quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O que é o 'teste de Narva', símbolo da tensão entre Europa e EUA sobre papel da Otan em caso de conflito

Faz um ano desde que o vice-presidente dos Estados UnidosJD Vance, fez um discurso surpreendente na Conferência de Segurança de Munique, criticando a Europa por suas políticas de imigração e liberdade de expressão e afirmando que a maior ameaça que o continente enfrenta vem de dentro.

Este ano, a conferência, que começa esta semana, mais uma vez promete ser decisiva. O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Marco Rubio, lidera a delegação americana, enquanto mais de 50 outros líderes mundiais foram convidados. Isso ocorre em um momento em que a segurança da Europa parece cada vez mais precária.

A mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicada no final do ano passado, pediu à Europa que "se sustentasse por si própria" e assumisse a "responsabilidade principal pela sua própria defesa", aumentando os receios de que os EUA estejam cada vez menos dispostos a apoiar a defesa da Europa.

Mas é a crise da Groenlândia que realmente abalou a estrutura da aliança entre os EUA e a Europa. Donald Trump afirmou em inúmeras ocasiões que "precisa assumir o controle" da ilha para o bem da segurança dos EUA e global. Por algum tempo, ele não descartou o uso da força.

A Groenlândia é um território autônomo que pertence à Dinamarca. Não houve surpresa, portanto, quando o primeiro-ministro dinamarquês disse que uma tomada de poder militar hostil pelos EUA significaria o fim da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que sustentou a segurança da Europa nos últimos 77 anos.

A crise da Groenlândia foi evitada por enquanto, já que a Casa Branca estava distraída com outras prioridades. Mas deixou uma questão incômoda pairando sobre a Conferência de Segurança de Munique: os laços de segurança entre a Europa e os EUA estão irremediavelmente danificados?

Eles mudaram, não há dúvida, mas não se desintegraram.

Alex Younger, que foi chefe do Serviço Secreto de Inteligência do Reino Unido, o MI6, de 2014 a 2020, disse à BBC News que, embora a aliança transatlântica não vá voltar a ser como era, ela não está rompida.

"Ainda nos beneficiamos enormemente de nossa relação de segurança, militar e de inteligência com os Estados Unidos", disse ele, que também acredita, como muitos, que Trump está certo em fazer a Europa arcar com uma parcela maior da responsabilidade por sua própria defesa.

"Você tem um continente de 500 milhões [Europa], pedindo a um país de 300 milhões [EUA] para lidar com um de 140 milhões [Rússia]. É o contrário do que se espera", disse.

Esse desequilíbrio, que leva o contribuinte americano efetivamente a subsidiar as necessidades de defesa da Europa há décadas, sustentou grande parte do ressentimento da Casa Branca em relação ao continente.

Mas as divisões na aliança vão muito além do número de tropas e da irritação com os países da Otan, como a Espanha, que não têm conseguido atingir o mínimo de 2% do PIB em defesa (a Rússia atualmente gasta mais de 7% em defesa, enquanto o Reino Unido gasta pouco menos de 2,5%).

Em relação ao comércio, à migração e à liberdade de expressão, a equipe de Trump tem divergências acentuadas com a Europa. Enquanto isso, governos europeus democraticamente eleitos estão alarmados com a relação entre Trump e Vladimir Putin e sua propensão a culpar a Ucrânia pela invasão russa.

Os organizadores da Conferência de Segurança de Munique publicaram um relatório antes do evento, no qual Tobias Bunde, diretor de pesquisa e política, afirma que houve uma ruptura fundamental com a estratégia americana do pós-Segunda Guerra Mundial.

Essa estratégia, argumenta ele, baseava-se em três pilares: a crença nos benefícios das instituições multilaterais, a integração econômica e a convicção de que a democracia e os direitos humanos não são apenas valores, mas ativos estratégicos.

<><> 'Um alerta chocante para a Europa'

Grande parte do pensamento da Casa Branca pode ser vista na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington, descreve o documento como "um alerta real, doloroso e chocante para a Europa" e "um momento de profunda divergência entre a visão que a Europa tem de si mesma e a visão de Trump para o continente".

A estratégia declara como prioridade uma nova política de apoio a grupos hostis aos próprios governos europeus que supostamente são aliados de Washington. Ela promove o "cultivo da resistência à trajetória atual da Europa dentro das nações europeias" e afirma que as políticas migratórias podem levar ao risco de "apagamento civilizacional".

No entanto, o documento sustenta que "a Europa permanece estratégica e culturalmente vital para os Estados Unidos".

"A reação da maioria da Europa a esta Estratégia de Segurança Nacional provavelmente será o mesmo choque estarrecido que a reação ao discurso do vice-presidente JD Vance em Munique", disse o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

"Atualmente, estamos testemunhando a ascensão de atores políticos que não prometem reforma ou reparação", afirma Sophie Eisentraut, da Conferência de Segurança de Munique. "Mas que são muito explícitos em seu desejo de demolir as instituições existentes, e nós os chamamos de demolidores."

