O
julgamento do STF que pode anular anistia a militares e apoiadores da ditadura
acusados de sumir com opositores
O
Supremo Tribunal Federal (STF) julgará a partir de sexta-feira (13/2) um
recurso que questiona se a Lei de Anistia tem mesmo validade para impedir o
julgamento de acusados de atuar no desaparecimento de opositores da ditadura
militar, regime que governou o Brasil entre 1964 e 1985.
A Lei
da Anistia, de 1979, perdoou alguns crimes cometidos durante a ditadura,
inclusive torturas e assassinatos de opositores do regime.
O
Ministério Público Federal (MPF) argumenta nesse recurso, porém, que o
desaparecimento de pessoas é um crime que não pode ser perdoado por ter duração
permanente.
A
decisão da Corte terá repercussão geral, ou seja, terá validade para todos os
casos semelhantes, como o do deputado Rubens Paiva — seu assassinato e o
desaparecimento de seu corpo foi tema do filme Ainda Estou Aqui, vencedor do
Oscar de melhor filme internacional no ano passado.
O
sucesso do filme foi apontado por juristas como um dos motivos que
impulsionaram o tema no STF.
Após
anos sem analisar a questão, a Corte deu repercussão geral para quatro recursos
contra a Lei da Anistia em 2025, sendo um deles o que será julgado agora — os
demais ainda não tiveram julgamento marcado.
O
primeiro recurso pautado está marcado para o plenário virtual, com duração
entre 13 e 24 de fevereiro. Nesse período, os ministros poderão depositar seus
votos por escrito.
No
entanto, a análise poderá ser interrompida caso um dos integrantes do STF
decida pedir destaque para que o recurso seja julgado no plenário físico da
Corte.
Caso
isso aconteça, caberá ao presidente do Supremo, o ministro Edson Fachin, marcar
a data do novo julgamento.
O tema
entrou em pauta no plenário virtual a pedido do relator do caso, o ministro
Flávio Dino.
Nesse
recurso, o MP tenta destravar um processo criminal contra militares acusados do
desaparecimento de militantes da Guerrilha do Araguaia, movimento armado que
combateu a ditadura militar entre o final da década de 1960 e o início de 1970.
A
denúncia criminal foi apresentada em 2015 contra Lício Augusto Ribeiro Maciel e
Sebastião Curió Rodrigues de Moura, ambos tenente-coronéis do Exército
Brasileiro.
Lício é
acusado de homicídio qualificado e ocultação de cadáver, enquanto Curió,
falecido em 2022, foi denunciado apenas pelo segundo crime.
A
abertura do processo, no entanto, foi recusada na primeira instância judicial
e, em 2020, também no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, com o argumento
de que os crimes estariam perdoados.
O MP
agora tenta reverter esse entendimento no STF, argumentando que a Lei da
Anistia não está de acordo com princípios da Constituição Federal de 1988.
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Brasil condenado 3 vezes em corte internacional
Não é a
primeira vez que o STF julga a constitucionalidade da lei. Em 2010, a maioria
da Corte, por 7 votos a 2, decidiu pela validade da anistia.
Depois
disso, o Brasil foi condenado três vezes na Corte Interamericana de Direitos
Humanos, que entendeu que a Lei da Anistia impede a investigação e a
responsabilização de graves crimes contra a humanidade, sendo incompatível com
a Convenção Americana, documento ratificado pelo Brasil.
As
primeiras condenações ocorreram em 2010, em relação ao processo sobre a
tortura, assassinato e desaparecimento de militantes da Guerrilha do Araguaia,
e 2018, em relação ao processo sobre a tortura e assassinato do jornalista
Vladimir Herzog, impulsionando a apresentação de novos recursos ao STF contra a
Lei da Anistia.
