Aline
Pandolfi: O que o colonialismo não pode permitir
Cuba é
novamente alvo da ação ofensiva dos EUA, mas isso não começou agora. Tampouco é
resultado de uma vontade política de cunho “democrático”, como costumava se
ventilar desde a linha oficial da Casa Branca. Os últimos ataques bélicos
conduzidos por Donald Trump culminaram em genocídio na Palestina, com mais 67
mil pessoas assassinadas, dentre elas mais de 20 mil crianças; a captura de
Maduro e de Cilia Flores, através da invasão ao território Latino-americano,
resultou no assassinato de mais de 100 pessoas dentre estes civis e seguranças,
sendo 32 soldados cubanos. Além destes atos de guerra, há ainda a ação cada vez
mais ofensiva contra os imigrantes latino-americanos e caribenhos residentes
nos EUA. Não nos enganemos, está em curso uma política de extrema-direita com
aspectos fascistas, a qual, motivada por um contexto de crise do capital,
pretende avançar mais rapidamente com processos de expropriação de territórios,
o que sempre se deu com a eliminação de povos inteiros na história mundial do
capital.
A
Revolução Cubana completou 67 anos no último 01 de janeiro de 2026, desde a
entrada do movimento revolucionário em Havana em 01 de janeiro de 1959. Este
ano foi o marco do início das profundas transformações econômicas, sociais e
políticas, as quais conduziriam a ilha a patamares sociais de destaque em nossa
região, sendo a única a apresentar índices elevados de acesso a serviços
sociais básicos, equiparados aos países da Europa. A Cuba periférica, com 1.250
km de território, não dispõe de consideráveis fontes de matéria-prima e se
caracteriza, como toda região, por uma economia dependente. Com um histórico de
eliminação de sua população originária e marcada pelo trabalho escravizado
desde o colonialismo até 1886, manteve parte significativa de seu território
sob propriedade de empresários estadunidenses até sofrer as transformações
políticas e econômicas a partir de 1959.
Nestes
67 anos foram estruturados os serviços de saúde, educação, o acesso ao trabalho
e uma forma de participação política muito particular, com
decisões tomadas de forma mais democrática que muitos países multipartidários.
A ilha multiplicou a quantidade de médicos, tornando-se um exemplo no acesso a
acesso à saúde e na medicina preventiva internamente e para o mundo, com as Brigadas
Médicas de Solidariedade. Um exemplo é o Contingente Internacional
Henry Reeve que, desde 2005 leva médicos cubanos especializados em
situações de desastre e grandes epidemias para ofertar serviços médicos em
qualquer parte do mundo, em situações de terremoto, como Peru, Indonésia e
Paquistão, além de países atingidos por fortes chuvas e tempestades, como a
Guatemala e a Bolívia.
Até
antes da pandemia por COVID-19 o país manteve a taxa de mortalidade infantil em
4,1 mortes por 1.000 nascidos vivos; além de uma das maiores densidades de
médicos do mundo, com 9 médicos para cada 1.000 habitantes até 2019. Na
educação, o número de professores primários foi ampliado em 40,8% ainda nos
primeiros anos da revolução e em 1961 foi realizada a Campanha de
Alfabetização, que praticamente eliminou o analfabetismo no país. Este é um
feito que o Brasil ainda não conseguiu e apresenta mais de 9 milhões de pessoas
analfabetas, por exemplo.
Em 1961
Cuba foi atacada militarmente pela CIA estadunidense em Playa
Girón e conseguiu enfrentá-la. Desde então, a revolução que nasceu
“para os humildes” se reconhece como um processo revolucionário socialista e
passa a ser bloqueada economicamente pelos EUA. Após 1962, o bloqueio foi
regulamentado através da publicação de uma vasta legislação aprovada nos EUA.
