quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Aline Pandolfi: O que o colonialismo não pode permitir

Cuba é novamente alvo da ação ofensiva dos EUA, mas isso não começou agora. Tampouco é resultado de uma vontade política de cunho “democrático”, como costumava se ventilar desde a linha oficial da Casa Branca. Os últimos ataques bélicos conduzidos por Donald Trump culminaram em genocídio na Palestina, com mais 67 mil pessoas assassinadas, dentre elas mais de 20 mil crianças; a captura de Maduro e de Cilia Flores, através da invasão ao território Latino-americano, resultou no assassinato de mais de 100 pessoas dentre estes civis e seguranças, sendo 32 soldados cubanos. Além destes atos de guerra, há ainda a ação cada vez mais ofensiva contra os imigrantes latino-americanos e caribenhos residentes nos EUA. Não nos enganemos, está em curso uma política de extrema-direita com aspectos fascistas, a qual, motivada por um contexto de crise do capital, pretende avançar mais rapidamente com processos de expropriação de territórios, o que sempre se deu com a eliminação de povos inteiros na história mundial do capital.

A Revolução Cubana completou 67 anos no último 01 de janeiro de 2026, desde a entrada do movimento revolucionário em Havana em 01 de janeiro de 1959. Este ano foi o marco do início das profundas transformações econômicas, sociais e políticas, as quais conduziriam a ilha a patamares sociais de destaque em nossa região, sendo a única a apresentar índices elevados de acesso a serviços sociais básicos, equiparados aos países da Europa. A Cuba periférica, com 1.250 km de território, não dispõe de consideráveis fontes de matéria-prima e se caracteriza, como toda região, por uma economia dependente. Com um histórico de eliminação de sua população originária e marcada pelo trabalho escravizado desde o colonialismo até 1886, manteve parte significativa de seu território sob propriedade de empresários estadunidenses até sofrer as transformações políticas e econômicas a partir de 1959.

Nestes 67 anos foram estruturados os serviços de saúde, educação, o acesso ao trabalho e uma forma de participação política muito particular, com decisões tomadas de forma mais democrática que muitos países multipartidários. A ilha multiplicou a quantidade de médicos, tornando-se um exemplo no acesso a acesso à saúde e na medicina preventiva internamente e para o mundo, com as Brigadas Médicas de Solidariedade. Um exemplo é o Contingente Internacional Henry Reeve que, desde 2005 leva médicos cubanos especializados em situações de desastre e grandes epidemias para ofertar serviços médicos em qualquer parte do mundo, em situações de terremoto, como Peru, Indonésia e Paquistão, além de países atingidos por fortes chuvas e tempestades, como a Guatemala e a Bolívia.

Até antes da pandemia por COVID-19 o país manteve a taxa de mortalidade infantil em 4,1 mortes por 1.000 nascidos vivos; além de uma das maiores densidades de médicos do mundo, com 9 médicos para cada 1.000 habitantes até 2019. Na educação, o número de professores primários foi ampliado em 40,8% ainda nos primeiros anos da revolução e em 1961 foi realizada a Campanha de Alfabetização, que praticamente eliminou o analfabetismo no país. Este é um feito que o Brasil ainda não conseguiu e apresenta mais de 9 milhões de pessoas analfabetas, por exemplo.