Já o
terceiro caso acaba de ser julgado em dezembro. Nele, a Corte condenou o Brasil
por práticas como detenção arbitrária, tortura, execução extrajudicial e
ausência de investigação e punição dos responsáveis pela morte de Eduardo
Collen Leite e a tortura de sua esposa grávida, Denise Peres Crispim, ambos
opositores do regime militar.
Em
entrevista à BBC News Brasil em janeiro, o procurador da República Marlon
Alberto Weichert, que atua pelo MPF em casos da ditadura militar, disse esperar
que a nova condenação impulsionasse o julgamento dos recursos no STF.
"A
Corte reafirmou que, no Brasil, foram cometidos crimes contra a humanidade e
que o Estado brasileiro está violando obrigações internacionais ao não promover
o julgamento dos partícipes desses crimes contra a humanidade. Então, temos uma
expectativa de que isso possa, de algum modo, influenciar o Supremo Tribunal
Federal."
Defensores
da Lei da Anistia dizem que ela foi necessária para "pacificar" o
país e abrir espaço para o fim do regime militar. Argumentam ainda que a
anistia valeu tanto para apoiadores do regime quanto para opositores que teriam
cometido crimes em ações para tentar derrubar a ditadura, como a resistência
armada.
No
entanto, enquanto a lei abriu espaço para a volta de exilados políticos, ela
excluía da anistia os militantes já "condenados pela prática de crimes de
terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal".
Segundo
Weichert, esses presos — condenados em processos que não seguiam princípios do
devido processo legal, como amplo direito à defesa — deixaram a prisão conforme
cumpriram suas penas ou alcançaram progressão de regime.
Esse
processo, lembra o procurador, foi acelerado após mudanças da Lei Nacional de
Segurança adotadas no início dos anos 1980 que reduziram o tempo das punições.
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Entenda os recursos contra a Lei da Anistia no STF
Recursos
e ações sobre a Lei da Anistia que tramitam no STF argumentam que a
Constituição brasileira e acordos internacionais assinados pelo Brasil não
permitem perdoar crimes de graves violações de direitos humanos cometidos por
agentes do Estado de forma sistemática, como torturas e assassinatos de
opositores da ditadura militar.
Outro
argumento é que a anistia não poderia incluir crimes continuados ou
permanentes, como o desaparecimento de corpos que nunca foram localizados — um
cenário possível é que o STF acolha apenas esse segundo argumento, o que
permitiria apenas processar os acusados por crime de ocultação de cadáver.
No ano
passado, o STF decidiu, por unanimidade, dar repercussão geral a quatro
recursos que buscam destravar processos criminais.
Além do
caso da Guerrilha do Araguaia, o MPF tenta processar acusados das mortes de
Rubens Paiva, Mário Alves de Souza Vieira (dirigente do Partido Comunista
Brasileiro Revolucionário) e Helber José Gomes Goulart (militante da Aliança
Libertadora Nacional).
Os
restos mortais de Vieira seguem desaparecidos, enquanto os de Goulart foram
localizados em 1992 no Cemitério de Perus, em São Paulo, onde estava enterrado
como indigente.
Ainda
não houve análise de mérito desses casos — e o fato de os ministros terem
votado pela repercussão geral não significa que vão, necessariamente, apoiar a
revisão da lei.
Porém
Flávio Dino, relator do caso da Guerrilha do Araguaia, já propôs uma tese de
que o desaparecimento de corpos é um crime permanente e não pode ser perdoado
pela anistia. Ele citou o filme de Walter Salles em seu voto pela repercussão
geral.
"O
crime de ocultação de cadáver tem, portanto, uma altíssima lesividade,
justamente por privar as famílias desse ato tão essencial [o sepultamento]. No
momento presente, o filme 'Ainda Estou Aqui' — derivado do livro de Marcelo
Rubens Paiva e estrelado por Fernanda Torres — tem comovido milhões de
brasileiros e estrangeiros", escreveu.
