Oliveiros
Marques: O fim da democracia norte-americana
A
democracia não costuma morrer de uma vez. Ela vai sendo tensionada, corroída,
esvaziada por dentro. O que se observa nos Estados Unidos sob o governo Trump é
justamente esse processo: uma sequência de decisões e gestos políticos que,
somados, desenham um preocupante enfraquecimento das bases democráticas.
A
atuação do ICE tornou-se um dos símbolos mais visíveis dessa escalada. A
política de perseguição agressiva a imigrantes, com operações espetaculosas e
detenções em massa, ultrapassa o debate legítimo sobre controle migratório e
assume contornos de intimidação social, inclusive naturalizando a morte de
cidadãos norte-americanos por esses agentes. Mais grave ainda é o envio de
agentes federais para atuar de maneira ostensiva em estados e cidades
governados por democratas, muitas vezes à revelia das autoridades locais,
tensionando o pacto federativo e criando uma espécie de intervenção política
indireta.
A
democracia também se enfraquece nos gestos simbólicos. A exclusão de
governadores democratas de eventos tradicionais que historicamente reuniam
lideranças de ambos os partidos com o presidente — inclusive a ausência de
convite ao único governador negro do país — não é mero detalhe protocolar. É
sinalização política de que o diálogo institucional deixa de ser regra para dar
lugar à lógica da exclusão e do adversário como inimigo. Há ainda o uso do
orçamento como instrumento de pressão. O corte ou bloqueio de verbas destinadas
a áreas sensíveis, como saúde pública, em estados governados pela oposição, não
se enquadra apenas como divergência administrativa. Trata-se de uma prática que
instrumentaliza políticas públicas para punir o povo em nome de divergências
políticas, ferindo o princípio de que o Estado deve servir à população
independentemente da cor partidária de seus governantes.
A
retórica constante de deslegitimação de eleições, ataques à imprensa,
confrontos com o Judiciário e estímulo à polarização permanente completam esse
quadro. Democracias vivem do respeito às regras do jogo, da alternância de
poder e da confiança nas instituições. Quando o próprio chefe do Executivo
coloca esses pilares sob suspeita contínua, o sistema passa a operar sob tensão
permanente.
Não por
acaso, manifestações de rua e mobilizações da sociedade civil têm se
multiplicado nos Estados Unidos. Parte significativa da população percebe que a
normalização de práticas autoritárias corrói silenciosamente o regime
democrático. A história mostra que erosões institucionais nem sempre são
abruptas; muitas vezes acontecem sob o manto da legalidade formal.
Esse
modelo não é distante da realidade brasileira. Foi exatamente esse tipo de
projeto que a família Bolsonaro tentou implementar no Brasil, seja pela via
eleitoral, seja pela tentativa de ruptura institucional entre 2022 e 2023. A
afinidade política e discursiva não era coincidência. Documentos já tornados
públicos indicam, inclusive, a circulação de recursos e articulações
internacionais que levantam questionamentos sobre financiamentos e conexões
transnacionais de grupos extremistas. Parte dos documentos do caso Epstein que
vieram a público confirma o repasse de milhões de dólares a pessoas no Brasil.
O
Brasil escapou de um processo mais profundo de deterioração democrática graças
à resistência institucional e à reação da sociedade. Mas o alerta permanece. O
que se observa nos Estados Unidos não pode ser tratado como modelo a ser
seguido. Ao contrário, deve servir de advertência. A democracia
norte-americana, com sua tradição e seus freios institucionais, certamente
reagirá. As manifestações nas ruas indicam que parte expressiva da sociedade
não aceita a substituição do diálogo pelo confronto permanente. Muito
provavelmente, essa inflexão autoritária será rechaçada pelos próprios
eleitores. O fim da democracia não é inevitável — e, por isso, exige vigilância
constante. Essa é uma lição que vale tanto para os Estados Unidos quanto para o
Brasil.
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Jesuíta Reese sobre Trump: Um desastre para os Estados
Unidos e para o mundo inteiro
"Donald
Trump é uma dádiva para cartunistas políticos, editorialistas e
entusiastas das redes sociais, mas eu o considero paralisante"; "Eu o
considero psicologicamente exaustivo"; "ele age como uma criança
mimada e descontrolada, só que maior, mais cruel e mais forte do que todos ao
seu redor." O padre jesuíta americano Thomas J. Reese, ex-editor da
revista jesuíta americana America Magazine, não poupa palavras em um
editorial dedicado ao presidente dos EUA, Donald Trump: “Se ele fosse um
cidadão comum, poderíamos rir dele e chamá-lo de mentiroso, um narcisista
egocêntrico, mas ele é o presidente dos Estados Unidos”, escreve Reese.
