quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Com vantagem no centro, Lula rearticula frente ampla e acena ao mercado

Buscando reeditar e ampliar a frente ampla vitoriosa em 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT iniciaram movimentos para atrair o centro político à aliança de reeleição, tanto em nível nacional quanto estadual. Nesta semana, pesquisa do instituto Real Time Big Data mostrou vantagem de 14 a 17 pontos de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro entre eleitores de centro.

“Queremos o apoio de todos os partidos que pertencem à base do presidente Lula”, disse à GloboNews o presidente nacional do PT, Edinho Silva, sinalizando avanço nas tratativas com MDB, PSD, Progressistas, União Brasil e Republicanos. As negociações podem convergir, inclusive, para a composição com outro vice centrista, caso o atual vice-presidente Geraldo Alckmin assuma outra posição de destaque. Segundo Edinho, o foco é o diálogo em torno de um projeto com pontos consensuais, o que, se concretizado, aumentaria as chances de reformas econômicas pactuadas a partir de 2027. Isso é relevante porque mitigaria riscos de crise econômica, instabilidade institucional e insatisfação das classes médias e populares com o establishment político e econômico.

Nesta terça-feira, em evento do mercado financeiro, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, antecipou que há discussão de um novo desenho para os gastos sociais e falou sobre uma possível unificação de benefícios. No fim de 2025, Alckmin defendeu que o governo precisa realizar um esforço fiscal maior pelo lado das despesas, articulado à iminente redução dos juros. Segundo ele, seria o momento de iniciar a geração de superávit para estancar e, na sequência, reduzir o crescimento da dívida pública.

Ao UOL, na semana passada, Lula afirmou que considera participar de um debate econômico com a Faria Lima, onde se concentram crescentes preocupações fiscais. O aceno acontece em um contexto de valorização recorde da bolsa brasileira, impulsionada pelo investidor estrangeiro. Com o risco político instalado nos Estados Unidos, a rotação desses fluxos para o Brasil sugere um reconhecimento da combinação de estabilidade política, social, econômica e jurídica do país, André Vieira, do Brazil Stock Guide, explica que o país deixou de ser um caso atípico negativo para se tornar uma alternativa plausível em um mundo mais caótico. “Quando o dólar se desvaloriza e o centro global perde força, o capital aprende a conviver com imperfeições — e o Brasil avança”, ressaltou.

As articulações petistas com o centro político ocorrem diante da provável ausência de uma candidatura viável de centro, em razão da imposição do senador Flávio Bolsonaro como nome da oposição, e da ofensiva do PL por palanques puro-sangue nos estados, prejudicando estratégias que priorizam composições voltadas à eleição de grandes bancadas no Congresso Nacional. A recuperação e a estabilização da popularidade presidencial, na esteira de um reposicionamento antissistema, da retomada da bandeira nacional e de uma governabilidade baseada na divisão das prerrogativas entre os Poderes, indicaram ampliação significativa da capacidade de Lula atrair aliados.

 Em tempo: o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, previu, também nesta terça, que o Congresso deve ter uma taxa de reeleição de 40%, porém com fortalecimento dos pólos de esquerda e de direita, o que significaria um enfraquecimento do centro parlamentar.

•        Desvalorização do dólar bombeia PIB brasileiro em 2026 e favorece Lula na sucessão presidencial. Por Cesar Fonseca

A química entre os presidentes Lula e Trump, que irão se reunir no próximo mês, na Casa Branca, poderá ser um ingrediente a mais capaz de bombear o PIB brasileiro em ritmo maior do que o do ano passado, especialmente, com a queda mais acentuada do dólar; hoje a moeda americana está na casa dos R$ 5,18, com tendência à baixa.

A fuga de dólares dos Estados Unidos para a periferia capitalista devido ao relativo fracasso da estratégia econômica de Trump de combater déficit comercial, com tarifaço, mas sem poder aumentar, como gostaria, o superávit, porque não consegue competir com a China, tem favorecido da economia brasileira, no terceiro mandato do presidente Lula.

Primeiro, o tarifaço trumpista sobre o Brasil não deu certo em relação ao Brasil, porque os americanos, sem as exportações de produtos básicos brasileiros, enfrentariam inflação desestabilizadora; Trump, diante da reação interna à alta dos preços, teve que voltar atrás, enquanto aquilo que deixou de ir para os Estados Unidos se dirigiram para outros mercados, produzindo compensações, graças à política externa nacional.

Segundo, sem força suficiente para conter o déficit com reverso no aumento das exportações, para gerar superávit comercial, a economia americana se viu diante do crescimento do déficit em contas correntes do balanço de pagamentos; não está sendo possível mais aos Estados Unidos gerar superávit financeiro, para cobrir déficit comercial, porque o mercado financeiro teme aumento da dívida pública, que se aproxima dos 40 trilhões de dólares, afetando a saúde da moeda americana, quanto mais o tesouro dos Estados Unidos aumentam emissão monetária.

