O
que é o 'teste de Narva', símbolo da tensão entre Europa e EUA sobre papel da
Otan em caso de conflito
Faz um
ano desde que o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, fez um discurso
surpreendente na Conferência de Segurança de Munique, criticando a Europa por suas
políticas de imigração e liberdade de expressão e afirmando que a maior ameaça
que o continente enfrenta vem de dentro.
Este
ano, a conferência, que começa esta semana, mais uma vez promete ser decisiva.
O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Marco Rubio, lidera a delegação
americana, enquanto mais de 50 outros líderes mundiais foram convidados. Isso
ocorre em um momento em que a segurança da Europa parece cada vez mais
precária.
A mais
recente Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicada no final do ano
passado, pediu à Europa que "se sustentasse por si própria" e
assumisse a "responsabilidade principal pela sua própria defesa",
aumentando os receios de que os EUA estejam cada vez menos dispostos a apoiar a
defesa da Europa.
Mas é a
crise da Groenlândia que realmente
abalou a estrutura da aliança entre os EUA e a Europa. Donald Trump afirmou em
inúmeras ocasiões que "precisa assumir o controle" da ilha para o bem
da segurança dos EUA e global. Por algum tempo, ele não descartou o uso da
força.
A
Groenlândia é um território autônomo que pertence à Dinamarca. Não houve surpresa,
portanto, quando o primeiro-ministro dinamarquês disse que uma tomada de poder
militar hostil pelos EUA significaria o fim da Organização do Tratado do Atlântico
Norte (Otan),
que sustentou a segurança da Europa nos últimos 77 anos.
A crise
da Groenlândia foi evitada por enquanto, já que a Casa Branca estava distraída
com outras prioridades. Mas deixou uma questão incômoda pairando sobre a
Conferência de Segurança de Munique: os laços de segurança entre a Europa e os
EUA estão irremediavelmente danificados?
Eles
mudaram, não há dúvida, mas não se desintegraram.
Alex
Younger, que foi chefe do Serviço Secreto de Inteligência do Reino Unido, o
MI6, de 2014 a 2020, disse à BBC News que, embora a aliança transatlântica não
vá voltar a ser como era, ela não está rompida.
"Ainda
nos beneficiamos enormemente de nossa relação de segurança, militar e de
inteligência com os Estados Unidos", disse ele, que também acredita, como
muitos, que Trump está certo em fazer a Europa arcar com uma parcela maior da
responsabilidade por sua própria defesa.
"Você
tem um continente de 500 milhões [Europa], pedindo a um país de 300 milhões
[EUA] para lidar com um de 140 milhões [Rússia]. É o contrário do
que se espera", disse.
Esse
desequilíbrio, que leva o contribuinte americano efetivamente a subsidiar as
necessidades de defesa da Europa há décadas, sustentou grande parte do
ressentimento da Casa Branca em relação ao continente.
Mas as
divisões na aliança vão muito além do número de tropas e da irritação com os
países da Otan, como a Espanha, que não têm
conseguido atingir o mínimo de 2% do PIB em defesa (a Rússia atualmente gasta
mais de 7% em defesa, enquanto o Reino Unido gasta pouco menos de 2,5%).
Em
relação ao comércio, à migração e à liberdade de expressão, a equipe de Trump
tem divergências acentuadas com a Europa. Enquanto isso, governos europeus
democraticamente eleitos estão alarmados com a relação entre Trump e Vladimir Putin e sua propensão
a culpar a Ucrânia pela invasão
russa.
Os
organizadores da Conferência de Segurança de Munique publicaram um relatório
antes do evento, no qual Tobias Bunde, diretor de pesquisa e política, afirma
que houve uma ruptura fundamental com a estratégia americana do pós-Segunda
Guerra Mundial.
Essa
estratégia, argumenta ele, baseava-se em três pilares: a crença nos benefícios
das instituições multilaterais, a integração econômica e a convicção de que a
democracia e os direitos humanos não são apenas valores, mas ativos
estratégicos.