“Como presidente, Trump está destruindo os Estados Unidos. Ele
envenenou nossa cultura política, colocando cidadãos uns contra os outros,
celebrando conflitos e até mesmo a violência. Ele une sua base alimentando o
ódio contra aqueles que ele percebe como inimigos. Seu partidarismo exacerbado
tornou impossível uma discussão política calma, mesmo entre amigos e vizinhos.
Como presidente, ele está enriquecendo a si mesmo, sua família e seus amigos.
Ele até corrompeu a religião, a ponto de pastores poderem perder seus púlpitos
se não forem seus apoiadores entusiasmados, alienando aqueles que desejam suas
igrejas livres da política partidária.”
Trump,
continua o padre Reese, "minou o sistema de justiça ao conceder
indultos aos insurgentes que invadiram o Capitólio e atacaram
violentamente a polícia. Indultos também estão sendo concedidos a apoiadores
políticos e doadores. Ele usou o Departamento de Justiça para atacar seus
oponentes políticos com investigações criminais forjadas. Ele também
transformou o Departamento de Segurança Interna em uma ferramenta de vingança
partidária. Ele desviou agentes do FBI de investigações sobre crime
organizado, corrupção e ameaças à segurança nacional para usá-los contra
políticos e áreas do país que não o apoiam. Ele invadiu cidades e estados
democratas com agentes mal treinados do Serviço de Imigração e Alfândega
(ICE) e da Patrulha de Fronteira (CBP), que agiram implacavelmente
contra imigrantes e cidadãos, resultando em dois assassinatos cometidos por
agentes federais em Minneapolis."
Seus
ataques, afirma o jesuíta, "vão além dos políticos e das cidades
democráticas. Ele ataca universidades e a comunidade científica com processos
judiciais e cortes unilaterais de verbas. Ele usa os erros de alguns para punir
a todos. O dano que ele causou à pesquisa científica atrasará o país por
décadas, assim como a China nos alcançou e nos ultrapassou em algumas
áreas de pesquisa." Além disso, "Ao fingir defender a liberdade de
expressão nos campi universitários, ele intimida o mundo acadêmico, silenciando-o.
Ao fingir defender os judeus, ele acolhe os antissemitas, caso estes o
apóiem."
Até
mesmo a mídia sentiu sua ira: "Jornalistas que desafiam o governo ou fazem
perguntas pertinentes são insultados e humilhados. Casas de jornalistas são
invadidas; computadores e telefones são confiscados. Veículos de comunicação se
veem obrigados a administrar seus negócios em risco devido à fiscalização
governamental e à possibilidade de perder financiamento e contratos
públicos." Todas as informações são severamente afetadas: "A mídia
tornou-se cada vez mais fragmentada, focando em apoiadores de Trump ou
em opositores ferrenhos. Tentativas de objetividade na cobertura jornalística
são ridicularizadas. Até mesmo os escritórios de advocacia mais prestigiosos
foram forçados a se submeter, a ponto de agora relutarem em aceitar clientes
que o governo considera inimigos. Em vez de serem defensores ferrenhos da lei,
abandonaram seus clientes como o Galinho Chicken Little diante das
ameaças do presidente."
Trump também
destruiu o Partido Republicano, "transformando-o em um feudo que muda
de lado dependendo da direção do tornado que ele provocou". Tanto que,
explica Reese, "durante a eleição de 2024, os republicanos prometeram
divulgar os documentos de Epstein; agora eles foram enterrados ou
censurados para proteger Trump e seus amigos. Como
presidente, Joe Biden negou a realidade da inflação; agora,
'acessibilidade' é uma farsa democrata. Os americanos têm o direito
incondicional de portar armas, até que um cidadão com porte de arma apareça em
um protesto contra o ICE; aí ele pode ser desarmado e morto."
O Partido
Republicano não tem mais princípios; segue tudo o que Trump diz
como um cachorrinho atrás de um petisco. Isso minou a capacidade do Congresso
de exercer controle sobre a presidência imperial. Em resumo, os republicanos
"estão se destruindo e destruindo o país no altar de Trump. Se
perderem as eleições deste ano por uma grande margem, receberão exatamente o
que merecem."
