Minerais
críticos: o Brasil sob ataque estratégico dos EUA
No
segundo semestre de 2025, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil passou a
articular, em Brasília e em capitais estaduais, uma agenda dedicada a minerais
críticos e terras raras, reunindo representantes de governos subnacionais,
empresas de mineração, consultorias e instituições financeiras. Esses encontros
foram apresentados como fóruns técnicos sobre cooperação, sustentabilidade e
oportunidades de investimento, mas o foco real esteve na reorganização das
cadeias de fornecimento em torno de ativos estratégicos localizados no
território brasileiro.
A
iniciativa não partiu apenas do corpo diplomático. Ela se conecta diretamente a
instrumentos do Estado norte-americano voltados à segurança econômica, como a
U.S. International Development Finance Corporation, agência pública criada para
financiar projetos considerados estratégicos fora do território dos Estados
Unidos. O envolvimento desse tipo de instituição indica que não se trata de
interesse empresarial difuso, mas de política de Estado aplicada a recursos
considerados sensíveis para a indústria e a defesa norte-americanas.
O
padrão desses encontros é revelador. Em vez de diálogo direto com a União sobre
política industrial e controle público da cadeia, a articulação privilegia
estados e atores locais, onde licenciamento, incentivos e pactos de
desenvolvimento regional funcionam como atalhos decisórios. A agenda avança por
meio de acordos fragmentados, apresentados como soluções pragmáticas para
atrair capital e gerar empregos, sem que o país tenha deliberado de forma
integrada sobre o destino estratégico desses minerais.
Essa
cena inicial expõe o núcleo da disputa. O movimento não gira em torno de quem
extrai, mas de quem organiza a cadeia, define padrões, financia projetos e
controla o destino do minério. O que está em jogo não é uma mina específica,
mas a capacidade do Brasil de decidir soberanamente sobre recursos que passaram
a ocupar o centro do poder global no século XXI.
<><>
O que são minerais críticos e por que viraram questão de poder
Minerais
críticos são aqueles considerados essenciais para setores estratégicos e cuja
oferta está sujeita a riscos de interrupção. No caso das terras raras, o valor
não está na extração bruta, mas nas etapas de processamento, separação química
e transformação em componentes. É aí que se concentra o poder. Hoje, a maior
parte dessas etapas está concentrada fora dos países produtores de minério,
criando dependência estrutural mesmo onde há abundância geológica.
Essa
assimetria explica por que Estados passaram a enquadrar o tema como segurança
nacional. Relatórios oficiais dos Estados Unidos tratam minerais críticos como
insumos indispensáveis para defesa, semicondutores, redes elétricas, mobilidade
elétrica e tecnologias digitais. O gargalo não é a jazida, mas o domínio
industrial que transforma óxidos e concentrados em magnetos, ligas e
componentes de alto valor. Quem controla esse meio da cadeia controla preços,
padrões e acesso a mercado.
A
concentração global é conhecida. A China domina grande parte do refino e da
separação de terras raras, além de etapas decisivas na fabricação de
componentes. Isso cria uma vulnerabilidade explícita para países que dependem
dessas cadeias, sobretudo em momentos de tensão geopolítica. O risco não é
teórico. Ele se materializa em restrições comerciais, atrasos de fornecimento e
poder de barganha assimétrico.
É por
isso que minerais críticos deixaram de ser tratados como commodities e passaram
a ser tratados como infraestrutura estratégica. O debate real não é ambiental
ou técnico, mas de controle. Países que não dominam processamento e
transformação ficam presos a contratos e padrões definidos fora de seu
território. Jazida sem cadeia não gera autonomia. Gera dependência.
<><>
A racionalidade dos Estados Unidos: segurança nacional, reindustrialização e
China
O
movimento dos Estados Unidos em direção aos minerais críticos segue uma
racionalidade institucional explícita. Washington passou a tratar esses insumos
como parte da infraestrutura de segurança nacional, vinculando-os à
reindustrialização, à resiliência das cadeias e à capacidade militar.
Instrumentos legais e estratégicos consolidaram essa mudança, reposicionando o
tema do campo comercial para o campo do poder.