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'Um alerta chocante para a Europa'
Grande
parte do pensamento da Casa Branca pode ser vista na Estratégia de Segurança
Nacional dos EUA. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede
em Washington, descreve o documento como "um alerta real, doloroso e
chocante para a Europa" e "um momento de profunda divergência entre a
visão que a Europa tem de si mesma e a visão de Trump para o continente".
A
estratégia declara como prioridade uma nova política de apoio a grupos hostis
aos próprios governos europeus que supostamente são aliados de Washington. Ela
promove o "cultivo da resistência à trajetória atual da Europa dentro das
nações europeias" e afirma que as políticas migratórias podem levar ao
risco de "apagamento civilizacional".
No
entanto, o documento sustenta que "a Europa permanece estratégica e
culturalmente vital para os Estados Unidos".
"A
reação da maioria da Europa a esta Estratégia de Segurança Nacional
provavelmente será o mesmo choque estarrecido que a reação ao discurso do
vice-presidente JD Vance em Munique", disse o Centro de Estudos
Estratégicos e Internacionais.
"Atualmente,
estamos testemunhando a ascensão de atores políticos que não prometem reforma
ou reparação", afirma Sophie Eisentraut, da Conferência de Segurança de
Munique. "Mas que são muito explícitos em seu desejo de demolir as
instituições existentes, e nós os chamamos de demolidores."
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O teste 'Narva'
Mas a
questão fundamental em tudo isso é: "O Artigo 5 ainda funciona?".
O
Artigo 5 é a parte da carta da Otan que estipula que um ataque a um país será
considerado um ataque a todos. De 1949 até um ano atrás, era dado como certo
que, caso a Rússia invadisse um Estado da Otan como a Lituânia, toda a força da
aliança, apoiada pelo poderio militar dos EUA viria em seu auxílio.
Embora
autoridades da Otan tenham insistido que o Artigo 5 ainda está vivo e em pleno
vigor, a imprevisibilidade de Trump, aliada ao desprezo que seu governo
demonstra pela Europa, inevitavelmente o põe em xeque.
É o que
se chama de de "teste de Narva". Narva é uma cidade de maioria
russófona na Estônia, situada às margens do rio Narva, na fronteira com a
Rússia. Se, hipoteticamente, a Rússia tentasse agarrá-la sob o pretexto de
"vir em auxílio de seus compatriotas russos", será que o governo de
Trump viria em socorro da Estônia?
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video, "Por que a Groenlândia é parte da Dinamarca (e por que há tanto
interesse pela ilha)", Duration 10,12
A mesma
questão pode ser igualmente aplicada a uma futura, e ainda hipotética, ação
russa no estreito de Suwalki, que separa Belarus do enclave russo de
Kaliningrado, no Mar Báltico. Ou, aliás, no arquipélago ártico de Svalbard,
administrado pela Noruega, onde a Rússia já possui uma colônia em Barentsburg.
Dadas
as recentes ambições territoriais de Trump de tomar a Groenlândia da Dinamarca,
membro da Otan, ninguém pode prever com certeza como ele reagiria. E isso, em
um momento em que a Rússia está travando uma guerra em grande escala contra um
país europeu, a Ucrânia, pode levar a erros de cálculo perigosos.
A
Conferência de Segurança de Munique desta semana deve fornecer algumas
respostas sobre para onde a aliança transatlântica está caminhando. Mas elas
podem não ser o que a Europa quer ouvir.
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UE critica medidas de Israel sobre a Cisjordânia: ‘passo
na direção errada’
A União
Europeia criticou as medidas aprovadas pelo gabinete de
segurança de Israel para
reforçar seu controle sobre a Cisjordânia, classificando-as como “mais um passo
na direção errada”.