INSTABILIDADE MONETÁRIA AMERICANA

É essa fragilidade estrutural das finanças americanas, acelerada, adicionalmente, pelos investimentos em inteligência artificial, sem retorno lucrativo para valorização correspondente das ações, o fator da fuga em ascensão do dólar, segundo os analistas; mais: a moeda americana é afetada pelo yuan, moeda chinesa, porque o comércio internacional passou a ser dominado pela China, graças à política monetária expansionista de Pequim, sustentando juros baixos mediante crédito público.

Nesse compasso da crise monetária americana, o dólar, no Brasil, por exemplo, tende a ficar na faixa dos R$ 5,00 a R$ 5,20 – ou menos –, quanto mais o mercado internacional continuar soando alarme de instabilidade dos papeis emitidos pelo tesouro americano, para financiar dívida pública.

CLIMA ECONÔMICO FAVORECE QUARTO MANDATO

Nesse momento, a caída acentuada do dólar valoriza o real brasileiro, que combate a inflação, de forma mais intensa, comprando barato mercadorias importadas, forçando o IPCA para baixo; a desvalorização do dólar diminui, por sua vez, o desembolso para cobrir déficit em contas externas do balanço de pagamento, estimado, para este ano, na casa dos 65 bilhões de dólares; inflação em queda, como sinaliza a ata do Copom, para 2026 e 2027, eleva, relativamente, o poder de compra da população, o que aumenta a popularidade de Lula em ano eleitoral, no ritmo da valorização do real que barateia as importações.

Tal ambiente macroeconômico dado pela desvalorização do dólar, se ficar no intervalo de R$ 5,00 a R$ 5,20, ao longo de 2026, crescerá fortemente o setor de serviços, elevando taxa de emprego, enquanto a industrialização deverá sofrer impacto, sem afetar demasiado a oferta de trabalho, já que o avanço tecnológico no setor terciário é irreversível diante do desenvolvimento científico e tecnológico.

MAIS DINHEIRO NO BOLSO DO CONTRIBUINTE

A receita tributária terá aumento real relativamente maior para sustentar pressão do aumento de despesas em tempo eleitoral, graças à reforma dos tributos e o aumento da renda para os que ganham até R$ 5 mil, isentos do pagamento do imposto de renda; tal conjuntura, portanto, criada, como diz o presidente Lula, pelo humor vacilante de Trump, que joga o dólar para baixo, favorece a economia interna, que pode levar o PIB, em 2026, crescer mais que em 2025, como diz o analista econômico Paulo Gala.

As bandeiras eleitorais populares – fim da jornada de trabalho 6 x 1 em ritmo crescente no setor de serviços e a tarifa zero para o transporte coletivo, preparadas pelo governo – irão se somar ao quadro geral que começa embalar o presidente na busca pelo voto.

•        Entre o Carnaval e a Casa Branca, Lula testa os limites da cautela política. Por Florestan Fernandes Jr

Entre o desfile da Acadêmicos de Niterói, com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, e o encontro de março no Salão Oval da Casa Branca, o presidente terá de tomar três decisões importantes para sua campanha.

A primeira diz respeito à presença, ou não, do casal presidencial na Marquês de Sapucaí. Caso decida assistir ao desfile, Lula e Janja ficariam discretamente em um camarote ou cairiam no samba no meio da avenida?

A escola chegou a convidar Janja para ocupar o topo de um dos carros alegóricos, convite prontamente desaconselhado pelo jurídico da Presidência. A avaliação é de que a oposição aguarda qualquer deslize para acionar a Justiça Eleitoral, alegando uso indevido de um dos maiores eventos do país como campanha eleitoral antecipada.

O bom senso recomenda cautela. Por se tratar de ano eleitoral, Lula faria melhor se assistisse, como milhões de brasileiros, ao desfile da Acadêmicos de Niterói pela televisão.

A segunda tarefa do presidente é ainda mais delicada: arrancar de Fernando Haddad, durante a viagem que farão à Índia e à Coreia do Sul, o compromisso de aceitar a candidatura do PT ao governo de São Paulo. Haddad segue irredutível. Afirma que prefere ajudar na coordenação da campanha nacional. As recusas foram tantas que recuar agora daria munição aos adversários, que passariam a retratá-lo como mero “pau mandado” de Lula.

Nos bastidores do PT, corre a versão de que Haddad aceitaria disputar uma vaga no Senado por São Paulo. Nesse cenário, a outra vaga ficaria com Marina Silva, que estaria disposta a retornar ao partido. Já a ministra Simone Tebet entraria na disputa pelo governo paulista, mas, para isso, teria de trocar o MDB pelo PSB de Geraldo Alckmin.

Definida a chapa no maior colégio eleitoral do país, Lula seguiria para Washington, onde o aguarda um encontro cercado de expectativas e cautela com Donald Trump.

A assessoria diplomática trabalha para preparar o presidente tanto para um encontro respeitoso e “tranquilo” quanto para a possibilidade de falas destemperadas e hostis por parte do presidente estadunidense. Em seu segundo mandato, Trump já protagonizou, dentro da Casa Branca, cenas pouco diplomáticas com chefes de Estado, como fez com Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, e Cyril Ramaphosa, da África do Sul.

Lula tem larga experiência no convívio com presidentes dos Estados Unidos. Relacionou-se bem tanto com o republicano George W. Bush quanto com os democratas Barack Obama e Joe Biden. Quem não se lembra da manifestação espontânea de Obama, numa conversa informal durante a cúpula do G20, em abril de 2009: “Esse é o cara! Adoro esse cara (Lula), que é o político mais popular do planeta”.

Por essa experiência, Lula sabe que não deve esperar grandes afagos de Trump. Quer apenas sair de Washington com a redução nas tarifas que ainda perduram contra o Brasil. Cerca de um quarto das exportações brasileiras ainda enfrentam tarifas elevadas impostas pelos EUA. Se conseguir a redução de parte dessas tarifas, já será uma vitória e um trunfo importante para sua reeleição.

Em 2026, mais do que carisma ou memória afetiva, a reeleição será decidida pela soma de prudência, estratégia e entregas reais, dentro e fora do país.

•        Alcolumbre e Motta serão comidos pelas bordas. Por Moisés Mendes

O duelo do ano não será mais o da extrema direita com Alexandre de Moraes, que ficou cansativo, mas de toda a direita, incluindo a muito velha e vampirizada pelo bolsonarismo, desta vez com Flávio Dino.

Vão fazer o quê? Vão ameaçar com impeachment? Vão acionar o colunismo dos jornalões para que investigue a vida do ministro? Certamente vão insistir para que Davi Alcolumbre e Hugo Motta sejam destemidos na tentativa de conter Dino.

O esforço do ministro para chegar às máfias das emendas nos oferece o que é insuficiente, pelas vias da política, em ano eleitoral, para segurar a direita  criminosa. E aí, ao invés de demonstrar capacidade de enfrentamento, os presidentes das casas legislativas poderão ser comidos pelas bordas.

Alcolumbre e Motta podem chegar logo ao momento em que não pedirão por seus pares, mas por eles mesmos. Porque as investigações em torno das máfias chegarão, como já estão chegando, às estruturas montadas em seus gabinetes e em suas paróquias.

Os saqueadores do Orçamento, que têm acesso a mais de R$ 50 bilhões por ano, são os parlamentares. Mas os desvios só ganham forma com as bases operacionais nos Estados e nos municípios.

É aí que estão os assessores, os parentes, os amigos de Alcolumbre, de Motta e de centenas de chefes das quadrilhas das emendas. Flávio Dino chegará aos chefes pelas beiras, como também chegarão outras investigações em outras frentes, entre as quais a dos rolos no Banco Master.

Vão pegar o tesoureiro de Alcolumbre, a secretária de Hugo Motta, a sogra de um, o cunhado de outro, e chegarão às engrenagens que os municípios nunca tiveram, em tempo algum, como têm agora para desvios de dinheiro grosso.

As emendas foram transformadas no produto mais importante a ser entregue por um parlamentar. Todo o resto é acessório. As emendas são uma usina de corrupção viabilizada por quadros que sempre existiram, nas bases dos mandatos. Mas que nunca viram tanto dinheiro para distribuir nas suas cidades.

São esses quadros operacionais que as investigações irão cercando para chegar aos chefões. Alcolumbre e Motta conhecem a vulnerabilidade dessas estruturas até agora intocáveis. Chegando aos peões, as investigações chegarão aos capatazes, e esses levarão aos líderes.

Esse é o faroeste que Flávio Dino decidiu enfrentar, com a Polícia Federal na linha de frente. Cerquem os subalternos que deixam rastros e provas. Os chefes serão alcançados mais adiante.

Estamos a caminho do desvendamento de sistemas corruptos que todos sabem que existem e que consideravam indevassáveis. As emendas são a corda oferecida a parlamentares que preparam a própria forca.

Mas Dino e a Polícia Federal irão até onde em ano eleitoral? Um emendador contumaz poderá ser contido antes de tentar a reeleição? O STF conseguirá desmontar o esquema das emendas, que ofereceu a chance a qualquer deputado medíocre de desfrutar de poder sem ter que brigar por acesso aos labirintos do governo?

Desfrutam das mamatas das emendas, sem depender de concessões e dos altos custos de ser poder. Para que ter cargo de governo, se como ‘legislador’, com a mão no Orçamento, é possível ter mais dinheiro e controle de currais? Para que lutar por cargos em ministérios, o que era importante no tempo antigo para visibilidade e partilha de verbas, se tem a emenda?

Mas Flávio Dino precisa encontrar um jeito de transformar a caçada às máfias das emendas em algo a ser percebido como medida de impacto moral pela maioria da população. Como conseguiu com o começo da guerra aos penduricalhos dos supersalários.

A emenda espraia dinheiro em comunidades que passaram a esperar as verbas fáceis, de boca aberta, sabendo quem será o dono do pedação e quem irá repartir os pedacinhos, com direito a rachadinhas.

Alcolumbre e Motta têm sido bem tratados pelo Supremo, no jogo do não me empurra que eu não te derrubo. Mas Flávio Dino pode romper com os protocolos dessa camaradagem, se o resto do STF não ficar só nas bordas.

 

Fonte: Brasil 247

 

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