A
máquina retórica do discurso moral
Um
discurso tem se repetido nos momentos de crise política da história brasileira:
o combate à corrupção como imperativo moral supremo. Cabe lembrar que o
discurso moral sempre é verdadeiro, mas a prática cotidiana pode estar
completamente dissociada do discurso, como na famosa hipocrisia dos fariseus
descrita na Bíblia. Esse discurso moralista é a ferramenta predileta da elite
(na verdade, oligarquia econômica e midiática), para justificar aquilo que ela
sempre executou quando perde o jogo democrático eleitoral: o golpe de Estado.
O
combate à corrupção é um valor inquestionável na sociedade. Por outro lado, a
corrupção real, sistêmica e estrutural do Brasil, desde as Capitanias
Hereditárias, é o sistema onde uma minúscula oligarquia (elite de super ricos),
historicamente avessa à meritocracia e à livre concorrência, se apropria do
Estado e dos recursos nacionais para manter seus privilégios seculares. Essa
oligarquia, acostumada a governar para si, desenvolveu uma narrativa poderosa
para camuflar e legitimar seus privilégios e dominação: o discurso moral.
A
Proclamação da Independência, de autoria do herdeiro direto do poder colonial,
foi um movimento de afastamento das ameaças liberais e republicanas que
poderiam surgir de uma independência popular. Décadas depois, a Proclamação da
República, em 1889, longe de ser uma revolução cívica, foi um golpe militar de
oligarquias agrárias e elites insatisfeitas com o Império, mantendo intactas as
estruturas de concentração de riqueza e a consequente desigualdade social
geradora da pobreza.
O
século XX segue na mesma toada. Getúlio Vargas, ao criar as bases de um Estado
social e industrial, tornou-se o maior alvo dessa elite oligárquica. Suas
conquistas – a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a criação da Justiça do
Trabalho, da Petrobrás, do BNDES, e a instituição do salário-mínimo –
representavam uma afronta à ordem oligárquica de concentração de riqueza, pois
repartiam renda, direitos e poder simbólico com a classe trabalhadora.
Eleito
democraticamente em 1951, Getúlio Vargas foi perseguido e difamado, sob
campanha feroz da “imprensa conservadora” (da oligarquia/elite de sempre), que
o acusava de imensa corrupção, criando a expressão “mar de lama”, que
desembocou no trágico suicídio em 1954.
O ciclo
repetiu-se com os sucessores. Juscelino Kubitschek, com seu plano de metas que
industrializou o país e construiu Brasília, foi incessantemente atacado por
suposto “esbanjamento” e corrupção, tentando-se desmoralizar a euforia
desenvolvimentista. João Goulart, herdeiro político de Vargas, ao propor as
Reformas de Base (agrária, urbana, bancária) e ampliar a organização popular,
foi pintado como um comunista corrupto e incompetente, um perigo à moralidade e
à família, abrindo caminho para o Golpe Militar de 1964. Jango se viu obrigado
a fugir para salvar a vida de sua equipe e apoiadores.
O
regime ditatorial subsequente se autoproclamou uma “revolução moral” para
limpar a corrupção e o comunismo, mas serviu para impor um projeto econômico
excludente, manter e reforçar a concentração de renda e riqueza, e reprimir
qualquer ameaça à ordem oligárquica existente.
A
redemocratização não desmontou essa lógica, com a oligarquia financeirizada e
midiática usando o combate à corrupção como arma seletiva. A campanha de
Fernando Collor em 1989, com seu discurso moralizante de “caçador de marajás”,
foi amplamente beneficiada por uma manipulação grosseira da Rede Globo, que
editou o debate decisivo contra Lula e a favor de Fernando Collor.
No dia
da eleição, a rede Globo transmitiu por horas a fio a cobertura do sequestro
encenado do empresário Abílio Diniz, criando um clima de comoção e
desestabilização. O ápice foi a exibição da “pasta de denúncias” vazia contra
Lula, um teatro midiático mentiroso com profundo impacto eleitoral. Fernando
Collor, o moralista da Globo, caiu dois anos depois por corrupção, revelando a
hipocrisia do uso do discurso moral dissociado da prática. Atualmente Fernando
Collor encontra-se condenado por corrupção, cumprindo prisão domiciliar em
função de enfermidade.
O
impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 2016 foi o ápice contemporâneo
dessa estratégia moralista e golpista. Sem crime de responsabilidade ou
enriquecimento ilícito, com um discurso moral inflamado pela grande mídia e por
setores do judiciário, criou-se a atmosfera de “crise ética” necessária para
depor um governo democrático e legitimamente eleito, que, apesar de suas
alianças contraditórias, ameaçava interesses oligárquicos ao manter políticas
de inclusão social e não se curvar totalmente às agendas econômicas mais
radicais do capital financeiro.
A
Operação Lava Jato foi o aparato técnico e midiático perfeito para essa
narrativa moralista e golpista. Ao criminalizar a política e o Estado como um
todo, criou a imagem de um país inteiro corrompido, mas direcionou seu fogo
para setores específicos do espectro político, destruindo projetos nacionais e
deslegitimando a democracia representativa. O verdadeiro alvo nunca foi o
combate da corrupção, mas a reconquista total do Estado por uma oligarquia que
se vê como a dona do país e é subserviente a interesses externos, especialmente
interesses estadunidenses.
O
padrão histórico se confirma: após cada golpe, a corrupção não é combatida,
direitos são reduzidos, políticas sociais desmontadas e o Estado retorna ao seu
papel tradicional de garantidor dos privilégios econômicos da oligarquia do
país.
E assim
chegamos ao presente. A cada eleição em que se anuncia a derrota do campo
político da elite oligárquica, o mesmo roteiro é reativado: a histeria moral
com acusações de corrupção seletiva (por exemplo do STF que puniu golpistas), e
apelos por intervenção das forças “puras” contra a “bandidagem” no poder. O
objetivo real e não declaro é emplacar o campo político preferido e escolhido
pela elite oligárquica.
Portanto,
quando se ouve o grito histérico contra a corrupção vindo da tradicional mídia
hegemônica e dos púlpitos financeiros, a primeira pergunta a fazer não é sobre
a veracidade de eventuais crimes (que devem, em um Estado de Direito sério, ser
investigados e punidos), mas sobre a função política desse discurso neste
momento. Quem ele beneficia? Quais são as pessoas que representam a “força
pura” que irá substituir a “bandidagem” no poder? Que projeto de país ele
pretende viabilizar? A Lava e Vaza Jato podem servir de inspiração para as
respostas.
Ficou
famosa uma frase de campanha do Bill Clinton a presidente dos Estados Unidos:
“É a economia, estúpido”. Ela buscava focar no que realmente importava para o
eleitor estadunidense, a economia do país. Considero o termo “estúpido” meio
forte, mas vem “importado” da frase usada nos Estados Unidos. No Brasil, o núcleo do conflito está no
controle do Estado e dos limites da democracia. A formulação para a situação
brasileira, fazendo analogia à frase estadunidense, poderia ser: “Não é a
corrupção, é Golpe de Estado, estúpido”.
Sempre
foi.
É isso
que a elite oligárquica brasileira tenta reacender quando perde no voto.
Enquanto o combate à corrupção continuar sendo um discurso moral, distanciado
da prática, o Brasil seguirá preso ao seu ciclo histórico mais perverso: o da
democracia tolerada apenas quando não ameaça os privilégios oligárquicos
internos e externos.
Fonte:
Por João Carlos Loebens, em A Terra é Redonda

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