Em
declaração dada nesta terça-feira (10/02), a Comissão Europeia afirmou, também,
que a proposta de impor sanções a Israel pelas políticas impostas nos
territórios palestinos “ainda está em cima da mesa”, incluindo a possível
suspensão de algumas partes do acordo comercial entre Bruxelas e Tel Aviv.
A
postura adotada pela Europa acontece após o ministro da Defesa de Israel,
Israel Katz, anunciar medidas que envolvem a extensão do controle israelense em
áreas sob administração palestina, enfatizando que busca fortalecer os
assentamentos israelenses na Cisjordânia e impedir o
surgimento de uma Palestina soberana e independente.
“Continuaremos
matando a ideia de um Estado palestino”, disse Katz em declaração conjunta com
o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich.
As
medidas aprovadas facilitam a identificação de colonos como proprietários de
terras na Cisjordânia e a compra de imóveis no território por pessoas de etnias
não árabes.
Ainda
não está claramente estabelecido quando as novas regras entrariam em vigor, mas
elas não exigem nenhum trâmite adicional.
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Reação árabe
Por sua
vez, um grupo de estados árabes e islâmicos realizou uma declaração conjunta na
qual afirmando “condenar nos termos mais fortes as decisões e medidas ilegais
de Israel destinadas a impor uma soberania israelense ilegítima”.
Entre
os signatários estão países como Arábia Saudita, Jordânia, Egito, Catar,
Emirados Árabes Unidos, Paquistão, Indonésia e Turquia. Todos eles ressaltam
que as novas políticas israelenses “inflamaram a violência, aprofundaram o
conflito e colocaram em risco a estabilidade e a segurança regional”.
No
mesmo sentido, o Reino Unido afirmou que “condena veementemente” as medidas
israelenses. “Qualquer tentativa unilateral de alterar a composição geográfica
ou demográfica da Palestina é totalmente inaceitável e seria incompatível com o
direito internacional”, disse um comunicado britânico, que conclui com um apelo
a Israel, “para que reverta essas decisões imediatamente”.
Cabe
destacar que a indignação com as medidas
israelenses surgiu
na véspera da reunião planejada na Casa Branca entre o primeiro-ministro
israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump, programada para esta quarta-feira (03/02).
O
governo dos Estados Unidos não realizou nenhum comentário formal, mas um
funcionário da Casa Branca emitiu uma declaração à imprensa indicando um
posicionamento contra a anexação do território palestino por parte de Israel.
“O
presidente Trump afirmou claramente que não apoia a anexação da Cisjordânia por
Israel (…) uma Cisjordânia estável mantém Israel seguro e está em consonância
com o objetivo desta administração de alcançar a paz na região”, diz a
declaração.
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Mortes e ataques
Nesta
mesma terça, as forças de ocupação israelenses realizaram novos ataques aéreos,
matando três civis palestinos na região central da Faixa de Gaza. De acordo com
fontes médicas, um drone atingiu diretamente duas pessoas que andavam de
bicicleta elétrica perto da vila de al-Masdar. Além disso, minutos depois do
ataque, uma mulher foi morta por um drone quadricóptero, confirmando o uso de
tecnologia de precisão para alvejar civis indefesos.
Dessa
forma, vale ressaltar que o uso de drones armados em áreas residenciais e
contra o transporte civil confirma a política de cerco e extermínio mantida
pelo exército de ocupação.
Diante
disso, o crescente número de vítimas civis acende um alerta. Centros de saúde
na região informaram que o tratamento dos feridos está sendo dificultado pela
escassez de suprimentos médicos, enquanto a população enfrenta o terror
constante dos bombardeios aéreos.
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Rússia descarta ‘entusiasmo’ sobre acordo de paz e alerta
contra interesses globais dos EUA
O
ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, declarou nesta
terça-feira (10/02) que não há motivo para uma “percepção entusiástica”
referente à pressão imposta pelo presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump,
sobre a Europa e a Ucrânia. O chanceler russo, por outro lado, afirmou que
todavia há “um longo caminho” nas negociações de paz com Kiev.
