Atuação
de Epstein no Brasil é alvo de investigação aberta pelo MPF após reportagem
O
Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento sigiloso na
terça-feira (10/2) para investigar possíveis tentativas de aliciamento de
mulheres no Brasil relacionadas ao criminoso sexual Jeffrey
Epstein.
A
procuradora da República Cinthia Gabriela Borges disse, em entrevista exclusiva
à BBC News Brasil, que a intenção é analisar todas as situações em que mulheres
brasileiras possam ter sido aliciadas e tentar identificar se havia redes de
aliciamento no país.
Conforme mostrou a
BBC News Brasil, o MPF recebeu uma denúncia na última semana sobre uma troca de
emails entre uma brasileira e Epstein, ocorrida em 2010, em que eles tratavam
de uma viagem de uma mulher de Natal, descrita como alguém de "família
simples", aos Estados Unidos.
Na
troca de mensagens, Epstein pediu fotos da brasileira de biquíni ou sutiã. Não
é possível saber, pelas mensagens, o objetivo da viagem ou se ela ocorreu, de
fato.
Essa
denúncia resultou em um procedimento formal, agora instaurado na Unidade
Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando
de Migrantes. O órgão é uma estrutura especializada no MPF que centraliza todas
as investigações e ações judiciais do país nessa área.
O caso
em Natal, foco da denúncia feita ao MPF, não será o único analisado.
Na
segunda-feira (9/2), a BBC News Brasil revelou que
Epstein manteve relações pessoais com modelos brasileiras, ajudou-as
financeiramente e até pode tê-las empregado em algum momento como assistentes.
O órgão
disse, em resposta à reportagem sobre essas novas conversas, que vai acompanhar
a divulgação dos arquivos do caso publicados pelo governo americano e buscar
outras menções a brasileiros.
"O
MPF está atento a essa situação de mulheres que estavam no Brasil e que foram
levadas para os EUA com alguma intenção de exploração sexual, porque isso pode
vir a caracterizar o crime de tráfico internacional de pessoas", disse
Borges.
Diversas
mensagens demonstram dependência financeira delas em relação ao bilionário,
como pagamento de procedimentos estéticos, cortes de cabelo, viagens e até
compra de celulares. Em troca, ele receberia fotos e contatos de outras
mulheres, de idade não divulgada nos documentos.
Não há,
nas mensagens, informação sobre a idade das pessoas envolvidas.
A
reportagem identificou conversas por email datadas pelo menos desde 2006, antes
de Epstein ter sido preso pela primeira vez.
Nessas
conversas, ele é convidado para festas, fala de visitas a São Paulo, diz que
vai mandar dinheiro, pede para que apresentem outras mulheres a ele, recebe
fotos dessas mulheres (suas idades não são mencionadas) e até mesmo avisa a uma
delas que seria preso pela primeira vez poucos dias antes de isso ocorrer, em
2008.
A BBC
News Brasil mostrou,
na última semana, que um parceiro de Epstein conversou com ele sobre a intenção
de comprar uma revista de moda no Brasil e
que teriam um contato direto no país para conseguir garotas, inclusive com
menores de idade.
Revelou
também, por meio de
entrevista com uma vítima, que diversas brasileiras estiveram
em sua mansão nos EUA.
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'Participação das vítimas é fundamental'
Na
última semana, sites de notícias do Rio Grande do Norte divulgaram que havia
citações a uma mulher de Natal nos arquivos de Epstein divulgados pelo governo
americano.
Datadas
de 2011, as mensagens, obtidas pela BBC News Brasil, não confirmam se houve
aliciamento nem revelam a idade da pessoa citada. Mas mostram o interesse de
Epstein por uma brasileira após ela ser apresentada por uma conhecida.
Mostram
ainda que esta pessoa no Brasil também tentou apresentá-lo a outras amigas e
fez diversos pedidos de ajuda financeira, embora não seja possível identificar
qual era a relação deles pelas mensagens.
Os
diálogos detalham a organização para a emissão de um passaporte, o plano de
levá-la aos Estados Unidos e pedidos explícitos de Epstein por fotos em trajes
de banho e lingerie.
O
procurador-chefe Gilberto Barroso de Carvalho Júnior, de Natal (RN), comunicou
ter recebido informações "dando conta do aliciamento e envio de mulher
residente nos arredores de Natal/RN possivelmente para a prática de atos
sexuais com a pessoa de Jeffrey Epstein, nos EUA".
A
procuradora Cinthia Gabriela Borges, da Unidade Nacional de Enfrentamento ao
Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes, diz à BBC News
Brasil que a data das mensagens pode ser um desafio na investigação, já que
muitas delas são de mais de 10 anos atrás e podem ter ocorrido fora do Brasil.