"A
história do desaparecimento de Rubens Paiva, cujo corpo jamais foi encontrado e
sepultado, sublinha a dor imprescritível de milhares de pais, mães, irmãos,
filhos, sobrinhos, netos, que nunca tiveram atendidos os seus direitos quanto
aos familiares desaparecidos. Nunca puderam velá-los e sepultá-los, apesar de
buscas obstinadas como a de Zuzu Angel à procura do seu filho."
Além
desses recursos, há outra ação que questiona de forma mais ampla a Lei da
Anistia, uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF)
apresentada pelo PSOL em 2014, de relatoria do ministro Dias Toffoli. Não há
previsão de julgamento.
De
acordo com o procurador Alberto Weichert, há mais de cinquenta casos travados
pela Lei da Anistia que potencialmente podem ser impactados por uma revisão
ampla do STF — algo que incomodaria as Forças Armadas. Muitos dos acusados,
porém, já podem estar mortos, o que levaria ao arquivamento de processos.
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O que diz o advogado dos acusados de torturar Rubens Paiva
Em
entrevista à BBC News Brasil em 2024, o advogado Rodrigo Roca, que representa
os acusados de torturar e matar Rubens Paiva, questionou a argumentação de que
os crimes da ditadura podem ser enquadrados como crimes contra a humanidade.
"Uma
conduta para ser considerada crime contra a humanidade, ela precisa se voltar
contra a população civil como um todo. E não contra determinados grupos
insurgentes", disse Roca.
"Isso,
legalmente, ou seja, tecnicamente, penso até que dogmaticamente, não poderia
jamais ser tipificado como crime contra a humanidade."
O
advogado afirmou ainda que o processo movido pelo MPF que busca um desfecho
para a morte de Rubens Paiva, iniciado durante o governo de Dilma Rousseff
(PF), na esteira das conclusões da Comissão da Verdade, teve um "viés
político".
Segundo
ele, sempre que um governo de esquerda chega ao poder, há um
"recrudescimento desse movimento", que ele qualifica como
"delírios".
"É
preciso se perguntar antes a quem isso vai interessar, qual é a relação
custo-benefício de uma nova mobilização dessas, do governo, de alguns setores
do Judiciário, em torno de pessoas com questões jurídicas plenamente
resolvidas, quer dizer, é uma perda para todos, é uma guerra sem
vencedores", afirmou o advogado na ocasião.
"Há
um revolvimento de uma matéria jurídica já bem desgastada e resolvida do ponto
de vista social. Caberia ao plano jurídico apenas aderir a essa consciência
popular e pôr um fim nessa história."
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O 'efeito 8 de Janeiro'
Além do
sucesso do filme de Walter Salles, juristas também atribuem a retomada da
discussão da Lei da Anistia aos ataques de 8 de janeiro de 2023, em que
bolsonaristas radicais insatisfeitos com a eleição do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes.
O STF
já condenou, com penas duras, dezenas de pessoas por esse ataque, visto pela
maioria da Corte como parte de uma tentativa de golpe de Estado, inclusive o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e integrantes do núcleo de seu governo.
Parlamentares
aliados a Bolsonaro não alcançaram apoio para uma anistia a esses condenados no
Congresso, mas conseguiram aprovar a redução das penas, no que ficou conhecido
como PL da dosimetria.
O
presidente Lula, porém, vetou a proposta. Agora, a bancada bolsonarista tenta
derrubar o veto em sessão conjunta do Congresso. A votação ainda será marcada
pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
"O
caso do Rubens Paiva estava adormecido há muitos anos, assim como tantos
outros, e veio então essa conjuntura: de um lado o 8 de Janeiro e, de outro, o
Oscar", disse à BBC News Brasil o professor de Direito da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) José Carlos Moreira Filho,
quando o STF aprovou a repercussão geral do tema, no início de 2025.
"Foram
dois eventos que acabaram criando um ambiente muito mais favorável à
continuidade desses casos, que estavam simplesmente parados."
Fonte:
BBC News Brasil

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