Esta legislação interfere nas relações externas entre Cuba e os demais países
do mundo, sendo as principais a Lei Torricelli (Lei pela
Democracia em Cuba) e a Lei Helms-Burton (que interfere nos
investimentos estrangeiros em Cuba). Foi neste período que Cuba fortaleceu a
relação com a URSS, a qual se desfaz com a derrocada deste regime e a ilha se
viu assolada em uma das maiores crises da sua história, o Período
Especial em tempos de paz, ainda na década de 1990. A recuperação do
cenário de crise da década de 1990 se deu ao longo dos anos 2000,
principalmente pelas relações com outros países da América Latina e do Caribe,
sobretudo, com o bloco de cooperação política e econômica, a ALBA (Aliança
Bolivariana para os Povos da Nossa América), fundado em 2004 por Hugo Chávez
(Venezuela) e Fidel Castro (Cuba) como alternativa à ALCA, esta proposta à
época por George Bush como tática para avançar sobre nossos territórios. Cuba e
Venezuela já mantêm em torno de 20 anos de cooperação internacional e em
dezembro de 2016 o Governo Cubano anunciou a continuidade do Convenio
Integral de Cooperación entre Cuba e Venezuela. A relação entre os
países da região é um ponto crucial no enfrentamento ao imperialismo
estadunidense.
As
políticas de Donald Trump aprofundaram a crise em Cuba desde a primeira gestão
em 2016. Durante este período foram implementadas 273 medidas novas de bloqueio
econômico à ilha, o que dificultou ainda mais o acesso da população à alimentos
diversos e básicos, a medicamentos, o acesso a divisas enviadas por cubanos que
residem nos EUA, aspectos que comprimiram ainda mais a economia do país. Até
mesmo viagens de estadunidenses à ilha como turistas foram cerceadas, reduzindo
drasticamente a entrada de divisas no país.
Em
2020, durante a pandemia da COVID-19, o governo cubano denunciou o impedimento
de compra e de entrada de respiradores pulmonares (ventiladores), assim como de
insumos médicos essenciais ao combate ao coronavírus na ilha, devido ao
bloqueio. O PIB do país teve uma queda de mais de 10% em 2020. Ainda assim, o
país apostou na medicina preventiva e na produção de vacinas contra a COVID-19,
demonstrando que os investimentos feitos em biotecnologia desde a década de
1970/ 1980 permitiram que fossem a primeira produção autônoma com os primeiros
resultados exitosos ainda em 2021 na América Latina e Caribe. Foram produzidas
5 diferentes vacinas contra a COVID-19, sendo elas: Soberana 01, Soberana 02 e
Soberana Plus, desenvolvidas pelo Instituto Finlay de Vacinas (IFV) – instituto
de pesquisas epidemiológicas cubano; e Abdala e a Mambisa, criadas pelo Centro
de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB) de Cuba. Durante a pandemia
também foram enviadas 57 brigadas “Henry Reeve”, levando serviços médicos a 40
países no combate a pandemia da COVID-19.
A ação
do imperialismo sobre a região tem sido sistemática e sempre no sentido de
conter a luta de classes na região. Após o fim das Ditaduras militares o
imperialismo estadunidense centrou esforços na luta ideológica através da
difusão dos chamados Think thanks, o que se acentuou através das
redes sociais e dos canais recentes de comunicação em massa, direcionados
pelas Big Techs do Vale do Silício. A ação e propaganda contra
Cuba e Venezuela são motes centrais da ação do imperialismo na região, o que se
tornou ainda mais nítido com a ascensão da extrema direita contemporânea, isso
porque ambos países, cada um a sua maneira e imerso em particulares
contradições, enfrentam os ditames do capitalismo em fase imperialista.
Após a
pandemia, a ilha tem sofrido com a falta de petróleo, o baixo acesso a
combustíveis e a diversos e diários apagões por falta de energia elétrica. O
país sofre com a baixa oferta de alimentos, cada vez em menor quantidade e
diversificação. A crise alimentar desde 2024 e 2025 é tida como uma das piores
da história do país, equiparando-se novamente ao Período Especial,
com escassez generalizada de alimentos, alta inflação e racionamento. A
situação já está muito crítica na ilha desde o pós pandemia, com o registro
imigratório de mais de 1 milhão de pessoas entre 2021 e 2025.
A atual
ofensiva do bloqueio estadunidense contra Cuba tende a aprofundar rapidamente o
quadro de uma possível crise humanitária na ilha. O corte abrupto do acesso a
petróleo, a baixa energética que isso deve gerar e suas inúmeras e severas
consequências são um risco iminente para a sobrevivência de sua população, de
aproximadamente 10 milhões de pessoas.