Quanto
à economia, Trump também prejudicou a economia americana. Líderes
empresariais estão satisfeitos com os cortes de impostos e a desregulamentação,
mas o futuro a longo prazo das empresas americanas está em questão. Suas
tarifas interromperam as cadeias de suprimentos e alienaram parceiros
comerciais. As empresas não conseguem planejar com um ano de antecedência
porque suas mudanças na política econômica são imprevisíveis. Planejar com
cinco ou dez anos de antecedência é impossível. A agricultura foi prejudicada
por retaliações de países importadores que não gostam de nossas tarifas.
Agricultores e empresas de processamento de alimentos perderam trabalhadores,
expulsos sem nenhum crime além de serem imigrantes
ilegais. Trump está destruindo a indústria automobilística americana
ao interromper as cadeias de suprimentos e impossibilitar as vendas para o
exterior. Enquanto o resto do mundo caminha para os veículos elétricos, os
Estados Unidos cederam esse mercado para a China. Enquanto Henry
Ford atendia à classe trabalhadora com o Modelo
T, Detroit produz SUVs e caminhonetes para uma população cada vez
menor. Produzir um carro acessível às massas não é mais a prioridade de
Detroit.
A
situação é ainda pior com a tecnologia verde, que Trump combate
"justamente quando a energia eólica e solar se tornaram mais baratas que a
energia proveniente de combustíveis fósseis. O país que inventou essas
tecnologias as abandonou à China, que também é líder em tecnologia de
baterias, para que a energia eólica e solar possa ser armazenada para quando
não houver vento nem sol." Além disso, "a revolução energética
demonstra por que a aventura de Trump na Venezuela é tão
insensata. Ele está gastando bilhões para ter acesso ao petróleo venezuelano,
que as grandes petrolíferas não têm interesse em explorar porque investimentos
de longo prazo exigem estabilidade econômica e política. Isso é improvável sob
os regimes atuais ou futuros na Venezuela. Além disso, a energia verde
mais barata ameaçará os lucros das empresas de combustíveis fósseis. Mesmo
no Texas, o mercado está desencadeando uma revolução verde
imparável."
Enquanto
isso, Trump ameaça a segurança nacional ao enfraquecer
a OTAN e alienar aliados em todo o mundo. Ele não se importa com o
direito internacional nem com os direitos humanos. A Ucrânia não é
problema dele, e ele está praticamente convidando a China a
invadir Taiwan antes de deixar o cargo.
Em
conclusão, para o jesuíta, "Trump foi um desastre para os Estados
Unidos, e ainda faltam três anos. Ele entrará para a história como o pior
presidente de todos os tempos. Mas ele não é o único culpado. Nós o elegemos. E
permanecemos indiferentes, a menos que suas ações nos afetem pessoalmente.
Teremos o governo que merecemos." Nessa situação, "o país precisa se
unir e deter a estupidez e a tirania de Trump. As universidades precisam
se unir e falar a uma só voz em defesa da liberdade acadêmica. Os cientistas
precisam denunciar o uso da má ciência para obter ganhos políticos e
econômicos. Os escritórios de advocacia precisam desenvolver uma estrutura
sólida. Todas as raças, etnias e grupos religiosos não podem permitir que ele
nos divida em facções rivais. Os cristãos precisam afirmar que temos apenas um
rei: Jesus. Nas urnas e nas ruas, precisamos demonstrar que a ação
coletiva não violenta ainda existe na América. O que está em jogo é a alma da
nossa nação."
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O Neoliberalismo é uma arma do Imperialismo. Por André
Fernandes
Acredito
que muitos leitores já estão convencidos de que o neoliberalismo é uma arma
letal do imperialismo, um “artefato de destruição em massa” que mata aos poucos
e tem quase o mesmo efeito, a longo prazo, das bombas que liquidam milhares de
famílias mundo afora em nome da “democracia e da liberdade”. Mas permitam-me
fazer uma reflexão sobre este tema que, segundo o eminente geógrafo David
Harvey, não se trata de um sistema econômico, mas de um projeto político.
Como
muitos sabemos, esta “arma letal” surgiu das mentes inescrupulosas de Margaret
Thatcher e Ronald Reagan, inspiradas em arautos da economia como Milton
Friedman, Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, oriundos da tão “notória” Escola
Austríaca que “apedeutas profissionais” da atualidade, seja em solo nacional ou
no estrangeiro, ainda insistem em clamar como prova de “conhecimento,
inteligência e cultura”.
