As
eleições de 2026 e os possíveis impactos para a docência no Brasil
Ao
longo do ano de 2025, o Observatório Nacional da Violência contra Educadores/as
(ONVE) publicou uma pesquisa intitulada Um estudo quantitativo da perseguição a
educadoras/es no Brasil (ONVE, 2025), tratando das ameaças à educação
democrática em seu primeiro volume. O mesmo estudo, materializado por meio do
Projeto de Extensão interinstitucional sediado na Universidade Federal
Fluminense (UFF), e viabilizado financeiramente pelo Ministério da Educação
(MEC), objetivou “mensurar o impacto da censura e da perseguição sobre o
trabalho docente no Brasil desde 2010” (ONVE, 2025, p. 6), motivado
principalmente pela expansão do discurso de ódio contra educadores e demais
situações que impulsionaram práticas de censura após o ano de 2010.
A demarcação histórica, de acordo
com o ONVE (2025), se legitimou pelacontrovérsia do kit Escola sem Homofobia em
2011; o ativismo religioso conservador para proibir abordagens da temática
gênero e sexualidade nas discussões sobre os planos nacional, estaduais e
municipais de educação a partir de 2014; a onda de projetos “Escola sem
Partido” entre 2014 e 2018; também em 2018, a eleição de Jair Bolsonaro (PL) e
centenas de parlamentares em todo o país, que mobilizaram fortemente essa
agenda em suas campanhas e, posteriormente, em seus mandatos; a onda recente de
proposições legislativas para proibir educação sexual, banheiros unissex e a
linguagem neutra (ONVE, 2025, p. 6).
A
partir de tal premissa os integrantes do ONVE realizaram uma robusta pesquisa
sobre a perseguição aos educadores/as no Brasil, obtendo 3012 respostas
válidas, indicando preliminarmente que 44% dos respondentes declararam ter
passado por situações de censura quatro vezes ou mais, 58% sofreram tentativas
de intimidação, 41% foram questionados agressivamente, e 35% enfrentaram
proibições para lecionação de algum conteúdo. Soma-se a isso os relatos de
“agressões verbais e xingamentos (25%), mudança forçada do local de trabalho
(12%), remoção do cargo ou função (11%), agressões físicas (10%)” (ONVE, 2025,
p. 7) que, por conseguinte, geraram impactos diversos sobre a vida profissional
de 76% dos docentes respondentes, e no cotidiano pessoal contabilizado em 67%.
As
ações coercitivas sobre o trabalho docente têm como origem diferentes agentes.
No entanto, “os principais são sujeitos internos às comunidades educativas,
como profissionais da área pedagógica (57%), familiares (44%), outros
professores (27%) e estudantes (34%)” (ONVE, 2025, p. 8), assim como
representantes do poder legislativo (18%), figuras públicas como
influenciadores (9%), etc. Fato que imputa para a totalidade escolar elementos
que corroboram com as teses sobre a intensificação da precariedade docente para
além das angústias materiais, principalmente após a organização de instituições
da sociedade civil, como o Escola sem Partido, as inúmeras críticas à laicidade
do Estado, a ascensão das escolas cívico-militares, a apresentação de Projetos
de Lei nas diferentes escalas para a imputação da agenda conservadora, e demais
ações político-ideológicas no cerne patrimonialista do Estado – vide a ocupação
dos cargos de gestão em 2023 no Brasil, onde 63,9% foram indicados (ONVE, 2025,
p. 33).
Além da
origem dos agentes, o nível de contato com práticas e situações de censura se
coadunam, em certo sentido, à proporção regional da representação política de
frações da extrema direita tanto no executivo, quanto no legislativo. As
regiões Sul e Sudeste apresentaram números mais significativos em relação à
proporção de educadores que tiveram algum contato direto com práticas de
censura – 64% e 62% passaram por tais situações –, indissociável das áreas do
conhecimento no qual dos docentes aturaram em 2024 – 69% dos professores da
Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas passaram por alguma situação de
censura, enquanto na Área de Matemática e suas Tecnologias o resultado mensurou
51% (ONVE, 2025, p. 20).
Dentre
os temas mais presentes no cotidiano docente ante sua sanção – questionamento,
ou recomendação negativa – pela exposição, destacam-se as questões políticas em
73%, as questões de gênero e sexualidade em 53%, as questões religiosas em 48%,
e o negacionismo científico em 41%, etc. (ONVE, 2025, p. 22). As razões para
tal, e ancorado no estudo de Penna (2019), residem principalmente pela
privatização domiciliar de temas, a ascensão conservadora fincada em
pressupostos ético-morais do mesmo teor, e a expansão da “criminalização”
docente por meio da ofensiva que os categoriza como “doutrinadores
ideológicos”.