O
futuro permanece aberto e não se deve subestimar a ação imperialista, cada vez
mais extremista e autoritária. Cuba representa em nossa região um exemplo da
luta anti-imperialista, por soberania dos povos latino-americanos e caribenhos,
por um projeto de país independente da cartilha internacional do capital para
os povos da periferia deste sistema mundial. Derruba-la econômica e
politicamente é uma perda para toda região, para toda esquerda revolucionária e
para os povos que resistem em toda parte do mundo a expropriação e exploração
capitalista. Defendê-la é reivindicar nossa soberania como continente, como
autores da nossa história, é defender projetos alternativos à lógica do capital
imperialista, é conter o avanço do imperialismo sobre nossas terras e nossos
recursos, é manter a esperança diante de um futuro de crise do capital,
climática, econômica, política. Mas se nada disso for suficiente ao
convencimento, defende-la é a defesa concreta da vida de quase 10 milhões de
latino americanos e caribenhos.
¨
Emir Sader: Cuba resiste
Donald
Trump está fazendo de tudo para sufocar Cuba, cuja vitória revolucionária ainda
não foi aceita pelos Estados Unidos.
Agora,
o presidente americano emitiu o que chamou de "ordem executiva",
ameaçando com medidas severas os países que continuam fornecendo petróleo a
Cuba.
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Video
Fiz
três perguntas a um amigo cubano, Abel Prieto, presidente da Casa de las
Américas, sobre a situação real na ilha, especialmente considerando a
quantidade de notícias falsas disseminadas pelos principais veículos de
comunicação controlados pelos Estados Unidos.
Abel
respondeu com uma carta, que reproduzo aqui na íntegra.
"Este
é um esforço cruel para nos sufocar e forçar a sempre presente 'mudança de
regime'. Eles ameaçam sancionar qualquer país que nos venda petróleo,
paralisando, assim, a economia, a produção e os serviços à população e
promovendo uma crise política."
Ele
então detalha as medidas tomadas pelo governo cubano "para priorizar as
necessidades básicas da população, saúde pública, educação e assistência aos
setores mais vulneráveis". "Além disso, estão em curso esforços para
acelerar os investimentos já realizados na instalação de parques solares e no
uso de fontes de energia renováveis." Abel relata que, no ano passado,
"conseguiram instalar cerca de 50 parques fotovoltaicos em todas as
províncias". Esses parques estão sendo instalados em maternidades, policlínicas
e lares de idosos.
Da
mesma forma, do ponto de vista energético, estão protegendo centros de produção
associados a exportações, irrigação elétrica, cultivo de tabaco, entre outros.
"Juntamente
com a tentativa de nos sufocar, as operações de guerra psicológica por meio da
mídia digital, financiadas pelos ianques, estão se multiplicando a cada
dia", escreve Abel. "É por isso que estamos trabalhando intensamente
para preparar nosso povo para travar a batalha nas redes sociais sem ser
manipulado."
Abel
então recorda: "O povo cubano passou por experiências muito difíceis ao
longo de todos esses anos: a invasão da Baía dos Porcos, a Crise dos Mísseis de
Cuba, a guerra biológica, furacões devastadores, o colapso do socialismo na
Europa, as Leis Torricelli e Helms-Burton e a pandemia da COVID-19."
Ele
relata as homenagens prestadas aos 32 cubanos que morreram defendendo o governo
venezuelano contra o sequestro do presidente daquele país.
E
conclui dizendo que: "Apesar das enormes carências e dificuldades que
enfrentamos hoje, estou convencido de que não há, nem haverá, uma crise
política em Cuba. O decreto de Trump só serviu para radicalizar nosso povo, nos
unir ainda mais e nos tornar mais anti-imperialistas e antifascistas."
E
termina com: "Um grande abraço, querido Emir."
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'Ato criminoso': Cuba denuncia na ONU bloqueio e agressão 'sem precedentes' dos
EUA
Cuba
denunciou na segunda-feira (09/02), no Conselho de Direitos Humanos da ONU, a
agressão sem precedentes dos Estados Unidos contra o país caribenho.