Em seu
livro Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, Vladimir
Safatle — este sim um grande intelectual nacional — descreve o sofrimento
cotidiano na sociedade, assim como o calvário pelo qual passam os excluídos de
um sistema econômico injusto e cruel que, apesar dos estragos feitos mundo
afora, ainda possui propagandistas na academia e nos meios de comunicação. Um
sistema econômico que somente reproduz a disparidade social pela qual vivem os
países do Sul Global — e agora, também os do Norte — fragmentando sociedades e
destruindo nações sem a necessidade de invasões militares — ou mesmo
preparando-as para isso — e, por isso mesmo, semelhante a uma arma de guerra.
Carl
von Clausewitz dizia que a guerra é a “continuação da política por outros
meios”. Com base neste princípio, parece-me justo determinar que os políticos
que defendem o neoliberalismo em solo pátrio são agentes e traidores
pertencentes a uma “internacional neoliberal” que pretende destruir as nações
com a finalidade de espoliar seus recursos naturais. Sendo assim, aqueles
políticos que saúdam a bandeira nacional e se autoproclamam zelosos “vigilantes
da sociedade” e “defensores da educação”, mas que defendem medidas neoliberais
que beneficiam interesses alienígenas e os bancos privados, pertencem a uma
força estrangeira para destruir o Brasil e os países do Sul Global,
independentemente da sigla e da ideologia que “dizem” pertencer. Aqueles que
usam do cargo público para defender o sistema financeiro em detrimento da
população são traidores, ponto final.
O
neoliberalismo insiste em permanecer nos Estados nacionais, por mais que seja
combatido. Como bem descreveu Naomi Klein em sua obra de referência — A
Doutrina do Choque —, o sistema neoliberal, muitas vezes, é implantado
como “solução” de crises políticas em tempos de “terra arrasada”. Tal qual uma
“bomba silenciosa”, destrói famílias e provoca suicídios, pauperização e,
finalmente, violência social mundo afora. A “solução”? Repressão policial. E
assim cria-se a reação em cadeia de um ciclo vicioso no qual a pobreza e a
violência se reproduzem, sociedades são destruídas, e as potências
imperialistas e o sistema financeiro ficam livres para exercer a espoliação e o
saque. O objetivo final deste “método do caos” é transformar todos os países,
inclusive o Brasil, em um “El Salvador”, que se tornou um “exemplo” de
administração estatal para aqueles que, em suas vidas medíocres, perderam a
esperança de um mundo melhor.
Não é
uma coincidência que a agressividade europeia e anglo-saxã se volte para as
nações que não adotaram o neoliberalismo como “religião”, tal qual insistem
diuturnamente os profetas da mídia corporativa. Pouco importa se os “bárbaros”
das estepes russas, os “confucianos marxistas” ou os aiatolás herdeiros dos
sassânidas não adotem a fé da democracia liberal. A questão não é a “autocracia
eslava”, a suposta opressão sofrida pelos uigures de Xinjiang ou a
obrigatoriedade do “hijab”: não se trata disso. Nem as diversas matizes do
amplo espectro ideológico importam aqui: um dos grupos terroristas que levaram
recentemente o caos às ruas de Teerã eram marxistas curdos, junto com
fundamentalistas islâmicos que cortavam cabeças pelas ruas das cidades do Irã,
enquanto a mídia internacional os chamava de “manifestantes pacíficos”.
Pretensos marxistas e “cortadores de cabeça” de uma seita radical agindo como
um aríete de uma invasão internacional, aterrorizando a população e lutando
juntos, financiados e treinados pelo imperialismo “turbo capitalista”. Às vezes
parece que, de fato, o mundo enlouqueceu. O espectro ideológico não faz a menor
diferença na modernidade líquida de Bauman, no ultra-neoliberalismo do turbo
capitalismo selvagem que agora perdeu toda a vergonha na figura do Sr. Donald
Trump.