"Embora
sejam fatos de grande magnitude e muito interesse mundial, esses fatos remontam
a mais ou menos 2011, 2012."
Ela
avalia que o caso "envolve uma complexidade probatória muito acentuada não
só pelo decurso do tempo como também de extraterritorialidade, já que boa parte
dos fatos envolvendo mulheres brasileiras aconteceram em território
americano."
Borges
ressalta que os casos serão analisados individualmente, buscando entender o
relacionamento das pessoas com Epstein e se havia uma rede especializada no
aliciamento de mulheres e se elas eram maiores ou menores de idade.
A
procuradora destaca também a importância de que vítimas ajudem na investigação.
"É
uma situação bastante embrionária, uma investigação que está no seu início. É
fundamental nesses casos a participação das vítimas na investigação, para que
possam trazer à luz os elementos de como foi o recrutamento."
Outro
desafio que ela cita é uma mudança legislativa que houve no Brasil em 2016, em
relação ao tráfico internacional de pessoas. Antes, o crime se configurava
apenas pelo fato de a vítima ser aliciada e levada para o exterior.
Com a
nova regra, isso não é mais suficiente: tornou-se fundamental provar que houve
algum vício de consentimento, ou seja, que a vítima sofreu fraude, coação,
violência ou abuso de sua vulnerabilidade.
A
procuradora da República reforça que as mulheres que mantiveram contato com
Epstein não estão sendo investigadas no processo.
"As
vítimas, em regra, não são consideradas responsáveis por eventuais atos que
elas venham a praticar, na situação de vítima de tráfico de pessoas."
Ela diz
que a investigação vai se concentrar em entender se havia pessoas
especializadas em aliciar e recrutar mulheres para fins sexuais. "As
vítimas não podem ser consideradas culpadas neste caso."
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Como foi a troca de mensagens em Natal
Conversas
entre uma brasileira e Epstein entre 2009 e 2013 deram origem à denúncia.
As
mensagens mostram que ela não apenas solicitava recursos para despesas pessoais
e procedimentos estéticos, mas também apresentava outras mulheres ao
bilionário. As idades dessas mulheres não são mencionadas nas conversas.
Em
2009, as trocas de mensagens detalham pedidos de dinheiro para uma cirurgia de
implante de silicone; a mulher adiou o procedimento enquanto aguardava o
pagamento, afirmando que pretendia "se exibir em Palm Beach [cidade da
Flórida, nos Estados Unidos]" após o resultado.
Para
viabilizar o pedido, Epstein instruiu funcionários a realizarem transferências
bancárias, inclusive em moeda brasileira.
O
suporte financeiro estendia-se a outros pedidos: uma funcionária de Epstein
relatou que a brasileira esteve em seu escritório solicitando US$ 450 para a
compra de um celular, e, em outro momento, registros mostram assistentes
coordenando pagamentos para serviços de beleza de luxo tanto para a jovem
quanto para sua mãe.
O papel
da brasileira na intermediação de contatos consta em registros de janeiro de
2011, quando ela tratou da ida de uma jovem de Natal para os Estados Unidos — é
esse o caso que trata o MPF no procedimento aberto.
Em uma
mensagem, ela descreveu que a moça não falava inglês, nunca havia viajado e
vinha de uma família simples, sugerindo que ela viajasse no mesmo voo para
facilitar o trajeto. A idade da jovem não é mencionada nos registros.
Acompanhando
o relato, a brasileira enviou fotos da jovem e afirmou que Epstein iria
"adorá-la". A resposta de Epstein foi um pedido por mais imagens,
especificando que deveriam ser de "lingerie ou biquíni".
Embora
o bilionário tenha escrito posteriormente que a ajuda poderia ser "mal
interpretada", a brasileira continuou a sugerir o encontro, propondo que
ocorresse em Paris, na França, e reforçando que a jovem era o "tipo"
dele.
Natal é
mencionada também em outro contexto, quando o agente de modelos Jean-Luc Brunel
diz a Epstein que esteve na cidade, em 2010. Brunel era um conhecido parceiro
de Epstein.
Brunel foi
encontrado morto na prisão em Paris, em 2022. Estava detido
desde o início de uma investigação formal, após ser acusado de assédio sexual e
estupro contra jovens com idades entre 15 e 18 anos na França. Ele negava as
acusações.
As
vindas de Brunel ao Brasil em busca de modelos são
conhecidas, e há até uma foto dele em Brasília e vídeos em uma
agência de recrutamento.
Em uma
mensagem em 2013, da mesma brasileira, ela pede ajuda a Epstein. Diz que está
com ordem de despejo, não tem recursos para pagar um advogado e pede um lugar
para ficar.
No
mesmo texto, ela mencionou uma nova amiga recém-chegada do Brasil que teria
interesse em conhecê-lo.
Fonte:
BBC News Brasil

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