O
representante cubano Roberto Cabañas, falando na 61ª sessão do Conselho de
Direitos Humanos da ONU, em Genebra, Suíça, disse que a ação dos EUA “visa
punir impiedosamente toda a nossa população, em flagrante violação de seus
direitos humanos”.
Ele
também afirmou que os EUA chegam ao ponto de ameaçar com tarifas punitivas os
países que fornecem petróleo a Cuba. Com isso, acrescentou, “eles pretendem
tornar a comunidade internacional cúmplice de um bloqueio energético contra
nossa nação”.
De
acordo com o diplomata cubano, o objetivo das sanções é paralisar a atividade
econômica e social do país e causar sofrimento a milhões de cubanos. A este
respeito, Cabañas lembrou que “o Conselho de Direitos Humanos não pode
permanecer em silêncio diante desses atos criminosos”.
O
representante cubano indicou que a atual sessão do Conselho de Direitos Humanos
está ocorrendo em um contexto internacional complexo, já que o sistema
multilateral e suas instituições estão sob ataque direto.
O site
do Ministério das Relações Exteriores de Cuba anunciou que o país apresentará
três projetos na 61ª sessão do Conselho, agendada para o período de 23 de
fevereiro a 2 de abril.
Esses
textos abordam “as consequências da dívida externa e de outras obrigações
financeiras internacionais correlatas dos Estados sobre o pleno gozo de todos
os direitos humanos, em particular os direitos econômicos, sociais e
culturais”; “o direito à alimentação”, bem como “a promoção do gozo dos
direitos culturais para todos e o respeito pela diversidade cultural”.
• Marco Rubio é quem impede Trump de
negociar com Cuba, diz jornal
O
Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, está mentindo para o
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma suposta negociação entre
Washington e Havana que, na prática, não está ocorrendo. A informação é do Drop
Site.
Segundo
a reportagem, não há qualquer negociação de alto nível em curso entre os
países, o que vai na contramão das recentes declarações de Trump sobre
possíveis conversas ocorrendo com Cuba.
Um alto
funcionário do governo Trump afirmou ao veículo que o mandatário “está dizendo
isso porque é o que Marco está dizendo a ele”, acrescentando que o Secretário
de Estado está se esforçando internamente para fazer com que o republicano
acredite em “negociações sérias” para alegar, posteriormente, que as tratativas
foram infrutíferas devido à intransigência cubana.
O
objetivo, segundo o Drop Site, é abrir caminho para que os Estados Unidos
forcem uma mudança de regime na ilha socialista, algo que Rubio e sua base
política situada no sul da Flórida desejam há anos. “Para os oponentes de Rubio
dentro do governo, o momento representa uma oportunidade de transformar Cuba em
sua Waterloo”, diz a reportagem.
‘Não há
negociações’
As
autoridades cubanas ouvidas pela reportagem também desmentiram a existência de
conversa, reiterando “repetidamente” que desejam abrir negociações com
Washington.
Ao New
York Times, um alto funcionário do Departamento de Estado disse que o contato
entre os governos cubano e norte-americano “não foi substancial” e se limitou a
discutir a repatriação de migrantes, o que foi confirmando ao Drop Site.
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Cuba quer negociar
A
verdade, de acordo com a reportagem, é que “o desejo de Havana por negociações,
beirando o desespero, já foi sinalizado por diversos canais”, em meio à forte
crise gerada pelos Estados Unidos que ameaça impor tarifas aos países que
venderem petróleo para a ilha.
O Drop
Site aponta os efeitos da medida dentro de Cuba e as dificuldades sofridas por
sua população, destacando que a única questão inegociável é a sua soberania.
Diversas
declarações públicas confirmam a abertura para o diálogo. Em comunicado, a
chancelaria cubana afirmou que o país “reitera sua disposição de manter um
diálogo respeitoso e recíproco com o governo dos Estados Unidos”. A mesma
disposição foi reafirmada pelo representante permanente de Cuba na ONU, Ernesto
Soberón Guzmán, em entrevista à Newsweek.
Além
disso, o próprio presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, reiterou a “enfática
abertura de seu país” para negociações com a Casa Branca, reafirmando: “somos
um país de paz, não representamos uma ameaça para os Estados Unidos”.
Fonte: Outras
Palavras/Brasil 247/Opera Mundi

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