<><> O teste 'Narva'

Mas a questão fundamental em tudo isso é: "O Artigo 5 ainda funciona?".

O Artigo 5 é a parte da carta da Otan que estipula que um ataque a um país será considerado um ataque a todos. De 1949 até um ano atrás, era dado como certo que, caso a Rússia invadisse um Estado da Otan como a Lituânia, toda a força da aliança, apoiada pelo poderio militar dos EUA viria em seu auxílio.

Embora autoridades da Otan tenham insistido que o Artigo 5 ainda está vivo e em pleno vigor, a imprevisibilidade de Trump, aliada ao desprezo que seu governo demonstra pela Europa, inevitavelmente o põe em xeque.

É o que se chama de de "teste de Narva". Narva é uma cidade de maioria russófona na Estônia, situada às margens do rio Narva, na fronteira com a Rússia. Se, hipoteticamente, a Rússia tentasse agarrá-la sob o pretexto de "vir em auxílio de seus compatriotas russos", será que o governo de Trump viria em socorro da Estônia?

Play video, "Por que a Groenlândia é parte da Dinamarca (e por que há tanto interesse pela ilha)", Duration 10,12

A mesma questão pode ser igualmente aplicada a uma futura, e ainda hipotética, ação russa no estreito de Suwalki, que separa Belarus do enclave russo de Kaliningrado, no Mar Báltico. Ou, aliás, no arquipélago ártico de Svalbard, administrado pela Noruega, onde a Rússia já possui uma colônia em Barentsburg.

Dadas as recentes ambições territoriais de Trump de tomar a Groenlândia da Dinamarca, membro da Otan, ninguém pode prever com certeza como ele reagiria. E isso, em um momento em que a Rússia está travando uma guerra em grande escala contra um país europeu, a Ucrânia, pode levar a erros de cálculo perigosos.

A Conferência de Segurança de Munique desta semana deve fornecer algumas respostas sobre para onde a aliança transatlântica está caminhando. Mas elas podem não ser o que a Europa quer ouvir.

¨      UE critica medidas de Israel sobre a Cisjordânia: ‘passo na direção errada’

A União Europeia criticou as medidas aprovadas pelo gabinete de segurança de Israel para reforçar seu controle sobre a Cisjordânia, classificando-as como “mais um passo na direção errada”.

Em declaração dada nesta terça-feira (10/02), a Comissão Europeia afirmou, também, que a proposta de impor sanções a Israel pelas políticas impostas nos territórios palestinos “ainda está em cima da mesa”, incluindo a possível suspensão de algumas partes do acordo comercial entre Bruxelas e Tel Aviv.

A postura adotada pela Europa acontece após o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, anunciar medidas que envolvem a extensão do controle israelense em áreas sob administração palestina, enfatizando que busca fortalecer os assentamentos israelenses na Cisjordânia e impedir o surgimento de uma Palestina soberana e independente.

“Continuaremos matando a ideia de um Estado palestino”, disse Katz em declaração conjunta com o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich.

As medidas aprovadas facilitam a identificação de colonos como proprietários de terras na Cisjordânia e a compra de imóveis no território por pessoas de etnias não árabes.

Ainda não está claramente estabelecido quando as novas regras entrariam em vigor, mas elas não exigem nenhum trâmite adicional.

<><> Reação árabe

Por sua vez, um grupo de estados árabes e islâmicos realizou uma declaração conjunta na qual afirmando “condenar nos termos mais fortes as decisões e medidas ilegais de Israel destinadas a impor uma soberania israelense ilegítima”.

Entre os signatários estão países como Arábia Saudita, Jordânia, Egito, Catar, Emirados Árabes Unidos, Paquistão, Indonésia e Turquia. Todos eles ressaltam que as novas políticas israelenses “inflamaram a violência, aprofundaram o conflito e colocaram em risco a estabilidade e a segurança regional”.

No mesmo sentido, o Reino Unido afirmou que “condena veementemente” as medidas israelenses. “Qualquer tentativa unilateral de alterar a composição geográfica ou demográfica da Palestina é totalmente inaceitável e seria incompatível com o direito internacional”, disse um comunicado britânico, que conclui com um apelo a Israel, “para que reverta essas decisões imediatamente”.

Cabe destacar que a indignação com as medidas israelenses surgiu na véspera da reunião planejada na Casa Branca entre o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, programada para esta quarta-feira (03/02).

O governo dos Estados Unidos não realizou nenhum comentário formal, mas um funcionário da Casa Branca emitiu uma declaração à imprensa indicando um posicionamento contra a anexação do território palestino por parte de Israel.

“O presidente Trump afirmou claramente que não apoia a anexação da Cisjordânia por Israel (…) uma Cisjordânia estável mantém Israel seguro e está em consonância com o objetivo desta administração de alcançar a paz na região”, diz a declaração.