Isto
tem acarretado nos robustos dados consecutivos de tal fato, como a insegurança
e a violência mensurada em 59% dos-as docentes respondentes, levando ao
questionamento da profissão para 52%, a retirada de conteúdos por 38%, e a
redução da interação em redes sociais por parte dos-as professores-as (ONVE,
2025, p. 30). De modo indissociável, 79% destes declararam o sentimento
contínuo de estresse e tristeza, 60% apontaram o sofrimento de transtorno de
ansiedade e depressão, e 41% algum receio pela sua segurança (ONVE, 2025, p.
31).
Dentre
as causas para o triste cenário estão, conforme a pesquisa, na tentativa de
intimidação (58%), no questionamento sobre o método-trabalho (41%), na
proibição de conteúdos (35%), nas agressões verbais (25%), na remoção
compulsória (11%), ou em casos de demissão (6%) (ONVE, 2025, p. 26).
Indo ao
cerne do presente artigo, a pesquisa do ONVE (2025, p. 24) demonstra um
elemento que chama atenção em relação às situações de censura contra
educadores. Ao mensurarem a variação histórica das incidências, a conclusão
lógica se remete ao período eleitoral. Entre 2010 e 2024, o maior quantitativo
de situações de censura contra educadores-as ocorreu em anos eleitorais na
escala ampliada, de modo crescente após o primeiro ano da pesquisa. Se em 2018,
o quantitativo esteve em aproximadamente 15%, e em 2022 um ponto percentual
acima, entre 2019 e 2021 os dados variaram entre 3 e 10% nas diferentes regiões
brasileiras (ONVE, 2025, p. 24).
Fato
que se confirma em outro estudo realizado pelo ONVE em parceria com o Grupo de
Trabalho Contra Perseguição Política Sindicato Estadual dos Profissionais da
Educação do Estado do Rio de Janeiro (SEPE-RJ), resultando no Relatório
Violências contra educadores(as) no Estado do Rio de Janeiro: sindicâncias como
forma de perseguição política (ONVE; SEPE-RJ, 2024).
Por
meio do exame do Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro entre janeiro de
2020 e maio de 2024, e em parte motivado pelo Decreto nº 46.873, de 13 de
dezembro de 2019 que estabeleceu procedimentos de controle do poder executivo
no estado em questão, gerando, consecutivamente, a criação da Corregedoria
Interna da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ), a
pesquisa revela que entre o período discriminado foram abertas 1.320
sindicâncias contra servidores da educação – quase uma por dia (ONVE; SEPE-RJ,
2024, p. 6).
Entre o
marco histórico adotado, a similitude com as premissas do texto se confirma. Em
2022, ano eleitoral para os poderes executivo e legislativo nas escalas
estadual e federal, aproximadamente 500 sindicâncias foram abertas – ano de
“pico”, pois em 2021 foram 290 processos. Os responsáveis pela Corregedoria
são, em grande soma, servidores externos da pasta, e militares em sua maioria
(ONVE; SEPE-RJ, 2024, p. 7) – soma-se a isso a individualização do sindicante
no tratamento de aproximadamente 63% dos processos administrativos, o que
imputa elevada pessoalidade.
A
motivação das sindicâncias não se dissocia da pesquisa anterior (ONVE, 2025),
envolvendo a criminalização das aulas, práticas institucionais racistas,
ataques da extrema direita, processos espetacularizados, sigilo excessivo,
tratamento seletivo dos servidores, contato informal com os denunciados, etc.
(ONVE; SEPE-RJ, 2024, p. 22-28). Fato que tem provocado danos à reputação
dos-as docentes pela negação da presunção de inocência, proibição da disputa
para cargos eletivos e diretivos, mobilidade forçada de lotação para outras
unidades escolares, exoneração – como o caso do docente João Paulo Cabrera –,
suspensão e corte salarial – os casos das docentes Andrea Cassa e Mônica Lemos
–, etc. (ONVE; SEPE-RJ, 2024).
O ano
de 2026 não tende a se diferenciar dos demais ante o cenário conjuntural, nos
permitindo concluir que existem variações temporais-históricas que impulsionam
a ofensiva criminalizante sobre o trabalho docente em tempos eleitorais.
Entretanto, cabem três considerações finais. A primeira é que a escola reflete
a totalidade societária, inexorável da ofensiva conservadora após a década de
2010 principalmente, constituindo-se em um espaço que cada vez mais impetra
danos sobre o trabalho autônomo dos profissionais da educação.
A
segunda recai sobre a extensão do controle e de formas reais-simbólicas de
sanção-coerção aos docentes, realizadas tanto por agentes internos da
comunidade escolar, quanto exógenos institucionalmente. Por fim, a combinação
do gerencialismo com o conservadorismo tende a “enquadrar” cada vez mais os-as
professores-as tanto pelo cumprimento de metas preestabelecidas, quanto pela
inexorabilidade entre a finalidade da prática curricular-pedagógica em seus
anseios ranqueadores e ético-morais.
Será um
ano difícil. Outro.
Fonte:
Por Rodrigo Coutinho Andrade, no Le Monde

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