Em 1961 Cuba foi atacada militarmente pela CIA estadunidense em Playa Girón e conseguiu enfrentá-la. Desde então, a revolução que nasceu “para os humildes” se reconhece como um processo revolucionário socialista e passa a ser bloqueada economicamente pelos EUA. Após 1962, o bloqueio foi regulamentado através da publicação de uma vasta legislação aprovada nos EUA. Esta legislação interfere nas relações externas entre Cuba e os demais países do mundo, sendo as principais a Lei Torricelli (Lei pela Democracia em Cuba) e a Lei Helms-Burton (que interfere nos investimentos estrangeiros em Cuba). Foi neste período que Cuba fortaleceu a relação com a URSS, a qual se desfaz com a derrocada deste regime e a ilha se viu assolada em uma das maiores crises da sua história, o Período Especial em tempos de paz, ainda na década de 1990. A recuperação do cenário de crise da década de 1990 se deu ao longo dos anos 2000, principalmente pelas relações com outros países da América Latina e do Caribe, sobretudo, com o bloco de cooperação política e econômica, a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), fundado em 2004 por Hugo Chávez (Venezuela) e Fidel Castro (Cuba) como alternativa à ALCA, esta proposta à época por George Bush como tática para avançar sobre nossos territórios. Cuba e Venezuela já mantêm em torno de 20 anos de cooperação internacional e em dezembro de 2016 o Governo Cubano anunciou a continuidade do Convenio Integral de Cooperación entre Cuba e Venezuela. A relação entre os países da região é um ponto crucial no enfrentamento ao imperialismo estadunidense.

As políticas de Donald Trump aprofundaram a crise em Cuba desde a primeira gestão em 2016. Durante este período foram implementadas 273 medidas novas de bloqueio econômico à ilha, o que dificultou ainda mais o acesso da população à alimentos diversos e básicos, a medicamentos, o acesso a divisas enviadas por cubanos que residem nos EUA, aspectos que comprimiram ainda mais a economia do país. Até mesmo viagens de estadunidenses à ilha como turistas foram cerceadas, reduzindo drasticamente a entrada de divisas no país.

Em 2020, durante a pandemia da COVID-19, o governo cubano denunciou o impedimento de compra e de entrada de respiradores pulmonares (ventiladores), assim como de insumos médicos essenciais ao combate ao coronavírus na ilha, devido ao bloqueio. O PIB do país teve uma queda de mais de 10% em 2020. Ainda assim, o país apostou na medicina preventiva e na produção de vacinas contra a COVID-19, demonstrando que os investimentos feitos em biotecnologia desde a década de 1970/ 1980 permitiram que fossem a primeira produção autônoma com os primeiros resultados exitosos ainda em 2021 na América Latina e Caribe. Foram produzidas 5 diferentes vacinas contra a COVID-19, sendo elas: Soberana 01, Soberana 02 e Soberana Plus, desenvolvidas pelo Instituto Finlay de Vacinas (IFV) – instituto de pesquisas epidemiológicas cubano; e Abdala e a Mambisa, criadas pelo Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB) de Cuba. Durante a pandemia também foram enviadas 57 brigadas “Henry Reeve”, levando serviços médicos a 40 países no combate a pandemia da COVID-19.

A ação do imperialismo sobre a região tem sido sistemática e sempre no sentido de conter a luta de classes na região. Após o fim das Ditaduras militares o imperialismo estadunidense centrou esforços na luta ideológica através da difusão dos chamados Think thanks, o que se acentuou através das redes sociais e dos canais recentes de comunicação em massa, direcionados pelas Big Techs do Vale do Silício. A ação e propaganda contra Cuba e Venezuela são motes centrais da ação do imperialismo na região, o que se tornou ainda mais nítido com a ascensão da extrema direita contemporânea, isso porque ambos países, cada um a sua maneira e imerso em particulares contradições, enfrentam os ditames do capitalismo em fase imperialista.

Após a pandemia, a ilha tem sofrido com a falta de petróleo, o baixo acesso a combustíveis e a diversos e diários apagões por falta de energia elétrica. O país sofre com a baixa oferta de alimentos, cada vez em menor quantidade e diversificação. A crise alimentar desde 2024 e 2025 é tida como uma das piores da história do país, equiparando-se novamente ao Período Especial, com escassez generalizada de alimentos, alta inflação e racionamento. A situação já está muito crítica na ilha desde o pós pandemia, com o registro imigratório de mais de 1 milhão de pessoas entre 2021 e 2025.

A atual ofensiva do bloqueio estadunidense contra Cuba tende a aprofundar rapidamente o quadro de uma possível crise humanitária na ilha. O corte abrupto do acesso a petróleo, a baixa energética que isso deve gerar e suas inúmeras e severas consequências são um risco iminente para a sobrevivência de sua população, de aproximadamente 10 milhões de pessoas.