“Ainda
não chegamos lá. As negociações continuam. A segunda rodada foi realizada em
Abu Dhabi. Ainda há um longo caminho pela frente”, disse Lavrov em entrevista à
emissora russa NTV.
Os
comentários ocorrem dias após funcionários de alto escalão de Washington, Kiev
e Moscou realizarem uma reunião trilateral em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes.
O encontro em 5 de fevereiro resultou
na troca de 314 prisioneiros e foi acenado pelo enviado especial do
Kremlin, Kirill Dmitriev, que falou em “passos positivos” nas negociações.
Entretanto, apontou também contra as tentativas de interferência de “belicistas
europeus e britânicos”. Até o momento, não há uma data marcada para a
próxima rodada de negociações, conforme as atualizações do Kremlin.
De
acordo com Lavrov, qualquer tratado de paz sobre a Ucrânia deve incluir
disposições sobre a eliminação das causas profundas do conflito, caso contrário
as questões não serão resolvidas. Sobre isso, afirmou que os Estados Unidos
estão “prontos para contribuir para o acordo eliminando essas causas
profundas.”
“Estou
convencido de que os norte-americanos estão ouvindo nossos argumentos”, disse,
acrescentando que o reconhecimento público de Trump sobre os interesses russos
referentes à não expansão da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte)
configura um “grande passo” vindo de uma figura ocidental.
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EUA buscam interesses globais
Durante
a entrevista ao canal russo NTV, Lavrov descartou que os Estados
Unidos pretendem somente dividir o mundo em zonas de influência, mas que querem
avançar seus interesses globalmente por meio de “ações práticas”.
“Aqueles
que dizem que essa nova estratégia de segurança nacional é essencialmente um
reconhecimento dos Estados Unidos da necessidade de dividir o mundo, dizendo
que esta é nossa zona de influência e entendemos que China e Rússia têm seus
próprios interesses lá – isso não é totalmente verdade”, observou. “O
vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou claramente recentemente
que o objetivo é ‘América em Primeiro Lugar’ globalmente. Os Estados Unidos têm
interesses, e eles serão o foco principal das ações práticas de Washington”.
Em
relação à política restritiva de Trump, incluindo à imposição de tarifas
adicionais sobre as importações indianas caso o presidente Narendra Modi
mantivesse a compra do petróleo russo – decreto revogado após reunião bilateral
entre Nova Délhi e Washington na semana passada – Lavrov denunciou que os
Estados Unidos buscam “assumir o controle do mercado de energia em escala
global”.
Para o
chanceler, a posição de liderança da Rússia no campo da energia nuclear
representa um desafio para as autoridades norte-americanas e Washington busca
reverter esse cenário.
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Expiração do New START
Com a
recente expiração do Tratado de Redução de Armas Estratégicas (New START) –
pacto que limita o arsenal nuclear da Rússia e dos Estados Unidos desde a
Guerra Fria –, Lavrov disse que “o Exército, a Marinha e agora também as Forças
Aeroespaciais continuam sendo nossos principais aliados”.
“Se
decidirem tomar qualquer medida agressiva ou minar a soberania russa, podem
enfrentar uma resposta absolutamente inadequada, pois esses são os fundamentos
da dissuasão nuclear que sempre estiveram em vigor”, afirmou o ministro.
De
acordo com o chanceler, os princípios do tratado foram destruídos durante a
gestão do ex-presidente norte-americano Joe Biden e, agora, ele “simplesmente
não existe mais”. Portanto, avaliou que não há necessidade de “reagir de forma
exagerada ao suposto colapso do tratado”, já que “não está em vigor há três
anos”.
Por
fim, declarou que a Rússia monitorará de perto as ações dos Estados Unidos após
o término do pacto, mas “tratará essa situação com total responsabilidade” e
não tomará medidas que levem à escalada.
Fonte:
BBC News Mundo/Opera Mundi

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