<><> Mortes e ataques

Nesta mesma terça, as forças de ocupação israelenses realizaram novos ataques aéreos, matando três civis palestinos na região central da Faixa de Gaza. De acordo com fontes médicas, um drone atingiu diretamente duas pessoas que andavam de bicicleta elétrica perto da vila de al-Masdar. Além disso, minutos depois do ataque, uma mulher foi morta por um drone quadricóptero, confirmando o uso de tecnologia de precisão para alvejar civis indefesos.

Dessa forma, vale ressaltar que o uso de drones armados em áreas residenciais e contra o transporte civil confirma a política de cerco e extermínio mantida pelo exército de ocupação.

Diante disso, o crescente número de vítimas civis acende um alerta. Centros de saúde na região informaram que o tratamento dos feridos está sendo dificultado pela escassez de suprimentos médicos, enquanto a população enfrenta o terror constante dos bombardeios aéreos.

¨      Rússia descarta ‘entusiasmo’ sobre acordo de paz e alerta contra interesses globais dos EUA

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, declarou nesta terça-feira (10/02) que não há motivo para uma “percepção entusiástica” referente à pressão imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Europa e a Ucrânia. O chanceler russo, por outro lado, afirmou que todavia há “um longo caminho” nas negociações de paz com Kiev.

“Ainda não chegamos lá. As negociações continuam. A segunda rodada foi realizada em Abu Dhabi. Ainda há um longo caminho pela frente”, disse Lavrov em entrevista à emissora russa NTV

Os comentários ocorrem dias após funcionários de alto escalão de Washington, Kiev e Moscou realizarem uma reunião trilateral em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. O encontro em 5 de fevereiro resultou na troca de 314 prisioneiros e foi acenado pelo enviado especial do Kremlin, Kirill Dmitriev, que falou em “passos positivos” nas negociações. Entretanto, apontou também contra as tentativas de interferência de “belicistas europeus e britânicos”. Até o momento, não há uma data marcada para a próxima rodada de negociações, conforme as atualizações do Kremlin.

De acordo com Lavrov, qualquer tratado de paz sobre a Ucrânia deve incluir disposições sobre a eliminação das causas profundas do conflito, caso contrário as questões não serão resolvidas. Sobre isso, afirmou que os Estados Unidos estão “prontos para contribuir para o acordo eliminando essas causas profundas.”

“Estou convencido de que os norte-americanos estão ouvindo nossos argumentos”, disse, acrescentando que o reconhecimento público de Trump sobre os interesses russos referentes à não expansão da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) configura um “grande passo” vindo de uma figura ocidental. 

<><> EUA buscam interesses globais

Durante a entrevista ao canal russo NTV, Lavrov descartou que os Estados Unidos pretendem somente dividir o mundo em zonas de influência, mas que querem avançar seus interesses globalmente por meio de “ações práticas”.

“Aqueles que dizem que essa nova estratégia de segurança nacional é essencialmente um reconhecimento dos Estados Unidos da necessidade de dividir o mundo, dizendo que esta é nossa zona de influência e entendemos que China e Rússia têm seus próprios interesses lá – isso não é totalmente verdade”, observou. “O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou claramente recentemente que o objetivo é ‘América em Primeiro Lugar’ globalmente. Os Estados Unidos têm interesses, e eles serão o foco principal das ações práticas de Washington”.

Em relação à política restritiva de Trump, incluindo à imposição de tarifas adicionais sobre as importações indianas caso o presidente Narendra Modi mantivesse a compra do petróleo russo – decreto revogado após reunião bilateral entre Nova Délhi e Washington na semana passada – Lavrov denunciou que os Estados Unidos buscam “assumir o controle do mercado de energia em escala global”.

Para o chanceler, a posição de liderança da Rússia no campo da energia nuclear representa um desafio para as autoridades norte-americanas e Washington busca reverter esse cenário. 

<><> Expiração do New START

Com a recente expiração do Tratado de Redução de Armas Estratégicas (New START) – pacto que limita o arsenal nuclear da Rússia e dos Estados Unidos desde a Guerra Fria –, Lavrov disse que “o Exército, a Marinha e agora também as Forças Aeroespaciais continuam sendo nossos principais aliados”. 

“Se decidirem tomar qualquer medida agressiva ou minar a soberania russa, podem enfrentar uma resposta absolutamente inadequada, pois esses são os fundamentos da dissuasão nuclear que sempre estiveram em vigor”, afirmou o ministro.

De acordo com o chanceler, os princípios do tratado foram destruídos durante a gestão do ex-presidente norte-americano Joe Biden e, agora, ele “simplesmente não existe mais”. Portanto, avaliou que não há necessidade de “reagir de forma exagerada ao suposto colapso do tratado”, já que “não está em vigor há três anos”.

Por fim, declarou que a Rússia monitorará de perto as ações dos Estados Unidos após o término do pacto, mas “tratará essa situação com total responsabilidade” e não tomará medidas que levem à escalada.

 

Fonte: BBC News Mundo/Opera Mundi

 

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