O futuro permanece aberto e não se deve subestimar a ação imperialista, cada vez mais extremista e autoritária. Cuba representa em nossa região um exemplo da luta anti-imperialista, por soberania dos povos latino-americanos e caribenhos, por um projeto de país independente da cartilha internacional do capital para os povos da periferia deste sistema mundial. Derruba-la econômica e politicamente é uma perda para toda região, para toda esquerda revolucionária e para os povos que resistem em toda parte do mundo a expropriação e exploração capitalista. Defendê-la é reivindicar nossa soberania como continente, como autores da nossa história, é defender projetos alternativos à lógica do capital imperialista, é conter o avanço do imperialismo sobre nossas terras e nossos recursos, é manter a esperança diante de um futuro de crise do capital, climática, econômica, política. Mas se nada disso for suficiente ao convencimento, defende-la é a defesa concreta da vida de quase 10 milhões de latino americanos e caribenhos.

¨      Emir Sader: Cuba resiste

Donald Trump está fazendo de tudo para sufocar Cuba, cuja vitória revolucionária ainda não foi aceita pelos Estados Unidos.

Agora, o presidente americano emitiu o que chamou de "ordem executiva", ameaçando com medidas severas os países que continuam fornecendo petróleo a Cuba.

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Fiz três perguntas a um amigo cubano, Abel Prieto, presidente da Casa de las Américas, sobre a situação real na ilha, especialmente considerando a quantidade de notícias falsas disseminadas pelos principais veículos de comunicação controlados pelos Estados Unidos.

Abel respondeu com uma carta, que reproduzo aqui na íntegra.

"Este é um esforço cruel para nos sufocar e forçar a sempre presente 'mudança de regime'. Eles ameaçam sancionar qualquer país que nos venda petróleo, paralisando, assim, a economia, a produção e os serviços à população e promovendo uma crise política."

Ele então detalha as medidas tomadas pelo governo cubano "para priorizar as necessidades básicas da população, saúde pública, educação e assistência aos setores mais vulneráveis". "Além disso, estão em curso esforços para acelerar os investimentos já realizados na instalação de parques solares e no uso de fontes de energia renováveis." Abel relata que, no ano passado, "conseguiram instalar cerca de 50 parques fotovoltaicos em todas as províncias". Esses parques estão sendo instalados em maternidades, policlínicas e lares de idosos.

Da mesma forma, do ponto de vista energético, estão protegendo centros de produção associados a exportações, irrigação elétrica, cultivo de tabaco, entre outros.

"Juntamente com a tentativa de nos sufocar, as operações de guerra psicológica por meio da mídia digital, financiadas pelos ianques, estão se multiplicando a cada dia", escreve Abel. "É por isso que estamos trabalhando intensamente para preparar nosso povo para travar a batalha nas redes sociais sem ser manipulado."

Abel então recorda: "O povo cubano passou por experiências muito difíceis ao longo de todos esses anos: a invasão da Baía dos Porcos, a Crise dos Mísseis de Cuba, a guerra biológica, furacões devastadores, o colapso do socialismo na Europa, as Leis Torricelli e Helms-Burton e a pandemia da COVID-19."

Ele relata as homenagens prestadas aos 32 cubanos que morreram defendendo o governo venezuelano contra o sequestro do presidente daquele país.

E conclui dizendo que: "Apesar das enormes carências e dificuldades que enfrentamos hoje, estou convencido de que não há, nem haverá, uma crise política em Cuba. O decreto de Trump só serviu para radicalizar nosso povo, nos unir ainda mais e nos tornar mais anti-imperialistas e antifascistas."

E termina com: "Um grande abraço, querido Emir."

<><> 'Ato criminoso': Cuba denuncia na ONU bloqueio e agressão 'sem precedentes' dos EUA

Cuba denunciou na segunda-feira (09/02), no Conselho de Direitos Humanos da ONU, a agressão sem precedentes dos Estados Unidos contra o país caribenho.

