou claro desde o início, o único papel atualmente previsto para os
palestinos é administrar as decisões da Junta Executiva. Em outras palavras,
tecnocratas, trabalhadores e funcionários palestinos seriam “autorizados” a
executar as decisões tomadas por outros em seu nome.
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A ocupação estadunidense de Gaza
Esta
resolução apenas acrescenta um pouco mais de substância às ideias ainda pouco
definidas que Trump vem apresentando desde outubro. E continua projetando um
futuro próximo em que o Hamas teria se desarmado voluntariamente, Israel teria
se retirado de Gaza e a ISF teria assumido o controle da segurança — cenário
que seria supostamente bem recebido pelos palestinos que permanecessem em Gaza.
Tudo
isso continua sendo pura fantasia.
O
Hamas deixou claro, em repetidas
ocasiões, que está disposto a discutir o desmantelamento de seu arsenal, mas
que não se desarmará. Considerando que Israel está, mais uma vez, financiando grupos
palestinos rebeldes em Gaza, o desarmamento total representaria um suicídio para
muitos membros do Hamas, da Jihad Islâmica e de outras facções.
Os
Estados Unidos vêm debatendo a possibilidade de oferecer anistia e
até mesmo um programa de recompra de armas, mas essas ofertas são pouco
úteis se o desarmamento colocar seriamente em risco a vida dos membros do Hamas
— mesmo que se suponha que os Estados Unidos cumpram sua palavra e que Israel
não venha a perseguir esses combatentes.
Além
disso, Israel tem se mostrado bastante crítico em relação a todo esse plano.
Prefere voltar a atacar Gaza com força total, especialmente agora que não há
reféns — vivos ou mortos — com os quais se preocupar.
Netanyahu
está declarando
abertamente que
Israel não permitirá a reconstrução de Gaza — onde continua matando
pessoas, inclusive bebês, não apenas com suas armas, mas também ao negar
aos palestinos os materiais necessários para se protegerem das inclemências do
inverno — até que o Hamas seja “desarmado”.
O que
está se gestando em Gaza é um novo tipo de ocupação estrangeira. Desta vez, os
Estados Unidos seriam a principal força no terreno, e uma ocupação liderada por
Washington enfrentaria a mesma resistência que a ocupação israelense.
Netanyahu
também está declarando que Israel manterá o “controle de segurança” sobre Gaza
de forma perpétua. Israel informou aos Estados Unidos que pretende ampliar a
zona sob controle israelense em Gaza — que já abrange mais da metade da
Faixa — em vez de reduzi-la, como prevê o plano de Trump.
Segundo
informações, Israel já elaborou um plano para uma grande operação militar — um
retorno ao genocídio em larga escala do ano passado — que pretende colocar em
prática em março,
a menos que os Estados Unidos se recusem a permitir.
Por
fim, ainda há muita ambiguidade quanto à possível composição da ISF. Embora
numerosos Estados tenham se comprometido a apoiar o desarmamento de Gaza,
muitos também expressaram relutância em integrar a força caso isso implique
enfrentar grupos armados da resistência palestina.
Há uma
boa razão para essa relutância. O que está se formando em Gaza é um novo tipo
de ocupação estrangeira. Desta vez, os Estados Unidos seriam a principal força
no terreno — a menos que permitam a Israel retomar sua agressão, algo que Trump
não deseja. Isso representaria o maior fracasso de sua já longa lista de
fracassos e minaria sua afirmação de ter “acabado com as guerras no mundo”.
Tropas
estrangeiras são tropas estrangeiras. É possível que o governo Trump tenha
acreditado tão profundamente em suas próprias narrativas e nas de Israel que
realmente pense que, desde que a bota que pisa o pescoço dos palestinos não
seja judia, eles poderão ser controlados e não lutarão por sua liberdade.
Porque, segundo essa visão, toda a luta palestina se resumiria a combater “os
judeus”.
Mas uma
ocupação liderada pelos Estados Unidos enfrentará a mesma resistência que a
israelense. E isso se manifestará mesmo que o Hamas seja desarmado.
Uma
ocupação estadunidense de Gaza em nome de Israel será tão mal recebida pelos
palestinos quanto uma ocupação israelense respaldada pelos Estados Unidos. Pode
ser que a população de Gaza leve algum tempo para se reorganizar após os
últimos dois anos e meio, mas a resistência virá, como sempre veio.
A
solução é simples: conceder aos palestinos sua liberdade e seus direitos. Mas
essa solução está além da imaginação de Washington e Tel Aviv. Portanto,
conheçam a nova ocupação. Ela não será mais branda do que a anterior.
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Em Gaza, volta do futebol é parte da resposta de um povo
diante do genocídio. Por Jamil Chade
Depois
de mais de dois anos, o futebol voltou para Gaza. Sob escombros e com
jogadores que admitem não saber o que sentir.
O
estádio local foi destruído e transformado num terreno para abrigar centenas de
palestinos desabrigados. Para permitir que um torneio voltasse a ser realizado,
as autoridades limparam uma área bombardeada e colocaram uma velha grama
sintética.
Em
campo, o Jabalia enfrentou o time do Al-Sadaqa. Também houve um confronto entre
o Beit Hanoun e Al-Shujaiya.
Por
paredes perfuradas por disparos e bombas, garotos se amontoavam para acompanhar
as partidas. Testemunhavam aquele momento as ruínas de um genocídio.
Youssef
Jendiya, do Jabalia, admitiu que vivia um dia de sentimentos confusos. Estava
feliz por voltar a campo. Mas alertava que muitos de seus colegas de time
estavam mortos.
Amjad
Abu Awda, jogador do Beit Hanoun, insistia que, ao sair para disputar um
torneio, os palestinos estavam mandando uma mensagem que, mesmo diante da
destruição, a vida deveria vencer.
Em
Gaza, numa periferia de uma grande cidade ou nos ricos templos da Europa, o
futebol jamais será apenas um esporte. Em jogo para os palestinos, estava a
resposta à desumanização. A vida em toda sua complexidade, exuberância,
resiliência e imponderável.
Nesta
imagem, não há um campo de futebol. Há um povo que diz: ainda estamos aqui.
Fonte:
Por Mitchell Plitnick, para Contexto y Acción/Diálogos do Sul Global/ICL
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