Leis e
diretrizes recentes enquadram minerais críticos como essenciais para defesa,
energia e tecnologias avançadas, autorizando o uso de instrumentos estatais
para garantir suprimento e reorganizar cadeias. A lógica é clara. Reduzir
dependências consideradas hostis, diversificar fornecedores e assegurar que os
elos decisivos da cadeia permaneçam sob influência política confiável. O foco
não é apenas extrair mais, mas controlar processamento, padrões e destinos.
Nesse
desenho, a China aparece como o ponto sensível. A concentração chinesa nas
etapas de refino, separação e fabricação de componentes transformou-se em
vulnerabilidade estratégica para os Estados Unidos. A resposta não é confronto
direto, mas reconstrução de cadeias paralelas, ancoradas em países parceiros e
financiadas por instrumentos públicos. O objetivo é deslocar o centro de
gravidade sem interromper o fornecimento.
É nesse
contexto que o Brasil entra no radar. Para Washington, trata-se de um
território com potencial geológico relevante, estabilidade institucional
relativa e capacidade de absorver projetos rapidamente. Desde que a integração
ocorra de forma funcional, sem estimular um polo industrial soberano capaz de
disputar controle tecnológico, o país se encaixa como fornecedor estratégico em
uma arquitetura desenhada fora de suas fronteiras.
<><>
O mecanismo do ataque: como se captura uma cadeia sem ocupar um país
O
ataque estratégico opera por três alavancas que reorganizam o campo das
decisões antes mesmo de qualquer debate nacional. A primeira é o financiamento
estatal estrangeiro aplicado a ativos estratégicos em território brasileiro,
com objetivos declarados de “fortalecer cadeias alinhadas ao Ocidente” e
reduzir dependência da China. Um exemplo recente e documentado é o acordo de
financiamento de US$ 565 milhões firmado pela U.S. International Development
Finance Corporation com a Serra Verde para expandir e otimizar o projeto de
terras raras Pela Ema, em Goiás.
Esse
tipo de financiamento não é neutro. Ele cria vínculo de longo prazo, influencia
governança e pode abrir portas para participação acionária. No caso Serra
Verde, foi reportado que o acordo inclui opção de participação minoritária para
os EUA, o que altera diretamente a relação entre recurso estratégico, controle
corporativo e decisão soberana sobre o destino da produção.
A
segunda alavanca é a padronização. Cadeias de minerais críticos dependem de
rastreabilidade, compliance e critérios ESG que funcionam como filtro de acesso
a mercado. Quem define os padrões define o que é “aceitável” e, na prática,
desloca parte do poder regulatório para fora do Estado produtor. Isso se torna
ainda mais decisivo quando se considera a concentração chinesa nas etapas
industriais mais críticas, como separação, processamento e magnetos, que
Washington trata como vulnerabilidade estratégica.
A
terceira alavanca é o contrato de destino, o arranjo que amarra a produção a
compradores, rotas e cadeias específicas. É aqui que a captura se completa. O
país pode até deter a jazida, mas perde margem de escolha se o processamento, a
certificação e o mercado final estiverem previamente condicionados por
financiamento, padrões e compromissos comerciais. Quando isso se consolida, a
soberania permanece no papel, mas a decisão real passa a morar na cadeia.
<><>
O Brasil como alvo: potencial mineral, fragilidade industrial e janela
histórica
O
Brasil aparece como alvo estratégico porque reúne três condições raras no atual
tabuleiro global. Possui potencial geológico relevante, território capaz de
sustentar projetos de grande escala e um ambiente institucional que permite
implantação rápida de empreendimentos. Ao mesmo tempo, carrega uma fragilidade
estrutural na etapa decisiva da cadeia, o domínio industrial de processamento,
separação e transformação tecnológica. É essa combinação que transforma
oportunidade em vulnerabilidade.
O caso
de Serra Verde, em Goiás, ilustra o ponto. O país abriga a jazida e a extração,
mas as etapas de maior valor agregado permanecem condicionadas a padrões,
financiamento e mercados externos. Sem um parque nacional robusto de separação
química, metalurgia avançada e fabricação de componentes, a capacidade de reter
valor e decidir o destino estratégico da produção se reduz drasticamente.