Como
disse certa vez a grande intelectual Marilena Chauí, é preciso destruir o
neoliberalismo para construir algo novo… nem que, para isso, tenhamos que
ressuscitar John Maynard Keynes. Karl Polanyi, em sua obra A Grande
Transformação, pregava que o socialismo deve ser exercido de forma pontual
para combater a miséria deixada pelo sistema capitalista mundial em suas
periferias. Eu iria mais longe: o “socialismo” — ou mesmo o “keynesianismo” —
deve ser usado como um instrumento de combate ideológico. Estamos todos em um
conflito mundial, às vezes nem sempre “silencioso”, que atualmente se
transformou em um combate sem trégua pelos recursos naturais do planeta… nem a
Groenlândia está a salvo.
Já está
mais do que evidente que o destino dos países que adotam o neoliberalismo é
perder sua soberania e seus recursos energéticos, afundados no caos social e
dominados pelo narcotráfico, tal qual ocorre hoje em um país “andino”,
anteriormente pacífico, como o Equador. Uma sociedade desunida e fragmentada é
facilmente dominada. Como exemplo maior de resistência, vemos as ruas de
Caracas que, mesmo tendo seu presidente sequestrado, foram invadidas por uma
multidão clamando o seu retorno: pode-se sequestrar um “rei”, mas não a
consciência de seus “súditos” ou de uma nação unida. O mesmo ocorreu em Teerã,
onde milhões de iranianos saíram às ruas em defesa da nação de forma espontânea
— por mais que a imprensa internacional tente ocultar ou desqualificar este
fato. A atomização, resultante da “luta de todos contra todos”, tem como
resultado apenas o enfraquecimento das nações, presas fáceis para a
“internacional neoliberal”. Já as tradições, a cultura e o conhecimento
histórico são os meios pelos quais as sociedades se defendem, muitas vezes de
forma inconsciente, deste grande mal.
As
palavras de ordem utilizadas pelo neoliberalismo são “liberdade”, “direitos
humanos” etc. Mas quantas liberdades e direitos foram usurpados, e quantas
vidas foram destruídas, entre os mais de 6 milhões de mortos e refugiados
resultantes das “guerras eternas” — como sempre faz questão de lembrar o
analista geopolítico Pepe Escobar — que se iniciaram na Primeira Guerra do
Golfo Pérsico, no início da década de 1990? Às vezes me questiono: caso os
países da América do Sul finalmente resolvessem resistir à “internacional
neoliberal”, seguindo o exemplo de Cuba, em quanto tempo as “guerras eternas”
não chegariam aqui? E como reagiriam esses países? Hoje vemos, nos protestos
das ruas de Minneapolis, as nefastas consequências deste sistema
ultra-neoliberal opressor nas entranhas de sua matriz ideológica e material.
Tão nefasta e cruel, essa “arma de destruição em massa” foge ao controle e se
volta agora até contra seus criadores, como o monstro de Frankenstein. Enquanto
isso, o “caso Jeffrey Epstein” e sua “Ilha do Doutor Moreau” no mar do Caribe,
visitada por políticos, milionários e “celebridades” em busca de “fantasias”
macabras e sexuais, explodem as entranhas da elite neoliberal tal qual o
“Alien” do diretor Ridley Scott, implodindo “o sangue e as vísceras” de uma
elite atavicamente corrupta que segue em franco declínio moral, material e
espiritual. Tudo isso em um período em que esta mesma “elite” global
escatológica tenta provocar uma Terceira Guerra Mundial em nome de uma pretensa
“superioridade” moral e de uma hegemonia em decomposição.
Como
disse certa vez um dos grandes intelectuais de Terra Brasilis, o
professor José Luís Fiori, as duas ideologias europeias falharam em sua busca
da felicidade do homem: o marxismo, pela busca da igualdade, e o liberalismo,
pela busca da prosperidade. O futuro, como diz o eminente professor, é um
“futuro ético”, mas a busca desse futuro exigirá grande coragem em um mundo
imoral. E não estou falando de qualquer moralidade religiosa ou
pequeno-burguesa, mas de uma “moralidade espiritual”. A procura da ética é o
primeiro passo do combate à violência neoliberal e imperial. Talvez, quem sabe,
a “reencarnação” da busca incessante e sem trégua do “homem novo”, como dizia
antigamente um notório revolucionário, seja o caminho: um homem que não luta
apenas para obter vantagem pessoal, por sua segurança material ou pela
celebridade social. Uma luta inexorável e sem rendição em nome de dois
conceitos frequentemente perseguidos, vilipendiados, esquecidos e ignorados:
justiça e liberdade.
Fonte:
Brasil 247/Adista Notizie/IHU

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