O representante cubano Roberto Cabañas, falando na 61ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, Suíça, disse que a ação dos EUA “visa punir impiedosamente toda a nossa população, em flagrante violação de seus direitos humanos”.

Ele também afirmou que os EUA chegam ao ponto de ameaçar com tarifas punitivas os países que fornecem petróleo a Cuba. Com isso, acrescentou, “eles pretendem tornar a comunidade internacional cúmplice de um bloqueio energético contra nossa nação”.

De acordo com o diplomata cubano, o objetivo das sanções é paralisar a atividade econômica e social do país e causar sofrimento a milhões de cubanos. A este respeito, Cabañas lembrou que “o Conselho de Direitos Humanos não pode permanecer em silêncio diante desses atos criminosos”.

O representante cubano indicou que a atual sessão do Conselho de Direitos Humanos está ocorrendo em um contexto internacional complexo, já que o sistema multilateral e suas instituições estão sob ataque direto.

O site do Ministério das Relações Exteriores de Cuba anunciou que o país apresentará três projetos na 61ª sessão do Conselho, agendada para o período de 23 de fevereiro a 2 de abril.

Esses textos abordam “as consequências da dívida externa e de outras obrigações financeiras internacionais correlatas dos Estados sobre o pleno gozo de todos os direitos humanos, em particular os direitos econômicos, sociais e culturais”; “o direito à alimentação”, bem como “a promoção do gozo dos direitos culturais para todos e o respeito pela diversidade cultural”.

•        Marco Rubio é quem impede Trump de negociar com Cuba, diz jornal

O Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, está mentindo para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma suposta negociação entre Washington e Havana que, na prática, não está ocorrendo. A informação é do Drop Site.

Segundo a reportagem, não há qualquer negociação de alto nível em curso entre os países, o que vai na contramão das recentes declarações de Trump sobre possíveis conversas ocorrendo com Cuba.

Um alto funcionário do governo Trump afirmou ao veículo que o mandatário “está dizendo isso porque é o que Marco está dizendo a ele”, acrescentando que o Secretário de Estado está se esforçando internamente para fazer com que o republicano acredite em “negociações sérias” para alegar, posteriormente, que as tratativas foram infrutíferas devido à intransigência cubana.

O objetivo, segundo o Drop Site, é abrir caminho para que os Estados Unidos forcem uma mudança de regime na ilha socialista, algo que Rubio e sua base política situada no sul da Flórida desejam há anos. “Para os oponentes de Rubio dentro do governo, o momento representa uma oportunidade de transformar Cuba em sua Waterloo”, diz a reportagem.

‘Não há negociações’

As autoridades cubanas ouvidas pela reportagem também desmentiram a existência de conversa, reiterando “repetidamente” que desejam abrir negociações com Washington.

Ao New York Times, um alto funcionário do Departamento de Estado disse que o contato entre os governos cubano e norte-americano “não foi substancial” e se limitou a discutir a repatriação de migrantes, o que foi confirmando ao Drop Site.

<><> Cuba quer negociar

A verdade, de acordo com a reportagem, é que “o desejo de Havana por negociações, beirando o desespero, já foi sinalizado por diversos canais”, em meio à forte crise gerada pelos Estados Unidos que ameaça impor tarifas aos países que venderem petróleo para a ilha.

O Drop Site aponta os efeitos da medida dentro de Cuba e as dificuldades sofridas por sua população, destacando que a única questão inegociável é a sua soberania.

Diversas declarações públicas confirmam a abertura para o diálogo. Em comunicado, a chancelaria cubana afirmou que o país “reitera sua disposição de manter um diálogo respeitoso e recíproco com o governo dos Estados Unidos”. A mesma disposição foi reafirmada pelo representante permanente de Cuba na ONU, Ernesto Soberón Guzmán, em entrevista à Newsweek.

Além disso, o próprio presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, reiterou a “enfática abertura de seu país” para negociações com a Casa Branca, reafirmando: “somos um país de paz, não representamos uma ameaça para os Estados Unidos”.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247/Opera Mundi

 

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