Essa
fragilidade não é técnica, é política. O Brasil não consolidou instrumentos de
coordenação capazes de articular mineração, ciência, indústria e defesa sob um
projeto nacional. Na ausência de diretrizes claras, a cadeia se organiza a
partir de fora, preenchendo o vazio decisório com soluções prontas. O
investimento entra rápido, os contratos se firmam e a estrutura se cristaliza
antes que o debate estratégico amadureça.
A
janela histórica é estreita. Ou o país transforma minerais críticos em alavanca
de industrialização soberana, induzindo capacidade doméstica nas etapas
críticas da cadeia, ou aceita o papel de fornecedor funcional em um arranjo
desenhado por interesses externos. Essa escolha não se apresenta como decisão
explícita. Ela se impõe pelo ritmo dos projetos e pela falta de coordenação.
Quando o tempo passa, o futuro já foi contratado.
<><>
O bypass da União: a operação por dentro do território
O ponto
decisivo da ofensiva não é apenas econômico, é institucional. No desenho
constitucional brasileiro, os recursos minerais pertencem à União, e qualquer
estratégia soberana exige coordenação federal, política industrial integrada e
controle público dos elos críticos da cadeia. É justamente por isso que o
avanço não se dá por confronto direto nesse nível. Ele ocorre por deslocamento
da decisão, avançando por dentro do território e fragmentando o processo
decisório.
A
articulação direta com governos estaduais tornou-se o caminho preferencial.
Estados operam licenciamento ambiental, oferecem incentivos fiscais, negociam
infraestrutura e firmam memorandos de entendimento apresentados como políticas
de desenvolvimento regional. Essas decisões são tomadas sob pressão por emprego
e investimento imediato, em arenas menos expostas ao debate estratégico
nacional. Cada acordo isolado parece racional. No conjunto, eles reorganizam a
cadeia mineral sem deliberação federal.
O
resultado é a produção de fatos consumados. Projetos são implantados, contratos
assinados e compromissos assumidos antes que a União consiga formular
diretrizes ou impor condicionantes industriais. Quando o debate chega ao plano
federal, a resposta já está pronta. Questionar o modelo passa a ser enquadrado
como ameaça à segurança jurídica, ao desenvolvimento regional ou à
credibilidade do país diante de investidores.
Esse
bypass neutraliza, na prática, a capacidade decisória do Estado nacional. Mesmo
mantendo prerrogativas legais, a União passa a operar sob constrangimento
permanente, reagindo a estruturas já consolidadas. A soberania não é retirada
formalmente. Ela é limitada por uma engrenagem que transforma fragmentação
institucional em instrumento de poder externo.
É assim
que a captura se completa sem ruptura visível. A cadeia se organiza a partir do
território, os centros de decisão se deslocam e o planejamento nacional se
torna residual. O país continua dono de seus recursos no papel, mas perde,
passo a passo, a capacidade real de decidir como, para quem e em benefício de
quem eles serão explorados.
<><>
Estudos de caso: quando o padrão se repete, não é coincidência
O
primeiro caso é o do projeto Serra Verde, em Goiás, atualmente o principal
empreendimento de terras raras em operação no país. Em 2025, o projeto recebeu
financiamento direto da U.S. International Development Finance Corporation,
agência estatal dos Estados Unidos criada para apoiar ativos considerados
estratégicos fora de seu território. O acordo envolveu crédito de longo prazo e
mecanismos de mitigação de risco associados à expansão da produção e à
integração do projeto a cadeias internacionais alinhadas a interesses
norte-americanos.
O ponto
central não é a existência do financiamento, mas suas condições estruturais. Ao
atrelar capital público estrangeiro a um ativo estratégico localizado no
Brasil, o acordo influencia governança, destino da produção e padrões
operacionais. O recurso mineral permanece no território, mas a decisão sobre
como ele será integrado às cadeias globais passa a ser compartilhada, na
prática, com uma agência vinculada à estratégia de segurança nacional de outro
país. A soberania não é violada formalmente, mas é condicionada.
