O
'arqueólogo' de fotos antigas que resgata tesouros do cotidiano anônimo do
Brasil
Há oito
anos o carioca Rafael Cosme percorre feiras de antiguidades e antiquários
garimpando negativos, slides, cromos e fotografias de brasileiros anônimos.
Banhistas
posando na praia do Flamengo. Jovens celebrando o Réveillon de 1977. Uma chuva
de papel picado, do alto de um prédio, em celebração ao primeiro título mundial
de futebol do Brasil, campeão na Copa de 1958.
São
registros feitos por amadores em um tempo em que nem todo mundo tinha câmera e
cliques eram raros se comparados à vida digital contemporânea. Cenas que teriam
se perdido, não fosse o trabalho de resgate feito pelo artista visual, que tem
41 anos.
Um
passeio pelo seu acervo, que já soma cerca de 300 mil imagens, é como um
percurso voyeur pelo cotidiano do Brasil — em especial do Rio, mas também de
outras localidades — do final do século 19 até o advento da fotografia digital.
Quando
pensa sobre os grandes fotógrafos que registram o Rio antigo, como Marc Ferrez
(1843-1922) e Augusto Malta (1864-1957), e os compara com esses retratos feitos
por amadores, Cosme filosofa: as imagens de profissionais costumam ser "de
cima", cenas amplas, panorâmicas. Já a gente comum tinha o ponto de vista
íntimo, de quem fazia parte da paisagem.
"São
cenas de quem estava na praia. Considero isso igualmente monumental",
comenta ele.
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Kodachrome na Praça 15
Graduado
em jornalismo e em cinema, Rafael Cosme não estava em busca de fotografias
quando acabou mergulhando nesse trabalho de arqueologia de fotos antigas — ele
chama de "resgate de fotografia vernacular".
Há mais
de dez anos, ele estava estudando a história do Rio de Janeiro por meio de
personagens populares, buscando entender como era o dia a dia da República
Velha, ou seja, o período que vai de 1890 a 1930.
Vivia
lendo os jornais antigos na hemeroteca do Arquivo Nacional. "Então comecei
a frequentar a feira [de antiguidades] da Praça Quinze de Novembro em busca de
fragmentos da cidade", conta.
"Fotografia
não era algo que me interessava, até que vi uma caixa de Kodachrome de uma mãe
e de uma filha na praia de Copacabana. Eram retratos lindíssimos dos anos 1950.
Bati o olho e tive a certeza de que seria dessa forma o meu mergulho na história",
diz Cosme.
Ele
pagou cerca de 10 reais pelo conjunto.
Icônico
e hoje cult, Kodachrome é um filme lançado pela Kodak em 1935 que ficou famoso
pelas cores vibrantes e pelo contraste marcante. Por décadas, foi o preferido
por muitos profissionais da fotografia e do cinema.
A
partir desse pequeno acervo comprado na Praça 15, a vida de Rafael Cosme se
transformou. Ele se tornou frequentador assíduo de feiras de antiguidades do
Rio e de São Paulo e garimpeiro inveterado de antiquários.
Catadores
de lixo também o conhecem. "É comum que eu acorde com mensagens no
WhatsApp às 5h de alguém dizendo que encontrou negativos no lixo", diz.
Cosme
argumenta que o valor dessas fotos é algo "extremamente subjetivo".
"Antes
de eu começar a comprar, era algo tratado como peso morto pelos catadores. Era
muito comum ouvir 'eu tinha tanto disso, ninguém nunca comprou, eu me
desfiz'", comenta.
"Mas
já gastei de poucos reais a mais de mil em um único conjunto."
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Um acervo que poderia ter virado lixo
Ele
adquiriu um escaner que digitaliza negativos e passou a organizar as imagens de
uma forma particular.
Montou
um ateliê na Avenida Rio Branco, no centro do Rio. É ali que trabalha
diariamente. Preocupa-se em registrar, junto às fotos, todas as informações que
encontra nos envelopes com os negativos. Datas, eventuais nomes, marca do filme
e do laboratório. Tudo é registrado.
E,
claro, cuidadosamente faz a ampliação digital das fotos.
Como
também marca os temas, ele consegue hoje reunir narrativas sobre assuntos
específicos. Daí saem as histórias mais saborosas desse Rio antigo. Por
exemplo, as cenas de banhistas na praia do Flamengo ou os icônicos salva-vidas
que atuavam em Copacabana nos anos 1950.
Uma da
sequências mais bonitas é a do Revéillon de 1977. Em oito fotos em preto e
branco, há a imagem de um bolo com as velinhas aludindo ao novo ano. Depois,
adolescentes festejam e, por fim, a comemoração termina na areia da praia.
Não
faltam belas fotos de carnaval. "Costumo dizer que não existe um acervo
carioca que não tenha fotografia de carnaval. É das certezas da vida",
define.
Faz
sentido. Em tempos de raras e caras fotografias, era comum que as famílias
quisessem registrar apenas os momentos festivos. E a festa do Carnaval, com as
fantasias, era algo que merecia ser eternizada no álbum, ao lado da comemoração
de aniversário, das férias de verão e dos festejos de fim de ano.
Cosme
publica algumas das fotos encontradas em sua conta no Instagram (@villlalobos),
e as interações com pessoas que reconhecem as cenas, os lugares e os momentos
do passado têm sido recorrentes.
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Do folião com a mãe ao Brasil campeão de 1958
Uma
dessas trocas foi particularmente marcante para Cosme. A foto, compartilhada em
2020, era um registro típico de Carnaval. Datada de 1975, mostrava um menino
sem camisa observando a porta-bandeira da escola Acadêmicos do Salgueiro em
frente à Igreja de Nossa Senhora da Candelária, no centro do Rio.
Eduardo
Simão Pinto se deparou por acaso com a imagem, se reconheceu nela e ficou
emocionado com o resgate de uma foto que ele nem sequer sabia haver existido.
"Foi
uma surpresa", conta ele, que hoje tem 60 anos, é agente de viagens e atua
como diretor cultural da própria Salgueiro. "Era o final do desfile."
Pinto
identificou sua mãe como a mulher que está ao fundo, meio tapada pelo homem de
camisa listrada. "Reconheci pelos pés." Persistente participante do
carnaval da Salgueiro, Iracema Pinto havia morrido poucos meses antes da
descoberta de Rafael Cosme ter sido publicada no Instagram.
Eduardo
Pinto comenta que ficou uma "bela recordação" de uma época em que
"eu tenho pouquíssimas fotos". "Foi muito gratificante. Muito
emocionante me encontrar nesses registros", diz.
Também
há cenas ligadas ao mundo do futebol. Chama a atenção uma sequência de seis
imagens feitas no dia 29 de junho de 1958, quando a seleção brasileira ganhou
de 5 a 2 da Suécia e se sagrou, pela primeira vez, campeã mundial de futebol.
O olhar
treinado de Rafael Cosme logo viu que havia uma preciosidade no conjunto que
ele comprou de um catador com fotos tiradas no Edifício Barão da Laguna,
condomínio inaugurado em 1950 na praia do Flamengo.
"O
país inteiro que ouvia pelo rádio vibrou, se mobilizou, foi para as janelas de
suas casas para comemorar", imagina Cosme. As pessoas jogavam papel
picado, faziam uma chuva bonita para festejar.
"As
mãos jogando o papel, as pessoas na janela. Não tem como medir a importância
desse documento: alguém com a câmera fotográfica decidiu fotografar as mãos
jogando papeizinhos, depois desceu à rua e fotografou aquele tapete de papel
picado", diz o pesquisador. "Há uma dimensão profunda nesse tipo de
registro."
Afinal,
como ele reflete, houve uma intensa cobertura dos festejos, com fotógrafos
profissionais espalhados pela cidade. Mas a poesia de uma celebração anônima
como esta é única. "E aquilo estava indo para o lixo", afirma.
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Artista visual
Rafael
Cosme hoje vive desse trabalho de resgate. Ele diz que comercializa as fotos
ampliadas — embora sempre mantenha o negativo e a digitalização em seu acervo.
Também organiza exposições e vende a experiência do mergulho no cotidiano
antigo do Rio na plataforma Airbnb.
Acredita
que há um caminho "natural" para que sua coleção, no futuro, seja
abarcada por alguma instituição museológica. "Há já conversas nesse
sentido, com entidades brasileiras e internacionais", comenta.
Na hora
de se definir, fica a interrogação. Aquele jovem que cursou jornalismo e cinema
se tornou o quê, afinal? "Pesquisador, historiador, arquivista, artista
também… Hoje em dia eu aceito que tem uma linguagem híbrida dentro desse
trabalho, mas eu costumo me apresentar como… Não sei mais… Curador? Artista?
Curador de imagens? Pesquisador, curador. Artista visual."
"Tudo
parte de uma sensibilidade", diz. "É uma contribuição que eu dou. Eu
organizo e entrego. Acho isso muito bonito."
Em
texto preparado por ele mesmo para apresentar seu trabalho, diz que seu acervo
compõe "um vasto mapeamento do imaginário fotográfico brasileiro" e
que ele "opera entre a arqueologia e a fabulação".
"Ao
digitalizar e reunir essas imagens em séries e montagens, propõe novas leituras
visuais para o Brasil, a partir de fragmentos do cotidiano", apresenta.
Cosme,
assim, organiza uma iconografia não oficial. O que ele faz é deslocar o eixo da
memória visual do Rio e do país. Em vez dos nomes consagrados da fotografia,
destaca o olhar íntimo e intimista, anônimo e anonimizado, um tanto voyeur e
muitas vezes desastrado dos fotógrafos amadores.
"É
um trabalho muito grande para não ser feito."
Fonte:
BBC News Brasil

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