O
segundo caso envolve a articulação diplomática e empresarial em torno de
minerais críticos conduzida pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, com
foco explícito em estados brasileiros. Eventos, fóruns e rodadas técnicas
reuniram governos subnacionais, empresas de mineração e investidores para
discutir oportunidades em terras raras e minerais estratégicos, frequentemente
sem participação central da União. A estratégia desloca o eixo decisório para o
território, onde licenciamento, incentivos e infraestrutura são negociados sob
a lógica da urgência econômica.
Nos
dois casos, o padrão é o mesmo. O financiamento estatal estrangeiro organiza a
cadeia a partir de fora, enquanto a diplomacia econômica fragmenta a decisão
interna e acelera fatos consumados. Não se trata de episódios isolados, mas de
um método replicável. Quando o mesmo desenho se repete em contextos distintos,
com os mesmos instrumentos e objetivos, ele deixa de ser coincidência e passa a
ser estratégia.
<><>
O discurso que encobre a operação: cooperação, transição e investimento
A
consolidação desse movimento depende de uma linguagem que desarme o conflito
antes que ele seja reconhecido. A retórica da cooperação internacional, da
transição energética e do investimento responsável cumpre exatamente essa
função. Ela desloca a disputa do campo da soberania para o campo técnico,
apresentando escolhas estratégicas como exigências inevitáveis de um futuro
sustentável.
Nos
fóruns articulados pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, os minerais
críticos são enquadrados como oportunidade para integrar o Brasil às cadeias
verdes globais. O problema é que essa integração é proposta sem discutir quem
controla o processamento, define padrões e decide o destino da produção. A
cooperação aparece como valor em si, enquanto a assimetria estrutural
desaparece do debate.
A
transição energética opera como blindagem moral. Questionar o desenho das
cadeias passa a soar como resistência ao progresso ambiental. O efeito político
é a despolitização. Decisões sobre financiamento estatal estrangeiro, contratos
de destino e padrões de mercado deixam de ser tratadas como escolhas nacionais
e passam a ser apresentadas como requisitos técnicos para “acessar o mercado”.
O
investimento completa o quadro. Em um país marcado por desigualdade regional,
projetos que prometem emprego e arrecadação tendem a silenciar qualquer
contestação. O investimento vira fim, não meio. Quando isso acontece, o
controle da cadeia já foi deslocado, e o debate sobre soberania chega tarde
demais. O discurso não nega o conflito. Ele o torna invisível.
<><>
Consequências estratégicas
Se essa
rota se consolidar, o Brasil tende a cristalizar uma posição subordinada nas
cadeias que definirão a economia do século XXI. A extração avança, mas o valor
permanece fora. O processamento, a padronização e os contratos de destino
passam a ser definidos por instrumentos externos, reduzindo a margem de decisão
do Estado brasileiro e condicionando políticas industriais, energéticas e de
defesa. A dependência não surge como ruptura, mas como rotina administrada.
O
impacto vai além do setor mineral. Cadeias críticas condicionam diplomacia,
capacidade de resposta a crises e autonomia tecnológica. Quando o país não
controla elos sensíveis, perde poder de barganha e aceita limites práticos ao
planejamento de longo prazo. O resultado é a repetição, em nova chave, de um
padrão histórico: riqueza natural convertida em segurança estratégica para
outros, enquanto o país administra ganhos imediatos e locais.
Os
fatos apresentados ao longo deste artigo mostram um método coerente.
Financiamento estatal estrangeiro aplicado a ativos estratégicos, diplomacia
econômica focada em estados, padronização como filtro de mercado e contratos
que amarram destinos. Não são episódios isolados, mas engrenagens de uma mesma
operação. O discurso da cooperação e da transição energética funciona como
cobertura para a despolitização do processo.
Nomear
o que está acontecendo é essencial porque o silêncio também decide. A disputa
por minerais críticos já começou e está sendo travada no terreno das cadeias,
não das minas. O futuro do Brasil nesse tabuleiro não será definido por
declarações, mas por quem controla o meio da cadeia e o poder de escolher. A
história mostra que, quando essa decisão é terceirizada, o custo é duradouro e
difícil de reverter.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário